Indique um autor: Charles Baudelaire

Matéria publicada no site Indique um livro

Charles Baudelaire (Paris, 9 de abril de 1821 — Paris, 31 de agosto de 1867)

Charles Baudelaire talvez seja uma das primeiras figuras que nos vem à mente quando se trata da Paris do final do século XIX. Mas ele nem imaginava que o seria. Órfão de pai aos seis anos, Baudelaire era muito apegado à mãe e detestava o padrasto, o general Jacques Aupick, o qual depois foi um empurrão para que Baudelaire fosse um autor oposto às convenções sociais e às autoridades. Envolveu-se com a cortesã Jeanne Duval,  vivia uma vida de fugas dos credores, às margens da sociedade. O que ele vira serviu como material para escrever suas prosas poéticas, poemas e ainda enriqueceu as suas críticas de arte.

Baudelaire participou da Revolução de 1848, mas nunca ficou muito claro a qual lado pertencia. Por quê? A sua escrita trazia ambiguidade. Por vezes assumia a voz do mártir, mas do algoz também. No prefácio Aos burgueses, do ensaio Salão de 1846, foi difícil para alguns críticos enxergar que nele não reinava uma homenagem a tais figuras, e sim a crítica irônica de um autor que sabia adotar o discurso do inimigo para que, assim, pudesse atingi-lo em cheio, com uma espada: as suas palavras cortantes.

Walter Benjamin enfatizou essa faceta de Baudelaire, um autor que vê a escrita como luta. E, em meio a multidão, Baudelaire era o poeta que conseguia ainda deixar um feche de luz guiando-o atrás de palavras e acontecimentos furtivos, mesmo que estivesse numa cidade que era um labirinto sem rostos. Ele não se esquecia da sua identidade como autor na Paris que não sabia mais quem era.

Enquanto autores como Victor Hugo e Alexandre Dumas rendiam uma boa quantia de vendas de livros por meio dos folhetins, Baudelaire esteve à margem, tentando por toda a vida o reconhecimento de suas obras de maneira não convencional. Endividou-se, teve um tutor para cuidar das próprias finanças e morreu com 46 anos.

A escolha por Baudelaire para o indique um autor é pela grandiosidade de sua escrita. Parece que, lendo Baudelaire, muitas camadas de uma realidade atemporal são reveladas. A relação entre o leitor e o autor citado é mais um mistério. Quando lemos Baudelaire, fica a sensação de que ele está nos contando os segredos que se escondem na essência das coisas. Ou que pertence a uma cidade longínqua, quase mágica, em que as mais variadas realidades se encaixam.

Obra-prima

As Flores do Mal é, sem dúvida, a obra mais lembrada de Charles Baudelaire. Publicada em 1857, a obra foi polêmica logo de início. Todos os envolvidos foram processados por blasfêmia e obscenidade. Foi preciso pagar multa e retirar seis poemas do volume original, os quais, felizmente, foram publicados em edições póstumas. Com As Flores do Mal, Baudelaire consegue dialogar com o grotesco e o belo presentes no romantismo, o simbolismo, e ao mesmo tempo, traz um formalismo parnasiano. Ou seja, é uma obra de transição do século. Ele faz do poema uma estrutura que possibilita agregar os elementos e a linguagem mundanos da realidade, mesmo que a estrutura seja o poema alexandrino. O impacto da obra foi imenso na metade do século XIX. Quando ele foi recolhido após a censura, Baudelaire incluiu 32 novos poemas, que constituem o Quadros parisienses, onde se tornou forte a obra de Baudelaire como ícone. A polêmica está nos temas: Baudelaire expõe a melancolia, o sadismo, a solidão, um amor erótico com a descrição de uma figura feminina mesclando o erotismo à Vênus mitológica. Mas, principalmente, o retrato de Baudelaire é angustiante, violento, doloroso. A mulher, aqui, não é pura. Ele traz à tona a sensualidade da cortesã e o amor como sentimento complexo e que deixa marcas, com camadas profundas demais. E isso não é fácil de digerir. Por isso mesmo, a obra foi censurada e, mais tarde, no século XX, aquela que reconheceu Baudelaire como o grande poeta da modernidade.

