Pop art e mais do século XX: a exposição Visões na coleção Ludwig

Coluna semanal no Fashionatto

A ideia da coluna de hoje é trazer você, leitor, à minha tentativa de desvendar um pouquinho de algumas obras. É um exercício para expandir o olhar, como eu propus timidamente lá na minha primeira matéria.

A exposição Visões na coleção Ludwig, que terminou nesse final de semana no CCBB SP e seguirá para o Rio de Janeiro e Belo Horizonte, trouxe a coleção preservada pelo casal Peter e Irene Ludwig na segunda metade do século XX. É uma coleção riquíssima. É possível ver a pop art americana, o neo-expressionismo alemão, o neo-barroco e o hiper-realismo, uma diversidade admirável encontrada por todo um século em expansão. Ter essa exposição em São Paulo é o prazer de experimentar o acervo que está distribuído em 14 instituições e museus no mundo todo. Além disso, a exposição nos faz refletir sobre como o empenho de Peter Ludwig em colecionar tais obras serviram também como um estímulo à efervescência artística de todo um século, uma nova significação de artista que está se formando aos nossos olhos e como a arte consegue dialogar com a realidade.

Presenciar a exposição Visões na coleção Ludwig é visualizar um trecho da história da Arte que, inevitavelmente, tornou-se uma referência artística, apesar do discurso claro desses artistas para uma crise da arte, incorporando à obra a massificação da cultura popular e capitalista. A primeira obra que vem à mente quando citamos pop art é a replicação do rosto de Marilyn Monroe por Andy Warhol. Assim como uma atriz se tornava produto com uma aura que incitava ao consumismo – a vontade de ter o que ela tem para ser Marilyn Monroe – é o indicativo para compreender como a pop art expandiu o tema incorporando a crítica por sua forma.

A serigrafia sobre tela produzida por Andy Warhol, O retrato de Peter Ludwig, dá as boas-vindas ao fruidor que experimenta uma linguagem distinta pelas mais variadas expressões artísticas dispostas nos andares da exposição. Há Cabeças Grandes (ao lado), de Picasso, datada de 1969, apontando às cores e recortes brutos do artista. Ele não se encontra exatamente nas escolas demarcadas pela exposição, contudo, apresenta o fascínio de Ludwig por Picasso e a marca dos novos caminhos que a arte moderna foi esboçando.

Infelizmente, a exposição terminou em São Paulo, mas a proposta dessa matéria é sinalizar alguns artistas e traçar comentários sobre as impressões das obras deles, que eu marquei com uma letra desleixada no encarte da exposição. São as minhas visões sobre as obras, da forma com que o próprio título da exposição sugere: as várias visões para a coleção de Ludwig. A ideia é espalhar um pouco do que foi a fruição, a experiência de contemplá-las. A exposição é heterogênea e ela propõe algo que Marchel Duchamp trouxe à tona com A fonte, o mictório invertido: repensar o peso que damos ao museu como instituição e ver a obra pelos próprios olhos.

(clique nas imagens para ampliá-las)

Querubins, de Jeff Koons (1991)

Se os querubins aparecem como crianças puras e assexuadas nas obras mais clássicas do Renascimento e ainda no Romantismo, aqui Jeff Koons recria os querubins pela particularização. O artista coloca a infância como temática pelo ursinho azul, o laço rosa e a coroa de flores sinalizando que uma delas se trata de uma menina, enquanto o outro é um menino pelos tons azuis da vestimenta. Desta forma,Koons parece colocar na obra uma linha que une a tradição, pela figura do querubim feito em madeira com os traços universais e os tons acetinados tão dificilmente extraídos no Renascimento,  e o conceito de infância que foi se estabilizando na modernidade como sinônimo de inocência a ser celebrada.

Ruínas, de Roy Lichtenstein (1965)

O primeiro aspecto que se nota numa obra de Lichtenstein são as cores que entram em contraste numa simplicidade que remete ao imaginário das histórias em quadrinhos. O céu é feito de um azul pontilhado em oposição ao chão amarelado liso. As colunas, sinônimos de sustentação, se encontram em ruínas, derrubadas ao canto do quadro. O cenário não é, contudo, de desolação. O tom escolhido e as duas colunas, uma em pé ainda, parecem dizer algo a mais: uma tradição em pedaços ao canto, mas talvez uma nova coluna que irá desabar ou que foi recém-construída. Essa dúvida perdura na fruição.

