O glamour dos anos 70 no figurino de Trapaça

Matéria publicada no site Fashionatto

Indicado à categoria de Melhor figurino no Oscar 2014, que ocorre amanhã em Los Angeles, Trapaça encarna a vestimenta setentista, com o exagero das bocas de sino, os cabelos armados em penteados grandiosos, os cachinhos e o estilo insinuante de uma época que via na roupa uma libertação do imaginário ficcional. O brilho e o tom aumentado das peças e dos tons ganham vida no filme de David O.Russell e contam uma história que vai além de uma mera roupa. Elas falam muito sobre seus personagens.

Entre as peças usadas pelos personagens, encontramos uma variedade de marcas consagradas: Halston, Fiorucci e Gucci. O glamour do período, as curvas marcantes dos corpos femininos e os ternos de tons fortes se misturam à sofisticação das marcas. Apesar do cinema já ter adotado constantemente a década como cenário para seus filmes, Trapaça consegue sair do comum. O trabalho com o figurino é cautelosamente pensado para que não soe falso, clichê ou estereotipado demais.

A história do filme se trata da união entre os trapaceiros que dão a característica ao título em português. Irving (Christian Bale) se envolve com Sydney Prosser (Amy Adams), a qual se torna sócia em um negócio de falsificação de obras de arte. Logo, eles são forçados a trabalhar com o agente do FBI Richie DiMaso (Bradley Cooper). Somado ao grupo, está Rosalyn (Jennifer Lawrence), esposa de Irving.

David O.Russell cria um trabalho de direção que pretende por o comportamento desses personagens numa lente de aumento para que soem absurdas as trapaças e caminhos que escolhem. E, para isso, o figurino possui um caráter fundamental. Se a realidade ganha a aparência de non sense e traz à tona a comicidade, o figurino deve acompanhar tal representação, mas de maneira que se encontre a medida certa para o espectador apostar nos personagens e levá-los a sério, fugindo da caricatura.

Vemos Irving usando peruca para que seja levado a sério como um homem de negócios e elegante. Ele e Sydney têm o primeiro beijo entre as roupas que se tornam parte da relação de ambos, é como se os cabides soubessem quem eles são de verdade. Parece que vai além da intenção de se ter um disfarce: a roupa é o modo que encontram para sobreviver, ela transmite a mensagem de que são sérios e distintos do restante. Para isso, a roupa precisa ser convincente. É quase um trabalho metalinguístico: os personagens tomam esse cuidado no enredo e o próprio filme faz o mesmo.

O responsável pelo figurino da película é Michael Wilkinson, o qual criou também os figurinos de filmes como “300″, “Babel” e “A Saga Crepúsculo: Amanhecer – Parte 1″.  O trabalho de Michael é aparentar um glamour que talvez não exista em tal profissão, a qual se faz à surdina. Ironicamente, o que aparece aos olhos dos negociantes é o figurino, o qual sabe bem o que dizer e representar, trabalho muito bem executado pela equipe de produção. Ao mesmo tempo em que se deseja disfarçar o crime cometido, a roupa impulsiona-os a criar uma nova face: Sydney é a elegante, bela e culta britânica que surpreende o outro pela sua inteligência e o decote; Irving se faz como o tranquilo e bonachão negociante, face em equilíbrio com o caráter persuasivo de Sydney, até no equilíbrio entre o brilho e as roupas sóbrias.

DiMaso usa ternos com tons os quais destoam, por alguns momentos, e o cabelo cacheado para causar a impressão de um agente malandro, quando na verdade mora com a mãe e usa bobs à noite para produzir esse efeito, revelando as inseguranças do jovem agente em se integrar à profissão.

Rosalyn mantém o cabelo num penteado imponente, assim como o seu orgulho, algo que não quer perder considerando que sua vida parece ser vazia aos seus olhos, tentando se assemelhar ao glamour com que o marido lida. O que ela faz? Aposta no vestido branco e nas unhas em destaque. Quando as mulheres colocam seus vestidos justos e os cabelos num penteado impressionante, é pelo desejo – e talvez a única forma que creem existir, nos anos 70 – de serem alguém aos olhos dos outros. Não apenas elas, mas os personagens masculinos se encaixam ao terno para que sejam respeitados.

Michael Wilkinson ressalta (vídeo aqui) que os vestidos de Halston, com os decotes fundos e o brilho povoando cada centímetro do tecido dão uma liberdade à mulher que os usa, como se apresentassem um poder imenso. A mistura entre colete, lenço e uma camisa listrada em Irving fazem do personagem uma tentativa de aparentar sagacidade e conhecimento sobre artes e cultura. A composição de Rosalyn, por exemplo, consegue ser desmontada e renovada no decorrer do filme, ela vai do moletom ao vestido cheio de curvas em poucos instantes. E isso mostra até mesmo a sua instabilidade.

Assim, o figurino é a interação entre os personagens e a honra que eles buscam resguardar nesse mundo instável de golpistas que sempre sentem medo de serem passados para trás. Por vezes, o filme explora tons que entram em harmonia ou em contraste entre os personagens, encaixando-se com o roteiro. O fracasso nunca pode transparecer aos outros. A roupa faz o papel de um invólucro que os defendem e os conduzem à ação. Por isso, o trabalho de Michael Wilkinson merece destaque quando falamos de Trapaça.

Clique aqui para ver o vídeo ao The New York Times em que Michael Wilkinson mostra algumas peças do filme

 

 

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