Walt nos bastidores da Mary Poppins

Publicada no site Literatortura

Dir. John Lee Hancock

Roteiro de Kelly Marcel, Sue Smith

Com Emma Thompson, Tom Hanks, Annie Rose Buckley, Colin Farrell, Ruth Wilson, Paul Giamatti, Bradley Whitford, B.J. Novak, Jason Schwartzman

EUA, Reino Unido, Austrália , 2013

Em 1964, uma babá vinda dos céus com um guarda-chuva falante e uma valise cheia de magia desceu em Londres, na casa dos Banks, e na história do cinema. Foi o ano em que os estúdios Walt Disney lançaram o clássico filme Mary Poppins, estrelado por Julie Andrews, a babá que se tornou um ícone para todos aqueles que se encantaram com o musical.

O filme atual Walt nos bastidores de Mary Poppins aborda o momento em que Disney tentava convencer  a autora Pamela Travers, quem criou a série de livrosMary Poppins, a ceder os direitos  para que a história fosse adaptada ao cinema. Isso durou 20 anos, em idas e vindas. Mas o filme atual fica entre os últimos anos nos quais Travers acompanhou a criação do filme e dava suas exigências constantes sobre como o filme deveria ser. Ela queria evitar uma Mary Poppins saltitante, o formato musical e a presença de Dick Van Dyke como o artista de rua Bert.

É verdade que Disney fez de Mary Poppins um filme musical açucarado. Mas a personagem parece honrar o ideário de Travers. A Mary Poppins de Julie Andrews demonstra doçura e carinho com muita sutileza e chega à casa dos Banks para por ordem no lugar. Ela sabe que é perfeita, exibe orgulho ao se recusar a demonstrar seus sentimentos pelas crianças, tenta ser rígida mas não friamente, enquanto olha todos a sua volta com certo ar de superioridade, o ponto em que vemos muito em comum com Travers.

Ambas são um tanto difíceis, mas a persistência de Travers e Poppins em não deixar a imaginação e os sonhos morrerem é o que as tornam fascinantes. Até mesmo o fato de Poppins dançar e cantar no filme é a representação de que ela veio para transgredir as regras da casa rígida do banqueiro Mr. Banks. E tanto conflito entre a autora e Walt Disney era pelo desejo de ver sua obra e, sobretudo, a personagem que salvou a sua infância ser retratada com dignidade.

É curioso observar, em Walt nos bastidores, a incerteza diante do enredo que se tornou um clássico. Ninguém, na época, imaginava a dimensão que o musical ganharia. Na verdade, é impossível prever isso durante o processo de criação. E poder acompanhar esse momento pelo filme o torna interessante, pois fica registrada na tela a dificuldade que existe para uma equipe criar um trabalho primoroso. Como público, só conhecemos o produto final. Mas Walt nos bastidores de Mary Poppins faz pensar acerca do processo difícil, das pessoas envolvidas. Assim, expõe, simultaneamente, a história de vida de Pamela Travers e uma homenagem ao legado da Disney.

É muito complicado para quem é um grande fã de Mary Poppins encontrar uma falha em Walt nos bastidores de Mary Poppins. Por quê? Ele traz à tona toda a nostalgia da infância em torno da babá, a alegria que significava ver o filme diversas vezes e nunca se cansar. E digo isso por mim. Com muito esforço, o único ponto em que se encontra certa falha no roteiro é a maneira com que foi conduzido o contraste entre Travers e Walt Disney.

No ano passado, fiz uma matéria sobre os bastidores do musical e a expectativa para o atual filme (confira aqui!). O receio era como a película tomaria a relação entre Travers e Disney, se seria tendencioso. Obviamente, por se tratar de um filme feito pelos estúdios Walt Disney, ele se mostra neutro quanto à postura do criador do Mickey. Isso resulta num enredo que apresenta uma complexa personalidade de Travers, mas faz de Disney apenas um artista bondoso e paciente esperando por 20 anos a fim de ver Mary Poppins. Será que ele foi assim mesmo? Sabemos que ele realmente gostava dos livros e havia prometido às filhas que os levaria às telas. Se não sentisse tanto carinho pela personagem, não teria persistido por 20 anos.

