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Gloria

Publicada no site Literatortura

Dir. Sebastián Lelio

Roteiro de Sebastián Lelio e Gonzalo Maza

Com Paulina García, Sergio Hernandez, Diego Fontecilla, Fabiola Zamora, Alejandro Goic

Chile, 2013

A solidão de uma mulher na meia-idade, divorciada e com os filhos já adultos constituindo as próprias vidas. Esse é o enredo de Gloria, filme chileno de Sebástian Lelio. Paulina García, vencedora do Urso de Prata Melhor Atriz, no Festival de Berlim 2013, interpreta a personagem-título. Acompanhamos a tentativa de Gloria em sobreviver nessa solidão, num esquecimento de uma mulher que foi deixada à própria sorte. Ela não foi abandonada pelos filhos, mas vemos em Gloria a necessidade de se sustentar com autonomia numa sociedade que espera a relação eterna do casamento como a capacidade de nutrir esse abandono.

Gloria é divorciada e, por isso mesmo, se encontra sozinha. É admirável as ações que toma para que possa superar a melancolia e o tédio. No decorrer do filme, observam-se os traços psicológicos de uma mulher que serve como uma agradável companhia, porém efêmera. E isso é doloroso, transmitido com maestria pela atuação de Paulina García, a qual faz um trabalho excelente ao explorar as mais variadas expressões corporais como Gloria. As fases da personagem vão se intercalando, mas a constante é a solidão.

A personagem procura fazer diversas atividades para passar o tempo que sobra após o trabalho, além de ir aos bailes da terceira idade. Lá, ela busca a juventude a qual a sociedade provavelmente esquece que existe para uma mulher como Gloria, conhecendo novos homens e iniciando um romance um tanto conturbado. Em determinado ponto do enredo, alguns personagens discutem sobre a juventude tomar as ruas nas manifestações, como sendo a obrigação da nova geração. Mas que tal manifestação se constitui, no fim das contas, pelo individualismo da internet. É curioso notar que a constituição de Gloria ocorre da mesma forma, focando na sua personalidade complexa e em seu mundo particular.

É esse o ponto que a iguala à juventude, pois ambas as gerações se encontram nesse momento crítico de decisões: iludir-se no protagonismo que tem da própria vida ou participar da realidade, aceitando que pode ser apenas mais uma pessoa entre tantas no país. Por isso é complexa a análise da coragem de Gloria, pois ela não se permite ser deixada à mercê pelos outros, assumindo logo a própria vida, mas preferindo permanecer na ilusão que constrói da felicidade dentro do próprio apartamento.

O filme é intimista, tem poucos acontecimentos que possa construir um clímax intenso. Mas isso não o impede de ser um longa perspicaz na intenção de apresentar as facetas de Gloria. A personagem consegue saltar da tela e marcar o espectador. Ela é destemida a um ponto que nos faz desejar agir da mesma maneira. É uma mulher que, apesar dos vários abandonos, consegue dançar sem precisar de ninguém. Se o eu-lírico da música clama por Gloria para ter seus belos dias de volta, a própria Gloria precisa apenas de si mesma para dançar. Consegue tirar os óculos para não se deixar atingir por ninguém, e dançar com sua expressividade singular. A dificuldade está, pois, no limite desse ilusionismo que a personagem assume para a própria vida. Portanto, está em Gloria muito mais a dúvida geral sobre como assumir as relações sociais e a realidade do que apenas a vida de uma mulher divorciada.

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A polêmica da selfie

Publicada na minha coluna semanal do Fashionatto

cat-selfieNa semana que passou, fui bombardeada por selfies, notícias sobre selfies, polêmicas sobre selfies – as que quero tratar aqui, tweets sobre o mundo tecnológico. Resolvi, então, reuni-los aqui na coluna de hoje, para pensar um pouco sobre o assunto. O dicionário Oxford escolheu, em 2013, incluir “selfie” como a palavra do ano. Curioso contatar que “twerk” – a coreografia que Miley Cyrus fez no VMA do ano passado – e “binge-watch” (quem assiste muita televisão) competiu com o posto de palavra do ano, mas perdeu para a selfie. (aqui)

Utilizando a definição do Oxford, a selfie é “uma fotografia que a pessoa tira de si mesma, com um smartphone ou webcam, carregada em um site de mídia social”. Para quem está nas redes sociais, a selfie não é grande novidade. A impressão que dá, porém, é que o status de uma foto com um amontoado de rostos ou de si mesmo era um tanto esquisito ou, em alguns casos, narcisista se tirado e postado quase todos os dias, acabou por se tornar popular, com todo mundo falando em “vamos tirar uma selfie”, porque, claro, agora é tendência.

Para esse assunto, primeiro, vou colocar aqui que não sou enviada pelos deuses para trazer a palavra divina de que selfies são um mal da sociedade pós-moderna-líquida e precisam ser exterminadas. Dizer que é um mal é um termo pesado, pois em geral a selfie é algo comum. Obviamente, se você tem uma rede social, a selfie é a forma mais fácil de simplesmente tirar uma foto de si mesmo e atualizar o perfil. O curioso está na sua popularização repentina e nos extremos que pipocaram esses dias na mídia.

Relembrando um fato do início do ano, no Oscar, a apresentadora Ellen Degeneres proporcionou uma evidência maior à selfie quando postou uma foto– incrível, diga-se de passagem – com diversos atores consagrados na cerimônia do Oscar. Com isso, já dá para apontar uma primeira característica da selfie: ela permite a proximidade, no caso, humanizou os atores que sempre estão seguros de suas poses na maior cerimônia da área cinematográfica.

As redes sociais fazem isso por nós, já sabemos que elas prometem a proximidade e a quebra de fronteiras apenas com um clique. A selfie posiciona o sujeito no foco de sua foto, claro, mas permite a proximidade que teríamos da pessoa diante dela, presencialmente. Ficamos na altura dos olhos do observador, próximos. Em grupo, provavelmente encena-se a sensação de alegria genuína de pertencimento a um grupo enquadrado na foto, que precisou ser registrado. Dito isso, a selfie pode, sim, ter uma motivação ingênua e um mero registro a ser guardado ou divulgado por conta de um momento memorável.

