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Alabama Monroe

Dir. Felix Van Groeningen
Com Johan Heldenbergh, Veerle Baetens, Nell Cattrysse
Bélgica 2014
Indicado ao Oscar 2014 na categoria de Melhor longa estrangeiro 
 

Alabama-MonroeA música pode ser uma das melhores formas de se dissecar a dor e a alegria. Melhor do que isso é encontrar num gênero musical a possibilidade de fazê-lo sem perder aquela nuance belíssima que existe entre a euforia e a melancolia. É assim que o filme Alabama Monroe se constrói aos olhos do espectador, trazendo a trilha sonora para perto, não como instrumento de transição entre uma cena e outra, mas como um novo personagem que unifica todas as dores por meio do country e folk.

O mais surpreendente é encontrar o elenco cantando entre uma tomada e outra com extrema naturalidade. O filme é permeado por cenas de flashback, o momento presente e o futuro. Esse movimento permite encontrar o crescimento dos personagens com mais evidência. Mas isso não faz com que o filme caia em contrastes muito excessivos sobre as escolhas dos personagens. Ajuda a notar como a história de Elise e Didier é inesquecível e cheia de reviravoltas muito realistas, que podem acontecer com qualquer um. Ele é um músico que canta country com a sua banda de bar em bar. Ela é uma tatuadora que faz do próprio corpo o espaço para expor a sua arte. O filme não foca muito no momento em que eles se conheceram ou quem eles eram antes do relacionamento. Isso permite que a história fique em suspenso e nos leva a pensar que o encontro entre os dois foi o grande momento de suas vidas.

Foi um convite do caubói à Cinderela para que ela o acompanhasse, como diz uma das músicas. Conhecer Didier fez de Elise uma excelente cantora, com ele foi possível encontrar um meio para expandir a sua expressão artística. Com essa banda recebendo uma nova integrante, o crescimento ocorre no decorrer dos anos, passando de bares a salas de concerto com grande público. Mas não cabe aqui o enredo sobre a escalada a um possível sucesso, e sim a família que eles vão formando.

O filme belga, de Felix Van Groeningen, é emotivo sem precisar exagerar nas apresentações musicais ou atuações. Elas estão lá, no tom certo. Veerle Baetens incorpora perfeitamente uma Elise com inúmeras nuances, que vai da moça sedutora e musa de Didier, até a cantora de voz delicada e uma mãe que precisa ser forte para segurar a família. Johan Heldenbergh ganha força como um músico que consegue ser romântico e sonhador, mas cético e realista quanto às realidades sociais que presencia.

Junto ao drama dos personagens, a música vai crescendo, os acordes se tornam mais familiares. Do tom rústico ela se desenvolve a um canto mais puro, o que conduz a uma crueza e exposição maior sobre os sentimentos envolvendo o casal. Assim, o filme nos mostra uma história memorável de um casal que vivencia as maiores dores ao som de uma música que se faz como lar, celebração, grito e lamento.

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Ela (Her)

Dir. e Roteiro de Spike Jonze
Com Joaquin Phoenix, Scarlett Johansson, Rooney Mara, Amy Adams, Olivia Wilde.  
EUA, 2013
 
Indicado ao Oscar 2014 nas categorias: Melhor filme, Melhor canção original (The Moon Song), Melhor roteiro original,  Melhor trilha sonora, Melhor design de produção
 

herUma sociedade com aparência limpa, tecnológica, com cores vibrantes e aparência minimalista. Mas fria e impessoal. Este é o cenário de uma Los Angeles futura, na qual se passa a história de Ela, do diretor Spike Jonze. Os dias de Theodore (Joaquin Phoenix) parecem ser sempre os mesmos. Ele checa os e-mails por um comando de voz no tempo em que fica no metrô, chega ao trabalho e passa o dia ditando cartas de amor que cria para serem enviadas a diversas pessoas que só transmitem a ele informações básicas. Delas Theodore extrai a poesia que parece faltar à sua vida ou até mesmo à vida desses desconhecidos. Ele reinventa a realidade. Mas isso só parece ser mais um trabalho comum.

