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Olhá lá, tem uma janela acesa no caos

noite janela

Coluna no Fashionatto

-Aquele suéter caramelo combina com a calça marrom lá de baixo. Fica bem com uma botinha – disse Gabi.

-É, fica bom. Queria ver usar a calça vermelha do 65 com o moletom verde limão lá no varal de cima, sabe?

-Mas ficaria meio estranho, né? Bom, depende, vai que fica diferente.

-Em você ficaria bem, Gabi.

-Uma vez meu amigo disse que eu era a própria arte pop, acho que é porque eu uso muita peça colorida. Espero que seja por isso, e não que eu seja uma refém do consumismo – riu Gabriela equilibrando a xícara de chá no parapeito da sacada.

Marcelo e Gabriela gostavam de se encontrar às 2h para conversar um pouco. Ele chegava de mais uma noite cobrindo plantão na redação de um jornal importante. Ela estudava dia e noite para prestar concurso público. O tema da conversa de hoje era uma brincadeira que Gabriela adorava fazer com a avó e propunha ao Marcelo quase toda semana: observar as roupas dispostas no varal de cada andar do prédio e pensar como ficaria a combinação entre elas.

Gabriela morava no quarto andar e Marcelo, no quinto. A porta de cada apartamento dava para uma sacada que circundava cada andar. Desta forma, havia um abismo que terminava num adorável pátio com banquinhos e vasos de maria-sem-vergonha, lírios, pequenas rosas. Era um prédio antigo que parecia ser um sobrevivente por entre os prédios arrojados de São Paulo. Esses vizinhos dividiam uma curiosidade pela fotografia e pela arquitetura que acabava se tornando um refúgio diário. Marcelo prestara atenção em Gabriela quando a moça resolvia fotografar as crianças brincando no pátio de domingo. Ela olhava para as cenas com o encanto genuíno que ele adorava preservar na profissão.

Apesar das notícias horripilantes que abalavam a estrutura do jovem jornalista e serviam como matéria prima de seu trabalho, o prédio era o refúgio onde Marcelo sentia que ocorriam as cenas mais mágicas que o cotidiano nos faz esquecer. Ele sabia, porém, que essas pequenas cenas ocorriam mundo afora. E gostava de investigá-las todo dia, entre um ônibus e outro, entre uma pauta e outra. Tornar a vida paulistana a sua pauta era o que o fascinava.

clique na imagem para achar o Wally

Os dois eram genuinamente amigos, um carinho e uma amizade que surgiu misteriosamente no horário em que as luzes se apagam e o silêncio predomina.

-Você não acha que deixar a luz acesa do quarto não seja um jeito de criar um farol numa cidade? – perguntou Marcelo com a voz rouca e preguiçosa, sentado ao lado de Gabi no espaço abandonado que havia no topo do prédio.

-Nossa, verdade…é como se a gente deixasse a nossa casa aberta para quem tá sozinho do outro lado…é, pode ser um farol, Ma. Ficar a essa hora sozinho pode ser libertador e triste ao mesmo tempo. Como se o tempo tivesse congelado, as pessoas estivessem dormindo e ninguém pensando em você. Ou sonhando.

-Uhum, gosto de ficar pensando em quem mais está acordado agora. Parece que tem uma rede invisível na cidade, que une as pessoas e às vezes elas nem percebem.

-Como os varais de cada andar…

-Os varais? – questionou Marcelo.

-Sim. Sabe por que eu gosto dessa brincadeira? As pessoas nem imaginam como podem se conectar aos outros. Nem precisam de motivos muito fortes, sabe? Assim como uma peça pode criar looks incríveis, as pessoas são capazes de criar relações únicas, às vezes só falta um primeiro passo…

Marcelo ficou pensando no que Gabi havia dito e resolveu propor uma intervenção meio insana. Ana, uma mocinha tímida do 42, que vivia relendo uma edição já toda desgastada do Guia do Mochileiro das Galáxias havia terminado um namoro há mais de um ano e Gabi sempre conversava com ela, notando a melancolia no olhar da garota. Marcelo, por sua vez, sempre pegava dvds emprestados com Júlio do oitavo andar, um fã fervoroso de cinema e história em quadrinhos. Numa conversa corriqueira, Marcelo e Gabi citaram os dois, notando o quanto os dois vizinhos possuíam a mesma paixão e quase esperança de saírem desse mundo, viajando no tempo para viver qualquer aventura fora dessa dimensão parecia ser idolatrado com fervor ou uma nostalgia de algo que nunca viveriam, só na imaginação.

No dia seguinte, Gabi e Marcelo colocaram em prática uma ideia quase infantil do rapaz, motivado pela presença da amiga, que o fazia olhar para os varais como pequenas coleções de história. Sorrateiramente, de madrugada, trocaram a camiseta de Doctor Who que Júlio adorava ostentar no varal, preso agora no de Ana. Por sua vez, colocaram a doce blusa da mocinha que tinha a imagem do Yoda no varal do rapaz. Em ambos, inseriram um cartãozinho com o nome, o número do apartamento e a frase “você viajaria comigo até o fim do universo?”.

Assim, as ficções que permeavam os varais dos desconhecidos acabaram ganhando contornos mais reais do que se poderia esperar. A luz da janela dos quatro apartamentos fora acesa e acenava para o estranho do outro lado, convidando-o para tomar um café na madrugada acolhedora.

Fiz esse conto inspirado no filme argentino Medianeras . E acabei descobrindo uma música linda que tem a vibe da minha história! Aproveite para ouvir aqui a música Apartamento 26, da banda Call me Lolla

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Cena polêmica em episódio de Game of Thrones reacende discussão sobre misoginia

Matéria publicada no Literatortura

Contém SPOILERS dos últimos episódios da 4a temporada e das anteriores!