Contudo, o problema vem a seguir. No dia 21, alguns sites (aqui) divulgaram que uma estátua do século XIX havia sido quebrada após um jovem subir na perna da estátua – sim, subir – para tirar uma selfie com a estátua. Uma estátua. Uma selfie com uma estátua. Do século XIX. Quebrada. Nesse momento, eu contenho aqui minhas mãos tremendo, os dentes rangendo e uma vontade de dar um tapa em uma pessoa que faz isso. Mesmo que não fosse uma estátua, que o tal ato de tirar uma selfie causasse um acidente – sei lá, tirar foto de si mesmo com um trem atrás que, por fim, acaba por atropelá-lo. Não faça isso – já é extremamente grave.

As câmeras não registraram a destruição dessa peça rara do século XIX ou talvez não queriam divulgá-lo. No momento, já estão trabalhando na sua restauração. O que nos faz pensar aqui é o que motiva alguém a querer tirar uma foto com uma estátua. Se você é estudante de Arte, pode até ser que lá no fundo você queira tirar uma foto com a Mona Lisa ao fundo, no Louvre. Ou com a Vênus de Milo. Provavelmente isso será um ímpeto de alguém que vê nas páginas dos livros essas imagens que sempre os encantou e, no fim, estar diante delas é tão inacreditável que o registro parece responder que sua existência é mesmo real.

Mas há uma sensação geral de querer registrar tudo numa viagem, quase inevitável quando já se tornou recorrente a frase “vou postar no facebook”. Ou checar suas atualizações no celular enquanto almoça com seus colegas. O problema está nessa distância que a tecnologia pode criar, no excesso que ela incita quando puxa o sujeito para um abismo de simulacros, num espaço em que ele acredita ter poder supremo para postar conteúdos que atinjam o outro – aqui entra o cyberbullying -, ou esquecer que há um mundo real acontecendo, pessoas reais existindo, enquanto prefere recriar a própria identidade nesse mundo efêmero.

E é muito difícil fugir disso. Nem sei qual solução se daria a isso. Provavelmente apenas um alerta que eu estou tentando repetir a mim mesma e que vou falar a você, meu querido  leitor, se ainda estiver aí depois de tudo o que escrevi: o mundo tecnológico acaba por trazer muitas pessoas para perto, que vivem em outros estados, países, que passam a estar na sua vida. E isso é ótimo, uma oportunidade para expandir suas opiniões, vivências.

Mas conhecê-los pessoalmente é, ainda, uma sensação que não dá para substituir. Mesmo que criem robôs futuramente, numa vida paralela em que se substitua humanos – estou falando em robôs mesmo? Meu Deus, preciso encerrar isso aqui – a presença do outro traz o inesperado. A surpresa, o choque de algo novo começar a existir numa convivência, é algo que nem a tecnologia ainda conseguiu inventar ou colocar num chip. O exato momento em que a imagem que você fazia do outro se modifica ainda não foi capturado, justamente porque é uma daquelas coisas que nem conseguimos explicar pela palavra.

Desta forma, não é necessário se prender em casa, jogar o notebook pela janela, ir viver na floresta, se mudar para uma caverna, a fim de evitar o mundo tecnológico. Mas até que ponto isso não está interferindo na maneira com que contemplamos as pequenas cenas do cotidiano? Se é que as contemplamos. Até nossa relação com a história e vivência que o outro tem para nos contar se tornou limitada a poucos caracteres, num desejo de que o outro conte logo porque o tempo é curto. Por isso, volto aqui, depois de todo esse caminho, à selfie. Será que a foto que tiramos – depois de mais de 50 versões até achar apenas uma boa, satisfatória aos olhos daquele que vai ver nosso perfil – fala mesmo sobre você? Se selfie envolve um retrato de si mesmo, onde se encaixa a nossa liberdade de registrar realmente um retrato que se oponha ao desejo do outro?

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Marina Franconeti escreve todas as terças-feiras para o Fashionatto.

fonte da imagem de capa: heavy.com

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Escrever é um ato confuso

Primeiro texto para minha coluna semanal no Fashionatto, toda terça-feira.

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Escrever é um ato difícil de ser explicado. Às vezes uma ideia surge repentinamente no ônibus, na fila do ponto, ou quando você olha pela janela ou vê uma cena que parece se destacar magicamente entre o cotidiano cru. Em outros momentos, um texto vai se formulando durante dias, sem saber muito bem como sair de um diálogo travado ou um tema espinhoso de uma matéria, o qual você precisa pesquisar para entender mais.

É com isso que precisarei lidar para começar essa coluna aqui no Fashionatto. Costumo escrever pelos meus prazos e temas de interesse, mas aceitei o desafio de escrever semanalmente ao site. Mas para que isso aconteça e eu não fique lá no cantinho do quarto nervosa, pensando o-que-escrever-essa-semana-vou-sair-do-edital-socorro, quero que essa coluna seja bem aberta. E bem improvisada mesmo.

Porque 1) nunca lidei com essa pressão de entregar uma coluna, que tem um quê de pessoalidade diferente, 2)é legal pensar que a escrita e o surgimento de um texto pode ir se criando com espontaneidade, 3) eu assumo minha inexperiência com colunas e assim você, leitor, vai me entender, 4) eu esqueci o que ia falar aqui, 5) ah sim, eu quero fazer da coluna algo amplo, que dê espaço a assuntos direcionados à arte, moda, comportamento, feminino, cinema, literatura. E, por último, quero tentar trazer o formato da crônica, do conto, da prosa poética para essa coluna, ainda dentro dos temas abordados. O objetivo é treinar o meu olhar toda semana para os fatos cotidianos que possam surgir e provocar o mesmo no leitor.

Você deve pensar que o parágrafo anterior foi uma profusão de ideias e propostas. E foi mesmo. Mas a coluna vai ser isso, reunir o máximo que puder do que eu vejo e trazer aqui para vocês. Espero que dê certo, mesmo. Para deixar um pouquinho da minha história aqui, eu comecei a gostar de escrever aos 6 anos. Mas eu nem tinha ideia disso, na época. Eu ficava acordada até meia-noite com a minha mãe, sentadas no chão e desenhando na mesa da sala. Enquanto eu desenhava os personagens de Tom & Jerry, meu desenho favorito, minha mãe escrevia a história que eu contava, porque eu ainda estava no início da alfabetização. Depois, reuníamos as folhas, grampeando como se fosse um livrinho e arrematava com um durex colorido na borda. Para mim, aquilo era para deixar o exemplar bonitinho, mas minha mãe colocava mesmo para me proteger dos grampos, já que eu andava com o livrinho para cima e para baixo.