Cansado da solidão que deixa sua vida totalmente vazia, Theodore resolve comprar um sistema operacional que promete ser uma companhia útil às pessoas. O que surpreende o escritor é achar, em tal sistema, a voz e a personalidade de Samantha (Scarlett Johansson). Com uma voz rouca, doce e disposta a conhecer a vida de Theodore, Samantha passa a ser o ponto mais importante da vida dele. Assim, essa relação é o passo para que o espectador tome um susto: a realidade de Theodore não é diferente da nossa. Todos os dias milhões de pessoas mantém contato com outras por meio de redes sociais ou aplicativos os quais prometem uma proximidade imediata e a tal conectividade com um mundo sem fronteiras. O filme é extremamente audacioso ao conseguir delinear bem essas relações  pelas quais nós mesmos já estamos passando. E incita a pensar se elas são verdadeiras, se há algo ilusório entre elas, qual a importância do contato físico e o que significa conhecer alguém, de fato.

Por mais de duas horas nos vemos imersos na vida de Theodore e no surgimento de Samantha. Acreditamos na existência dela, adquirimos carinho por ambos de uma maneira tão profunda que se pode dizer que está aqui um dos maiores méritos do filme.  O fato de Samantha não ter um corpo não quer dizer que as sensações, pensamentos ou até mesmo a liberdade que pertence somente a ela como uma personalidade em desenvolvimento não exista. Ela é humana. Essencialmente pode ter sido programada, mas da mesma forma que Theodore tem suas limitações, Samantha está se formulando como uma força capaz de transformá-la num dos mais belos milagres em meio a essa sociedade tão fria.

É evidente que todo o trabalho de direção de arte do filme transmite uma estética que não faz dessa sociedade algo indesejável, normalmente se optaria por retratar um local obscuro. Pelo contrário, as cores fortes que tomam o cenário e as roupas dos personagens são de uma plasticidade intencional. Carregam a ideia de que está tudo bem entre as pessoas, de que há esperança, de que estão vivendo o futuro ideal. As cores fortes seriam sinal de uma falsa celebração. E, apesar do fato de Samantha ser parte de um dispositivo tecnológico – como tudo a volta de Theodore –, ela foge do comum quando passa a conviver com ele. Theodore também, como humano, foi programado para ter algumas condições biológicas. Ou seja, da mesma forma que Samantha recebeu extensos guias de conhecimento, isso não quer dizer que nem ela nem Theodore possam ser definidos somente pelo que receberam involuntariamente.

É muito difícil definir quem é o protagonista do filme. Ambos ganham força num trabalho impecável. Deixando de lado qualquer necessidade de pontuar algo tecnicamente, sinto que esse filme não teve falhas, o seu conjunto é harmonioso, agradável, emocionante. É o tipo de filme que não o abandona durante dias, quando você também não deixa de ouvir frequentemente a trilha sonora, brilhantemente desenvolvida pelo Arcade Fire. As passagens de piano como em Song on the beach, a música The Moon Song cantada por Scarlett Johansson,  acabam por ser parte fundamental da película.

O desempenho de Joaquin Phoenix como Theodore é exemplar, ele reage com tanto realismo e verdade às emoções que Samantha provoca em seu personagem que nos convence plenamente. Scarlett Johansson consegue a proeza de encarnar somente por meio de sua voz a força que Samantha simboliza, toda a fragilidade humana que ela apresenta e o conhecimento infinito de uma máquina.