Uma polêmica se espalhou após o episódio Breaker of Chains de Game of Thrones neste domingo. Por isso, já vou avisando: essa matéria contém um pequeno spoiler sobre a cena entre Jaime e Cersei Lannister, além de comentários sobre as temporadas anteriores. É importante escrever sobre essa cena em razão da  decepção causada e o esforço em tentar entender o motivo pelo qual os roteiristas optaram por modificar aquela cena em específico, indo de encontro ao que George R.R.Martin narra no livro. Tratar dessa modificação é trazer ao debate até que ponto se pode adaptar um enredo, o risco de perder a identidade do personagem em questão e se há misoginia nessa perspectiva.

A cena em questão é a seguinte. Após perder o filho Joffrey, rei de Westeros, em pleno casamento e acusar o irmão Tyrion do envenenamento do jovem, Cersei se encontra velando o corpo do filho. Ela escuta o pai Tywin discutindo como se deve ser um bom rei com o mais jovem filho de Cersei, preparando-o para assumir o trono sem demora. Logo, Cersei é deixada sozinha diante do filho morto e Jaime Lannister, irmão de Cersei, pede aos guardas que os deixem sozinhos. Sabemos que os dois já mantém uma relação incestuosa, que Cersei se mostrara relutante com a presença do irmão, pois ele ficou longe demais dela e ainda voltou sem a mão direita. A relação dos dois se encontra abalada após o retorno do Regicida.

“Vingue-o…vingue nosso filho”, diz Cersei, “Mate Tyrion”

“Tyrion é meu irmão…nosso irmão”, responde Jaime “Haverá um julgamento que vai trazer a verdade sobre o que aconteceu”.

Ambos se beijam, mas Cersei recua diante da mão dourada que Jaime agora porta, após ter perdido a mão. E, então, do nada, o personagem que se mostrava cauteloso ao lado de Cersei diante de Joffrey e negando matar o próprio irmão, diz“Por que os deuses me fizeram amar uma mulher tão detestável?”, investe na direção de Cersei, rasga o seu vestido e a violenta, enquanto ela diz diversas vezes chorando “pare, aqui não, por favor”. E a câmera para de gravar a cena.

Segundo o diretor, Alex Graves, Cersei aceitou a relação. A fala dele só demonstra a ideia absurda que é acreditar que sempre resta à mulher aceitar esse tipo de violência como se fosse algo agradável, no final das contas. A cena acabou no contexto brutal com a personagem implorando que Jaime parasse, enquanto no livro Cersei comenta uma vez sobre o perigo de os septões flagrarem os dois juntos, ao qual Jaime finge que não se importa, e Cersei conduz a relação como forma de convencê-lo a fazer o que ela havia pedido antes. A personagem é complexa e se sabe que ela está, de fato, frágil pela morte do filho, mas não deixa de lado a vontade de preservar ainda o seu poder como uma Lannister.

E, apesar da postura de Cersei ser um tanto manipuladora no livro, ela não pode ser definida somente como o estereótipo de uma mulher perspicaz, pronta para manipular e destruir a todos. Ela também teve vivências complicadas que a faz ser vítima também. Por isso, o comentário superficial do diretor reduz não somente a complexidade de Jaime, mas a de Cersei também. Mesmo que ela supostamente tivesse aceitado a relação, a cena na série nunca deixará de ser um estupro.

No livro, de fato, os dois tem uma relação sexual diante do corpo de Joffrey. Mas foi consensual. E possui um grande significado na trama: é o momento em que Cersei se encontra fragilizada pela morte do filho, encontrando consolo no único homem que ela amou, que prometia dar mais um herdeiro a ela diante do filho morto, e ao mesmo tempo precisando manipulá-lo de alguma forma para que Jaime se convença de que deve matar o irmão, se vingar pela morte de Joffrey e encontrar Sansa Stark, a qual fugiu do casamento, o que a põe como suspeita pelo envenenamento de Joffrey. Jaime, por sua vez, retornou de uma desventura na qual perdeu a mão e sofreu inúmeras vezes pensando que iria morrer. Estar com Cersei é praticamente a última tentativa de recuperar a relação que ele tivera com a irmã, recuperar o mínimo da felicidade em um passado no qual ele não corria grandes riscos a ponto de perder a mão que o fazia ser da Guarda Real e um homem com um resto de honra aos olhos dos demais.

O seriado compôs a temporada passada com um enredo entrelaçado na redenção de Jaime Lannister. Ele é um dos personagens mais complexos da série, pois no primeiro episódio ele joga Bran Stark de uma torre sem hesitar, o que provoca a raiva do leitor e espectador de imediato. Conseguir reformular o nosso olhar a esse personagem foi um grande mérito do enredo. Jaime revela, numa cena emblemática da 3ª temporada, que se é chamado de Regicida por ter matado o rei que protegia é porque ele possuiu motivos muito fortes para isso. Ele explica como Aerys II Targaryen, o Rei Louco,

havia espalhado barris de fogo-vivo por toda a cidade, embaixo das casas de cada morador de Porto Real, planejando explodir a cidade se sentisse a ameaça do inimigo que, para ele, estava em todos os cantos. Aerys ateou fogo no Mão do Rei, seu conselheiro, porque esse questionou o motivo de espalhar esses barris. O rei, cedendo à Tywin Lannister, pai de Jaime, acabou abrindo os portões da cidade e Tywin a saqueou. Diante disso, Aerys mandou seu mais novo Mão do Rei explodir a cidade e Jaime, ainda parte da Guarda Real, a matar o próprio pai e trazer a sua cabeça. Jaime, então, desferiu um golpe nas costas de Aerys, matou Mão do Rei e quem mais sabia onde estavam os barris de fogo-vivo, para impedir que explodissem a cidade. Essa cena foi decisiva para que o espectador soubesse que Jaime não era, de fato, um traidor, além de colocar em pauta qual é o limite de servir cegamente o rei ou considerar os próprios princípios.