Cresci com meu pai contando absolutamente todas as histórias da infância e juventude dele. Hoje, quando ele conta uma, eu murmuro “eu já conheço essa”. Ele também acabou me apresentando ao cinema, principalmente ao cinema musical, com Fred Astaire, Julie Andrews, ou às comédias de Jerry Lewis, Charles Chaplin. E foi bem cedo. Mas foram os dois que provocaram em mim essa paixão genuína por histórias, livros e escrita. E sem querer, o que é mais interessante de constatar. Por isso, acabei crescendo com essa vontade que eu nem entendia de criar alguma coisa. Eu dizia que seria bióloga-estilista-desenhista, mas Harry Potter, aos 10 anos, me fez escolher pelo título de escritora, o qual fez total sentido quando notei que todo dia eu criava enredos para todos os meus ursinhos de pelúcia. Então, eu escrevo todo dia  para essa menina que eu fui lá atrás.

P.S. Eu vou encerrar aqui, porque está começando a chover, a luz está piscando e eu vou chorar se acabar a luz e eu não postar a minha coluna.

P.S.2 A imagem de capa foi uma das poucas fotos bem sucedidas que eu tirei com a câmera analógica.

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Um relato sobre a vinda de Mark Gatiss, co-criador de Sherlock, a São Paulo

Matéria publicada no site Literatortura

Neste sábado (15), Mark Gatiss esteve na Livraria Cultura do shopping Iguatemi em São Paulo para uma sessão de autógrafos e um bate-papo sobre as séries em que está envolvido. Gatiss é co-criador de Sherlock, série britânica da BBC na qual interpreta Mycroft, irmão de Sherlock, e ainda é roteirista de alguns episódios de Doctor Who, como o especial An Adventure in space and time. Como se vê, Gatiss é bem sucedido em suas participações em duas séries extremamente populares na Inglaterra, mas as quais se expandiram a outros países rapidamente. A vinda de Gatiss certamente teve o objetivo de medir o público das séries e traz a expectativa de que ainda tenha uma convenção de Sherlock no Brasil.

Como uma fã que sofreu por semanas pensando em ir ao evento e se haveria muita gente como eu na fila, eu cheguei às 8h acreditando que seria suficiente estar adiantada por duas horas até que o shopping abrisse, com pessoas correndo até a livraria Cultura para garantir uma das 200 senhas para o autógrafo. Não sabíamos como seria organizado o acesso do público. No fim, já tinham praticamente 500 pessoas esperando, muito antes de abrirem as portas. E, a surpresa, foi saber que haviam distribuído pré-senhas para as pessoas que chegaram muito cedo. Ou seja, sem chance de conseguir o autógrafo. É claro que essas pré-senhas evitariam o tumulto do público correndo no shopping e era justo com quem chegou às 5h. O problema é que em nenhum momento a livraria se pronunciou dizendo que o acesso seria por ordem de chegada.

Se não houve gente correndo desesperada pela senha, houve um pouco de correria para conseguir um lugar na arquibancada que existe no interior da livraria para assistir a palestra aberta. Ou seja, 500 pessoas (de início, porque foi aumentando) se agruparam na tal arquibancada, das 10h às 20h, se revezando em grupos para ir ao banheiro e almoçar. E nós esperamos, sentados, durante todas essas horas, para finalmente poder ouvir e ver Mark Gatiss.

É difícil contar o que houve nessas 9 horas de espera na arquibancada. Eu sempre pensei que eu só ficaria aguardando tanto tempo – e coloque aqui as duas horas na fila e uma hora depois da palestra – por alguém se fizesse parte de algo que eu realmente admiro. E foi assim com Sherlock. O vício que nos faz rever os episódios, criar teorias com o detetive, o mundo infinito que o tumblr cria com gifs insanos, bizarros e divertidos, o momento em que finalmente você convence os seus amigos a assistirem a série e eles acabam caindo nesse mesmo abismo que você, sem volta. Posso falar, por enquanto, da série Sherlock. Ela se estabelece pela conexão entre os fãs, o público que ela foi formando se fez pelo entusiasmo com que se divulgam as expectativas diante desse personagem atemporal de Conan Doyle.

Por isso, a interação entre os fãs foi o melhor do evento e o que preencheu as horas. Fãs com camisetas da série, meninas vestidas de TARDIS, outras com o figurino inspirado no Matt Smith (Doctor Who) ou nos personagens de Sherlock. Tinha  um menininho de chupeta usando uma camiseta do Sherlock acompanhado pela mãe, que chegou pouco antes da palestra. Ele acabou arrancando gritinhos dos fãs, o que o assustou – nesse momento me senti tão cruel quanto o Moriarty, fazendo uma criança chorar com gritos histéricos. Havia grupos brincando de imagem e ação, ou fazendo o outro adivinhar o que havia no papelzinho que grudara na testa, tinha gente dormindo, comendo, lendo uma pilha de livros que pegou na livraria, comprando dvds para serem assinados pelo Gatiss.

créditos: Aumanack Diversão sem limite

A Cultura acabou se tornando praticamente uma república de fãs nas horas em que ficamos lá. Tinha alguns momentos em que eu olhava para as mais de 500 pessoas e sentia que não havia mais nada fora daquele lugar. Sem exagero. Parecia que existia aquela livraria que seria preenchida pelos gritos dos fãs do Mark, o twitter e o facebook onde comentaríamos o que estava acontecendo e apenas isso. Por quê? O grau de pertencimento que um grupo proporciona é insano. Encontrar quase mil pessoas – sim, o número foi crescendo – que gostam da mesma série que você e possuem o mesmo entusiasmo é realmente estranho.

Por isso, se formos ver, um seriado e um livro também acabam por criar mundos paralelos, realidades possíveis pelos seus enredos. Esse é o maior mérito que um roteirista ou escritor pode ter. Nos sentimos fincados na realidade do cotidiano, nas horas de trabalho, estudo, no cansaço diário no transporte público. E uma ficção simples consegue mexer com essa realidade. Surge uma nova perspectiva e ela acaba por invadir a realidade em que vivemos. Ela ganha novos ares e nada parece como antes, porque agora os movimentos dos desconhecidos no caminho para o trabalho, os pequenos momentos de distração no transporte têm um quê de poesia que uma história pode dar. Uma ficção treina e expande o nosso olhar.

Foi isso o que vivenciei no evento com o Gatiss. Ficar praticamente 14 horas num mesmo lugar parece trazer o desespero ao pensar “o que vou fazer durante todo esse tempo?”. Mas você acaba por se distrair com as pessoas. E isso é curioso de constatar num momento em que os celulares parecem ganhar mais a nossa atenção. O meu olhar foi se adequando às mais diferentes expressões dos fãs que vivenciavam o mesmo que eu. E até a forma com que encaramos o tempo se modificou durante a espera, pois ele foi permeado somente pelas experiências.