O filme mexe em questões muito profundas e delicadas. Ele se assemelha à ideia de epifania, de que o momento seguinte não será mais o mesmo após ver a verdade. Ele é ousado em mostrar até mesmo a fragilidade na relação entre o casal principal e se vale a pena ter o ideal e perfeito ao seu lado. Theodore aprende a ver um mundo muito mais aberto às emoções, as quais se mantêm escondidas em momentos que nem sempre podem ser pontuados numa palavra de uma carta. Por vezes, o melhor é aceitar a imperfeição que pode existir em todos os cantos não preenchidos pela tecnologia e manter um carinho inabalável por esse espaço do qual uma poética inesperada pode surgir.

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Trapaça

Dir. David O. Russell
Roteiro de David O.Russell
Com Christian Bale, Bradley Cooper, Amy Adams, Jennifer Lawrence, Jeremy Renner, Louis C.K., Alessandro Nivola
EUA, 2013
 
Indicado ao Oscar 2014 nas categorias: Melhor filme, Melhor diretor, Melhor atriz (Amy Adams), Melhor ator (Christian Bale), Melhor ator coadjuvante (Bradley Cooper), Melhor atriz coadjuvante (Jennifer Lawrence), Melhor roteiro original, Melhor figurino, Melhor montagem, Melhor design de produção
 

trapaçaO que leva alguém a escolher ter como profissão ser um golpista sagaz e engendrar planos, noite e dia, a fim de conquistar o prazer do triunfo e, claro, dinheiro? Essa é a pergunta que nos conduz no decorrer do filme Trapaça, do diretor David O. Russel. Porém, isso não pesa como uma questão moral a qual o espectador faz condenando a postura dos personagens. Ela surge timidamente por entre o humor leve do enredo.

O roteiro do filme é bem esperto, se constitui por diversas camadas que vão se encaixando aos poucos. É verdade que, por vezes, isso gera certa confusão no espectador ou até um pouco de tédio num momento ou outro justamente por essa sensação. Trapaça é um filme que tem um enredo audacioso, mas parece ser mais louvável o cuidado de David O.Russell em dar destaque igual a cada um dos personagens, muito bem conduzidos pelos atores do elenco.

Christian Bale está irreconhecível como Irving,  genial logo na primeira cena em que aparece arrumando a peruca. O personagem dele se envolve com Sydney Prosser, interpretada pela excelente Amy Adams, a qual se torna sócia de Irving em um negócio de falsificação de obras de arte. Logo, eles são forçados a trabalhar com o agente do FBI Richie DiMaso, um ótimo trabalho de Bradley Cooper. Essa aliança soa ambígua durante o filme e mais complicada ainda quando a esposa de Irving, Rosalyn, entra no jogo.  Ela é interpretada por Jennifer Lawrence numa atuação certeira para o humor do filme, convence nas poucas cenas que aparece e se torna marcante.

Como se pode ver, é impossível citar o desempenho de um ator sem falar do outro. É surpreendente o resultado que Russell consegue com um elenco harmonioso, o qual se faz tão cativante que acabamos apostando em cada um deles. Essa necessidade de se destacar o elenco vem junto com a observação de que os próprios personagens interpretam versões de si mesmos, o que vemos na maneira com que se vestem.

Há uma tentativa de aparentar um glamour que talvez não exista numa profissão arriscada como essa, a qual se faz à surdina. Ou seja, ao mesmo tempo em que esses personagens buscam disfarçar o crime cometido, eles o fazem destacando a face de novos personagens: a bela e culta londrina, o simpático agente do FBI, o tranquilo e bonachão negociante que põe panos quentes nas intrigas. Mas por trás disso, há insegurança e a complexidade de lidar com uma vida vazia e instável. Uma vida tão inesperada que ela se mostra evidente numa fala de Rosalyn, que a cada mudança enfrentada é como se ela sentisse que iria morrer.

Desta forma, David O.Russell cria um filme que pode soar um tanto cansativo em certos momentos, não é difícil se perder nele. Faltam alguns passos para que Trapaça tenha um toque final de brilhantismo, para que seja impecável. Mas a vivacidade que o elenco dá à obra e ao texto recupera consideravelmente o ritmo do filme e aprofunda a identidade dos personagens que vão além de meros impostores.

