Cena polêmica em episódio de Game of Thrones reacende discussão sobre misoginia

Matéria publicada no Literatortura

Contém SPOILERS dos últimos episódios da 4a temporada e das anteriores!

Uma polêmica se espalhou após o episódio Breaker of Chains de Game of Thrones neste domingo. Por isso, já vou avisando: essa matéria contém um pequeno spoiler sobre a cena entre Jaime e Cersei Lannister, além de comentários sobre as temporadas anteriores. É importante escrever sobre essa cena em razão da  decepção causada e o esforço em tentar entender o motivo pelo qual os roteiristas optaram por modificar aquela cena em específico, indo de encontro ao que George R.R.Martin narra no livro. Tratar dessa modificação é trazer ao debate até que ponto se pode adaptar um enredo, o risco de perder a identidade do personagem em questão e se há misoginia nessa perspectiva.

A cena em questão é a seguinte. Após perder o filho Joffrey, rei de Westeros, em pleno casamento e acusar o irmão Tyrion do envenenamento do jovem, Cersei se encontra velando o corpo do filho. Ela escuta o pai Tywin discutindo como se deve ser um bom rei com o mais jovem filho de Cersei, preparando-o para assumir o trono sem demora. Logo, Cersei é deixada sozinha diante do filho morto e Jaime Lannister, irmão de Cersei, pede aos guardas que os deixem sozinhos. Sabemos que os dois já mantém uma relação incestuosa, que Cersei se mostrara relutante com a presença do irmão, pois ele ficou longe demais dela e ainda voltou sem a mão direita. A relação dos dois se encontra abalada após o retorno do Regicida.

“Vingue-o…vingue nosso filho”, diz Cersei, “Mate Tyrion”

“Tyrion é meu irmão…nosso irmão”, responde Jaime “Haverá um julgamento que vai trazer a verdade sobre o que aconteceu”.

Ambos se beijam, mas Cersei recua diante da mão dourada que Jaime agora porta, após ter perdido a mão. E, então, do nada, o personagem que se mostrava cauteloso ao lado de Cersei diante de Joffrey e negando matar o próprio irmão, diz“Por que os deuses me fizeram amar uma mulher tão detestável?”, investe na direção de Cersei, rasga o seu vestido e a violenta, enquanto ela diz diversas vezes chorando “pare, aqui não, por favor”. E a câmera para de gravar a cena.

Segundo o diretor, Alex Graves, Cersei aceitou a relação. A fala dele só demonstra a ideia absurda que é acreditar que sempre resta à mulher aceitar esse tipo de violência como se fosse algo agradável, no final das contas. A cena acabou no contexto brutal com a personagem implorando que Jaime parasse, enquanto no livro Cersei comenta uma vez sobre o perigo de os septões flagrarem os dois juntos, ao qual Jaime finge que não se importa, e Cersei conduz a relação como forma de convencê-lo a fazer o que ela havia pedido antes. A personagem é complexa e se sabe que ela está, de fato, frágil pela morte do filho, mas não deixa de lado a vontade de preservar ainda o seu poder como uma Lannister.

E, apesar da postura de Cersei ser um tanto manipuladora no livro, ela não pode ser definida somente como o estereótipo de uma mulher perspicaz, pronta para manipular e destruir a todos. Ela também teve vivências complicadas que a faz ser vítima também. Por isso, o comentário superficial do diretor reduz não somente a complexidade de Jaime, mas a de Cersei também. Mesmo que ela supostamente tivesse aceitado a relação, a cena na série nunca deixará de ser um estupro.

No livro, de fato, os dois tem uma relação sexual diante do corpo de Joffrey. Mas foi consensual. E possui um grande significado na trama: é o momento em que Cersei se encontra fragilizada pela morte do filho, encontrando consolo no único homem que ela amou, que prometia dar mais um herdeiro a ela diante do filho morto, e ao mesmo tempo precisando manipulá-lo de alguma forma para que Jaime se convença de que deve matar o irmão, se vingar pela morte de Joffrey e encontrar Sansa Stark, a qual fugiu do casamento, o que a põe como suspeita pelo envenenamento de Joffrey. Jaime, por sua vez, retornou de uma desventura na qual perdeu a mão e sofreu inúmeras vezes pensando que iria morrer. Estar com Cersei é praticamente a última tentativa de recuperar a relação que ele tivera com a irmã, recuperar o mínimo da felicidade em um passado no qual ele não corria grandes riscos a ponto de perder a mão que o fazia ser da Guarda Real e um homem com um resto de honra aos olhos dos demais.

