Um relato sobre a vinda de Mark Gatiss, co-criador de Sherlock, a São Paulo

Matéria publicada no site Literatortura

Neste sábado (15), Mark Gatiss esteve na Livraria Cultura do shopping Iguatemi em São Paulo para uma sessão de autógrafos e um bate-papo sobre as séries em que está envolvido. Gatiss é co-criador de Sherlock, série britânica da BBC na qual interpreta Mycroft, irmão de Sherlock, e ainda é roteirista de alguns episódios de Doctor Who, como o especial An Adventure in space and time. Como se vê, Gatiss é bem sucedido em suas participações em duas séries extremamente populares na Inglaterra, mas as quais se expandiram a outros países rapidamente. A vinda de Gatiss certamente teve o objetivo de medir o público das séries e traz a expectativa de que ainda tenha uma convenção de Sherlock no Brasil.

Como uma fã que sofreu por semanas pensando em ir ao evento e se haveria muita gente como eu na fila, eu cheguei às 8h acreditando que seria suficiente estar adiantada por duas horas até que o shopping abrisse, com pessoas correndo até a livraria Cultura para garantir uma das 200 senhas para o autógrafo. Não sabíamos como seria organizado o acesso do público. No fim, já tinham praticamente 500 pessoas esperando, muito antes de abrirem as portas. E, a surpresa, foi saber que haviam distribuído pré-senhas para as pessoas que chegaram muito cedo. Ou seja, sem chance de conseguir o autógrafo. É claro que essas pré-senhas evitariam o tumulto do público correndo no shopping e era justo com quem chegou às 5h. O problema é que em nenhum momento a livraria se pronunciou dizendo que o acesso seria por ordem de chegada.

Se não houve gente correndo desesperada pela senha, houve um pouco de correria para conseguir um lugar na arquibancada que existe no interior da livraria para assistir a palestra aberta. Ou seja, 500 pessoas (de início, porque foi aumentando) se agruparam na tal arquibancada, das 10h às 20h, se revezando em grupos para ir ao banheiro e almoçar. E nós esperamos, sentados, durante todas essas horas, para finalmente poder ouvir e ver Mark Gatiss.

É difícil contar o que houve nessas 9 horas de espera na arquibancada. Eu sempre pensei que eu só ficaria aguardando tanto tempo – e coloque aqui as duas horas na fila e uma hora depois da palestra – por alguém se fizesse parte de algo que eu realmente admiro. E foi assim com Sherlock. O vício que nos faz rever os episódios, criar teorias com o detetive, o mundo infinito que o tumblr cria com gifs insanos, bizarros e divertidos, o momento em que finalmente você convence os seus amigos a assistirem a série e eles acabam caindo nesse mesmo abismo que você, sem volta. Posso falar, por enquanto, da série Sherlock. Ela se estabelece pela conexão entre os fãs, o público que ela foi formando se fez pelo entusiasmo com que se divulgam as expectativas diante desse personagem atemporal de Conan Doyle.

Por isso, a interação entre os fãs foi o melhor do evento e o que preencheu as horas. Fãs com camisetas da série, meninas vestidas de TARDIS, outras com o figurino inspirado no Matt Smith (Doctor Who) ou nos personagens de Sherlock. Tinha  um menininho de chupeta usando uma camiseta do Sherlock acompanhado pela mãe, que chegou pouco antes da palestra. Ele acabou arrancando gritinhos dos fãs, o que o assustou – nesse momento me senti tão cruel quanto o Moriarty, fazendo uma criança chorar com gritos histéricos. Havia grupos brincando de imagem e ação, ou fazendo o outro adivinhar o que havia no papelzinho que grudara na testa, tinha gente dormindo, comendo, lendo uma pilha de livros que pegou na livraria, comprando dvds para serem assinados pelo Gatiss.

créditos: Aumanack Diversão sem limite

A Cultura acabou se tornando praticamente uma república de fãs nas horas em que ficamos lá. Tinha alguns momentos em que eu olhava para as mais de 500 pessoas e sentia que não havia mais nada fora daquele lugar. Sem exagero. Parecia que existia aquela livraria que seria preenchida pelos gritos dos fãs do Mark, o twitter e o facebook onde comentaríamos o que estava acontecendo e apenas isso. Por quê? O grau de pertencimento que um grupo proporciona é insano. Encontrar quase mil pessoas – sim, o número foi crescendo – que gostam da mesma série que você e possuem o mesmo entusiasmo é realmente estranho.

