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10 livros infantis escritos por gênios “adultos” da literatura

Matéria publicada no site Literatortura

O que um carro de corrida mágico e engenhoso tem a ver com justiça social, corvos, a maior flor do mundo, um gato, uma andorinha e a história do jazz? Todas essas histórias viraram livros infantis para os pequeninos. Um tanto peculiares e, por vezes, obscuros ou de temáticas complexas, pelas mãos de grandes escritores. Adultos. Mas grandes também, com um peso enorme quase mágico que emana dos seus nomes quando proferidos.

Poucos imaginam que Aldous Huxley, Gertrude Stein, James Thurber, Carl Sandburg, Salman Rushdie, Ian Fleming, Langston Hughes, Jorge Amado, Clarice Lispector, José Saramago e até o diretor Tim Burton (não tem como deixar o seu livro de fora) lideram também mundos fantásticos direcionados às crianças.

Eu tenho para mim que um dos maiores desafios de se criar enredos infantis é que o autor não deve subestimar a capacidade da criança de enxergar aquilo que ele pode e deve por nas entrelinhas. O livro existe para a criança desafiar o autor, o mundo adulto com questões curiosas sobre esse próprio mundo que está começando a conhecer. Um livro infantil pode ter diversas camadas que, no decorrer do crescimento da criança, se encontram em estado de ebulição aguardando para ser reveladas. Assim, novas perspectivas e histórias podem ser encontradas em um pequenino e inocente exemplar revirado lá atrás, quando se era criança. Foi assim com O Pequeno Príncipe, por exemplo. Eu não compreendia muito bem a grandiosidade das palavras do garotinho. Foi necessário dar dois anos de intervalo para que o livro me espantasse, fazendo-me perguntar “por que eu não vi isso antes, por aqui?”.

É com essa pergunta que a lista se encaminha para entender o quão obscuro um livro infantil também pode ser. Não necessariamente esquisito por conter figuras diferentes. Mas obscuro porque traz à tona temas dos quais nem mesmo, quando adultos, tentamos falar. Não é porque foram escritos por nomes que hoje consideramos de grande reputação, mas pela ousadia desses autores em desafiar a mente da criança. A fase da infância também tem seus lados obscuros. A fragilidade dessa vida que está se formando para a criança, a qual começa a observar que está inserida num mundo cheio de gente estranha a ela  é o suficiente para puxá-la ao fantástico e recriar o seu olhar. Venha conhecê-los!

Aldous Huxley

Aldous Huxley é conhecido pela sua obra icônica de 1932, Admirável Mundo Novo, uma das mais importantes reflexões já publicadas sobre o futuro e como a tecnologia está modificando a sociedade. Mas ele também era profundamente fascinado por ficção infantil. Em 1967, três anos após a morte de Huxley, Random House publicou uma edição póstuma do único livro infantil que ele escreveu. The Crows of Pearblossom (Os corvos de Pearblossom, traduzido pela editora Record) conta a história do Sr. e da Sra. Crow e o drama dos seus ovos nunca terem vingado porque eram devorados por uma serpente que vivia na base da árvore dos Crow. Após o 297º ovo devorado, os pais esperançosos decidiram matar a cobra, para isso pediram a ajuda de um amigo, Sr.Owl, quem criou dois ovos de pedra e os pintou igualmente aos ovos dos Crow. Após comê-los, a serpente sentia tanta dor que se debatia enrolando-se nos galhos, ao que Sra. Crow acrescentou alegremente “quatro famílias de 17 crianças devoradas”, usando agora a serpente como “o varal onde iriam pendurar as fraldas dos pequenos corvinhos”. Obscuro, não? Difícil não se sentir dividido entre a dor dos Crow e a vingança contra a serpente.

O volume original foi ilustrado por Barbara Cooney, mas a nova edição publicada traz o trabalho artístico de Sophie Blackall, que criou essas imagens adoráveis captando a atmosfera do enredo.

