Análise completa dos vencedores do Oscar 2014

Resenha publicada no site Fashionatto

the oscars

Neste domingo (2), ocorreu a cerimônia do Oscar em Los Angeles, como já é tradição. Mas a noite foi mais inesperada do que talvez imaginávamos. Era certo que a lista de indicados estava com uma qualidade superior e, portanto, com uma dificuldade maior na seleção de seus vencedores. O grande premiado da noite foi Gravidade, com sete prêmios: Efeitos Visuais, Edição, Fotografia, Trilha Sonora e Diretor (Alfonso Cuáron), além de ganhar nas categorias técnicas de Mixagem de Som e Edição de Som. A cada anúncio, era inevitável repetir “Gravidade, de novo”. Nessas categorias, creio que pelo menos Fotografia poderia ter sido do preto e branco perolado muito bem construído de Nebraska, a Trilha Sonora riquíssima de Her (Ela) e realmente estava difícil visualizar qual poderia ser o melhor entre Mixagem de Som, Edição de Som e Efeitos Visuais, com o filme Hobbit: A desolação de Smaug nas três categorias.

Agora Alfonso Cuarón foi o primeiro latino-americano a ganhar um prêmio na categoria de Melhor Diretor. O trabalho dele em Gravidade é, de fato, inovador. Ele constrói um drama futurista que se mantém muito audacioso no teste sinestésico ao qual se propõe. Ele posiciona o espectador no mesmo abismo que a protagonista Ryan (Sandra Bullock). Por isso, o trabalho tem uma força de tirar o fôlego, formulando um espaço com a dimensão particular do diretor. Será interessante rever Gravidade agora e observar as novas sensações que ele pode provocar, se conseguirão ser tão intensas quanto o primeiro choque no cinema.

Nas categorias de Melhor ator coadjuvante e Melhor atriz coadjuvante, tivemos Jared Leto por Clube de Compras Dallas e Lupita N’yong’o, em 12 anos de escravidão. Uma premiação muito justa, uma vez que ambos se destacaram em seus papéis que exigiram muito pela dimensão dramática do roteiro. Lupita se consagrou com rapidez por sua aparição em 12 anos de escravidão, se tornando até mesmo ícone fashion. O discurso que ela fez levou muitos dos colegas às lágrimas (e não foi difícil provocar o mesmo no espectador). Jared agradeceu à sua mãe, acompanhante frequente nas premiações, sendo a consagração de um ator que fez um travesti em Dallas com muita delicadeza, sem optar pelo caminho fácil e por vezes ofensivo do estereótipo.

Em Melhor figurino, O Grande Gatsby, com suas vestimentas de tirar o fôlego nos frenéticos anos 20 ganhou merecidamente o prêmio. Em maquiagem e figurino (praticamente uma piada a indicação de Vovô sem vergonha e Cavaleiro solitário) felizmente venceu Clube de Compras Dallas, por seu trabalho respeitoso na caracterização dos personagens que envelheciam e demonstravam o impacto da AIDS com muito realismo, sem cair numa caricatura grosseira.

Quanto a melhor longa de animação, a lista estava bem composta, mas venceu o queridinho Frozen, o qual se tornou uma febre mundial com a sua trilha sonora e a doçura dos personagens da Disney. Uma observação: o filme francês Ernest e Celéstine merece ser visto, indicado na categoria, por trabalhar muito bem com a aquarela e uma história muito inteligente. The Croods e The Wind Rises, o último filme do diretor Miyazaki, também. O Meu Malvado Favorito 2, filme que se popularizou muito em 2013, é uma boa pedida para entreter. Frozen ganhou porque conta uma bela história entre irmãs bem dosada com o humor do boneco de neve Olaf e as músicas com grandes arranjos musicais, que engrandecem a obra.

No Melhor longa estrangeiro, quem levou a estatueta foi o italiano A Grande Beleza, o qual venceu outros prêmios como o Globo de Ouro pela bela referência que constrói com Fellini. Mas os outros da lista merecem estar lá, como o adorável Alabama Monroe (The Broken Circle Breakdown), que se faz como um filme musical pelo som do country e indie; A caça, o qual possui um enredo provocante e de reflexão extremamente pertinente, com o ator Mads Mikkelsen, que volta agora para a 2ª temporada da série Hannibal.

Houve uma pequena decepção, e até uma dorzinha no coração ao notar o nervosismo da atriz Idina Menzel ao ver a sua apresentação mediana, que cantou a tão aguardada Let it Go, do filme Frozen. Mesmo assim a bela música ganhou em Melhor canção. U2 se apresentou bem com Ordinary Love, de Mandela. E um grande destaque para a apresentação singela e a voz doce de Karen O cantando The Moon Song, do filme Ela (Her).

Nas principais categorias, Melhor Atriz ficou para Cate Blanchett, de Blue Jasmine, do diretor Woody Allen. Foi um trabalho primoroso, em que a personagem entra em depressão após os golpes do marido. Sua vida de riquezas fica para trás e Jasmine precisa, agora, morar com a irmã que sofreu um dos golpes do cunhado. Depois de tantos prêmios para Gravidade, bateu um receio de ver Sandra Bullock ganhar também. É claro que ela teve um papel excelente no filme de Cuarón, a questão é que queríamos ver outros filmes ganhando destaque aos olhos da Academia também.