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Philomena

Dir. Stephen Frears
Roteiro de Steve Coogan e Jeff Pope
Com Judi Dench, Steve Coogan, Sophie Kennedy, Michelle Fairley
Reino Unido, EUA, França, 2013
 
Indicado ao Oscar 2014 nas categorias: Melhor Filme, Melhor atriz (Judi Dench), Melhor roteiro adaptado, Melhor trilha sonora 
 

PhilomenaPor 50 anos, Philomena (Judi Dench) manteve um segredo. Ela ficou grávida após uma noite com um menino que conheceu em uma feira. Um dia que Philomena carrega por décadas, após as freiras do convento condenarem o seu feito – e o de tantas meninas – colocando nas costas jovens e ingênuas o pecado de uma mulher que nunca poderá se redimir aos olhos de Deus. Esse discurso cruel se entrelaça à vida de Philomena e a faz desabafar após esses anos de tormento. Agora Philomena quer conhecer o filho do qual a separaram quando era uma menina de 18 anos.

Para que ela consiga realizar esse sonho quase distante, Martin Sixmith (Steve Coogan), um jornalista em crise, entra na história a fim de tentar se arriscar no relato sobre fatos humanos. Não é o seu gênero favorito, pois pensa que é fútil relatar a vida cotidiana e, além disso, muito apelativa. Ele prefere dizer aos colegas que está trabalhando num livro sobre a História russa.

O curioso é constatar que Martin é ateu, muito cético quanto às relações humanas e não demonstra grande comoção pelos fatos curiosos que a mídia gosta de relatar. Porém, isso não o leva a querer explorar a história de Philomena com o prazer debochado o qual vem junto com esses tipos de relatos, ainda mais quando se tem discussões morais em jogo acerca da postura da Igreja Católica. Martin prefere manter uma sutileza na forma com que contempla Philomena e o caso do filho desaparecido, por meio de um carinho que fica oculto no seu desejo jornalístico pela verdade. Ou por uma perspectiva que saiba balancear a tão complicada tarefa de contá-lo.

Assim como o personagem opta por essa veia mais leve e sutil, o próprio filme de Stephen Frears não cai no perigo de ser mais uma história adocicada demais. Sabemos que muitos filmes do gênero que pretendem contar uma história real transmitem-na com certo exagero na dor do protagonista e abusando, por vezes, das frases emotivas ou rompantes de amor e redenção nessa busca pelo filho. O que Frears faz com Philomena é um trabalho ainda mais árduo e profundo: elo despe a personagem aos olhos do espectador como uma mulher devota, a qual sofre com o seu destino, mas com uma ingenuidade semelhante àquela que fora roubada com os seus 18 anos. Nem diante da crueldade da instituição religiosa, Philomena parece querer mudar. E é nesse ponto que o diretor consegue nos deixar livres para que tiremos nossas próprias conclusões sobre sua crença, sem cair no maniqueísmo.

Mais ainda, o enredo acende a dúvida sobre o quanto nós e o personagem Martin devemos nos envolver quando relatamos os fatos. No caso de uma história como essa, o que deveria ser transmitido? Somente a visão da pessoa envolvida ou a nossa também? Essa última é quase inevitável. Contudo, se ela é inevitável, como fazê-la sem soar um cientista colocando a vida do outro em teste? Martin aprende muito com esses dilemas. E o mais importante: isso é feito sem precisar de grandes diálogos que pontuariam o crescimento dos personagens. Esse ocorre quase que naturalmente.

O filme tem um brilhantismo encantador, conduzindo o espectador a um enredo até inesperado, focando em outros pontos os quais não esperaríamos ter tanto valor. O mais interessante é uma das passagens do filme em que Martin escuta Philomena contar a história de um livro que ela está lendo. Aquele momento em que ele prefere escutar a visão que somente ela tem da história deixa evidente o quanto ele aprendeu como jornalista. Martin tem uma história a contar, mas que não pertence a ele como uma simples matéria e sim, à Philomena e até mesmo aos futuros leitores. A função dele é ouvir e saber prestar atenção aos sinais de poesia. São esses os elementos que realmente fazem da história de Philomena algo que merece ser contado.