Clarice Lispector

Escritora e jornalista com uma obra vasta que permeia os dramas humanos com uma profundidade não só perspicaz, mas com uma conexão quase íntima com o leitor, Clarice Lispector também escreveu cinco livros infantisO mistério do coelho pensante, A mulher que matou os peixes, A vida íntima de Laura, Como nasceram as estrelas e Quase de verdade.Neles, a importância da natureza e os animais como protagonista ganham vozes para incitar a relação da criança com o mundo, num olhar mais atento e respeitoso pela natureza. Quase de verdade, escrito em 1978, conta com Ulisses, cachorrinho de Clarice, como protagonista, dialogando com a autora, que se posiciona como sua ouvinte. Como nasceram as estrelas apresenta lendas brasileiras e, de forma poética, mostra o histórico cultural, que muitas vezes esquecemos, à criança que está nesse processo encantador de descoberta.

José Saramago

Ele não poderia faltar numa lista de livros infantis. Conhecido por inúmeras obras como Ensaio sobre a Cegueira, Memorial do Convento e O Evangelho segundo Jesus Cristo, José Saramago uma vez teve uma ideia para um livro infantil que desejava ser “a mais linda de todas as que se escreveram desde o tempo dos contos de fadas e princesas encantadas”. Foi assim que surgiu A maior flor do mundo, que conta a história sobre um menino que faz nascer a maior flor do mundo. “Ele passava pelas ruas, as pessoas diziam que ele saíra da aldeia para ir fazer uma coisa que era muito maior do que o seu tamanho e do que todos os tamanhos”. Essa é vista como a moral da história, para o autor, e não é difícil tomá-la para si sendo adulto ou criança. A saída de casa, a autonomia, acaba por ser essa flor que a gente carrega, maior do que nossos limites e importante justamente por essa carga que ela tem.

Jorge Amado

O gato malhado e a andorinha sinhá, obra do querido Jorge Amado (Capitães da Areia; Gabriela, Cravo e Canela) já foi adaptada ao teatro e ao ballet inúmeras vezes, mas o livro ilustrado pelos traços memoráveis do Carybé é um daqueles exemplares que eu guardo com muito carinho, numa edição velhinha de sebo que comprei quando tinha uns 11 anos de idade depois de ficar fascinada pela peça que fui assistir com a escola. Jorge Amado tem esse talento, de nos fazer rememorar fatos adormecidos. Gato Malhado não tinha uma boa fama entre os animais. Até que ele notou que só a Andorinha Sinhá não tinha receio de se aproximar dele. Assim, nasce um dos amores mais adoráveis e impossíveis da literatura infantil, entre personagens tão diferentes quanto Romeu e Julieta, tirando o fato de que deveriam ser o predador e a presa. Jorge Amado certa vez escutou essa história numa trova do poeta Estêvão da Escuna, que costumava recitar no Mercado das Sete Portas, em Salvador. E ela virou esse presente em forma de prosa poética para o filho do autor, João Jorge, e para inúmeras crianças que aprenderam a gostar de ler por meio dessa obra memorável.

Gertrude Stein

Escritora, poetisa e colecionadora de arte, Gertrude Stein é uma das mais admiradas e citadas no começo do século XX. A autora criou o livro The World is Round, publicado em 1938 à convite da Young Scott Books. Stein pediu que as páginas fossem rosa, a letra fosse azul e que o trabalho de arte ficasse para Francis Rose. Só esse único pedido a editora não conseguiu cumprir, solicitando que a autora escolhesse entre os ilustradores já contratados. Relutantemente, ela escolheu Clement Hurd, ilustrador que havia surgido somente naquele ano. The World is Round foi eventualmente publicado, apresentando uma mistura de prosa e poesia, com uma ilustração em cada capítulo. A personagem do livro, Rose, se questiona quem ela é, se ela ainda poderia ser Rose se não carregasse o seu nome próprio. Com essa dúvida, ela sai pelo mundo numa busca por si mesma. Toda criança já se questionou onde ela cabia no próprio nome. Por isso, a história é tão próxima. O tema se mescla aos dramas de qualquer adulto também e a obra infantil traz um pouco da carga modernista de Stein.