Por isso, se formos ver, um seriado e um livro também acabam por criar mundos paralelos, realidades possíveis pelos seus enredos. Esse é o maior mérito que um roteirista ou escritor pode ter. Nos sentimos fincados na realidade do cotidiano, nas horas de trabalho, estudo, no cansaço diário no transporte público. E uma ficção simples consegue mexer com essa realidade. Surge uma nova perspectiva e ela acaba por invadir a realidade em que vivemos. Ela ganha novos ares e nada parece como antes, porque agora os movimentos dos desconhecidos no caminho para o trabalho, os pequenos momentos de distração no transporte têm um quê de poesia que uma história pode dar. Uma ficção treina e expande o nosso olhar.

Foi isso o que vivenciei no evento com o Gatiss. Ficar praticamente 14 horas num mesmo lugar parece trazer o desespero ao pensar “o que vou fazer durante todo esse tempo?”. Mas você acaba por se distrair com as pessoas. E isso é curioso de constatar num momento em que os celulares parecem ganhar mais a nossa atenção. O meu olhar foi se adequando às mais diferentes expressões dos fãs que vivenciavam o mesmo que eu. E até a forma com que encaramos o tempo se modificou durante a espera, pois ele foi permeado somente pelas experiências.

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Isso me fez lembrar do Baudelaire. Sim, quando você está esperando, surge de tudo na sua mente. Baudelaire colocava nas suas prosas poéticas a impressão de um tempo que congelou, que existia pelas experiências vividas, e não pelas horas. E ele presenciou como uma pessoa some na multidão durante sua caminhada na cidade, muitas vezes imersos nas atividades práticas do cotidiano, deixando de olhar o mundo à sua volta. Ou seja, a experiência é o que constitui a identidade humana. Essa experiência de simplesmente olhar à sua volta traz tantas visões novas e repentinas – muitas das impressões se dão em segundos – que soa estranho pensar o peso que a gente tem em mente quando falamos sobre as horas.

Quando finalmente Mark Gatiss entrou na livraria para o bate papo com o público, os gritos eufóricos certamente surpreenderam o ator. É verdade que depois de tanta espera eu queria mais da palestra, ela foi curta. Não pelo Mark, ele foi espirituoso, divertido e agradável. Mas sim, pela organização. Ele até pediu gestualmente por mais dez minutos de bate-papo, mas foi simplesmente interrompido e encerraram a palestra antes do tempo de duração, nem sei porquê.

Mark falou dos contos preferidos do Doyle, perguntaram qual foi a dificuldade de adaptar Conan Doyle e Agatha Christie, e ele pontuou que ambos eram difíceis, que um roteirista deve ter respeito pelo trabalho do escritor a ser adaptado. E ainda comentou que enquanto Doyle aprofunda mais os seus personagens, Agatha Christie tem uma perspicácia para desenvolver o enredo ágil e envolvente, momento em que ele citou a frase “She plots like a fucking angel!”do diretor Billy Wilder.

Quando questionado se não poderia haver um crossover de Doctor Who e Sherlock, Mark nos disse para tentar imaginar como seria, “imaginem os dois entrando no mesmo lugar, no mesmo quarto. O Doctor está num canto da sala e o Sherlock no outro”. Houve uma pausa, enquanto o pessoal gritava entusiasmado só de imaginar. Ele acrescentou “E aí? Não sei porque vocês gostam de crossover entre séries, é só assistir as duas séries!”.

Sobre Doctor Who, ele comentou que a série traz muitos escritores ao enredo, como Shakespeare, Agatha Christie, Charles Dickens. Por isso ele deixou a esperança de que haverá um episódio com Jane Austen, o que fez a público gritar mais uma vez, e brincando ainda que o Mr.Darcy poderia muito bem ser um alien. Ao responder o que poderíamos esperar do novo Doctor, Mark respondeu com humor “scottish accent (sotaque irlandês)”. Também falou que tem grandes expectativas para o trabalho de Peter Capaldi como o 12th Doctor, que poderá trazer algo novo ao personagem, um ponto muito bom para a série que sempre se renova.