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Blue Jasmine

Dir. e Roteiro de Woody Allen

Com Cate Blanchett, Alec Baldwin, Sally Hawkins

EUA – 2013

Indicado ao Oscar 2014 nas categorias: Melhor Atriz, Melhor Atriz Coadjuvante, Melhor roteiro original,

blue_jasmine_xlgA decisão de se afastar da verdade que a realidade traz à tona e a fragilidade dessa proteção que se constrói em volta de si mesmo é o que define Jasmine, personagem do mais novo filme de Woody Allen, Blue Jasmine. Interpretada por Cate Blanchett, Jasmine era casada com o investidor Hal (Alec Baldwin) e vivia numa vida cheia de riquezas, joias, festas organizadas na sua mansão. Mas tudo desmorona quando é descoberto que o marido aplicava golpes, inclusive na irmã de Jasmine e o cunhado. A mudança brusca de vida, as traições logo tornam Jasmine uma mulher frágil, com sua neurose exposta apesar da postura e roupas elegantes, precisando lidar com o fato de morar com a irmã (Sally Hawkins).

O tom agridoce está mais forte nesse filme de Allen. Sem o romantismo de Vicky Cristina Barcelona ou delicadeza fantástica das cenas de Meia-noite em Paris, Blue Jasmine é uma obra mais contida. A ironia soa um pouco mais dolorosa e crua desta vez, o humor quase sempre presente na linguagem cinematográfica do diretor aqui dá lugar a neurose depreciativa de Jasmine, muito bem posicionada no enredo. Cate Blanchett é a encarnação do descontrole nesse filme, construída com sagacidade e muita cautela, pois o risco poderia ser o de cair num exagero desnecessário ao papel. Cate faz Jasmine ganhar vida, desmontando diante da tela todos os receios da personagem que se escondem por trás das roupas claras.

O que vemos é um filme que aprofunda o drama de Jasmine sem precisar falar ou expor muito. E, principalmente, sem zombar do drama que ela vive. As poucas palavras que a protagonista fala sobre o passado são as que mais revelam sobre a sua fragilidade emocional, ao mesmo tempo em que mostram o quanto o passado é totalmente irrecuperável. Ou até mesmo o quanto os graves acontecimentos do passado esvaziam as palavras doces que Jasmine fala sobre ele, pois os anos se passaram e nada mudou na sua visão sobre o caminho que precisa percorrer. Sendo assim, o filme de Allen alcança a medida certa na sua tentativa de apresentar um enredo bem realista, sem os enfeites aos quais, por vezes, nos rendemos nos roteiros hollywoodianos quando se trata de episódios infelizes.

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Fluam, minhas lágrimas, disse o policial, de Philip K. Dick

Resenha publicada no site Indique um livro

Editora Aleph – 255 pgs, 2013

A começar pela capa que proporciona a ilusão óptica de estar tremeluzindo, o livro Fluam, minhas lágrimas, disse o policial, de Philip K. Dick, é uma viagem completa entre a realidade e as nossas percepções. O livro conta a história de Jason Taverner, um dos apresentadores mais bem sucedidos da TV. O cenário é Los Angeles, 11 de outubro de 1988. Tudo muda e se torna atordoante quando Jason acorda num hotel caindo aos pedaços nos arredores da cidade sem saber como foi parar lá, com o terno amassado e um maço de dinheiro no bolso. Logo descobre que todos os seus dados foram apagados: ele não existe.