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Isso me fez lembrar do Baudelaire. Sim, quando você está esperando, surge de tudo na sua mente. Baudelaire colocava nas suas prosas poéticas a impressão de um tempo que congelou, que existia pelas experiências vividas, e não pelas horas. E ele presenciou como uma pessoa some na multidão durante sua caminhada na cidade, muitas vezes imersos nas atividades práticas do cotidiano, deixando de olhar o mundo à sua volta. Ou seja, a experiência é o que constitui a identidade humana. Essa experiência de simplesmente olhar à sua volta traz tantas visões novas e repentinas – muitas das impressões se dão em segundos – que soa estranho pensar o peso que a gente tem em mente quando falamos sobre as horas.

Quando finalmente Mark Gatiss entrou na livraria para o bate papo com o público, os gritos eufóricos certamente surpreenderam o ator. É verdade que depois de tanta espera eu queria mais da palestra, ela foi curta. Não pelo Mark, ele foi espirituoso, divertido e agradável. Mas sim, pela organização. Ele até pediu gestualmente por mais dez minutos de bate-papo, mas foi simplesmente interrompido e encerraram a palestra antes do tempo de duração, nem sei porquê.

Mark falou dos contos preferidos do Doyle, perguntaram qual foi a dificuldade de adaptar Conan Doyle e Agatha Christie, e ele pontuou que ambos eram difíceis, que um roteirista deve ter respeito pelo trabalho do escritor a ser adaptado. E ainda comentou que enquanto Doyle aprofunda mais os seus personagens, Agatha Christie tem uma perspicácia para desenvolver o enredo ágil e envolvente, momento em que ele citou a frase “She plots like a fucking angel!”do diretor Billy Wilder.

Quando questionado se não poderia haver um crossover de Doctor Who e Sherlock, Mark nos disse para tentar imaginar como seria, “imaginem os dois entrando no mesmo lugar, no mesmo quarto. O Doctor está num canto da sala e o Sherlock no outro”. Houve uma pausa, enquanto o pessoal gritava entusiasmado só de imaginar. Ele acrescentou “E aí? Não sei porque vocês gostam de crossover entre séries, é só assistir as duas séries!”.

Sobre Doctor Who, ele comentou que a série traz muitos escritores ao enredo, como Shakespeare, Agatha Christie, Charles Dickens. Por isso ele deixou a esperança de que haverá um episódio com Jane Austen, o que fez a público gritar mais uma vez, e brincando ainda que o Mr.Darcy poderia muito bem ser um alien. Ao responder o que poderíamos esperar do novo Doctor, Mark respondeu com humor “scottish accent (sotaque irlandês)”. Também falou que tem grandes expectativas para o trabalho de Peter Capaldi como o 12th Doctor, que poderá trazer algo novo ao personagem, um ponto muito bom para a série que sempre se renova.

A primeira pergunta ao Mark foi qual seria o legado que ele gostaria de deixar, a qual ele respondeu “pure evil  (maldade pura)”. Nós rimos da resposta, mas de nervosismo mesmo, porque, entre os fãs de ambas as séries, sabe-se como ele e o Steven Moffat, showrunner de Doctor Who e criador também de Sherlock, nos colocam para sofrer com desfechos inesperados, regenerações do Doctor, hiatos de 2 anos entre uma temporada e outra de Sherlock. Mas Mark acrescentou que deseja deixar apenas bons trabalhos para serem assistidos. Aos futuros escritores, ele disse rindo, para ficarem fora do caminho dele. Mark sugeriu que não desistem de serem escritores. É, de fato, uma área bem complicada na qual se recebe muitos “nãos”, é fácil desanimar ao ser rejeitado. Ele afirmou que devem acreditar em si mesmos e colocar seus corações à prova nas suas criações.

Sobre Sherlock, Mark disse que não se identifica muito com Mycroft, pois esse é muito frio. Ele apenas se identifica em relação aos ternos que gosta de vestir e com o traseiro dele, o que arrancou risadas do público. Mas disse que gostaria de ter o mesmo poder que Mycroft. Ele gostou muito de gravar o episódio The Hounds of Baskerville, mas houve um momento engraçado com Martin Freeman (John Watson) no episódio A Scandal in Belgravia – o seu favorito – em que estavam gravando num café.  Houve uma chuva terrível naquele dia e ainda foi uma época de manifestações em Londres. Por isso, a polícia entrou no café e gritou “run!” e eles saíram correndo, tendo que retomar as gravações após 2 meses.

Como eu disse lá no começo, não havia mais senhas, apenas para os 200 que chegaram mais cedo no evento. Porém, eu e outros fãs aguardamos até o final e imploramos a uma das assessoras, que liberou a entrada. Foi adorável o comportamento dos funcionários da Cultura que permitiram a nossa entrada, ficaram comovidos em ver a expectativa de várias pessoas que vieram até de outro estado para vê-lo. No fim, foi tudo extremamente rápido. Um dos produtores falou em espanhol comigo, escrevendo meu nome no braço. Entrei na sala com mais seis amigos, na qual fui puxada pelo braço, pois era a única que tinha o nome.

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Havia várias pessoas falando comigo ao mesmo tempo em inglês, “do you want your sign here or there?”, disse uma funcionária duas vezes apontando freneticamente para o meu box de Sherlock, eu hesitei porque na sala estavam falando ainda em  português e espanhol, respondi “here”, apontando para a capa. O funcionário dizia ora para ficar num canto, ora em outro, todos querendo encerrar com muita rapidez. E Mark esperando com uma expressão tranquila, provavelmente segurando o riso, porque foi assim com quase todos que entraram de última hora. Era uma profusão de idiomas, gente falando ao mesmo tempo, nervosismo. Fiquei tão confusa que nem soube falar nada ao Gatiss, só o meu nome e agradeci a ele sorrindo. Não conseguia pensar em nada, só vem à mente ele assinando, dando um sorriso rápido para mim. Saí da sala falando “excuse me” enquanto os funcionários da porta respondiam em português. No corredor é que me dei conta de que tinha conseguido um autógrafo, algo que já havia aceitado ser impossível no meio de quase mil pessoas, durante as 14 horas que fiquei lá, desde a fila até a corrida pelo autógrafo.