Diante da cena do episódio dessa semana, a primeira impressão que dá é que os showrunners David Benioff e D.B. Weiss precisam de uma aula básica de interpretação de texto. Parece que recriar a cena foi uma tentativa de instaurar uma polêmica. Mas será que uma série tão bem-sucedida precisa disso? Infelizmente, o problema ultrapassam esses argumentos. É ainda mais sério: não só a cena de Jaime e Cersei, mas as de Daenerys e Khal Drogo na 1ª temporada, foram modificadas para um viés violento, sempre culminando no estupro sem necessidade e distinto dos livros.

Se o enredo criado por George R.R.Martin coloca isso no papel, não será à toa. Ele constrói seus personagens com perspicácia e, por isso, não há sentido modificar o que é essencial à trama. No caso, não se trata de uma cena pequena que foi modificada para a série por causa da grande quantidade de enredos para dar conta. Essa cena é importante e não há nada nela, presente nos livros, que precisava ser alterada para se encaixar na história.

É inegável que a violência e o estupro se encontram no cenário terrível do enredo geral, afinal, se trata de uma guerra. Esse ato é, muitas vezes, a forma mais comum – e terrível – nas conquistas de colônias, costuma-se saquear as casas e violentar as mulheres, como se fosse uma invasão à segunda propriedade do homem, agredindo a moral do homem que possui sua família e propriedade. Portanto, esse tipo de abordagem existiria na história e seria verossímil ao contexto. Da mesma forma que Game of Thrones traz brilhantemente à série o fato de que casamentos são alianças e que os casais – Cersei e Robert, Joffrey e Margaery – apenas se suportam pelos nomes e responsabilidades que carregam. Se houvesse uma cena de violência do gênero que indicasse esse realismo no enredo, seria aceitável a sua presença.

O que se mostra intolerável, porém, é ver que a série desqualificou toda a construção de Jaime, transformando-o em um criminoso apenas porque, para as palavras dele na cena, Cersei seria “detestável”. Com essa fala, os showrunners e a aprovação do diretor faz de Cersei a culpada pelo ato por ser “detestável”, postura que não difere de muitos homens da realidade, fora da ficcional Westeros, em culpabilizar a vítima da agressão.

De um personagem moralmente ambíguo que claramente tem buscado modificar suas percepções acerca dos votos, da honra e o que significa tomar para si os ideários dos Lannister, a série acabou por tornar Jaime em alguém deplorável que usa a violência como motivação em si mesma. Os roteiristas desrespeitaram não somente a obra de Martin, como a preferência do espectador por Jaime. O ato do personagem em voltar a Harrenhall e salvar Brienne de Tarth de ser morta por um urso ou convencer os homens que haviam capturado os dois a não violentá-la, o ódio que ele nutria toda vez que o rei Robert agredia Cersei, essas nuances do personagem foram meramente ignoradas, além do trabalho de redenção de toda uma temporada. Depois da agressão que a série inventou para a cena, como é que o espectador vai ficar ao lado de Jaime e acreditar que ele, de fato, quer recuperar a honra dele e ajudar uma Stark?

Confesso que espero que a fúria de George R.R.Martin se volte à vida desses showrunners. Perdeu-se a identidade de Jaime e Cersei também e só resta torcer para que os demais espectadores se mostrem enojados diante do caminho tomado pelos roteiristas e se convençam de que aquele não é Jaime Lannister. Obviamente, essa cena não diminui a qualidade da série como um todo, mas em relação à postura dos roteiristas diante da adaptação e do personagem, resta uma amargura que não tem mais volta, a cena já foi ao ar. É preciso lembrar ainda que essa postura em relação à aceitabilidade de Cersei, argumento dado pelo diretor, só demonstra o quão próximos ainda nos encontramos da permissiva e violenta Westeros em tempos de guerra. A questão é que o diretor não possui uma guerra como desculpa para justificar a sua adaptação e Westeros ainda é uma ficção. A misoginia parece cruzar os limites da ficção e gritar a sua existência na realidade.

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Pop art e mais do século XX: a exposição Visões na coleção Ludwig

Coluna semanal no Fashionatto

A ideia da coluna de hoje é trazer você, leitor, à minha tentativa de desvendar um pouquinho de algumas obras. É um exercício para expandir o olhar, como eu propus timidamente lá na minha primeira matéria.

A exposição Visões na coleção Ludwig, que terminou nesse final de semana no CCBB SP e seguirá para o Rio de Janeiro e Belo Horizonte, trouxe a coleção preservada pelo casal Peter e Irene Ludwig na segunda metade do século XX. É uma coleção riquíssima. É possível ver a pop art americana, o neo-expressionismo alemão, o neo-barroco e o hiper-realismo, uma diversidade admirável encontrada por todo um século em expansão. Ter essa exposição em São Paulo é o prazer de experimentar o acervo que está distribuído em 14 instituições e museus no mundo todo. Além disso, a exposição nos faz refletir sobre como o empenho de Peter Ludwig em colecionar tais obras serviram também como um estímulo à efervescência artística de todo um século, uma nova significação de artista que está se formando aos nossos olhos e como a arte consegue dialogar com a realidade.

Presenciar a exposição Visões na coleção Ludwig é visualizar um trecho da história da Arte que, inevitavelmente, tornou-se uma referência artística, apesar do discurso claro desses artistas para uma crise da arte, incorporando à obra a massificação da cultura popular e capitalista. A primeira obra que vem à mente quando citamos pop art é a replicação do rosto de Marilyn Monroe por Andy Warhol. Assim como uma atriz se tornava produto com uma aura que incitava ao consumismo – a vontade de ter o que ela tem para ser Marilyn Monroe – é o indicativo para compreender como a pop art expandiu o tema incorporando a crítica por sua forma.

