A polêmica da selfie

Publicada na minha coluna semanal do Fashionatto

cat-selfieNa semana que passou, fui bombardeada por selfies, notícias sobre selfies, polêmicas sobre selfies – as que quero tratar aqui, tweets sobre o mundo tecnológico. Resolvi, então, reuni-los aqui na coluna de hoje, para pensar um pouco sobre o assunto. O dicionário Oxford escolheu, em 2013, incluir “selfie” como a palavra do ano. Curioso contatar que “twerk” – a coreografia que Miley Cyrus fez no VMA do ano passado – e “binge-watch” (quem assiste muita televisão) competiu com o posto de palavra do ano, mas perdeu para a selfie. (aqui)

Utilizando a definição do Oxford, a selfie é “uma fotografia que a pessoa tira de si mesma, com um smartphone ou webcam, carregada em um site de mídia social”. Para quem está nas redes sociais, a selfie não é grande novidade. A impressão que dá, porém, é que o status de uma foto com um amontoado de rostos ou de si mesmo era um tanto esquisito ou, em alguns casos, narcisista se tirado e postado quase todos os dias, acabou por se tornar popular, com todo mundo falando em “vamos tirar uma selfie”, porque, claro, agora é tendência.

Para esse assunto, primeiro, vou colocar aqui que não sou enviada pelos deuses para trazer a palavra divina de que selfies são um mal da sociedade pós-moderna-líquida e precisam ser exterminadas. Dizer que é um mal é um termo pesado, pois em geral a selfie é algo comum. Obviamente, se você tem uma rede social, a selfie é a forma mais fácil de simplesmente tirar uma foto de si mesmo e atualizar o perfil. O curioso está na sua popularização repentina e nos extremos que pipocaram esses dias na mídia.

Relembrando um fato do início do ano, no Oscar, a apresentadora Ellen Degeneres proporcionou uma evidência maior à selfie quando postou uma foto– incrível, diga-se de passagem – com diversos atores consagrados na cerimônia do Oscar. Com isso, já dá para apontar uma primeira característica da selfie: ela permite a proximidade, no caso, humanizou os atores que sempre estão seguros de suas poses na maior cerimônia da área cinematográfica.

As redes sociais fazem isso por nós, já sabemos que elas prometem a proximidade e a quebra de fronteiras apenas com um clique. A selfie posiciona o sujeito no foco de sua foto, claro, mas permite a proximidade que teríamos da pessoa diante dela, presencialmente. Ficamos na altura dos olhos do observador, próximos. Em grupo, provavelmente encena-se a sensação de alegria genuína de pertencimento a um grupo enquadrado na foto, que precisou ser registrado. Dito isso, a selfie pode, sim, ter uma motivação ingênua e um mero registro a ser guardado ou divulgado por conta de um momento memorável.

Contudo, o problema vem a seguir. No dia 21, alguns sites (aqui) divulgaram que uma estátua do século XIX havia sido quebrada após um jovem subir na perna da estátua – sim, subir – para tirar uma selfie com a estátua. Uma estátua. Uma selfie com uma estátua. Do século XIX. Quebrada. Nesse momento, eu contenho aqui minhas mãos tremendo, os dentes rangendo e uma vontade de dar um tapa em uma pessoa que faz isso. Mesmo que não fosse uma estátua, que o tal ato de tirar uma selfie causasse um acidente – sei lá, tirar foto de si mesmo com um trem atrás que, por fim, acaba por atropelá-lo. Não faça isso – já é extremamente grave.

As câmeras não registraram a destruição dessa peça rara do século XIX ou talvez não queriam divulgá-lo. No momento, já estão trabalhando na sua restauração. O que nos faz pensar aqui é o que motiva alguém a querer tirar uma foto com uma estátua. Se você é estudante de Arte, pode até ser que lá no fundo você queira tirar uma foto com a Mona Lisa ao fundo, no Louvre. Ou com a Vênus de Milo. Provavelmente isso será um ímpeto de alguém que vê nas páginas dos livros essas imagens que sempre os encantou e, no fim, estar diante delas é tão inacreditável que o registro parece responder que sua existência é mesmo real.

Mas há uma sensação geral de querer registrar tudo numa viagem, quase inevitável quando já se tornou recorrente a frase “vou postar no facebook”. Ou checar suas atualizações no celular enquanto almoça com seus colegas. O problema está nessa distância que a tecnologia pode criar, no excesso que ela incita quando puxa o sujeito para um abismo de simulacros, num espaço em que ele acredita ter poder supremo para postar conteúdos que atinjam o outro – aqui entra o cyberbullying -, ou esquecer que há um mundo real acontecendo, pessoas reais existindo, enquanto prefere recriar a própria identidade nesse mundo efêmero.

E é muito difícil fugir disso. Nem sei qual solução se daria a isso. Provavelmente apenas um alerta que eu estou tentando repetir a mim mesma e que vou falar a você, meu querido  leitor, se ainda estiver aí depois de tudo o que escrevi: o mundo tecnológico acaba por trazer muitas pessoas para perto, que vivem em outros estados, países, que passam a estar na sua vida. E isso é ótimo, uma oportunidade para expandir suas opiniões, vivências.

Mas conhecê-los pessoalmente é, ainda, uma sensação que não dá para substituir. Mesmo que criem robôs futuramente, numa vida paralela em que se substitua humanos – estou falando em robôs mesmo? Meu Deus, preciso encerrar isso aqui – a presença do outro traz o inesperado. A surpresa, o choque de algo novo começar a existir numa convivência, é algo que nem a tecnologia ainda conseguiu inventar ou colocar num chip. O exato momento em que a imagem que você fazia do outro se modifica ainda não foi capturado, justamente porque é uma daquelas coisas que nem conseguimos explicar pela palavra.

Desta forma, não é necessário se prender em casa, jogar o notebook pela janela, ir viver na floresta, se mudar para uma caverna, a fim de evitar o mundo tecnológico. Mas até que ponto isso não está interferindo na maneira com que contemplamos as pequenas cenas do cotidiano? Se é que as contemplamos. Até nossa relação com a história e vivência que o outro tem para nos contar se tornou limitada a poucos caracteres, num desejo de que o outro conte logo porque o tempo é curto. Por isso, volto aqui, depois de todo esse caminho, à selfie. Será que a foto que tiramos – depois de mais de 50 versões até achar apenas uma boa, satisfatória aos olhos daquele que vai ver nosso perfil – fala mesmo sobre você? Se selfie envolve um retrato de si mesmo, onde se encaixa a nossa liberdade de registrar realmente um retrato que se oponha ao desejo do outro?

——

Marina Franconeti escreve todas as terças-feiras para o Fashionatto.

fonte da imagem de capa: heavy.com

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