O objetivo, agora, é descobrir como isso aconteceu, se é possível reverter essa situação entrando em contato com alguém que saiba de sua existência e entender se está numa realidade paralela ou não. Dick constrói seus personagens complexos com eficácia nesse cenário distópico de uma sociedade que envia estudantes e professores a campos de trabalhos forçados, depois de uma guerra civil ter assolado o país, entre governo e estudantes. Além disso, é uma sociedade com práticas eugênicas, eliminando negros e formando uma raça híbrida nomeada Seis. Os cidadãos vivem à margem da sociedade, tentando falsificar os documentos a fim de evitarem os campos de trabalho, vivem acuados entre informantes e oficiais da polícia.

A história de Dick não é óbvia. A leitura flui com rapidez e a curiosidade pelo destino de Jason vai se alimentando no decorrer das páginas, incluindo a vontade de compreender um título de tamanha poesia. É verdade que o final é um tanto apressado. Mas Dick tem o talento de inserir uma poética dolorosa nessa distopia e humanizar seus personagens sem precisar apelar a sentimentalismos, o que conta como pontos positivos à obra. Jason não é o tipo de protagonista com o qual temos total simpatia, mas abruptamente nos vemos ao lado dele, com a mesma sensação claustrofóbica imaginando a dor de não existir aos outros no mundo.

Curioso ver que papéis fazem-no ser alguém. Diante do policial Felix Buckman, porém, Jason parece representar algo a mais e, apesar da oposição que deveria haver entre a lei que o policial representa e a subversão que é Jason, algo reacende em Buckman: a compaixão pelo indivíduo e a curiosidade diante do outro. E tais sentimentos não são fáceis de digerir. Tudo isso construído com sutileza pela narrativa de Dick.

É um romance que trata da subjetividade, sobre como podemos contemplar de diversas formas uma mesma situação e definir se é real ou não. Porém, mais do que isso, vemos o quanto Jason, mesmo diante dessa situação absurda, parece estar anestesiado. O desespero está a sua volta, nas pessoas que conhece e falam sobre o valor de amar. Mas ele está lá, perdido, e nem sabe mais o que sentir ou se vale a pena sentir. O livro deixa no ar a dúvida ao leitor, sobre qual realidade ele gostaria de habitar. Parece que ambas são absurdas e densas. E que, talvez, nunca seja possível compreendê-las. Por isso mesmo, o melhor seria deixar fluir as lágrimas sem questionamento. Assim, o desafio de ler Dick consiste nesse mesmo movimento, levando a sério o enredo com o qual ele nos instiga, degustando os momentos em que a narrativa se intensifica e faz a distopia surpreender.

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Apartamento em Paris é reaberto após ficar 70 anos intacto

Matéria publicada no site Causas Perdidas

Normalmente, algumas pessoas tiram férias e deixam suas residências por poucas semanas ou até meses. Houve, porém, um apartamento em Paris que foi deixado isolado por 70 anos. A primeira coisa que me vem à mente é: o pó. Mas, felizmente, o pó desse período extenso repousava docemente por mobílias belíssimas, inesperadamente bem conservadas, nesse apartamento que teve sua história conservada por entre as paredes. Inimaginável o mundo que ele parece simbolizar por trás da porta principal.

O belo espaço preservado, o qual pertenceu à neta da atriz e última socialite parisiense Marthe de Florian, foi pago, mês após mês, durante muitas décadas, mas sem ter sua porta aberta pelo proprietário por todo esse tempo, deixando-o não apenas abandonado, mas também intacto. Isso ocorreu durante a Segunda Guerra Mundial.

A proprietária inicialmente abandonou o seu rico apartamento a fim de escapar do ataque nazista. Ela nunca retornou à sua casa, a qual agora foi nomeada como uma espécie de “cápsula do tempo”, mas em forma de um apartamento parisiense estilo rococó. Os herdeiros da luxuosa proprietária decidiram fazer um inventário do apartamento quando eles descobriram que o interior foi preservado e que lá havia muitos tesouros.