A serigrafia sobre tela produzida por Andy Warhol, O retrato de Peter Ludwig, dá as boas-vindas ao fruidor que experimenta uma linguagem distinta pelas mais variadas expressões artísticas dispostas nos andares da exposição. Há Cabeças Grandes (ao lado), de Picasso, datada de 1969, apontando às cores e recortes brutos do artista. Ele não se encontra exatamente nas escolas demarcadas pela exposição, contudo, apresenta o fascínio de Ludwig por Picasso e a marca dos novos caminhos que a arte moderna foi esboçando.

Infelizmente, a exposição terminou em São Paulo, mas a proposta dessa matéria é sinalizar alguns artistas e traçar comentários sobre as impressões das obras deles, que eu marquei com uma letra desleixada no encarte da exposição. São as minhas visões sobre as obras, da forma com que o próprio título da exposição sugere: as várias visões para a coleção de Ludwig. A ideia é espalhar um pouco do que foi a fruição, a experiência de contemplá-las. A exposição é heterogênea e ela propõe algo que Marchel Duchamp trouxe à tona com A fonte, o mictório invertido: repensar o peso que damos ao museu como instituição e ver a obra pelos próprios olhos.

(clique nas imagens para ampliá-las)

Querubins, de Jeff Koons (1991)

Se os querubins aparecem como crianças puras e assexuadas nas obras mais clássicas do Renascimento e ainda no Romantismo, aqui Jeff Koons recria os querubins pela particularização. O artista coloca a infância como temática pelo ursinho azul, o laço rosa e a coroa de flores sinalizando que uma delas se trata de uma menina, enquanto o outro é um menino pelos tons azuis da vestimenta. Desta forma,Koons parece colocar na obra uma linha que une a tradição, pela figura do querubim feito em madeira com os traços universais e os tons acetinados tão dificilmente extraídos no Renascimento,  e o conceito de infância que foi se estabilizando na modernidade como sinônimo de inocência a ser celebrada.

Ruínas, de Roy Lichtenstein (1965)

O primeiro aspecto que se nota numa obra de Lichtenstein são as cores que entram em contraste numa simplicidade que remete ao imaginário das histórias em quadrinhos. O céu é feito de um azul pontilhado em oposição ao chão amarelado liso. As colunas, sinônimos de sustentação, se encontram em ruínas, derrubadas ao canto do quadro. O cenário não é, contudo, de desolação. O tom escolhido e as duas colunas, uma em pé ainda, parecem dizer algo a mais: uma tradição em pedaços ao canto, mas talvez uma nova coluna que irá desabar ou que foi recém-construída. Essa dúvida perdura na fruição.

48 retratos, de Gerhard Richter

A obra 48 retratos disposta em aparentes fotografias surpreende o olhar do fruidor. Em um primeiro instante, parece se tratar de um retrato de cada um dos escritores, cientistas, críticos dispostos na parede. Mas a dúvida se instaura: o artista não conhecera todos aqueles autores, não é? Ao se aproximar dos quadros, o que antes se assemelhava a uma fotografia parece, então, uma pintura. Essa dualidade nos põe diante da confusão permanente ao afirmar que pintura e fotografia abordariam a realidade com exatidão. Se agora o que parecia um retrato fiel daqueles artistas soa como uma pintura, aqueles rostos seriam meros simulacros? A fruição da obra como experiência diminui o seu valor? Parece que, ao criar essa mudança, o artista promove um descortinar não só da sua obra, mas também dos olhos do espectador a si mesmo. Não é incomum os nomes daqueles escritores e cientistas ressoarem na tradição como nomes densos, detentores de conhecimento e cultura nomeada erudita como um conhecimento admirável a ser adquirido. E esse é o problema: adquirir, consumir a obra do escritor não pela obra em si, mas pelo peso que ele concede ao sujeito denominado “culto” por supostamente conhecê-lo. Por isso, o trabalho de Richter com essa obra faz mais do que se constituir como algo “admirável”; ele propõe a mudança do olhar até mesmo para aqueles nomes, tornados mitos, e principalmente à forma com que nós os encaramos já como símbolos intocáveis.

Entre o livro e a imagem, de Nikolai Ovchinnikov

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O curioso é constatar na obra de Nikolai Ovchinnikov o diálogo entre o cenário pictórico narrado pela literatura servindo como pano de fundo e, ao mesmo tempo, envolvendo a figura do livro. O quadro tem uma sequência de cenários e a colagem de um livro aberto denso. O olhar se confunde propositalmente, buscando entender qual figura se sobrepõe à outra. E é exatamente essa a experiência do leitor com um livro das mãos. As palavras criam imagens, mas as próprias palavras se presentificam para que nós possamos imaginar a cena narrada. A questão é que isso não se faz como uma etapa ultrapassada. Ela é fluída e fica nesse estado transitório, o “entre” a imagem e o livro. Da mesma forma o espectador diante de uma obra de arte. Ele nunca conseguirá alcançar por inteiro os significados totais da obra em questão, e fica nesse espaço indeterminado, entre um espectador encontrado externamente diante da obra como coisa e aquele que busca desvendar a obra no interior dela.