Primeiros passos

A Fanfarlo foi o seu único romance. Publicado em 1847, era uma novela autobiográfica, mas que hoje não costuma ser lembrada por entre as obras de grande destaque de Baudelaire. Pode-se dizer que ele começou a ter reconhecimento com os ensaios sobre arte para o Salão de 1845. E também era tradutor de escritos do autor Edgar Allan Poe, nos anos de 1852 a 1865. Além disso, não se pode esquecer de Paraísos Artificiais, livro em forma de ensaio publicado em 1860 sobre os estudos de haxixe, ópio e o vinho.

Vale (e muito!) a indicação

Spleen de Paris: Pequenos poemas em prosa é daquelas obras que não importa quantas vezes você a releia, sempre haverá um aspecto diferente a ser descoberto. Obra póstuma publicada em 1869, a composição é por meio de prosas poéticas, textos curtos que encapsulam elementos que também estão em As Flores do Mal. Baudelaire insere, aqui, uma linguagem poética aliada aos elementos que observa na realidade, como os cabelos da mulher que idolatra (Um hemisfério numa cabeleira), a dificuldade de manter a sua qualidade de poeta (A perda da auréola), a clássica descrição da multidão parisiense (As massas), o segredo da vida (Embriaguem-se). Mas paira, durante a leitura, uma melancolia quase palatável: é possível senti-la, não se sabe se apenas mentalmente, mas o autor consegue criar uma atmosfera quase física para as sensações que produz pela palavra.

Vai parecer uma descrição meio insana, mas deixo isso aqui mesmo. O Spleen é uma obra que, em poucas linhas de sua prosa, consegue alcançar o leitor com aquilo que ele não diz com clareza, mas que parece ter existido sempre nas nossas impressões.

O mais diferente

O pintor da vida moderna (também traduzido como Sobre a modernidade) é um ensaio em que Baudelaire fala sobre o trabalho do artista Constantin Guys. Este é um pintor que só ficou reconhecido graças ao ensaio de Baudelaire, pois ele enviava seus croquis para os jornais sob um pseudônimo. Guys tinha um olhar apurado para os variados costumes de Paris. Ele passeava pela cidade, contemplando avidamente as vestimentas, os movimentos dos cavalos nas carruagens, os nobres, os plebeus, as cortesãs. Mais tarde, ele chegava em casa e descarregava no papel o que havia visto, transformando a vida parisiense pela imaginação. É um belo retrato de Paris e do processo artístico de um pintor excepcional. Além disso, é curioso que Baudelaire foi o autor que nomeou o período do XIX como “modernidade”. O termo já existia, mas ele o propõe como uma releitura, visando a nova Paris e a sociedade agora capitalista.

Na edição A modernidade de Baudelaire, é possível encontrar os famosos ensaios de arte do autor: Para que serve a crítica, Do heroísmo da vida moderna, A Exposição Universal de 1855, Salão de 1859. Neles, o autor fala sobre os trabalhos dos artistas Ingres, Delacroix, a importância da imaginação para o artista. Além disso, há também o volume Escritos sobre arte, com os ensaios Da essência do riso, Alguns caricaturistas estrangeiros, A arte filosófica, A obra e vida de Eugène Delacroix.

Vale a lembrança

Meu coração desnudado é um livro pequeno, com uma escrita confessional, pendendo a um erotismo sutil quando trata do amor. Mas nele o autor também traz à tona questões morais, políticas e figuras que lhe chamam a atenção: oflâneur (andarilho), a cortesã, o dândi. O livro é em forma de aforismas, em que Baudelaire apresenta suas impressões de forma bem direta, mas deixando no ar o significado profundo das palavras proferidas.

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