O seriado compôs a temporada passada com um enredo entrelaçado na redenção de Jaime Lannister. Ele é um dos personagens mais complexos da série, pois no primeiro episódio ele joga Bran Stark de uma torre sem hesitar, o que provoca a raiva do leitor e espectador de imediato. Conseguir reformular o nosso olhar a esse personagem foi um grande mérito do enredo. Jaime revela, numa cena emblemática da 3ª temporada, que se é chamado de Regicida por ter matado o rei que protegia é porque ele possuiu motivos muito fortes para isso. Ele explica como Aerys II Targaryen, o Rei Louco,

havia espalhado barris de fogo-vivo por toda a cidade, embaixo das casas de cada morador de Porto Real, planejando explodir a cidade se sentisse a ameaça do inimigo que, para ele, estava em todos os cantos. Aerys ateou fogo no Mão do Rei, seu conselheiro, porque esse questionou o motivo de espalhar esses barris. O rei, cedendo à Tywin Lannister, pai de Jaime, acabou abrindo os portões da cidade e Tywin a saqueou. Diante disso, Aerys mandou seu mais novo Mão do Rei explodir a cidade e Jaime, ainda parte da Guarda Real, a matar o próprio pai e trazer a sua cabeça. Jaime, então, desferiu um golpe nas costas de Aerys, matou Mão do Rei e quem mais sabia onde estavam os barris de fogo-vivo, para impedir que explodissem a cidade. Essa cena foi decisiva para que o espectador soubesse que Jaime não era, de fato, um traidor, além de colocar em pauta qual é o limite de servir cegamente o rei ou considerar os próprios princípios.

Diante da cena do episódio dessa semana, a primeira impressão que dá é que os showrunners David Benioff e D.B. Weiss precisam de uma aula básica de interpretação de texto. Parece que recriar a cena foi uma tentativa de instaurar uma polêmica. Mas será que uma série tão bem-sucedida precisa disso? Infelizmente, o problema ultrapassam esses argumentos. É ainda mais sério: não só a cena de Jaime e Cersei, mas as de Daenerys e Khal Drogo na 1ª temporada, foram modificadas para um viés violento, sempre culminando no estupro sem necessidade e distinto dos livros.

Se o enredo criado por George R.R.Martin coloca isso no papel, não será à toa. Ele constrói seus personagens com perspicácia e, por isso, não há sentido modificar o que é essencial à trama. No caso, não se trata de uma cena pequena que foi modificada para a série por causa da grande quantidade de enredos para dar conta. Essa cena é importante e não há nada nela, presente nos livros, que precisava ser alterada para se encaixar na história.

É inegável que a violência e o estupro se encontram no cenário terrível do enredo geral, afinal, se trata de uma guerra. Esse ato é, muitas vezes, a forma mais comum – e terrível – nas conquistas de colônias, costuma-se saquear as casas e violentar as mulheres, como se fosse uma invasão à segunda propriedade do homem, agredindo a moral do homem que possui sua família e propriedade. Portanto, esse tipo de abordagem existiria na história e seria verossímil ao contexto. Da mesma forma que Game of Thrones traz brilhantemente à série o fato de que casamentos são alianças e que os casais – Cersei e Robert, Joffrey e Margaery – apenas se suportam pelos nomes e responsabilidades que carregam. Se houvesse uma cena de violência do gênero que indicasse esse realismo no enredo, seria aceitável a sua presença.

O que se mostra intolerável, porém, é ver que a série desqualificou toda a construção de Jaime, transformando-o em um criminoso apenas porque, para as palavras dele na cena, Cersei seria “detestável”. Com essa fala, os showrunners e a aprovação do diretor faz de Cersei a culpada pelo ato por ser “detestável”, postura que não difere de muitos homens da realidade, fora da ficcional Westeros, em culpabilizar a vítima da agressão.

De um personagem moralmente ambíguo que claramente tem buscado modificar suas percepções acerca dos votos, da honra e o que significa tomar para si os ideários dos Lannister, a série acabou por tornar Jaime em alguém deplorável que usa a violência como motivação em si mesma. Os roteiristas desrespeitaram não somente a obra de Martin, como a preferência do espectador por Jaime. O ato do personagem em voltar a Harrenhall e salvar Brienne de Tarth de ser morta por um urso ou convencer os homens que haviam capturado os dois a não violentá-la, o ódio que ele nutria toda vez que o rei Robert agredia Cersei, essas nuances do personagem foram meramente ignoradas, além do trabalho de redenção de toda uma temporada. Depois da agressão que a série inventou para a cena, como é que o espectador vai ficar ao lado de Jaime e acreditar que ele, de fato, quer recuperar a honra dele e ajudar uma Stark?

Confesso que espero que a fúria de George R.R.Martin se volte à vida desses showrunners. Perdeu-se a identidade de Jaime e Cersei também e só resta torcer para que os demais espectadores se mostrem enojados diante do caminho tomado pelos roteiristas e se convençam de que aquele não é Jaime Lannister. Obviamente, essa cena não diminui a qualidade da série como um todo, mas em relação à postura dos roteiristas diante da adaptação e do personagem, resta uma amargura que não tem mais volta, a cena já foi ao ar. É preciso lembrar ainda que essa postura em relação à aceitabilidade de Cersei, argumento dado pelo diretor, só demonstra o quão próximos ainda nos encontramos da permissiva e violenta Westeros em tempos de guerra. A questão é que o diretor não possui uma guerra como desculpa para justificar a sua adaptação e Westeros ainda é uma ficção. A misoginia parece cruzar os limites da ficção e gritar a sua existência na realidade.

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