Tríptico Nº 14 autorretrato, de Vladimir Yankilevsky (1987)

A presença dessa obra na coleção de Ludwig traz à tona o olhar que o artista possuía para os artistas contemporâneos e o contexto geopolítico. Antes da queda do Muro de Berlim, Ludwig já se encontrava atento às produções socialistas e a obra de Vladimir é constituída por uma poesia amarga que não soa somente em seu contexto. É uma pintura e escultura ao mesmo tempo, no qual encontramos o protagonista em pé de costas, ao centro, diante da porta de um trem, a mala ao lado e o jornal amassado pelo vento grudado à face. Ao lado esquerdo, vemos o cenário de uma praia pela perspectiva do contorno do protagonista. À direita, uma estrada à noite pelo mesmo contorno. No contexto da obra, o artista denuncia a confusão da identidade do sujeito que vê em sua cidade um muro que divide, numa dualidade cruel, o espaço que era todo seu, cerceando o direito de ir e vir. O protagonista, então, se encontra nesse meio-termo, suspenso no transitório trem, único espaço em que ele de fato existe – possuindo um corpo-, enquanto é somente um fantasma nos demais cenários. Contudo, essa análise não precisa necessariamente se localizar no contexto da Alemanha. A transitoriedade grita na obra e assombra a identificação do fruidor com o protagonista que se encontra por inteiro somente no espaço efêmero do trem. Desta forma, o artista traz o fruidor para a mesma situação de seu personagem, talvez ao terror do confinamento que vivemos no cotidiano incerto, à crise do sujeito em face de seu espaço. Também pode ser uma maneira de recolocar em questão se o fruidor, num museu, se encontra no momento efêmero do trem, no qual ele entende, por um segundo, a linguagem muda da obra de arte.

Cabeça de Garota, de Gottfried Helnwein

Finalizo a matéria falando da primeira obra com a qual nos deparamos já no saguão do CCBB. Um painel imenso com o rosto de uma garota de olhos fechados. Trata-se de um acrílico em tela no qual escapa da obra, pelos tons lilases, a delicadeza etérea da infância. O artista costuma retratar crianças com artefatos sombrios, como armas, sobrepondo a inocência da criança ao horror de um mundo exterior. Nesse caso, porém, o painel de Helnwein hipperrealista dá um aspecto monumental não somente ao museu, mas faz da criança, um ser pequenino e frágil, uma criatura que assombra e encanta por sua dimensão.

(créditos: Gustavo Oliveira Machado e Eric Danilo)

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Orelhas grandes

RabbitEarsGCO ponto de ônibus havia mudado. Uma distância – ainda que pequena – maior para percorrer e a necessidade de sair mais cedo para nenhum imprevisto resultar em atraso para a aula. Nenhum ônibus surgia no final da rua, tudo silencioso na manhãzinha nublada e preguiçosa.

-Filha, segura direito minha mão. Cê não pode sair correndo assim…aliás, tu sabe que eu não gosto quando você faz isso e ainda…ontem você foi inventar de brincar com meu celular e quase quebrou.

A menina tinha por volta de quatro anos e olhava de baixo para cima com os olhos inocentes arregalados. O celular toca num tom estridente e a moça atende, conversando com o marido. A menina se agacha, então, e pega uma florzinha vermelha tímida que repousava no cimento, depois de ter caído da árvore. Ela estende hesitante para a mãe.

-É pra mim?

-É, sim.

-Vem cá, vai – disse a mãe arrumando os cachinhos da menina. Desligara o celular.

-Sabia que seu pai sempre passa de moto em frente ao meu trabalho pra falar um oi na hora do almoço? Ele finge primeiro que não me vê, mas depois vem falar oi – ria gostosamente a mãe – e como foi na escola?

-O coelho da páscoa foi lá na escola e todo mundo ficou assustado. Era rosa e grande e gordinho.

-Ué, por que filha? O coelho é legal, dá chocolate. Cê ficou assustada?

-Fiquei assustada, não gostei dele…ele tinha orelhas grandes.

-Mas coelhos tem orelhas grandes! E você não ganhou ovo? Crianças que são boazinhas ganham ovinhos.

-Ele não levou nada! E eu sou a única boazinha que faz tudo lá na escola, eu merecia – lamentou a menina.

O ônibus chegou e a garotinha subiu com a mãe, animada para sentar no espacinho que tinha ao lado do banco. Crianças adoram subir lá, como se estivessem desbravando uma montanha no arriscado sacolejar do ônibus. A conversa entre mãe e filha ressoou por toda a semana na minha mente. Torci para que ela não tivesse medo das orelhas grandes do coelhinho e que ganhasse um ovo de páscoa. E que a florzinha dada à mãe tenha deixado o dia dela mais doce. Da mesma forma que transformou a manhãzinha preguiçosa numa cena cotidiana a ser contada.

*imagem: rabbit ears, from the game cook

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Hoje eu quero voltar sozinho e a delicadeza das coisas simples

Coluna para o Fashionatto

Hoje-Eu-Quero-Voltar-Sozinho-2O filme Hoje eu quero voltar sozinho é uma daquelas obras que você deseja guardar em um potinho, como um pedacinho de chocolate para comer mais tarde, sabendo que vai fazer você se sentir melhor. Da mesma forma que guardamos as melhores lembranças da infância e da adolescência num espaço da mente, onde deixamos as cenas com as melhores tomadas e as trilhas mais convincentes ressoando por lá. Acabam por ser um filme em constante recriação e olha só, sem precisar de filtro. Essas lembranças por si só já possuem a beleza do aspecto mais simples.

É essa a sensação que Hoje eu quero voltar sozinho traz à tona. O tema do longa é universal: o amor adolescente. Mas mexe com dois tabus: Leonardo, o protagonista, é gay e deficiente visual. Quando Gabriel chega ao colégio, Leo precisa aprender a lidar com as próprias emoções, a amizade com a adorável Giovanna e o desejo de se provar autônomo à família e aos amigos.

O caminho que o diretor Daniel Ribeiro escolheu para criar o longa, inspirado no curta de 2010 Eu não quero voltar sozinho, foi extremamente acertado. A São Paulo em que se desenrola o enredo é quase uma cidade idílica, tranquila, mas o drama é realista, o roteiro e os diálogos concebidos de maneira muito próxima das nossas próprias vivências. A comunicação no filme é fundamental para que se estabeleça a nossa relação profunda com os personagens. O mérito do filme é criar uma história que em nenhum momento perde o seu ritmo ou venha a soar falsa. Os personagens Leo, Gabriel e Giovanna parecem existir fora das salas de cinema.