Foi menos de um minuto o momento em que estive pertinho de Mark Gatiss, e 14 horas com colegas que conheci pessoalmente no evento, depois de falar com eles por alguns meses pelo facebook. Mas isso me faz lembrar o que falei sobre o tempo ser relativo. Pois ambas as experiências – com Gatiss e os fãs – ganharam a mesma dimensão, independente do tempo que duraram, tornando todo o cansaço numa vivência tão emocionante que me vi obrigada a relatá-la com detalhes. Pois, como diria o Sherlock, nós só olhamos, mas não observamos. A essência está nos detalhes.

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Walt nos bastidores da Mary Poppins

Publicada no site Literatortura

Dir. John Lee Hancock

Roteiro de Kelly Marcel, Sue Smith

Com Emma Thompson, Tom Hanks, Annie Rose Buckley, Colin Farrell, Ruth Wilson, Paul Giamatti, Bradley Whitford, B.J. Novak, Jason Schwartzman

EUA, Reino Unido, Austrália , 2013

Em 1964, uma babá vinda dos céus com um guarda-chuva falante e uma valise cheia de magia desceu em Londres, na casa dos Banks, e na história do cinema. Foi o ano em que os estúdios Walt Disney lançaram o clássico filme Mary Poppins, estrelado por Julie Andrews, a babá que se tornou um ícone para todos aqueles que se encantaram com o musical.

O filme atual Walt nos bastidores de Mary Poppins aborda o momento em que Disney tentava convencer  a autora Pamela Travers, quem criou a série de livrosMary Poppins, a ceder os direitos  para que a história fosse adaptada ao cinema. Isso durou 20 anos, em idas e vindas. Mas o filme atual fica entre os últimos anos nos quais Travers acompanhou a criação do filme e dava suas exigências constantes sobre como o filme deveria ser. Ela queria evitar uma Mary Poppins saltitante, o formato musical e a presença de Dick Van Dyke como o artista de rua Bert.

É verdade que Disney fez de Mary Poppins um filme musical açucarado. Mas a personagem parece honrar o ideário de Travers. A Mary Poppins de Julie Andrews demonstra doçura e carinho com muita sutileza e chega à casa dos Banks para por ordem no lugar. Ela sabe que é perfeita, exibe orgulho ao se recusar a demonstrar seus sentimentos pelas crianças, tenta ser rígida mas não friamente, enquanto olha todos a sua volta com certo ar de superioridade, o ponto em que vemos muito em comum com Travers.

Ambas são um tanto difíceis, mas a persistência de Travers e Poppins em não deixar a imaginação e os sonhos morrerem é o que as tornam fascinantes. Até mesmo o fato de Poppins dançar e cantar no filme é a representação de que ela veio para transgredir as regras da casa rígida do banqueiro Mr. Banks. E tanto conflito entre a autora e Walt Disney era pelo desejo de ver sua obra e, sobretudo, a personagem que salvou a sua infância ser retratada com dignidade.

É curioso observar, em Walt nos bastidores, a incerteza diante do enredo que se tornou um clássico. Ninguém, na época, imaginava a dimensão que o musical ganharia. Na verdade, é impossível prever isso durante o processo de criação. E poder acompanhar esse momento pelo filme o torna interessante, pois fica registrada na tela a dificuldade que existe para uma equipe criar um trabalho primoroso. Como público, só conhecemos o produto final. Mas Walt nos bastidores de Mary Poppins faz pensar acerca do processo difícil, das pessoas envolvidas. Assim, expõe, simultaneamente, a história de vida de Pamela Travers e uma homenagem ao legado da Disney.

É muito complicado para quem é um grande fã de Mary Poppins encontrar uma falha em Walt nos bastidores de Mary Poppins. Por quê? Ele traz à tona toda a nostalgia da infância em torno da babá, a alegria que significava ver o filme diversas vezes e nunca se cansar. E digo isso por mim. Com muito esforço, o único ponto em que se encontra certa falha no roteiro é a maneira com que foi conduzido o contraste entre Travers e Walt Disney.

No ano passado, fiz uma matéria sobre os bastidores do musical e a expectativa para o atual filme (confira aqui!). O receio era como a película tomaria a relação entre Travers e Disney, se seria tendencioso. Obviamente, por se tratar de um filme feito pelos estúdios Walt Disney, ele se mostra neutro quanto à postura do criador do Mickey. Isso resulta num enredo que apresenta uma complexa personalidade de Travers, mas faz de Disney apenas um artista bondoso e paciente esperando por 20 anos a fim de ver Mary Poppins. Será que ele foi assim mesmo? Sabemos que ele realmente gostava dos livros e havia prometido às filhas que os levaria às telas. Se não sentisse tanto carinho pela personagem, não teria persistido por 20 anos.

Contudo, não é difícil imaginar que Disney via em Mary Poppins também uma fonte de renda promissora. E que, para realizá-lo, precisava conquistar Travers pouco a pouco. Tanto quis preservar o sucesso do filme que não queria a presença de Travers na première.  O que quero dizer é que a história entre os dois pode ter sido ainda mais conflituosa, mas isso fica muito amenizado no filme, o qual prefere expor somente os dilemas da autora.

Se não fosse o trabalho delicado e complexo da excelente Emma Thompson ao interpretar sutilmente as várias facetas da difícil Pamela Travers, o filme cairia num maniqueísmo perigoso. Ela seria demonizada e se esqueceria  que Travers é a criadora de Mary Poppins. Emma Thompson consegue dosar o mau humor de Travers com a sua fragilidade e dívida com a infância complicada. O seu desejo em defender a obra  é totalmente compreensível. Não dava para saber se a adaptação seria bem sucedida. Por isso, é necessário tomar um pouco de cuidado ao ver Walt nos bastidores de Mary Poppins e não esquecer que Travers é a grande responsável pela existência da personagem.

Por sua vez, o trabalho de Tom Hanks como Walt Disney é bem construído, mas teria sido melhor desenvolvido se o roteiro levasse em consideração também a sua personalidade complexa. Quando se tem duas décadas que colocam uma autora e um produtor com interesses distintos num embate para ver quem ganha, há muito a ser mostrado. Ou pelo menos um passado para ambos com o qual seja difícil lidar quando se reencontram. É apenas isso o que falta no filme.  Assim, a rivalidade acumulada durante anos se mostra levemente e acaba-se optando por neutralizar o enredo difícil com um humor, que acaba funcionando apenas pelo ótimo timing de Thompson.