Em Melhor Ator, o vencedor já era esperado: foi para Matthew McConaughey por Clube de Compras Dallas. Mas havia uma grande torcida para que Leonardo DiCaprio finalmente ganhasse seu primeiro Oscar após várias indicações. Vimos o ator se desafiar em papéis cada vez mais complexos, após o seu primeiro sucesso em Titanic. A verdade é que, para mim, ainda não desceu esse prêmio, por não ter ido para o Leo. O seu personagem em O Lobo de Wall Street tem uma força descomunal e vai além dos limites da sanidade. O papel de Matthew foi excelente, emagreceu 20 quilos para interpretar o seu personagem que descobre que está com AIDS, e o faz com muita perspicácia. Mesmo assim, ainda vai permanecer a vontade de ter visto DiCaprio no palco. Fico aqui sozinha ouvindo o soar do Chest Beat. Se você não sabe o que é, veja aqui. Detalhe: Matthew atuou com DiCaprio em O Lobo de Wall Street, numa rápida aparição, e é quem faz essa cena. Resta-me agora ficar aqui murmurando essa batida em respeito à interpretação de DiCaprio em O Lobo de Wall Street.

Aliás, o tão aclamado filme O Lobo de Wall Street, de Martin Scorsese, acabou por ficar apenas com as indicações, o que é uma pena, pois o filme está entre os melhores da lista. O filme Ela passou pelo mesmo, só ganhando em roteiro original, o que me fez gritar exultante, é verdade. O roteiro de Ela é impecável e é daqueles filmes que faz os adoradores da escrita e do cinema desejar tê-lo escrito. Em roteiro adaptado, 12 anos de escravidão conquistou a estatueta, baseado na autobiografia do protagonista, escrita em 1853. Um fenômeno que precisa ser lido e visto.

E isso me leva, por fim, a falar que o Melhor Filme ficou para 12 anos de escravidão. A lista tinha excelentes obras, mas 12 anos tem uma mensagem de profundidade inquestionável. O elenco tem uma interação muito bem construída pelo diretor Steve McQueen, o qual pulou euforicamente no palco e fechou a noite nos deixando emocionados ao ver que uma história que merecia ser contada entrou para a História do Cinema.

A CERIMÔNIA

Deixando de lado a parte técnica sobre os filmes, não posso esquecer de dizer que a cerimônia foi apresentada por Ellen Degeneres com o seu humor característico. O começo foi um tanto morno, mas aos poucos a apresentadora foi trazendo leveza ao prêmio. Uma das melhores partes foi quando ela resolveu reunir vários atores para tirar uma foto e ver se seria retuítada muitas vezes. O que aconteceu? O twitter saiu do ar depois de milhares de compartilhamentos da foto com Meryl Streep, Jennifer Lawrence, Bradley Cooper, Brad Pitt. Na descrição da foto, Ellen diz que se o braço de Bradley Cooper fosse mais longo, seria a melhor foto já vista.

Mas acho que o melhor momento foi a pizza servida pela Ellen entre os atores. Ela entrou no palco com 3 caixas de pizza e pediu ajuda para o Brad Pitt servir, o qual foi passando para o lado os pratinhos de plástico e os guardanapos num momento desorganizado em que a Meryl Streep tentava desesperadamente pegar um pedaço de pizza. E ela pegou sem guardanapo, na mão mesmo, sem frescura, nunca me senti tão próxima dela. Jared Leto passou um pedaço para a mãe dele. Jennifer Lawrence comia com vontade. E a Ellen depois passou um chapéu pedindo dinheiro para os atores pagarem a pizza. Foi um momento esperto que agitou a premiação sempre cheia de formalidades, em que vimos os famosos comendo na mesma espontaneidade que a gente tem num churrasco, com pratinho de plástico e acabou deixando a gente com vontade de comer pizza na madrugada.

Sério, olha como isso é perfeito, parecem até que estão numa sexta-feira na nossa casa comendo pizza. Valeu, Ellen, por essa imagem.

Bom, ano passado Jennifer Lawrence, a nova queridinha de Hollywood, caiu na escada prestes a pegar o seu prêmio de Melhor Atriz. E desta vez ela caiu no tapete vermelho, mas se levantou com a naturalidade e humor que já são conhecidos da atriz. A presença dela nas premiações sempre acaba sendo agradável, pela espontaneidade que tem e, claro, pelo talento.

Mas como uma fã fervorosa do ator Benedict Cumberbatch, que interpreta Sherlock Holmes na série britânica Sherlock da BBC, eu adorei cada aparição do ator na cerimônia. Ele apresentou a categoria de Melhor design de produção ao lado da atriz Jennifer Garner. Conseguiu a proeza de estar em 4 dos filmes indicados ao Oscar (Star Trek: Além da escuridão, Hobbit: A desolação de Smaug, 12 anos de escravidão, Álbum de Família). E ainda subiu ao palco junto ao elenco por 12 anos de escravidão, em Melhor Filme. Tudo isso já seria válido quando citamos Benedict. Contudo, o humor do britânico ganhou espaço na internet na melhor photobomb: ele deu um pulinho e apareceu atrás da foto do U2, acabando com a formalidade.

 benedict oscar

Confira a lista dos vencedores aqui

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2 comentários sobre “Análise completa dos vencedores do Oscar 2014

  1. Marina, você escreve com muita propriedade e sabedoria. Tudo bem, que vc transmite a sua opinião, algumas vezes, diferente da minha e de outras, mas é muito gostoso ler. Acho que você poderia ser uma jornalista bem famosa, aliás, o seu caminho está praticamente traçado. Nos dá muito orgulho em saber que tudo começou no Henri Wallon. Amei! Beijos. Lourdes

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    • Lourdes, fico muito feliz pelo seu comentário!! Dá muita alegria saber que leu a resenha que fiz com muito carinho, fiquei mais imersa do que de costume esse ano, no Oscar, porque desta vez prometi que veria o máximo de filmes da lista e escreveria sobre eles. No fim, assisti 21 filmes e fiz a resenha de 12 deles em menos de um mês, foi uma loucura. Mas ano que vem pretendo escrever muito mais sobre os filmes. Continue acompanhando o blog 🙂 beijinhos!

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