Hoje eu quero voltar sozinho e a delicadeza das coisas simples

Coluna para o Fashionatto

Hoje-Eu-Quero-Voltar-Sozinho-2O filme Hoje eu quero voltar sozinho é uma daquelas obras que você deseja guardar em um potinho, como um pedacinho de chocolate para comer mais tarde, sabendo que vai fazer você se sentir melhor. Da mesma forma que guardamos as melhores lembranças da infância e da adolescência num espaço da mente, onde deixamos as cenas com as melhores tomadas e as trilhas mais convincentes ressoando por lá. Acabam por ser um filme em constante recriação e olha só, sem precisar de filtro. Essas lembranças por si só já possuem a beleza do aspecto mais simples.

É essa a sensação que Hoje eu quero voltar sozinho traz à tona. O tema do longa é universal: o amor adolescente. Mas mexe com dois tabus: Leonardo, o protagonista, é gay e deficiente visual. Quando Gabriel chega ao colégio, Leo precisa aprender a lidar com as próprias emoções, a amizade com a adorável Giovanna e o desejo de se provar autônomo à família e aos amigos.

O caminho que o diretor Daniel Ribeiro escolheu para criar o longa, inspirado no curta de 2010 Eu não quero voltar sozinho, foi extremamente acertado. A São Paulo em que se desenrola o enredo é quase uma cidade idílica, tranquila, mas o drama é realista, o roteiro e os diálogos concebidos de maneira muito próxima das nossas próprias vivências. A comunicação no filme é fundamental para que se estabeleça a nossa relação profunda com os personagens. O mérito do filme é criar uma história que em nenhum momento perde o seu ritmo ou venha a soar falsa. Os personagens Leo, Gabriel e Giovanna parecem existir fora das salas de cinema.

No decorrer da película, a atuação de Ghilherme Lobo (Leo), Tess Amorim (Giovanna) e Fabio Audi (Gabriel) ganham contornos cada vez mais profundos e bem apurados. O trabalho de Ghilherme é excepcional ao demonstrar as emoções de seu personagem pelos gestos, pela entonação da voz e, surpreendentemente, a emoção reside no seu olhar, apesar de que tenha sido exigido de seu trabalho não olhar aos demais para permanecer na caracterização de Leo. Assim, ele guia o protagonista à status de herói com um trabalho bem feito nos detalhes de cada gesto e bem desenvolvido em seu conjunto.

Fabio Audi consegue criar muito bem a leveza e o peso da mudança que é o surgimento de Gabriel na vida de Leonardo. É com muita espontaneidade que a sua atuação vai estabelecendo a grande importância da presença de Gabriel. É como se ele conduzisse, quase timidamente, também o espectador às mesmas mudanças pelas quais Leo está passando.

Tess Amorim faz de Giovanna uma personagem de grande presença no enredo, a qual adiciona a complexidade necessária para que os dilemas na vida de Leo se encaixem. A interação entre Leo e Giovanna é trabalhada com tamanha naturalidade que se pode dizer que essa amizade é o que conduz o crescimento do protagonista. A atuação de Tess é sublime, posicionando Giovanna como peça chave para ser o contato que Leo tem com o mundo, com o próprio passado e as futuras decisões a serem tomadas. Ela oferece resistência com as primeiras mudanças do amigo, mas estar com ela recupera em Leo a vontade de não crescer sozinho.

Por toda uma vida, o personagem habitou um palácio no qual as sensações eram o acesso que tinha ao mundo. Elas passam a um estado de ebulição quando Leo percebe que precisa manifestar o seu amor, que precisa crescer. Mas como crescer se a família o cerca de uma compreensível preocupação por sua deficiência visual? O filme trata de uma questão delicada que, independente da condição física de Leo, está presente no drama da adolescência: conquistar uma autonomia que nunca vem abruptamente e por completo. É possível ver que também estamos no escuro com Leo, mas desejando visualizar um eclipse, o simples vislumbre de uma vida lá fora com a qual sonhamos, e ver que pode dar certo.

Essa preocupação com o futuro se mistura à sensação de um presente quase eternizado em diversos trechos do filme, em que o drama se desenrola numa festa com um clímax marcante que irá influenciar os personagens à volta; as cenas emblemáticas que vão elevando Leo a um herói rumo a sua superação. Numa cena memorável do filme, toca a música Vagalumes Cegos, de Cícero. O toque preguiçoso e leve, os versos que falam da efemeridade dos momentos e de se refugiar no outro é um das maiores representações do significado do filme. A adolescência se passa numa cidade envolta por um véu que deixa presente cada vivência como se fosse uma pequena riqueza a ser lembrada mais tarde. Tudo o que Leo está vivenciando se constituirá como a história de sua vida que parece estar começando intensamente agora.

O título antigo do filme era Todas as coisas mais simples. Ter sido modificado para Hoje eu quero voltar sozinho tem grande importância, pois agora Leo tirou a partícula de negação e aceitou que precisa tentar voltar sozinho, por conta própria. A temática das coisas simples, porém, continua lá. Cada gesto, música, sensação, mudanças de perspectivas: essas pequeninas alterações é que vão se amontoando até formar a grande autonomia. Mas é a vontade de liberdade e de crescer junto com os amigos, ter com quem dividir a vida, é que grudam cada coisinha ao seu lugar nessa pilha que forma a vida de Leonardo. Assim, o filme deixa ressoar as sensações mais doces que temos, misturadas às do Leonardo, num conjunto de carinho e afeto que constitui o memorável Hoje eu quero voltar sozinho.

Confira AQUI a entrevista exclusiva que fiz ao Literatortura com o ator Ghilherme Lobo, o Leonardo!

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2 comentários sobre “Hoje eu quero voltar sozinho e a delicadeza das coisas simples

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