Contudo, não é difícil imaginar que Disney via em Mary Poppins também uma fonte de renda promissora. E que, para realizá-lo, precisava conquistar Travers pouco a pouco. Tanto quis preservar o sucesso do filme que não queria a presença de Travers na première.  O que quero dizer é que a história entre os dois pode ter sido ainda mais conflituosa, mas isso fica muito amenizado no filme, o qual prefere expor somente os dilemas da autora.

Se não fosse o trabalho delicado e complexo da excelente Emma Thompson ao interpretar sutilmente as várias facetas da difícil Pamela Travers, o filme cairia num maniqueísmo perigoso. Ela seria demonizada e se esqueceria  que Travers é a criadora de Mary Poppins. Emma Thompson consegue dosar o mau humor de Travers com a sua fragilidade e dívida com a infância complicada. O seu desejo em defender a obra  é totalmente compreensível. Não dava para saber se a adaptação seria bem sucedida. Por isso, é necessário tomar um pouco de cuidado ao ver Walt nos bastidores de Mary Poppins e não esquecer que Travers é a grande responsável pela existência da personagem.

Por sua vez, o trabalho de Tom Hanks como Walt Disney é bem construído, mas teria sido melhor desenvolvido se o roteiro levasse em consideração também a sua personalidade complexa. Quando se tem duas décadas que colocam uma autora e um produtor com interesses distintos num embate para ver quem ganha, há muito a ser mostrado. Ou pelo menos um passado para ambos com o qual seja difícil lidar quando se reencontram. É apenas isso o que falta no filme.  Assim, a rivalidade acumulada durante anos se mostra levemente e acaba-se optando por neutralizar o enredo difícil com um humor, que acaba funcionando apenas pelo ótimo timing de Thompson.

Quanto à parte técnica, a fotografia do filme aplica um tom colorido e vibrante à película, o que parece amenizar a tristeza do passado da autora e até sugere no figurino dela a interferência que significou conhecer a magia Disney. Ou seja, os estúdios Walt Disney tomaram muito cuidado ao criar esse filme, tentando  fazer uma homenagem que soasse doce e inofensiva ao seu criador. O filme acaba por tornar Travers numa pessoa amarga, mas que aceitou, até certa medida, a adaptação de sua obra. A questão é que a Travers real continuou odiando o filme e não deixou que a magia de Disney invadisse a sua vida.

Ademais, o título traduzido não foi uma boa escolha, é longo demais. Em inglês, ficou como Saving Mr.Banks, “Salvando Mr Banks”. Esse revela um pequeno spoiler (mas inofensivo) do filme. É um título bem pensado, o qual indica o verdadeiro motivo para Travers ter criado Mary Poppins e o ponto que une a autora à adaptação ao cinema. Ele representa a paz estabelecida entre Disney e Travers. Talvez poderia ter sido mantido “Salvando Mr.Banks” e adicionado como subtítulo “os bastidores de Mary Poppins”, pelo menos indicando a temática do filme.

Desta forma, Walt nos bastidores de Mary Poppins é um filme agradável de ser visto por quem é fã da obra e por quem ainda quer conhecer a babá. Porém, precisamos lembrar que ele não é totalmente fiel aos fatos e que foi a maneira romântica e quase ingênua pela qual os estúdios quiseram retratar uma história complicada. Os livros de Mary Poppins, escritos por Travers, merecem ser conhecidos também. Além disso, ao mesmo tempo, o filme nos faz pensar até que ponto o autor precisa aceitar que o seu personagem tem certa autonomia, e que um diretor tem o direito de tomar novos caminhos. Se Travers iria gostar da sua personificação no cinema, acho que a resposta seria “não”. Mas, felizmente, ao público resta contar com a obra literária e a fantástica criação do musical de 1964, especial até hoje para diversas gerações que sonham com Mary Poppins batendo à sua porta.

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