Gloria

Publicada no site Literatortura

Dir. Sebastián Lelio

Roteiro de Sebastián Lelio e Gonzalo Maza

Com Paulina García, Sergio Hernandez, Diego Fontecilla, Fabiola Zamora, Alejandro Goic

Chile, 2013

A solidão de uma mulher na meia-idade, divorciada e com os filhos já adultos constituindo as próprias vidas. Esse é o enredo de Gloria, filme chileno de Sebástian Lelio. Paulina García, vencedora do Urso de Prata Melhor Atriz, no Festival de Berlim 2013, interpreta a personagem-título. Acompanhamos a tentativa de Gloria em sobreviver nessa solidão, num esquecimento de uma mulher que foi deixada à própria sorte. Ela não foi abandonada pelos filhos, mas vemos em Gloria a necessidade de se sustentar com autonomia numa sociedade que espera a relação eterna do casamento como a capacidade de nutrir esse abandono.

Gloria é divorciada e, por isso mesmo, se encontra sozinha. É admirável as ações que toma para que possa superar a melancolia e o tédio. No decorrer do filme, observam-se os traços psicológicos de uma mulher que serve como uma agradável companhia, porém efêmera. E isso é doloroso, transmitido com maestria pela atuação de Paulina García, a qual faz um trabalho excelente ao explorar as mais variadas expressões corporais como Gloria. As fases da personagem vão se intercalando, mas a constante é a solidão.

A personagem procura fazer diversas atividades para passar o tempo que sobra após o trabalho, além de ir aos bailes da terceira idade. Lá, ela busca a juventude a qual a sociedade provavelmente esquece que existe para uma mulher como Gloria, conhecendo novos homens e iniciando um romance um tanto conturbado. Em determinado ponto do enredo, alguns personagens discutem sobre a juventude tomar as ruas nas manifestações, como sendo a obrigação da nova geração. Mas que tal manifestação se constitui, no fim das contas, pelo individualismo da internet. É curioso notar que a constituição de Gloria ocorre da mesma forma, focando na sua personalidade complexa e em seu mundo particular.

É esse o ponto que a iguala à juventude, pois ambas as gerações se encontram nesse momento crítico de decisões: iludir-se no protagonismo que tem da própria vida ou participar da realidade, aceitando que pode ser apenas mais uma pessoa entre tantas no país. Por isso é complexa a análise da coragem de Gloria, pois ela não se permite ser deixada à mercê pelos outros, assumindo logo a própria vida, mas preferindo permanecer na ilusão que constrói da felicidade dentro do próprio apartamento.

O filme é intimista, tem poucos acontecimentos que possa construir um clímax intenso. Mas isso não o impede de ser um longa perspicaz na intenção de apresentar as facetas de Gloria. A personagem consegue saltar da tela e marcar o espectador. Ela é destemida a um ponto que nos faz desejar agir da mesma maneira. É uma mulher que, apesar dos vários abandonos, consegue dançar sem precisar de ninguém. Se o eu-lírico da música clama por Gloria para ter seus belos dias de volta, a própria Gloria precisa apenas de si mesma para dançar. Consegue tirar os óculos para não se deixar atingir por ninguém, e dançar com sua expressividade singular. A dificuldade está, pois, no limite desse ilusionismo que a personagem assume para a própria vida. Portanto, está em Gloria muito mais a dúvida geral sobre como assumir as relações sociais e a realidade do que apenas a vida de uma mulher divorciada.

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