Ian Fleming

Ian Fleming é reconhecido como o criador de uma das obras mais populares: a série de livros sobre James Bond. Alguns anos antes do aniversário de seu filho Caspar em 1952, Fleming decidiu escrever um livro infantil a ele, mas Chitty Chitty Bang Bang não viu a luz do dia até 1964, quando Fleming morreu. A obra conta a história da família Potts e da figura paterna de Caractacus, quem usa o dinheiro da invenção de um doce especial para comprar e consertar um único e mágico carro de corrida, que a família apelidou afetuosamente de Chitty Chitty Bang Bang. A inspiração de Fleming veio de uma série de motores aeronáuticos feitos para a corrida do piloto e engenheiro britânico Louis Zborowski nos anos 1920, o qual o primeiro motor de seis cilindros da Maybach foi nomeado Chitty Chitty Bang Bang.

O livro original foi ilustrado em preto e branco por John Burningham e foi adaptado pela Disney em 1968 para um filme homônimo com o ator Dick Van Dyke.

Langston Hughes

Poeta, ativista social, novelista, dramaturgo e colunista. Todas essas qualificações se dirigem a Langston Hughes, considerado um dos pais da “jazz poetry”, uma forma literária que emergiu nos anos 20 e eventualmente se tornou a fundação do hip-hop moderno. Em 1954, com 42 anos, Hughes decidiu colocar todo o seu amor pelo jazz na forma de um livro infantil que introduzia as crianças às várias expressões musicais que ele tanto admirava. The First Book of Jazz nasceu, se tornando o primeiro livro infantil sobre música americana, e até hoje é considerado o melhor. Hughes colocou cada aspecto notável do jazz, da evolução até a era mais celebrada e icônica, para também os sub-gêneros geográficos espalhados pelos EUA, e destacou a participação essencial dos músicos afro-americanos na consolidação do gênero. Hughes até escreveu sobre a técnica do jazz – ritmo, percussão, improvisação, blue notes, harmonia – com uma eloquência tão notável que em vez de sobrecarregar a criança, leva a ela a vontade de jogar e brincar com a música.

James Thurber

Entre 1940 e 1950, o celebrado escritor e cartunista Americano James Thurber, mais conhecido pelas suas contribuições ao The New Yorker, criou livros que reuniam contos de fadas, alguns ilustrados pelo aclamado artista e cartunista político franco-americano Marc Simont. O mais famoso deles foi The 13 Clocks, um conto fantástico escrito por Thurber em Bermuda em 1950. Conta a história de um misterioso príncipe que precisa completar um desafio impossível para libertar a Princesa Saralinda, das garras do terrível Duque do Castelo Coffin. O livro excêntrico é constituído pelo jogo de palavras poderoso de Thurber e escrito num estilo unicamente encadeado, criando um fascinante objeto de apreciação linguística e tratamento estrutural dos amantes da língua de todas as idades.

Veja aqui! uma animação do livro narrada por Neil Gaiman.

Carl Sandburg

Em 1922, duas décadas antes do primeiro dos três prêmios Pulitzer, o poeta Carl Sandburg escreveu um livro infantil chamado Rootabaga Stories para suas três filhas, Margaret, Janet e Helga, apelidadas de Spink, Skabootch e Swipes, respectivamente. Os apelidos ocupam repetidamente alguns dos volumes humorados de pequenas histórias. O livro surgiu pelo desejo de Sandburg em criar até então os inexistentes contos de fada americanos, o que ele viu como chance de substituir o imaginário dos contos europeus pelo Meio-Oeste americano, que ele chamou de “o país Rootabaga”, substituindo fazendas e trens por castelos e cavaleiros. Fantásticas e cheias de ideias criativas, as histórias capturam a visão romântica de Sandburg e também a sua perspectiva esperançosa sobre a infância.

Salman Rushdie

O novelista índio-britânico Salman Rushdie esteve envolvido em polêmicas pela obra The Satanic Verses, acusada de blasfêmia e humor inadequado à religião pelos críticos, o autor é ainda constantemente lembrado pelo seu talento na escrita. Em 1990, ele direcionou seu talento à literatura infantil com a publicação de Haroun and the Sea of Stories, uma alegoria fantasmagórica sobre justiça e diversas marcas sociais, particularmente na Índia, explorada pelo jovem protagonista Haroun, e o pai dele, um contador de histórias. O livro recebeu o prêmio Writer’s Guild Award for Best Children’s Book naquele ano. Um dos tratamentos inesperados da obra é a quebra de significados e o simbolismo de uma ampla lista de nomes de personagens, o que destaca a linguística e semântica intrigantes presentes na cultura indiana.

