Discurso de Lupita Nyong’o emociona e mostra o valor da beleza

Publicada no site Fashionatto

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No Dia Internacional da Mulher, seria  importante que as palavras sinceras da atriz premiada pelo Oscar Lupita Nyong’o não fossem esquecidas. Fazemos parte de um gênero que dificilmente sabemos como defini-lo, de acordo com Simone de Beauvoir, seríamos uma espécie de signo que fica ao lado oposto do universal masculino. Por conseguinte, encontramos as diversas facetas possíveis de uma mulher que não precisa ser definida, necessariamente, pela vestimenta que usa ou por sua maquiagem. Muitas vezes, a nossa dificuldade está em identificar as nuances das exigências estéticas e o machismo que nos limitam. Creio que, em face dessas dificuldades, cabe à mulher a transgressão de vestir a roupa que realmente lhe agrada e que a expressa à sua maneira.

Numa indústria cinematográfica em que se encontra o padrão da bela mulher magra, loira, é um alívio e uma grande alegria ver o respeito e a admiração que tomou parte da carreira de Lupita. No domingo, ela ganhou o Oscar de melhor atriz coadjuvante por 12 anos de escravidão, seu primeiro filme. A personagem a quem Lupita dá voz possui uma ingenuidade de uma menina que conhece, desde cedo, o terror da escravidão que a faz sofrer ininterruptamente nas mãos do senhor de escravos, interpretado por Michael Fassbender. Ela dá um realismo extremo a essa menina que não vê nenhum futuro para si mesma, mas sabe que é seu direito ter liberdade sobre seu corpo e se sentir bela aos próprios olhos. Não bela apenas como uma mulher ornada por um vestido, e sim uma mulher bela porque sabe que merece a liberdade e assume o seu corpo como ele é, de fato, uma propriedade apenas sua.

Além de um trabalho admirável e construído com muita delicadeza e sagacidade, Lupita é uma beleza negra e isso importa muito num espaço em que, por vezes, a mera citação “a atriz é negra” parece causar alvoroço. Não pode haver eufemismo para essa palavra. Como o mais novo ícone fashion, Lupita escolhe roupas que valorizam a cor de sua pele. E isso é importante de se destacar. Lupita não pretende escondê-la em cores que denominamos sóbrias ou discretas. A atriz escolhe cores fortes, ousadas e mostra que uma mulher precisa saber como adaptar a roupa a si mesma, e não o contrário. A vestimenta deve saber exaltar o que já existe de belo nas formas femininas.

Lupita Nyong’o fez um maravilhoso discurso no Black Women in Hollywood, essa semana. Abaixo está o vídeo da atriz e em seguida uma tradução livre do discurso.

Video aqui

Tradução: “Eu queria aproveitar esta oportunidade para falar sobre beleza. Beleza negra. Beleza escura. Eu recebi uma carta de uma garota e eu gostaria de compartilhar apenas uma pequena parte com vocês: “Querida Lupita”, ela diz, “eu acho que você é realmente sortuda por ser negra e ainda ter esse sucesso tão grande em Hollywood. Eu estava quase comprando o creme Dencia Whitenicious para clarear minha pele quando você apareceu no mapa e me salvou”.

Meu coração sangrou um pouco quando eu li essas palavras. Eu nunca poderia ter imaginado que o meu primeiro emprego fora da escola poderia ser tão poderoso em si mesmo e que isso me tornaria uma imagem de esperança da mesma forma que as mulheres de A Cor Púrpura foram para mim.

Eu lembro de uma época em que eu me sentia muito feia. Eu assistia TV e apenas via peles brancas, eu fui provocada e insultada por ter uma pele cor da noite. E minha única prece  a Deus, o milagreiro, era acordar com uma pele clara. Amanheceria e eu estaria tão animada vendo minha nova pele que não olharia para mim mesma até estar diante do espelho, porque queria ver meu rosto claro primeiro. E todo dia eu experimentei a mesma decepção de ser tão negra quanto eu era no dia anterior. Eu tentei negociar com Deus: eu falei a Ele que eu pararia de roubar cubos de açúcar à noite se Ele me desse o que eu queria; eu escutaria cada palavra da minha mãe e nunca mais perderia o moletom da escola  se ele apenas me fizesse ser mais clara. Mas eu acho que Deus não ficou impressionado com as minhas barganhas, porque Ele nunca as ouviu.

E quando eu era adolescente, essa falta de amor próprio piorou ainda mais, como vocês devem imaginar que acontece na adolescência. Minha mãe me lembrava constantemente como ela me achava bonita, mas não havia consolo: ela é minha mãe, claro que ela pensaria que sou bonita. E, então, Alek Wek surgiu no cenário internacional. Uma modelo celebrada, negra como a noite, ela estava em todas as passarelas e revistas e todo mundo estava comentando o quanto ela era linda. Até Oprah disse que ela era linda, e isso o tornava um fato. Eu não poderia acreditar que as pessoas estavam achando que uma mulher que se parecia tanto comigo era bonita. Meu complexo por minha pele havia sido sempre um obstáculo a ser superado e, de repente, Oprah estava me dizendo que não era. Isso foi desconcertante e eu queria rejeitar porque eu tinha começado a gostar da sedução da inadequação.

Mas uma flor não poderia deixar de florescer dentro de mim. Quando eu vi Alek, eu imediatamente vi um reflexo de mim mesma que eu não poderia negar.  Agora, eu tinha um impulso nos meus passos, porque me sentia mais vista, mais apreciada pelos tão distantes guardiões da beleza, mas à minha volta a preferência pela pele clara prevalecia. Para os espectadores que eu julgava serem importantes, eu ainda era feia. Minha mãe diria novamente a mim, “você não pode comer beleza.Isso não alimenta você”. E essas palavras me atormentavam e me incomodavam. Eu realmente não as entendia até, finalmente, perceber que beleza não era uma coisa que eu poderia adquirir ou consumir. Isso era algo que simplesmente tinha que ser.

E o que minha mãe queria dizer quando ela falava “você não pode comer beleza” era que não poderia confiar na sua beleza como o seu sustento. O que é fundamentalmente belo é a compaixão por si mesmo e por aqueles à sua volta. Esse tipo de beleza incendeia o coração e encanta a alma. Isso foi o que trouxe problemas a Patsey (12 anos de escravidão) com o seu senhor, mas também foi o que deu vida à sua história até hoje. Nós lembramos da beleza de seu espírito até mesmo após a beleza de seu corpo já ter desaparecido.

E, então, eu espero que a minha presença em suas telas e nas revistas possam guiar você, jovem menina, a uma jornada similar. Que você sinta a validação da sua beleza externa, mas também possa encontrar uma profunda beleza interior. Pois não há cor para essa beleza”.

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