Ela (Her)

Dir. e Roteiro de Spike Jonze
Com Joaquin Phoenix, Scarlett Johansson, Rooney Mara, Amy Adams, Olivia Wilde.  
EUA, 2013
 
Indicado ao Oscar 2014 nas categorias: Melhor filme, Melhor canção original (The Moon Song), Melhor roteiro original,  Melhor trilha sonora, Melhor design de produção
 

herUma sociedade com aparência limpa, tecnológica, com cores vibrantes e aparência minimalista. Mas fria e impessoal. Este é o cenário de uma Los Angeles futura, na qual se passa a história de Ela, do diretor Spike Jonze. Os dias de Theodore (Joaquin Phoenix) parecem ser sempre os mesmos. Ele checa os e-mails por um comando de voz no tempo em que fica no metrô, chega ao trabalho e passa o dia ditando cartas de amor que cria para serem enviadas a diversas pessoas que só transmitem a ele informações básicas. Delas Theodore extrai a poesia que parece faltar à sua vida ou até mesmo à vida desses desconhecidos. Ele reinventa a realidade. Mas isso só parece ser mais um trabalho comum.

Cansado da solidão que deixa sua vida totalmente vazia, Theodore resolve comprar um sistema operacional que promete ser uma companhia útil às pessoas. O que surpreende o escritor é achar, em tal sistema, a voz e a personalidade de Samantha (Scarlett Johansson). Com uma voz rouca, doce e disposta a conhecer a vida de Theodore, Samantha passa a ser o ponto mais importante da vida dele. Assim, essa relação é o passo para que o espectador tome um susto: a realidade de Theodore não é diferente da nossa. Todos os dias milhões de pessoas mantém contato com outras por meio de redes sociais ou aplicativos os quais prometem uma proximidade imediata e a tal conectividade com um mundo sem fronteiras. O filme é extremamente audacioso ao conseguir delinear bem essas relações  pelas quais nós mesmos já estamos passando. E incita a pensar se elas são verdadeiras, se há algo ilusório entre elas, qual a importância do contato físico e o que significa conhecer alguém, de fato.

Por mais de duas horas nos vemos imersos na vida de Theodore e no surgimento de Samantha. Acreditamos na existência dela, adquirimos carinho por ambos de uma maneira tão profunda que se pode dizer que está aqui um dos maiores méritos do filme.  O fato de Samantha não ter um corpo não quer dizer que as sensações, pensamentos ou até mesmo a liberdade que pertence somente a ela como uma personalidade em desenvolvimento não exista. Ela é humana. Essencialmente pode ter sido programada, mas da mesma forma que Theodore tem suas limitações, Samantha está se formulando como uma força capaz de transformá-la num dos mais belos milagres em meio a essa sociedade tão fria.

É evidente que todo o trabalho de direção de arte do filme transmite uma estética que não faz dessa sociedade algo indesejável, normalmente se optaria por retratar um local obscuro. Pelo contrário, as cores fortes que tomam o cenário e as roupas dos personagens são de uma plasticidade intencional. Carregam a ideia de que está tudo bem entre as pessoas, de que há esperança, de que estão vivendo o futuro ideal. As cores fortes seriam sinal de uma falsa celebração. E, apesar do fato de Samantha ser parte de um dispositivo tecnológico – como tudo a volta de Theodore –, ela foge do comum quando passa a conviver com ele. Theodore também, como humano, foi programado para ter algumas condições biológicas. Ou seja, da mesma forma que Samantha recebeu extensos guias de conhecimento, isso não quer dizer que nem ela nem Theodore possam ser definidos somente pelo que receberam involuntariamente.

É muito difícil definir quem é o protagonista do filme. Ambos ganham força num trabalho impecável. Deixando de lado qualquer necessidade de pontuar algo tecnicamente, sinto que esse filme não teve falhas, o seu conjunto é harmonioso, agradável, emocionante. É o tipo de filme que não o abandona durante dias, quando você também não deixa de ouvir frequentemente a trilha sonora, brilhantemente desenvolvida pelo Arcade Fire. As passagens de piano como em Song on the beach, a música The Moon Song cantada por Scarlett Johansson,  acabam por ser parte fundamental da película.

O desempenho de Joaquin Phoenix como Theodore é exemplar, ele reage com tanto realismo e verdade às emoções que Samantha provoca em seu personagem que nos convence plenamente. Scarlett Johansson consegue a proeza de encarnar somente por meio de sua voz a força que Samantha simboliza, toda a fragilidade humana que ela apresenta e o conhecimento infinito de uma máquina.

O filme mexe em questões muito profundas e delicadas. Ele se assemelha à ideia de epifania, de que o momento seguinte não será mais o mesmo após ver a verdade. Ele é ousado em mostrar até mesmo a fragilidade na relação entre o casal principal e se vale a pena ter o ideal e perfeito ao seu lado. Theodore aprende a ver um mundo muito mais aberto às emoções, as quais se mantêm escondidas em momentos que nem sempre podem ser pontuados numa palavra de uma carta. Por vezes, o melhor é aceitar a imperfeição que pode existir em todos os cantos não preenchidos pela tecnologia e manter um carinho inabalável por esse espaço do qual uma poética inesperada pode surgir.

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2 comentários sobre “Ela (Her)

  1. Como eu já disse, esse filme entrou para os meus favoritos da vida inteira ❤ Fiquei apaixonada pelo roteiro, pelas atuações, pela trilha sonora, por TUDO. É engraçado notar que essa realidade do filme está bem perto da nossa. Claro que ainda não existe um OS perfeito como a Samantha, mas e quanto às pessoas que namoram à distância e mal conhecem seus companheiros? Pode parecer bobeira, mas fiquei me questionando isso.
    É incrível como Theodore se apaixona pelas ideias da Samantha e pelo humor dela. Acho que isso, como você disse, faz repensar que, apesar de não ter um corpo, TUDO está lá. Até mesmo as brigas tão constantes na vida de um casal.
    Adoro aquela cena em que Theodore sai com os amigos dele para um piquenique, e todos tratam conversam e tratam a Samantha como se ela estivesse presente ali. Essa cena parece representar uma aceitação e isso me fez pensar muito também.
    Enfim, há tanto o que falar desse filme, sabe? Ele é tão incrível, que deveria concorrer a mais categorias no Oscar. Ótima crítica, Marina! E, se você não se importa, gostaria de indicar um curta do Jonze que se chama “I’m Here”. Não sei se você já viu, mas os protagonistas são robôs (novamente essa temática tecnológica rs) e é lindíssimo. Recomendo!

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  2. Esse filme definitivamente me conquistou, em todos os sentidos. Ao ler a sinopse pensei que seria um filme bobo, sem graça. Quanto engano! perfeição do início ao fim, sem falar naquela paradinha básica que damos, pra pensar em nossas próprias vidas e o que estamos fazendo/esperando dela. Posso dizer que me identifiquei, rsrs.

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