A primeira pergunta ao Mark foi qual seria o legado que ele gostaria de deixar, a qual ele respondeu “pure evil  (maldade pura)”. Nós rimos da resposta, mas de nervosismo mesmo, porque, entre os fãs de ambas as séries, sabe-se como ele e o Steven Moffat, showrunner de Doctor Who e criador também de Sherlock, nos colocam para sofrer com desfechos inesperados, regenerações do Doctor, hiatos de 2 anos entre uma temporada e outra de Sherlock. Mas Mark acrescentou que deseja deixar apenas bons trabalhos para serem assistidos. Aos futuros escritores, ele disse rindo, para ficarem fora do caminho dele. Mark sugeriu que não desistem de serem escritores. É, de fato, uma área bem complicada na qual se recebe muitos “nãos”, é fácil desanimar ao ser rejeitado. Ele afirmou que devem acreditar em si mesmos e colocar seus corações à prova nas suas criações.

Sobre Sherlock, Mark disse que não se identifica muito com Mycroft, pois esse é muito frio. Ele apenas se identifica em relação aos ternos que gosta de vestir e com o traseiro dele, o que arrancou risadas do público. Mas disse que gostaria de ter o mesmo poder que Mycroft. Ele gostou muito de gravar o episódio The Hounds of Baskerville, mas houve um momento engraçado com Martin Freeman (John Watson) no episódio A Scandal in Belgravia – o seu favorito – em que estavam gravando num café.  Houve uma chuva terrível naquele dia e ainda foi uma época de manifestações em Londres. Por isso, a polícia entrou no café e gritou “run!” e eles saíram correndo, tendo que retomar as gravações após 2 meses.

Como eu disse lá no começo, não havia mais senhas, apenas para os 200 que chegaram mais cedo no evento. Porém, eu e outros fãs aguardamos até o final e imploramos a uma das assessoras, que liberou a entrada. Foi adorável o comportamento dos funcionários da Cultura que permitiram a nossa entrada, ficaram comovidos em ver a expectativa de várias pessoas que vieram até de outro estado para vê-lo. No fim, foi tudo extremamente rápido. Um dos produtores falou em espanhol comigo, escrevendo meu nome no braço. Entrei na sala com mais seis amigos, na qual fui puxada pelo braço, pois era a única que tinha o nome.

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Havia várias pessoas falando comigo ao mesmo tempo em inglês, “do you want your sign here or there?”, disse uma funcionária duas vezes apontando freneticamente para o meu box de Sherlock, eu hesitei porque na sala estavam falando ainda em  português e espanhol, respondi “here”, apontando para a capa. O funcionário dizia ora para ficar num canto, ora em outro, todos querendo encerrar com muita rapidez. E Mark esperando com uma expressão tranquila, provavelmente segurando o riso, porque foi assim com quase todos que entraram de última hora. Era uma profusão de idiomas, gente falando ao mesmo tempo, nervosismo. Fiquei tão confusa que nem soube falar nada ao Gatiss, só o meu nome e agradeci a ele sorrindo. Não conseguia pensar em nada, só vem à mente ele assinando, dando um sorriso rápido para mim. Saí da sala falando “excuse me” enquanto os funcionários da porta respondiam em português. No corredor é que me dei conta de que tinha conseguido um autógrafo, algo que já havia aceitado ser impossível no meio de quase mil pessoas, durante as 14 horas que fiquei lá, desde a fila até a corrida pelo autógrafo.

Foi menos de um minuto o momento em que estive pertinho de Mark Gatiss, e 14 horas com colegas que conheci pessoalmente no evento, depois de falar com eles por alguns meses pelo facebook. Mas isso me faz lembrar o que falei sobre o tempo ser relativo. Pois ambas as experiências – com Gatiss e os fãs – ganharam a mesma dimensão, independente do tempo que duraram, tornando todo o cansaço numa vivência tão emocionante que me vi obrigada a relatá-la com detalhes. Pois, como diria o Sherlock, nós só olhamos, mas não observamos. A essência está nos detalhes.

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