Vinte anos depois, o autor publicou seu segundo livro infantil, Luka and the fire of life: a novel.

BÔNUS: Tim Burton

Não poderia deixá-lo de fora dessa lista sendo que Tim Burton criou uma obra espirituosa, delicada e muito criativa para crianças. O diretor de filmes como Edward Mãos-de-Tesoura, A Noiva Cadáver e Alice no País das Maravilhas e o ótimo curta Vincent pontua a sua estética com excelência na obra O Triste Fim do Pequeno Menino Ostra (traduzida pela editora Girafinha).A edição conta com ilustrações de próprio punho do autor e escrito em forma de versos. Seus poemas curtos encapsulam personagens – menino e menina – que possuem alguma característica considerada bizarra aos olhos dos outros. Juntos, povoam um mesmo mundo, provavelmente o mesmo campo burtoniano que já se criou com autonomia no nosso imaginário. Os poemas são curtos e deixam claro o humor negro característico do diretor, com uma leveza que dificilmente se consegue obter com tão poucas palavras.

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Um pouco de nostalgia: o que aprendi com Harry Potter

Coluna semanal no Fashionatto

harry__ron_and_hermione_by_gohush-d4jvyniNeste final de semana, a atriz Emma Watson postou no seu perfil do twitter uma foto com a beca. Após seis anos estudando na Universidade de Brown, nos EUA, durante as gravações dos últimos Harry Potter, As vantagens de ser invisível e Noé, a atriz se formou em Literatura inglesa. Meu coração potteriano – e acadêmico também – sentiu uma pontinha de orgulho por ela. Mentira, fiquei emocionada mesmo.

Não por causa da leve semelhança com a Hermione e sua paixão pelos estudos, mas por achar admirável uma atriz bem-sucedida resolver vivenciar os períodos que jovens adultos costumam experimentar. Além disso, não tem jeito, crescemos acompanhando a atriz. E estudar numa universidade faz com que você aprenda a lidar com uma realidade que o insere no mundo de uma maneira até mesmo brusca em relação ao ensino médio. Agora as responsabilidades soam muito mais densas e a necessidade de fazer escolhas e projetos se mostra mais urgente.

Diante disso, comecei a rememorar com nostalgia o que eu aprendi com Harry Potter. Certamente decorei alguns feitiços, mas infelizmente não posso usá-los. O primeiro fato que eu compreendi, lá no alto dos meus dez anos, é que precisamos enfrentar os nossos medos. E como Lupin destaca em O prisioneiro de Azkaban quando Harry fala sobre seu medo de dementador, é que se torna muito sensato ter medo do medo. Essa frase ressoou por anos na minha mente, sem compreender muito bem. Ficara para mim que eu deveria enfrentar esses receios comuns à adolescência da mesma forma que os alunos na sala de Defesa Contra as Artes das Trevas enfrentaram o bicho-papão, com um feitiço bem humorado. Mas conforme fui crescendo, a frase de Lupin se tornou muito mais séria, como um conselho deixado lá atrás que agora repito quase como um feitiço comum. Da mesma forma, o cantor Lenine expõe na música Miedo, “tenho medo que dá medo do medo que dá”. Por quê? O medo nos prende no chão como corrente, nos incapacita de fazer até mesmo os projetos mais ousados com os quais sonhamos. Temer o medo é se mostrar alerta para as próprias fraquezas.

Em segundo lugar, a forma como lidamos com o tempo e o desejo quase febril de estudar até adquirir um conhecimento geral sobre o que for. Hermione tinha essa sede. Ela, de fato, amava estudar, mas o fazia também para provar aos outros que tinha um valor no mundo dos bruxos, sendo filha de trouxas. A questão é que ela chega ao limite dela durante o terceiro ano em que decide pegar todas as matérias e usar secretamente o vira-tempo para voltar e fazer aquelas que eram no mesmo horário. O grande teste para a garota foi usar o vira-tempo para salvar duas pessoas numa mesma noite, com a ajuda do Harry. Com isso, ela viu que o tempo era irreversível. Ela poderia voltar para fazer as suas disciplinas, mas como fica o cansaço e as experiências que ela poderia perder ao lado dos amigos? Hermione (e o leitor) aprende a respeitar o próprio ritmo, não correndo o risco de ver o conhecimento como um amontoado de livros, páginas a serem engolidas, nomes eruditos para serem proferidos.