Quanto à parte técnica, a fotografia do filme aplica um tom colorido e vibrante à película, o que parece amenizar a tristeza do passado da autora e até sugere no figurino dela a interferência que significou conhecer a magia Disney. Ou seja, os estúdios Walt Disney tomaram muito cuidado ao criar esse filme, tentando  fazer uma homenagem que soasse doce e inofensiva ao seu criador. O filme acaba por tornar Travers numa pessoa amarga, mas que aceitou, até certa medida, a adaptação de sua obra. A questão é que a Travers real continuou odiando o filme e não deixou que a magia de Disney invadisse a sua vida.

Ademais, o título traduzido não foi uma boa escolha, é longo demais. Em inglês, ficou como Saving Mr.Banks, “Salvando Mr Banks”. Esse revela um pequeno spoiler (mas inofensivo) do filme. É um título bem pensado, o qual indica o verdadeiro motivo para Travers ter criado Mary Poppins e o ponto que une a autora à adaptação ao cinema. Ele representa a paz estabelecida entre Disney e Travers. Talvez poderia ter sido mantido “Salvando Mr.Banks” e adicionado como subtítulo “os bastidores de Mary Poppins”, pelo menos indicando a temática do filme.

Desta forma, Walt nos bastidores de Mary Poppins é um filme agradável de ser visto por quem é fã da obra e por quem ainda quer conhecer a babá. Porém, precisamos lembrar que ele não é totalmente fiel aos fatos e que foi a maneira romântica e quase ingênua pela qual os estúdios quiseram retratar uma história complicada. Os livros de Mary Poppins, escritos por Travers, merecem ser conhecidos também. Além disso, ao mesmo tempo, o filme nos faz pensar até que ponto o autor precisa aceitar que o seu personagem tem certa autonomia, e que um diretor tem o direito de tomar novos caminhos. Se Travers iria gostar da sua personificação no cinema, acho que a resposta seria “não”. Mas, felizmente, ao público resta contar com a obra literária e a fantástica criação do musical de 1964, especial até hoje para diversas gerações que sonham com Mary Poppins batendo à sua porta.

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Discurso de Lupita Nyong’o emociona e mostra o valor da beleza

Publicada no site Fashionatto

Lupita-Nyongo-Speech-Essence-Black-Women-Hollywood

No Dia Internacional da Mulher, seria  importante que as palavras sinceras da atriz premiada pelo Oscar Lupita Nyong’o não fossem esquecidas. Fazemos parte de um gênero que dificilmente sabemos como defini-lo, de acordo com Simone de Beauvoir, seríamos uma espécie de signo que fica ao lado oposto do universal masculino. Por conseguinte, encontramos as diversas facetas possíveis de uma mulher que não precisa ser definida, necessariamente, pela vestimenta que usa ou por sua maquiagem. Muitas vezes, a nossa dificuldade está em identificar as nuances das exigências estéticas e o machismo que nos limitam. Creio que, em face dessas dificuldades, cabe à mulher a transgressão de vestir a roupa que realmente lhe agrada e que a expressa à sua maneira.

Numa indústria cinematográfica em que se encontra o padrão da bela mulher magra, loira, é um alívio e uma grande alegria ver o respeito e a admiração que tomou parte da carreira de Lupita. No domingo, ela ganhou o Oscar de melhor atriz coadjuvante por 12 anos de escravidão, seu primeiro filme. A personagem a quem Lupita dá voz possui uma ingenuidade de uma menina que conhece, desde cedo, o terror da escravidão que a faz sofrer ininterruptamente nas mãos do senhor de escravos, interpretado por Michael Fassbender. Ela dá um realismo extremo a essa menina que não vê nenhum futuro para si mesma, mas sabe que é seu direito ter liberdade sobre seu corpo e se sentir bela aos próprios olhos. Não bela apenas como uma mulher ornada por um vestido, e sim uma mulher bela porque sabe que merece a liberdade e assume o seu corpo como ele é, de fato, uma propriedade apenas sua.

Além de um trabalho admirável e construído com muita delicadeza e sagacidade, Lupita é uma beleza negra e isso importa muito num espaço em que, por vezes, a mera citação “a atriz é negra” parece causar alvoroço. Não pode haver eufemismo para essa palavra. Como o mais novo ícone fashion, Lupita escolhe roupas que valorizam a cor de sua pele. E isso é importante de se destacar. Lupita não pretende escondê-la em cores que denominamos sóbrias ou discretas. A atriz escolhe cores fortes, ousadas e mostra que uma mulher precisa saber como adaptar a roupa a si mesma, e não o contrário. A vestimenta deve saber exaltar o que já existe de belo nas formas femininas.

Lupita Nyong’o fez um maravilhoso discurso no Black Women in Hollywood, essa semana. Abaixo está o vídeo da atriz e em seguida uma tradução livre do discurso.

Video aqui

Tradução: “Eu queria aproveitar esta oportunidade para falar sobre beleza. Beleza negra. Beleza escura. Eu recebi uma carta de uma garota e eu gostaria de compartilhar apenas uma pequena parte com vocês: “Querida Lupita”, ela diz, “eu acho que você é realmente sortuda por ser negra e ainda ter esse sucesso tão grande em Hollywood. Eu estava quase comprando o creme Dencia Whitenicious para clarear minha pele quando você apareceu no mapa e me salvou”.

Meu coração sangrou um pouco quando eu li essas palavras. Eu nunca poderia ter imaginado que o meu primeiro emprego fora da escola poderia ser tão poderoso em si mesmo e que isso me tornaria uma imagem de esperança da mesma forma que as mulheres de A Cor Púrpura foram para mim.

Eu lembro de uma época em que eu me sentia muito feia. Eu assistia TV e apenas via peles brancas, eu fui provocada e insultada por ter uma pele cor da noite. E minha única prece  a Deus, o milagreiro, era acordar com uma pele clara. Amanheceria e eu estaria tão animada vendo minha nova pele que não olharia para mim mesma até estar diante do espelho, porque queria ver meu rosto claro primeiro. E todo dia eu experimentei a mesma decepção de ser tão negra quanto eu era no dia anterior. Eu tentei negociar com Deus: eu falei a Ele que eu pararia de roubar cubos de açúcar à noite se Ele me desse o que eu queria; eu escutaria cada palavra da minha mãe e nunca mais perderia o moletom da escola  se ele apenas me fizesse ser mais clara. Mas eu acho que Deus não ficou impressionado com as minhas barganhas, porque Ele nunca as ouviu.