No decorrer da película, a atuação de Ghilherme Lobo (Leo), Tess Amorim (Giovanna) e Fabio Audi (Gabriel) ganham contornos cada vez mais profundos e bem apurados. O trabalho de Ghilherme é excepcional ao demonstrar as emoções de seu personagem pelos gestos, pela entonação da voz e, surpreendentemente, a emoção reside no seu olhar, apesar de que tenha sido exigido de seu trabalho não olhar aos demais para permanecer na caracterização de Leo. Assim, ele guia o protagonista à status de herói com um trabalho bem feito nos detalhes de cada gesto e bem desenvolvido em seu conjunto.

Fabio Audi consegue criar muito bem a leveza e o peso da mudança que é o surgimento de Gabriel na vida de Leonardo. É com muita espontaneidade que a sua atuação vai estabelecendo a grande importância da presença de Gabriel. É como se ele conduzisse, quase timidamente, também o espectador às mesmas mudanças pelas quais Leo está passando.

Tess Amorim faz de Giovanna uma personagem de grande presença no enredo, a qual adiciona a complexidade necessária para que os dilemas na vida de Leo se encaixem. A interação entre Leo e Giovanna é trabalhada com tamanha naturalidade que se pode dizer que essa amizade é o que conduz o crescimento do protagonista. A atuação de Tess é sublime, posicionando Giovanna como peça chave para ser o contato que Leo tem com o mundo, com o próprio passado e as futuras decisões a serem tomadas. Ela oferece resistência com as primeiras mudanças do amigo, mas estar com ela recupera em Leo a vontade de não crescer sozinho.

Por toda uma vida, o personagem habitou um palácio no qual as sensações eram o acesso que tinha ao mundo. Elas passam a um estado de ebulição quando Leo percebe que precisa manifestar o seu amor, que precisa crescer. Mas como crescer se a família o cerca de uma compreensível preocupação por sua deficiência visual? O filme trata de uma questão delicada que, independente da condição física de Leo, está presente no drama da adolescência: conquistar uma autonomia que nunca vem abruptamente e por completo. É possível ver que também estamos no escuro com Leo, mas desejando visualizar um eclipse, o simples vislumbre de uma vida lá fora com a qual sonhamos, e ver que pode dar certo.

Essa preocupação com o futuro se mistura à sensação de um presente quase eternizado em diversos trechos do filme, em que o drama se desenrola numa festa com um clímax marcante que irá influenciar os personagens à volta; as cenas emblemáticas que vão elevando Leo a um herói rumo a sua superação. Numa cena memorável do filme, toca a música Vagalumes Cegos, de Cícero. O toque preguiçoso e leve, os versos que falam da efemeridade dos momentos e de se refugiar no outro é um das maiores representações do significado do filme. A adolescência se passa numa cidade envolta por um véu que deixa presente cada vivência como se fosse uma pequena riqueza a ser lembrada mais tarde. Tudo o que Leo está vivenciando se constituirá como a história de sua vida que parece estar começando intensamente agora.

O título antigo do filme era Todas as coisas mais simples. Ter sido modificado para Hoje eu quero voltar sozinho tem grande importância, pois agora Leo tirou a partícula de negação e aceitou que precisa tentar voltar sozinho, por conta própria. A temática das coisas simples, porém, continua lá. Cada gesto, música, sensação, mudanças de perspectivas: essas pequeninas alterações é que vão se amontoando até formar a grande autonomia. Mas é a vontade de liberdade e de crescer junto com os amigos, ter com quem dividir a vida, é que grudam cada coisinha ao seu lugar nessa pilha que forma a vida de Leonardo. Assim, o filme deixa ressoar as sensações mais doces que temos, misturadas às do Leonardo, num conjunto de carinho e afeto que constitui o memorável Hoje eu quero voltar sozinho.

Confira AQUI a entrevista exclusiva que fiz ao Literatortura com o ator Ghilherme Lobo, o Leonardo!

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Me vê uma colher de surrealismo

Nesta manhã eu tomei uma colher de surrealismo. Misturado ao cereal e ao leite cândido, os floquinhos coloridos do surrealismo se dissolveram e me puxaram para aquela piscina branca. O surreal brincava com a rima do cereal, como uma palavra atrevida que sabia o sentido engraçadinho que podia provocar no ouvinte.

Com o coração agitado, eu dançava com os floquinhos, com as cores, com os sonhos mais bizarros da noite que coloriam aquela massa informe de leite e surrealismo. Um senhor de cartola, um trompete, um bebê desfigurado cantando, e eu sei lá o que queria dizer isso. O encanto se dissolvia, a vontade de sair de mim mesmo emergia pesadamente, depois cessando e me deixando com a dor amortecida, como se repousasse de volta ao travesseiro.

Eu mergulhara fundo para um campo desconhecido, no qual a música que eu ouvi antes de dormir ressoava pelo desespero que me movia para lá e para cá naquela piscina de sonhos. Nela, eu via refletida os mundos infinitos dos quais sou feito. Neguei muitos daqueles pedaços, mas eles vinham me cutucar no café da manhã agora meio indigesto.

O relógio escorria pela colher junto ao leite. Eu tentava correr pulando de um ponteiro ao outro como se fosse um obstáculo. Você vai se perguntar como é que da tigela fui à colher. Vou ficar sem responder porque não precisa ter um sentido lógico aqui. O surrealismo me fazia retroceder, seguindo pelo sentido anti-horário, tentando arduamente voltar ao sonho, mas as grandes barras do ponteiro me empurravam para o inevitável. Era melhor pular da colher à tigela e tentar sair do devaneio.

Normalmente, as pessoas despejam o café na xícara, comem maquinalmente o pão francês com manteiga, num estado de torpor que eu nem sei bem explicar. É como se estivéssemos dormindo por dentro, à espera da realidade colocar a mão em nossos ombros e as atividades diárias caírem sobre nossas cabeças em um só segundo, como um cobertor posto às nossas costas por um dia inteiro.