Sem dúvida, um dos fatos mais importantes do enredo de Harry Potter é a presença da morte. Há memes na internet que brincam, dizendo que as mortes de Harry Potter nem chegam ao nível sórdido das mortes presentes nas obras de George R.R.Martin. Claro, ainda é um enredo infantil. E, mesmo assim, a autora trouxe a morte para intensificar a fragilidade do mundo diante de uma guerra. Da forma mais dolorosa, Harry se construiu como herói não apenas pelas suas escolhas, muito importantes, por sinal. Também cresceu com as mortes de pessoas muito próximas. Porém, todas elas deixaram um legado ao bruxo, quase como a cicatriz na testa, e os seus discursos, atos e conselhos foram se emaranhando à própria identidade de Harry. Lidar com a perda de personagens nos faz ver com mais clareza o nosso mundo e, mais ainda, aprender que a ficção sobre um mundo de magia é capaz de trazer à tona sentimentos realistas e aprofundar a nossa relação com os fatos.

Outro detalhe que permeia toda a obra de Harry Potter é o contato dos bruxos com o passado. Pelos corredores de Hogwarts, vemos as obras de arte ganhando vida e as escadas que mudam de lugar tornando a realidade relativa. Esse tempo suspenso em Hogwarts se desmonta e se recria em diversos momentos. Por exemplo, o castelo preza muito pela memória dos diretores que construíram Hogwarts. Mesmo quando morrem, eles permanecem às costas do novo diretor não apenas como um passado estático. Eles se encontram vivos ainda dando conselhos, vivificando a história do castelo.

Há momentos simbólicos em que vemos a História do mundo bruxo caminhar para mudanças. E o processo é curioso e não muito distante do que nós presenciamos na nossa História. Enquanto Dumbledore faz um discurso que ninguém escuta, somente Hermione, a frase “o Ministério da Magia vai interferir em Hogwarts” se torna obscura porque até então o castelo era não só do diretor, mas dos alunos. Logo surge Dolores Umbrigde para mostrar que os tempos difíceis mencionados por Dumbledore têm sua consolidação no quinto ano de Harry. O mundo fantástico em que ele poderia habitar esquecendo os horrores de uma infância sem os pais começa a ruir. E ele não ocorre somente no exterior, por uma interferência direta de Voldemort. Isso começa dentro do próprio refúgio de Harry. Esse momento em que visualizamos os alunos se unindo e descobrindo a importância que possuem como força motriz do castelo leva à maturidade dos personagens e dos leitores. Aprendemos a aguçar nossa consciência política, a participar do meio estudantil não apenas morando, mas construindo-o. A Armada não é de Dumbledore, mas dos alunos. E a força que eles ganham no castelo se torna a base para compreender seus papéis na própria sociedade bruxa.

Com isso, presenciamos as falhas do Ministério da Magia, a tentativa de uma mídia duvidosa pela pena de Rita Skeeter ceder formas dúbias sobre o terreno bruxo. Hermione cria o F.A.L.E., uma instituição que pretende tratar sobre a liberdade como direito aos elfos. Eles são a classe abastada do mundo bruxo, postos numa escravidão que aos olhos comuns soa normal. Mas, felizmente, Hermione nos mostra que não é natural um elfo ser escravo. Assim, ver a superação de Dobby e o último momento em que Harry demonstra o seu respeito mais genuíno pelo elfo, sem considerar a magia, é um dos momentos mais belos do último livro. É a infância de Harry sendo rasgada. Agora, de fato, ele precisaria partir a um caminho no qual deveria cumprir uma profecia imposta a ele, sem saber quais seriam as consequências.

Da profecia temos a tão aguardada Batalha de Hogwarts. Ela começa a se desenvolver quando Harry busca pelas horcruxes, os objetos contendo um pedaço da alma de Voldemort, pelo castelo. E tem seu clímax quando Harry volta à vida e, finalmente, se confronta com o Lorde das Trevas, na cena emblemática que fecha o arco do herói que acompanhamos nos sete livros. O mais interessante, porém, não é a batalha em si, mas o movimento por trás dela. É a cena em que alunos e professores retomam o espaço que eram de direito deles. Agora um castelo quase às ruínas, recuperado pelos alunos que entraram lá com onze anos de idade, olhando encantados com o céu estrelado que enfeita o Salão Principal.