E quando eu era adolescente, essa falta de amor próprio piorou ainda mais, como vocês devem imaginar que acontece na adolescência. Minha mãe me lembrava constantemente como ela me achava bonita, mas não havia consolo: ela é minha mãe, claro que ela pensaria que sou bonita. E, então, Alek Wek surgiu no cenário internacional. Uma modelo celebrada, negra como a noite, ela estava em todas as passarelas e revistas e todo mundo estava comentando o quanto ela era linda. Até Oprah disse que ela era linda, e isso o tornava um fato. Eu não poderia acreditar que as pessoas estavam achando que uma mulher que se parecia tanto comigo era bonita. Meu complexo por minha pele havia sido sempre um obstáculo a ser superado e, de repente, Oprah estava me dizendo que não era. Isso foi desconcertante e eu queria rejeitar porque eu tinha começado a gostar da sedução da inadequação.

Mas uma flor não poderia deixar de florescer dentro de mim. Quando eu vi Alek, eu imediatamente vi um reflexo de mim mesma que eu não poderia negar.  Agora, eu tinha um impulso nos meus passos, porque me sentia mais vista, mais apreciada pelos tão distantes guardiões da beleza, mas à minha volta a preferência pela pele clara prevalecia. Para os espectadores que eu julgava serem importantes, eu ainda era feia. Minha mãe diria novamente a mim, “você não pode comer beleza.Isso não alimenta você”. E essas palavras me atormentavam e me incomodavam. Eu realmente não as entendia até, finalmente, perceber que beleza não era uma coisa que eu poderia adquirir ou consumir. Isso era algo que simplesmente tinha que ser.

E o que minha mãe queria dizer quando ela falava “você não pode comer beleza” era que não poderia confiar na sua beleza como o seu sustento. O que é fundamentalmente belo é a compaixão por si mesmo e por aqueles à sua volta. Esse tipo de beleza incendeia o coração e encanta a alma. Isso foi o que trouxe problemas a Patsey (12 anos de escravidão) com o seu senhor, mas também foi o que deu vida à sua história até hoje. Nós lembramos da beleza de seu espírito até mesmo após a beleza de seu corpo já ter desaparecido.

E, então, eu espero que a minha presença em suas telas e nas revistas possam guiar você, jovem menina, a uma jornada similar. Que você sinta a validação da sua beleza externa, mas também possa encontrar uma profunda beleza interior. Pois não há cor para essa beleza”.

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Análise completa dos vencedores do Oscar 2014

Resenha publicada no site Fashionatto

the oscars

Neste domingo (2), ocorreu a cerimônia do Oscar em Los Angeles, como já é tradição. Mas a noite foi mais inesperada do que talvez imaginávamos. Era certo que a lista de indicados estava com uma qualidade superior e, portanto, com uma dificuldade maior na seleção de seus vencedores. O grande premiado da noite foi Gravidade, com sete prêmios: Efeitos Visuais, Edição, Fotografia, Trilha Sonora e Diretor (Alfonso Cuáron), além de ganhar nas categorias técnicas de Mixagem de Som e Edição de Som. A cada anúncio, era inevitável repetir “Gravidade, de novo”. Nessas categorias, creio que pelo menos Fotografia poderia ter sido do preto e branco perolado muito bem construído de Nebraska, a Trilha Sonora riquíssima de Her (Ela) e realmente estava difícil visualizar qual poderia ser o melhor entre Mixagem de Som, Edição de Som e Efeitos Visuais, com o filme Hobbit: A desolação de Smaug nas três categorias.

Agora Alfonso Cuarón foi o primeiro latino-americano a ganhar um prêmio na categoria de Melhor Diretor. O trabalho dele em Gravidade é, de fato, inovador. Ele constrói um drama futurista que se mantém muito audacioso no teste sinestésico ao qual se propõe. Ele posiciona o espectador no mesmo abismo que a protagonista Ryan (Sandra Bullock). Por isso, o trabalho tem uma força de tirar o fôlego, formulando um espaço com a dimensão particular do diretor. Será interessante rever Gravidade agora e observar as novas sensações que ele pode provocar, se conseguirão ser tão intensas quanto o primeiro choque no cinema.

Nas categorias de Melhor ator coadjuvante e Melhor atriz coadjuvante, tivemos Jared Leto por Clube de Compras Dallas e Lupita N’yong’o, em 12 anos de escravidão. Uma premiação muito justa, uma vez que ambos se destacaram em seus papéis que exigiram muito pela dimensão dramática do roteiro. Lupita se consagrou com rapidez por sua aparição em 12 anos de escravidão, se tornando até mesmo ícone fashion. O discurso que ela fez levou muitos dos colegas às lágrimas (e não foi difícil provocar o mesmo no espectador). Jared agradeceu à sua mãe, acompanhante frequente nas premiações, sendo a consagração de um ator que fez um travesti em Dallas com muita delicadeza, sem optar pelo caminho fácil e por vezes ofensivo do estereótipo.

Em Melhor figurino, O Grande Gatsby, com suas vestimentas de tirar o fôlego nos frenéticos anos 20 ganhou merecidamente o prêmio. Em maquiagem e figurino (praticamente uma piada a indicação de Vovô sem vergonha e Cavaleiro solitário) felizmente venceu Clube de Compras Dallas, por seu trabalho respeitoso na caracterização dos personagens que envelheciam e demonstravam o impacto da AIDS com muito realismo, sem cair numa caricatura grosseira.

Quanto a melhor longa de animação, a lista estava bem composta, mas venceu o queridinho Frozen, o qual se tornou uma febre mundial com a sua trilha sonora e a doçura dos personagens da Disney. Uma observação: o filme francês Ernest e Celéstine merece ser visto, indicado na categoria, por trabalhar muito bem com a aquarela e uma história muito inteligente. The Croods e The Wind Rises, o último filme do diretor Miyazaki, também. O Meu Malvado Favorito 2, filme que se popularizou muito em 2013, é uma boa pedida para entreter. Frozen ganhou porque conta uma bela história entre irmãs bem dosada com o humor do boneco de neve Olaf e as músicas com grandes arranjos musicais, que engrandecem a obra.

No Melhor longa estrangeiro, quem levou a estatueta foi o italiano A Grande Beleza, o qual venceu outros prêmios como o Globo de Ouro pela bela referência que constrói com Fellini. Mas os outros da lista merecem estar lá, como o adorável Alabama Monroe (The Broken Circle Breakdown), que se faz como um filme musical pelo som do country e indie; A caça, o qual possui um enredo provocante e de reflexão extremamente pertinente, com o ator Mads Mikkelsen, que volta agora para a 2ª temporada da série Hannibal.