Mas se lá atrás, abrigar-se no cobertor posto às costas era o ato de uma criança que saía no corredor sonolenta, com expectativas, no dia de seu aniversário, hoje parece que esse cobertor foi posto pelo desconhecido que vem me acordar. Como um peso.

Por isso, pegar uma colherada de surrealismo no fundo da caixa de cereal é o mesmo que engolir a angústia da própria existência ao mesmo tempo em que se resiste ao desespero do mundo que nos espera lá fora. Eu poderia muito bem só tomar o meu café e imaginar que é só um café. Mas precisamos do surrealismo dissolvido ao leite para sobreviver a nós mesmos.

dalí cereal surrealismo

*minha prosa poética inspirada na imagem acima, desconheço o autor. Foi quase instantânea a vontade de escrever quando a vi (:

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A adolescência pelas músicas da Lorde

Coluna semanal no Fashionatto

130827-LordeO assunto dessa semana foram os shows do Lollapalooza. Entre as apresentações excelentes do Imagine Dragons, Muse e Phoenix, já bandas bem estabelecidas com grande público, houve o show da Lorde. Primeiro: eu assisti pela tv, o que é triste, queria estar lá. Mas assisti, é o que vale, e durante a apresentação, eu fiquei relembrando o quanto, desde o início, me chamou a atenção a perspectiva que a Lorde, com seus 17 anos, consegue fornecer sobre a adolescência, processo pelo qual ela mesma está passando, nas letras que compõe. Por isso, então, resolvi fazer a coluna de hoje sobre esse assunto: a adolescência através das músicas da Lorde.

Começo com uma música que não tem a mesma popularidade de Royals, mas que me parece deixar mais claro o significado da adolescência: Tennis Court. Como um adolescente, o pertencimento a um grupo ou as primeiras formas que se dá à personalidade acabam sendo pelos objetos que possuímos. Não apenas um Iphone, mas as roupas também e a mensagem que elas transmitem. E o seguinte trecho fala sobre isso: “And I am only as young as the minute is full of it, getting pumped up from the little bright things I brought. But I know they’ll never own me” (E eu sou tão jovem quanto o minuto é cheio disso/Bombardeada pelas pequenas coisas brilhantes que comprei/Mas eu sei que elas não me possuirão). Sabe-se, então, que as pequenas coisas – brilhantes, pelo valor que damos a elas, e também o que o senso comum pensa delas – parecem completar a nossa presença no mundo, falar por nós mesmos. Mas como afirma Lorde, não são elas que possuem plenamente o significado dessa identidade, muitas vezes sendo apenas sinônimos de status.

O refrão é ainda mais interessante: “Baby, be the class clown, I’ll be the beauty queen in tears, it’s a new art form showing people how little we care” (Querido, seja o palhaço da turma/Eu serei a rainha da beleza em lágrimas/É uma nova forma de arte mostrar às pessoas o quão pouco nos importamos). Na adolescência, é inevitável desejar se enquadrar nesses modelos e grupos. Se você for o palhaço da turma, será sempre o mais engraçado. Se for a rainha da beleza em lágrimas, assumirá a dramaticidade que lhe é pedido. Ou seja, tomar para si esses tipos é quase criar um personagem para si mesmo. E um paradoxo: aceitamos esses personagens sabendo como eles serão vistos pelos outros, mas nos importamos pelo menos um pouquinho com o olhar do outro. Mesmo assim, dizer que não se importa é a defesa para tentar explorar as próprias possibilidades.

“We’re so happy, even when we’re smiling out of fear” (Nós somos tão felizes, até mesmo quando estamos sorrindo com medo). Acho que esse é o verso mais forte da música. Adolescência é a sensação de estar à deriva e esse sorriso ser a forma de se comunicar, com hesitação, ao mundo do outro. E se a tentativa dá errado, parece que o pouco conquistado desmorona. Basicamente, ser adolescente é estar numa peça teatral. E isso não é algo ruim, não. Criar um personagem faz parte do processo, porque é o momento em que estamos dando os primeiros passos para entender quem somos, se isso existe como essência, ou se podemos criar quem queremos ser. No fim das contas, adolescência é experimentar e aos poucos a gente entende se queremos sustentar esse eu criado por toda uma vida. Esse eu pode mudar, não tem problema.

“Let’s go down to the tennis court and talk it up like ‘yeah’” (Vamos descer para a quadra de tênis e falar tipo, yeah) e “It looked alright in the pictures” (Parecia tudo bem nas fotos) são versos que se completam, porque a ideia de descer à quadra de tênis, ter um espaço em que todos os outros jovens se encontram é onde cada personagem poderá mostrar quem é e, claro, tudo fica muito bem na aparência de uma foto. Além disso, adolescência é sinônimo de fragilidade. O que tentamos sustentar pode já não ser mais válido no momento seguinte. Se nos expressamos por uma roupa, um gosto particular, muitos a nossa volta julgam isso sem hesitar. E será que esse julgamento é verdadeiro? Como se julga uma pessoa somente pelo que ela gosta sem ao menos cogitar que aquilo, de fato, importa para ela?

Agora a ideia é entrelaçar três músicas. Bravado carrega um verso muito bonito que Lorde pegou emprestado de Kanye West (…me found bravery in my bravado) para transformar em “I’ll find my own bravado” (Eu vou encontrar meu próprio heroísmo), o que significa que ser adolescente é ir descobrindo aos poucos tudo aquilo que o motiva ou o que realmente quer fazer como projeto.