Além desses pontos levantados, é válido lembrar que os livros possuem a capacidade de fundar um novo mundo. E até hoje eu me refugio às poltronas estofadas avermelhadas ao pé da lareira da sala comunal; ainda sonho em tomar uma cerveja amanteigada no Três Vassouras e sentir o frio me abandonar no pub quente fervilhado de estudantes e professores; lembro dos artefatos bizarros da Zonko’s, do Caldeirão Furado, da rapidez – e seria bem vinda em São Paulo – do Noitibus Andante, os chás e bolos estranhamente familiares de Hagrid, a sala fantástica do Dumbledore, a Floresta Proibida, a casa dos Weasley que sempre nos recebem com carinho, a estranheza da casa dos Black no Largo Grimmauld, 12. Como se pode ver, o enredo de Harry Potter ainda pode trazer muita discussão. Porém, o mais importante foi conceber a amizade de Harry, Rony e Hermione em meio ao caos do mundo bruxo e das descobertas de cada um como indivíduo. Eles acabam por se tornar espíritos presentes na vida de uma adolescente que, com esse mundo, passa a ver nas palavras a força de um feitiço silencioso, prestes à romper quando colocadas no papel.

imagem de capa: créditos a Gohush. Não encontrei os créditos às fanarts.

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São Paulo debaixo de neve

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Coluna semanal no Fashionatto

Eu sempre desejei escrever um conto mergulhado na neve e no frio europeu. Vivendo em São Paulo, que nem terra da garoa é mais, já que quando chove ganhamos de presente dos céus enchentes que colocam a cidade em estado de atenção, não me parecia possível escrever esse tipo de cenário sem ao menos vivenciá-lo de alguma forma. É claro que a ficção abre espaço para os mundos mais fantásticos e não precisamos vivê-los para legitimá-los. A questão é: eu desejava ver a minha cidade debaixo de neve. E, da maneira mais inesperada possível, isso ocorreu em alguns bairros de São Paulo nesse domingo. E a cidade amanheceu morna, mas ainda com as calçadas aqui e ali cheias de um gelo que agora é inegável: podemos chamar de neve, com alguns risinhos irônicos e maravilhados.

No final da tarde começou a chover e em cinco minutos a minha rua foi da agitação caótica das árvores se curvando à direita e as folhinhas voando assustadas para uma rua quieta, fria, como se tivesse prendido a respiração. E coberta de um gelo que agora defino como neve. Os carros derrapavam, o gelo se acumulava nos parapeitos das janelas. Mas como a realidade não possui a perfeição de uma comédia romântica natalina, uma árvore se encontrava caída na esquina. A noite se aproximava e os moradores precisaram isolar a rua improvisando fitas estiradas em cada saída até alguém chegar para tirá-la do caminho.

Com a rua já escura, onde se via poucas silhuetas, ouvi os vizinhos comentando que um dos cachorrinhos da casa ao lado da minha havia sumido. Kinder, um yorkshire pequenino – por isso o nome do ovinho de chocolate – havia sumido, não o encontraram em casa. Alguns vizinhos se reuniram para procurá-lo pelas ruas, com lanternas, chamando Kinder, Kinder! Vem cá! Era estranho que ele não estava latindo durante a chuva, já que ele sempre dá um jeito de latir durante o dia.

A tensão durou poucos minutos e parecia preencher a rua que antes era só um cenário bucólico enevoado. Ninguém encontrava o Kinder, não estava na garagem da minha casa e nem debaixo dos carros. Porém, com uma agitação triunfante, um dos meninos encontrou Kinder debaixo do sofá. Os vizinhos riam, faziam carinho nele aliviados, o menino falava para o cachorro segurando sua cabecinha “não faz mais isso, seu louco”, enquanto o pobrezinho se resumia a uma massa de pelos escuros que tremiam com frio e medo.