Um deles, por exemplo, inclui um quadro pintado pelo famoso artista italiano do século XIX, Giovanni Boldini. A obra traz uma mulher que foi retratada para se assemelhar a Marthe de Florian aos 24 anos de idade. O lar encapsulado pelo tempo também revelou o romance com o artista por meio de uma pilha de cartas de amor trocadas entre eles. O apartamento, que provou ser tão rico de posses quanto de segredos, é fechado ao público, apesar de existirem algumas especulações que fazem isso mudar.

O curioso contraste entre a figura americana de Mickey Mouse e o imponente e esquisito avestruz empalhado, os livros e manuscritos empilhados nos móveis de madeira muito sofisticada, o estofamento das poltronas elegantes, a cortina densa que ocultou o sol por todo esse tempo, o espelho que via à espreita o tempo congelado no apartamento. Esse é o cenário com que a família de Marthe se deparou e o qual pode ser visto nas fotos abaixo.

 

Não é à toa que encontrar esse apartamento intacto traga à tona a sensação de que o tempo parou. Os móveis carregam consigo parte da história de seus moradores, mas, também, do contexto social a sua volta. Em um episódio do documentário Mundo Museu, exibido pelo canal Globosat, é possível conhecer as mais variadas mobílias no Museu da Casa Brasileira, em São Paulo. Os proprietários Fábio Prado e Renata Crespe, casal muito influente no início do século XX, colecionavam utensílios raros e mobílias dos últimos quatro séculos, hoje expostos no museu.

A concepção dos vidros, da madeira entalhada, dos compartimentos secretos nas escrivaninhas, são elementos que fazem de tais objetos uma manifestação cultural. Com efeito, espera-se que as mobílias se adequem às necessidades de seus proprietários. Ademais, a conservação do material se mostrava importante em razão do significado que tal objeto tem enquanto status: uma coleção de talheres de prata dizia muito sobre a família em suas recepções sociais; a porcelana e utensílios considerados de preço elevado, quando comprados e exibidos, pareciam dizer tacitamente que o proprietário tinha bom gosto e riqueza.

Nota-se, portanto, que as mobílias possuem segredos históricos e mantê-las em casa revela que o sujeito não as compra somente por necessidade, mas pelo valor cultural agregado a ela. A redescoberta desse apartamento parisiense acaba por remeter ao significado do gabinete de curiosidades, na História. Durante os séculos XVI e XVII, era comum ver tais gabinetes, locais em que se guardavam objetos raros ou incomuns aos olhos de quem os descobriram, sendo formados por utensílios exóticos, fósseis, animais empalhados, instrumentos técnicos avançados. Posteriormente, eles viraram a instituição que constitui o museu, por volta do século XIX.

Gabinete Worm Ole, do Museu Wormianum, 1655

O gabinete de curiosidades foi de suma importância durante o Renascimento, tanto como um local físico onde armazenar os mais distintos objetos, quanto uma representação cultural da interpretação dos sujeitos que estavam começando a se ver como descobridores. Veja só, não era difícil encontrar objetos de cunho religioso ou até mesmo frascos com substâncias misturadas prometendo curas e amores eternos. Isso é uma amostra de que tais gabinetes não possuíam um método rígido na escolha dos objetos a serem guardados.

Os gabinetes acabavam por ser um lugar onde o poder místico da ciência era reafirmado como uma área que começava a se ver como detentora do conhecimento acerca da Natureza. Não deixamos de reparar nisso na reunião desses objetos: o sujeito que os guardou é um pesquisador, das mais diferentes formas (sendo supersticioso ou lógico), propondo uma interpretação sobre o que encontra. Contudo, nesse momento a Natureza ainda encerra em si mesma o misticismo que fascina esses pesquisadores. Como ela parece ser harmônica e superior à mente humana, resta ao pesquisador guardar o que lhe interessa: os objetos que parecem falar sobre a Natureza.

