Álbum de Família

EUA , 2013
Dir.: John Wells, Roteiro: Tracy Letts
Com Meryl Streep, Julia Roberts, Julianne Nicholson, Ewan McGregor, Juliette Lewis, Sam Shepard, Margo Martindale, Chris Cooper, Abigail Breslin, Dermot Mulroney, Misty Upham, Benedict Cumberbatch
 
Indicado ao Oscar 2014 nas categorias: Melhor atriz (Meryl Streep), Melhor atriz coadjuvante (Julia Roberts) 

O dilema sobre como retratar a família, no cinema, é delicado. Por vezes, o caminho mais simples para fazê-lo é selecionar estereótipos desses membros familiares e colocá-los à mesa para o grande teste que é a interação entre eles. Não é diferente, de fato, do que presenciamos nas celebrações especiais entre famílias. O tio irônico, o casamento quase em ruínas virando assunto no almoço, a matriarca amarga. São modelos que podem não pertencer a todas as casas, mas certamente são encontrados em muitas delas, já que revelam traços comuns da personalidade humana.

Isso tudo tem o objetivo de entender o que significa o filme Álbum de família, de John Wells, adaptação da peça homônima vencedora do prêmio Pulitzer e do Tony Awards, do autor Tracy Letts. Há o encontro de gerações na casa de Violet Weston, interpretada pela brilhante Meryl Streep, após uma tragédia ocorrer na família, trazendo à tona os rancores da relação mal resolvida entre mãe e filhas.

Fica claro que a intenção é apresentar cada um dos personagens para que saibamos as motivações, os limites e as fraquezas deles diante da matriarca. Ela consegue ser frágil e inflexível ao mesmo tempo, quando insiste em criticar as pessoas à mesa, revolver a amargura escondida. Ela recua e avança diante da família, pois agora ela está sentada na mesa sabendo que, pela tradição, é ela quem a lidera. Sente que deve explorar esse poder singular dado à figura materna. Mas isso não é o bastante. Depois de anos acumulando tanto rancor, o que Violet presencia é uma família posta forçosamente na mesa, existente só pelos laços sanguíneos. Até que ponto é permitido abandonar a família? É válido falar em liberdade quando os pais precisam dos filhos na velhice, apesar dessa relação ter sido tão tumultuada?

O filme responde à sua maneira a essas perguntas. O desenvolvimento dos personagens é bem planejado, inicialmente. O filme não tem receio de expor o lado cru e amargo dessa instituição. O mérito está aqui, pois a trama se conduz corajosamente pelos diálogos e revelações que não se mostram muito distintos do que vemos fora do cinema. A abordagem da família como um clã corrosivo, extremamente complexo, que vai além do amor puro entre iguais, é o ponto marcante da trama. O clima que predomina no Condado Osage, em Oklahoma, é muito quente, mas o interior escuro da casa revela a frieza e os entraves de décadas de relação.

No decorrer do filme, conhecemos dramas ocultos e queremos ver um desfecho para eles. Não necessariamente um final definitivo. Mas que fosse explorada a potencialidade desses personagens. Somos postos à mesa junto com aquela família, esperando ver algumas interações entre eles que são interrompidas ou deixadas de lado, como, por exemplo, entre Little Charlie (Benedict Cumberbatch) e Ivy (Julianne Nicholson) ou entre Barbara (Julia Roberts) e sua filha Jean (Abigail Breslin).

O elenco reunido no filme realmente excede as expectativas. Meryl Streep, Julia Roberts, Ewan McGregor, Margo Martindale, Benedict Cumberbatch com uma pequena participação, cumprem bem seus papéis com excelência e nos conduzem à verossimilhança. De fato, a atuação do elenco está no lugar certo.

A frase “a vida é longa” dita no início do filme justifica os acontecimentos da trama. Mas não soa como suficiente para entendê-la. Se ela é longa, os conflitos entre os personagens podem se resolver em algum momento? Talvez sim, porém fica um gosto amargo de ruptura e uma melancolia diante do irrecuperável, como se todos tivessem chegado ao sue limite. Fica como incógnita se Wells pretendeu dizer que o passado familiar permanece na vida de cada um dos personagens, nas suas escolhas, ou se houve um rompimento definitivo. De qualquer forma, essa sensação com que nos deparamos no filme deixa como promessa um passo que poderia ter sido dado na história de alguns personagens que, por fim, ficam para trás.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s