48 retratos, de Gerhard Richter

A obra 48 retratos disposta em aparentes fotografias surpreende o olhar do fruidor. Em um primeiro instante, parece se tratar de um retrato de cada um dos escritores, cientistas, críticos dispostos na parede. Mas a dúvida se instaura: o artista não conhecera todos aqueles autores, não é? Ao se aproximar dos quadros, o que antes se assemelhava a uma fotografia parece, então, uma pintura. Essa dualidade nos põe diante da confusão permanente ao afirmar que pintura e fotografia abordariam a realidade com exatidão. Se agora o que parecia um retrato fiel daqueles artistas soa como uma pintura, aqueles rostos seriam meros simulacros? A fruição da obra como experiência diminui o seu valor? Parece que, ao criar essa mudança, o artista promove um descortinar não só da sua obra, mas também dos olhos do espectador a si mesmo. Não é incomum os nomes daqueles escritores e cientistas ressoarem na tradição como nomes densos, detentores de conhecimento e cultura nomeada erudita como um conhecimento admirável a ser adquirido. E esse é o problema: adquirir, consumir a obra do escritor não pela obra em si, mas pelo peso que ele concede ao sujeito denominado “culto” por supostamente conhecê-lo. Por isso, o trabalho de Richter com essa obra faz mais do que se constituir como algo “admirável”; ele propõe a mudança do olhar até mesmo para aqueles nomes, tornados mitos, e principalmente à forma com que nós os encaramos já como símbolos intocáveis.

Entre o livro e a imagem, de Nikolai Ovchinnikov

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O curioso é constatar na obra de Nikolai Ovchinnikov o diálogo entre o cenário pictórico narrado pela literatura servindo como pano de fundo e, ao mesmo tempo, envolvendo a figura do livro. O quadro tem uma sequência de cenários e a colagem de um livro aberto denso. O olhar se confunde propositalmente, buscando entender qual figura se sobrepõe à outra. E é exatamente essa a experiência do leitor com um livro das mãos. As palavras criam imagens, mas as próprias palavras se presentificam para que nós possamos imaginar a cena narrada. A questão é que isso não se faz como uma etapa ultrapassada. Ela é fluída e fica nesse estado transitório, o “entre” a imagem e o livro. Da mesma forma o espectador diante de uma obra de arte. Ele nunca conseguirá alcançar por inteiro os significados totais da obra em questão, e fica nesse espaço indeterminado, entre um espectador encontrado externamente diante da obra como coisa e aquele que busca desvendar a obra no interior dela.

Tríptico Nº 14 autorretrato, de Vladimir Yankilevsky (1987)

A presença dessa obra na coleção de Ludwig traz à tona o olhar que o artista possuía para os artistas contemporâneos e o contexto geopolítico. Antes da queda do Muro de Berlim, Ludwig já se encontrava atento às produções socialistas e a obra de Vladimir é constituída por uma poesia amarga que não soa somente em seu contexto. É uma pintura e escultura ao mesmo tempo, no qual encontramos o protagonista em pé de costas, ao centro, diante da porta de um trem, a mala ao lado e o jornal amassado pelo vento grudado à face. Ao lado esquerdo, vemos o cenário de uma praia pela perspectiva do contorno do protagonista. À direita, uma estrada à noite pelo mesmo contorno. No contexto da obra, o artista denuncia a confusão da identidade do sujeito que vê em sua cidade um muro que divide, numa dualidade cruel, o espaço que era todo seu, cerceando o direito de ir e vir. O protagonista, então, se encontra nesse meio-termo, suspenso no transitório trem, único espaço em que ele de fato existe – possuindo um corpo-, enquanto é somente um fantasma nos demais cenários. Contudo, essa análise não precisa necessariamente se localizar no contexto da Alemanha. A transitoriedade grita na obra e assombra a identificação do fruidor com o protagonista que se encontra por inteiro somente no espaço efêmero do trem. Desta forma, o artista traz o fruidor para a mesma situação de seu personagem, talvez ao terror do confinamento que vivemos no cotidiano incerto, à crise do sujeito em face de seu espaço. Também pode ser uma maneira de recolocar em questão se o fruidor, num museu, se encontra no momento efêmero do trem, no qual ele entende, por um segundo, a linguagem muda da obra de arte.

Cabeça de Garota, de Gottfried Helnwein

Finalizo a matéria falando da primeira obra com a qual nos deparamos já no saguão do CCBB. Um painel imenso com o rosto de uma garota de olhos fechados. Trata-se de um acrílico em tela no qual escapa da obra, pelos tons lilases, a delicadeza etérea da infância. O artista costuma retratar crianças com artefatos sombrios, como armas, sobrepondo a inocência da criança ao horror de um mundo exterior. Nesse caso, porém, o painel de Helnwein hipperrealista dá um aspecto monumental não somente ao museu, mas faz da criança, um ser pequenino e frágil, uma criatura que assombra e encanta por sua dimensão.

(créditos: Gustavo Oliveira Machado e Eric Danilo)

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