12 anos de escravidão

Dir. Steve McQueen
Roteiro de John Ridley
Com Chiwetel Ejiofor, Benedict Cumberbatch, Brad Pitt, Michael Fassbender, Paul Dano, Quvenzhané Wallis, Sarah Paulson, Paul Giamatti, Garret Dillahunt, Michael K. Williams, Taran Killam, Alfre Woodard, Lupita Nyong’o
 
Indicado ao Oscar 2014 nas categorias: Melhor Filme, Melhor diretor, Melhor ator (Chiwetel Ejiofor), Melhor ator coadjuvante (Michael Fassbender), Melhor atriz coadjuvante (Lupita Nyong’o), Melhor roteiro adaptado, Melhor figurino, Melhor montagem, Melhor design de produção
 

12-years-a-slaveBaseado em fatos reais, nos relatos descritos por Solomon Northup reunidos na autobiografia homônima de 1853, 12 anos de escravidão é uma história de pertinência indubitável. Ela deve ser contada. Pode ser que muitos não conheçam a obra literária, portanto o filme de Steven McQueen é uma oportunidade de trazer à tona um relato com o qual não há apenas comoção, mas um compromisso em destacar o preconceito que, infelizmente, é atemporal.  Sabemos que esse ano a notícia de que um ladrão foi amarrado desnudo no poste da rua e agredido no Rio de Janeiro após o furto não deixa de ser mais um indício de que ouvir a história de Solomon é de extrema importância.

O filme conta a história de Solomon, um violinista e escravo liberto, que tem uma vida confortável ao lado da esposa e dos filhos. Porém, em 1841 ele é sequestrado e vendido como escravo para William Ford (Benedict Cumberbatch) e posteriormente, para Edwin Epps (Michael Fassbender), com quem sofre as mazelas da escravidão com ainda mais crueldade. O primeiro senhor de escravos é um sujeito agradável e pacífico, à primeira vista, mas omisso quanto à violência que escravos sofrem e prefere fechar os olhos ao verdadeiro direito deles que se nega a eles. Ford fornece ao filme a possibilidade de pensar o paternalismo. Será que vale ter um senhor de escravos que o trata agradavelmente com os limites que são permitidos? Ou mais vale a sua liberdade e ser tratado igualmente? Certamente, é essa segunda resposta em que Solomon acredita mais.

O ódio e o desejo de poder se personificam em Edwin, personagem cruel muito bem interpretado por Fassbender. Ele é o típico senhor de escravos que pune pelo açoite com imenso prazer, coloca os escravos embaixo de sol o dia inteiro nas plantações de algodão e à noite abusa da escrava, enquanto durante o dia a esposa a destrata violentamente porque acha que tem seu poderio ameaçado dentro da casa. As relações se encontram todas corrompidas nesse cenário. Solomon mantém uma esperança, mas ela não ressoa pelas palavras, no filme. Muitas vezes elas estão no silêncio e na verdade que ele precisa engolir para sobreviver.

Steve McQueen faz um trabalho primoroso com 12 anos de escravidão. A trilha sonora tem a dosagem certa na edição, dando lugar, em alguns momentos, ao silêncio e à cena estendida para que o espectador consiga sentir a agonia e o sofrimento de Solomon e dos outros personagens. É surpreendente o trabalho do diretor em extrair de cenas emblemáticas uma profundidade de sensações sem exagerar.

Um filme sobre a temática, muitas vezes, acaba optando por uma exposição maior de cenas de violência. É verdade que 12 anos as têm inseridas no enredo, porque estavam lá, no período histórico retratado. O ponto brilhante do filme, porém, é que ele consegue não se manter neutro (e aí as cenas seriam amenizadas), mas também não fica provocando a dor e a violência por minutos a fio, como se quisesse testar o quanto aguentamos ver. O diretor vai direto ao ponto na emoção que pretende transmitir. E isso se une às atuações excepcionais e ao silêncio da fazenda que guarda aquelas imagens terríveis que nunca deveriam existir.

Em relação ao elenco, Chiwetel Ejiofor lidera o filme como um Solomon de força descomunal. Apenas pelo olhar ou um choro escondido, ele consegue levar o desejo raivoso pela liberdade ao espectador também. Benedict Cumberbatch, com uma participação pequena no filme, convence bem como William Ford, o qual resguarda até certa ingenuidade diante da escravidão que povoa sua fazenda, característica muito bem transmitida pelo olhar de Benedict. No caso de Michael Fassbender, o medo toma forma e o ódio pelo senhor de escravos vai se consumindo no decorrer do filme, num misto de raiva e surpresa com a sua atuação espontânea. Paul Dano, o qual interpreta Tibeats, deixa de lado a inocência de personagens anteriores e incorpora um capataz desprezível. Por fim, Lupita Nyong’o é uma excelente surpresa no elenco. Sua personagem, Patsey, demonstra a inocência de uma menina que nunca conheceu a infância em face a uma mulher que precisa aprender a aguentar a violência para que consiga sobreviver.

Desta forma, 12 anos de escravidão é um filme que sabe dosar certa discrição em algumas cenas e apostar profundamente nas mais emblemáticas a fim de que o enredo cresça como um todo. Mas, além disso, ele nos faz contemplar uma história que não pode ser esquecida, sobre um homem que tentou a todo custo reaver a liberdade que lhe foi tirada porque aos olhos de uma sociedade ele não tinha o direito de exercê-la e ser visto como um ser humano.

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