Houve uma pequena decepção, e até uma dorzinha no coração ao notar o nervosismo da atriz Idina Menzel ao ver a sua apresentação mediana, que cantou a tão aguardada Let it Go, do filme Frozen. Mesmo assim a bela música ganhou em Melhor canção. U2 se apresentou bem com Ordinary Love, de Mandela. E um grande destaque para a apresentação singela e a voz doce de Karen O cantando The Moon Song, do filme Ela (Her).

Nas principais categorias, Melhor Atriz ficou para Cate Blanchett, de Blue Jasmine, do diretor Woody Allen. Foi um trabalho primoroso, em que a personagem entra em depressão após os golpes do marido. Sua vida de riquezas fica para trás e Jasmine precisa, agora, morar com a irmã que sofreu um dos golpes do cunhado. Depois de tantos prêmios para Gravidade, bateu um receio de ver Sandra Bullock ganhar também. É claro que ela teve um papel excelente no filme de Cuarón, a questão é que queríamos ver outros filmes ganhando destaque aos olhos da Academia também.

Em Melhor Ator, o vencedor já era esperado: foi para Matthew McConaughey por Clube de Compras Dallas. Mas havia uma grande torcida para que Leonardo DiCaprio finalmente ganhasse seu primeiro Oscar após várias indicações. Vimos o ator se desafiar em papéis cada vez mais complexos, após o seu primeiro sucesso em Titanic. A verdade é que, para mim, ainda não desceu esse prêmio, por não ter ido para o Leo. O seu personagem em O Lobo de Wall Street tem uma força descomunal e vai além dos limites da sanidade. O papel de Matthew foi excelente, emagreceu 20 quilos para interpretar o seu personagem que descobre que está com AIDS, e o faz com muita perspicácia. Mesmo assim, ainda vai permanecer a vontade de ter visto DiCaprio no palco. Fico aqui sozinha ouvindo o soar do Chest Beat. Se você não sabe o que é, veja aqui. Detalhe: Matthew atuou com DiCaprio em O Lobo de Wall Street, numa rápida aparição, e é quem faz essa cena. Resta-me agora ficar aqui murmurando essa batida em respeito à interpretação de DiCaprio em O Lobo de Wall Street.

Aliás, o tão aclamado filme O Lobo de Wall Street, de Martin Scorsese, acabou por ficar apenas com as indicações, o que é uma pena, pois o filme está entre os melhores da lista. O filme Ela passou pelo mesmo, só ganhando em roteiro original, o que me fez gritar exultante, é verdade. O roteiro de Ela é impecável e é daqueles filmes que faz os adoradores da escrita e do cinema desejar tê-lo escrito. Em roteiro adaptado, 12 anos de escravidão conquistou a estatueta, baseado na autobiografia do protagonista, escrita em 1853. Um fenômeno que precisa ser lido e visto.

E isso me leva, por fim, a falar que o Melhor Filme ficou para 12 anos de escravidão. A lista tinha excelentes obras, mas 12 anos tem uma mensagem de profundidade inquestionável. O elenco tem uma interação muito bem construída pelo diretor Steve McQueen, o qual pulou euforicamente no palco e fechou a noite nos deixando emocionados ao ver que uma história que merecia ser contada entrou para a História do Cinema.

A CERIMÔNIA

Deixando de lado a parte técnica sobre os filmes, não posso esquecer de dizer que a cerimônia foi apresentada por Ellen Degeneres com o seu humor característico. O começo foi um tanto morno, mas aos poucos a apresentadora foi trazendo leveza ao prêmio. Uma das melhores partes foi quando ela resolveu reunir vários atores para tirar uma foto e ver se seria retuítada muitas vezes. O que aconteceu? O twitter saiu do ar depois de milhares de compartilhamentos da foto com Meryl Streep, Jennifer Lawrence, Bradley Cooper, Brad Pitt. Na descrição da foto, Ellen diz que se o braço de Bradley Cooper fosse mais longo, seria a melhor foto já vista.

Mas acho que o melhor momento foi a pizza servida pela Ellen entre os atores. Ela entrou no palco com 3 caixas de pizza e pediu ajuda para o Brad Pitt servir, o qual foi passando para o lado os pratinhos de plástico e os guardanapos num momento desorganizado em que a Meryl Streep tentava desesperadamente pegar um pedaço de pizza. E ela pegou sem guardanapo, na mão mesmo, sem frescura, nunca me senti tão próxima dela. Jared Leto passou um pedaço para a mãe dele. Jennifer Lawrence comia com vontade. E a Ellen depois passou um chapéu pedindo dinheiro para os atores pagarem a pizza. Foi um momento esperto que agitou a premiação sempre cheia de formalidades, em que vimos os famosos comendo na mesma espontaneidade que a gente tem num churrasco, com pratinho de plástico e acabou deixando a gente com vontade de comer pizza na madrugada.

Sério, olha como isso é perfeito, parecem até que estão numa sexta-feira na nossa casa comendo pizza. Valeu, Ellen, por essa imagem.

Bom, ano passado Jennifer Lawrence, a nova queridinha de Hollywood, caiu na escada prestes a pegar o seu prêmio de Melhor Atriz. E desta vez ela caiu no tapete vermelho, mas se levantou com a naturalidade e humor que já são conhecidos da atriz. A presença dela nas premiações sempre acaba sendo agradável, pela espontaneidade que tem e, claro, pelo talento.

Mas como uma fã fervorosa do ator Benedict Cumberbatch, que interpreta Sherlock Holmes na série britânica Sherlock da BBC, eu adorei cada aparição do ator na cerimônia. Ele apresentou a categoria de Melhor design de produção ao lado da atriz Jennifer Garner. Conseguiu a proeza de estar em 4 dos filmes indicados ao Oscar (Star Trek: Além da escuridão, Hobbit: A desolação de Smaug, 12 anos de escravidão, Álbum de Família). E ainda subiu ao palco junto ao elenco por 12 anos de escravidão, em Melhor Filme. Tudo isso já seria válido quando citamos Benedict. Contudo, o humor do britânico ganhou espaço na internet na melhor photobomb: ele deu um pulinho e apareceu atrás da foto do U2, acabando com a formalidade.

 benedict oscar

Confira a lista dos vencedores aqui