O curioso está no ato de guardar. Ele nos dá o poder da interpretação, da teoria sobre o objeto. Mas esse ainda tem o mistério na sua essência, portando a riqueza infinita do mundo nos produtos mais bizarros. Interessamo-nos pelos pontos de passagem entre um reino e outro, o abismo em que o conhecimento humano parece não chegar; e pelo acidente efêmero do encontro com um fóssil, uma peça da toilette, um vaso.

O gabinete de curiosidades se interessa pelo exótico de outras culturas, como objetos antigos, um registro em um papiro, múmias egípcias, sapatos indianos. As coleções dos séculos XVI e XVII passam a manifestar, portanto, a curiosidade do homem que vê nas Navegações, a possibilidade de conhecer o mundo e conquistá-lo. Os gabinetes de curiosidades não deixaram de ser uma representação também do interesse sobre a anatomia que, posteriormente, nota-se nos chamados “teatros de anatomia”, onde eram guardados esqueletos a fim de auxiliarem nos estudos de escolas de medicina. Os órgãos humanos incitavam, nos pesquisadores, a mesma necessidade de conhecer os mistérios da Natureza presentes na composição de si mesmos.

Evidentemente, não apenas podemos dizer que objetos têm as marcas físicas que a História deixa neles, como o desgaste e o pó, mas também algo que vai além de sua determinação espacial: a memória encapsulada, deixada em suspensa, aguardando o olhar de qualquer indivíduo para ser reavivado.

O apartamento parisiense redescoberto lembra, pois, o gabinete de curiosidades devido à junção de objetos incomuns às mobílias bem conservadas. Porém, mesmo que vejamos a semelhança entre ambos, é importante destacar que o gabinete pressupõe que os objetos armazenados nele tenham sido descobertos pelo homem, carregando em si o caráter de objeto a ser pesquisado por alguma razão. O pesquisador tem o poder de afirmar se esse objeto tem alguma peculiaridade para ser guardado, até mesmo um valor financeiro inestimável para a sociedade. É verdade que o quadro de Boldini foi redescoberto e entraria no gabinete como objeto admirável por seu preço e singularidade. Mas esse valor dado à obra de arte iniciou-se com o museu estabelecido como instituição, portanto, o sucessor do gabinete de curiosidades. Assim, permanece a dúvida se é possível que uma obra de arte tenha espaço no gabinete.

Os demais objetos do apartamento, por sua vez, teriam sido mais do que relíquias com as quais a pessoa sortuda que abriu a porta se deparou. Certamente, para quem está fazendo o inventário do que encontrou, deve ser uma fonte de renda. Mas um boneco do Mickey, um avestruz ou até a pilha de cartas podem ter um valor simbólico. E esse ocorre pelo que foi afirmado antes: o objeto tem em si uma história oculta. Pode não ter significado para quem o encontra, mas ele o teve no passado da proprietária. Chegamos ao ponto mais fascinante, pensar em tudo o que fora abandonado. O que ela sentira ao se desvencilhar daqueles objetos, das cartas trocadas com o artista, fugindo do ataque nazista a sua cidade?

Podem ser utensílios cotidianos, mas carregam a história do dono, a sensação ao comprá-los, o que foi vivenciado ao lado de tais objetos, a estranheza na sua escolha em ter um avestruz empalhado. A disposição dos móveis e a escolha dos objetos do apartamento, como parte da identidade do proprietário, falam, pelas entrelinhas, com o pó sutilmente repousando nessa história deixada para trás. Desta forma, o apartamento parisiense aguça nossa curiosidade não só como pesquisadores, mas, no revela, também, a possibilidade de nos enxergarmos enquanto sujeitos que lamentariam, por tanto significado e história, em deixar seu lar para trás.

Gravuras dos gabinetes de curiosidades:Link

Fonte das informações históricas sobre os gabinetes: Link

Arquivo online disponibilizado pelo Museu da Casa Brasileira sobre os equipamentos, usos e costumes: Link

Revisado por Karol Vieira