I was frightened of every little thing (Eu estava amedrontada com cada pequena coisa)
That I thought was out to get me down (Que eu pensei que estava lá fora para me derrubar)
To trip me up and laugh at me (Para me tirar do caminho e rir de mim)
But I learned not to hold the quiet of the room (Mas eu aprendi a não manter o silêncio na sala)
With no one around to find me out (Com ninguém por perto para me encontrar)
I want the applause, the approval, the things that make me go (Eu quero o aplauso, a aprovação, as coisas que me fazem prosseguir)”

O eu-lírico não vê nada de errado em querer essa aprovação, desde que ela venha a partir das coisas que ele sente serem particulares a sua formação, ao seu caminho. Desta forma, bravado, uma palavra difícil de se traduzir, seria ao mesmo tempo encontrar o heroísmo e a coragem e o caminho idealizado em que essa coragem será necessária.

A World Alone expõe a sensação de deslocamento nada incomum na adolescência e a obrigação que paira no ar de que você precisa agradar às expectativas não somente dos outros que tem a mesma idade, mas ao estereótipo que se criou do jovem destemido que precisa experimentar os extremos. Essa pressão social está nos seguintes versos:

All my fake friends and all of their noise (Todos meus amigos falsos e todo o seu barulho) Complain about work (Reclamando do trabalho)
They’re studying business, I study the floor (Eles estão estudando Negócios, eu estudo o chão)”

E dançar sozinho com um amigo, como diz a música, é criar um próprio mundo no qual você é o protagonista e escolhe as pessoas que pertencem a ele. Nesse ponto, é curioso ver como somos narcisistas na adolescência. Mas é um narcisismo que, muitas vezes, beira à ingenuidade. Falar aos quatros cantos que, quando for um adulto, fará algo incrível como ganhar um prêmio e ser rico. Esses sonhos que são muito enfeitados na adolescência. Como parecemos estar suspensos num período de espera que, ao mesmo tempo, exige ações importantes como escolher uma profissão, o narcisismo é quase uma defesa, é assumir o discurso de que você tem um valor diante do medo de descobrir que, no fim das contas, há pessoas bem parecidas com você no mundo afora. Por isso, nos apegamos tanto às nossas pequenas coisas brilhantes, ao amigo que está ao lado, às nossas opiniões. “Somos um trem desgovernado esperando acontecer”, nas palavras de Lorde. Porque parece que ser adolescente é quase o mesmo que ter a função de colher tudo aquilo que lhe agrada e, o mais difícil, ter que escolher o que mais vale a pena visando o futuro. Sempre à espera do que vai acontecer enquanto o presente parece se estender infinitamente.

Para fechar esse trio de músicas, analisar Team acaba por voltar à Bravado e World Alone. Por quê? Team tem uma atmosfera fantástica, em que a Lorde optou por desenvolver um sonho que teve. Trata de uma sociedade, um time resistente ao mundo. Dancin’ around the lies we tell/Dancin’ around big eyes as well” (Dançando em volta das mentiras que contamos/Dançando em volta de grandes olhos também). Ou seja, a reunião entre amigos em comum na adolescência é quase um ritual em que se cria um momento particular, uma ficção, na qual o adolescente se volta, não deixando também de ser visto pelos grandes olhos daqueles que não fazem parte dela.

“We live in cities you’ll never see on screen (Nós vivemos em cidades que você nunca verá nas telas)
Not very pretty, but we sure know how to run free (Não muito bela, mas com certeza sabemos como comandar livremente)
Living in ruins of a palace within my dreams (Vivendo em ruínas do palácio dos meus sonhos)
And you know, we’re on each other’s team (E você sabe, estamos um no time do outro)”

Assim como se dança sozinho no mundo, aqui é o mesmo que viver nas ruínas de um palácio criado por si mesmo e dividi-lo com os outros. Ou ainda, em outros versos de Team, todos estão competindo pelo amor que não vão receber, e o que esse palácio deseja é liberdade de não se ver preso a esse apelo vicioso pelo outro.

Após toda essa análise das letras da Lorde, dá para pensar um pouco mais sobre a adolescência. Ela não é um período que acaba totalmente. Quando completei 18 anos, a dificuldade no primeiro ano da graduação foi a insegurança de ver que havia gente que sabia muito mais do que eu, o desespero de tentar correr atrás desse conhecimento. E aquilo que eu ouvia nas aulas de filosofia sobre encontrar a autonomia e sair da menoridade para Kant, era muito mais difícil do que eu pensava. E não foi nada automático. Com o tempo, você aprende a resgatar aquele “palácio dos seus sonhos” agora muito mais realista, talvez, como um apoio para respeitar o seu próprio ritmo.

Até hoje eu fico pensando na música que tocou no final da minha formatura do Ensino Médio, Viva la Vida, do Coldplay. Sem dúvidas, ela é animada para o momento. Mas a letra é ambígua e complexa demais. Veja bem: o eu-lírico perdeu a chave do seu reinado. Antes disso, todos seguiam dizendo “vida longa ao Rei” e agora que seu reino foi perdido, resta lembrar o quanto no passado ele costumava comandar o mundo. Essa tristeza pelo Rei da letra me fazia pensar se eu estava perdendo o mundo que eu comandava, o meu mundo das coisinhas brilhantes que a Lorde afirma.

Mas isso fica bem claro em Tennis Court,“everything’s cool when we’re all in line for the throne. But I know it’s not forever” (Tudo é legal quando estamos todos na linha do trono. Mas eu sei que isso não é para sempre). É um reinado que não dura para sempre. Não dá para ser adolescente para sempre. Dá para manter, pelo menos, essa vontade de conquistar. Quando você se forma e encontra o mundo – essa realidade aberta – parece que se perde a chave do reinado anterior, mas se ganha uma muito mais humilde. Ainda assim, uma chave para esse mundo que nunca vai se esgotar enquanto você tenta conquistar um novo reinado. Talvez seja esse o significado de crescer.

Para não ficar poluído com player do youtube, é só clicar no título de cada música para ouvi-las:

Royals

Tennis Court

Bravado

A World Alone

Team

Viva la Vida – Coldplay