A luz voltou depois disso e parecia que acordar na segunda-feira paulistana seria algo tranquilo. A manhã começou com um trânsito fora do comum e aí, do ônibus, avistei um amontoado de neve colada à parede do cemitério. Toda manchada com as folhas verdes caídas das árvores – que formavam um tapete por todas as calçadas -, a neve se misturava ao muro branco e manchado do cemitério formando uma única massa dobrada branca, quase uma ilusão de óptica entre chão e parede. No ônibus, o motorista disse:

-Que loucura São Paulo, hein? Tem gente contando que enquanto nevava, os mortos pulavam assustados pelo muro do cemitério.

E a risada ecoava pelo ônibus que agora se encontrava atolado na mistura de terra e gelo. Nunca pensei que eu diria “faltei à aula porque o ônibus atolou na neve”, já que o cenário só é provável em outros países. Ao voltar para casa, mais uma rua se mostrou repleta de uma camada vistosa branca. Adultos, adolescentes tiravam fotos. Uma mãe com um carrinho de bebê e um menininho a tiracolo deu um jeito de tirar uma foto dos dois na neve paulistana. No Morumbi, bancas de jornais, carros e ônibus ficaram cobertos de gelo. O Parque da Aclimação virou o Central Park instantaneamente, com o lago emitindo uma neblina mágica e a neve se tornando alaranjada com a luz dos postes.

Parece que a cidade ter se tingido de branco provocou uma atmosfera superior a toda correria e reclamações diárias nas redes sociais. O cenário poderia ser meio catastrófico por algum ponto de vista. Mas a cada esquina o conto que eu sempre quis escrever parecia tomar cores reais de uma crônica pelo trator chegando para tirar a neve da rua, as pessoas sorrindo e comentando sobre a surpresa, mostrando suas fotos. Uma cena que se descola de qualquer ideia que já tivemos. Está aí o fascínio pelo novo, pelo acontecimento que beira quase à epifania de ver neve em São Paulo. Uma sensação que pairou por dois dias, com o clima de uma novidade curiosa e pelos burburinhos que povoam uma cidade inteira.

créditos de imagem: Luisa Costa

Foi inevitável não lembrar da música Don’t leave me(Ne me quitte pas), da Regina Spektor

“The frozen city starts to glow
And, yes, they know it will melt
And, yes, they know New York will thaw
But if you’re a friend of any sort
Then play along and catch a cold”
 

Se você for de São Paulo, conte sua história nos comentários. E se você já presenciou neve ou sonha em ver, conta também haha

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A biblioteca de promessas

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Coluna semanal no Fashionatto

A biblioteca Camille era um castelo de histórias em promessa. Pelos corredores dela, jovens desesperados digitando seus trabalhos, procuravam livros para trabalhos finais na faculdade, senhores aposentados liam cotidianamente mais um clássico deixado para trás. Ela, Camila, ia pela curiosidade de uma menina de 13 anos que ainda estava começando a descobrir o que significava segurar um exemplar encadernado nas mãos. A avó da menina costuma ir nessa biblioteca com a mesma idade e o fato de Camila ter um nome próximo à Camille da biblioteca foi culpa de sua vó.

Ela gostava de ficar imaginando quem fora Camille e quem ela era, Camila, nesse exato momento, se havia algo em comum entre elas e quem ela poderia ser. Ninguém nunca pôde explicar a ela por que esse nome da biblioteca em sua pequena cidade. Mas encantava o mistério. Havia algo naquela biblioteca que exalava esse mistério.

Camila gostava de imaginar como seria entrar nas histórias dos livros que ela lia. Resolver um caso junto a Sherlock Holmes e John Watson. Ou conhecer o País das Maravilhas. Mas não seria muito agradável estar no lugar de Harry Potter e ter que enfrentar Voldemort todo ano ou sair por aí procurando por horcruxes. Ou ver das páginas dos livros grandes tentáculos puxando-a para um enredo de Lovecraft. Ela conseguia fazer tudo isso só por aqueles pontinhos pequenos que se tornaram palavras, contornadas por um preto ostensivo e plácido nas tantas páginas que gostava.

Passou a tarde envolvida nesses pensamentos e enquanto lia mais um exemplar que pegara na biblioteca. O cheiro do mogno da mesa de madeira, a luminária que iluminava as páginas e agora cansavam os olhos da menina, tudo era um cenário perfeito para sua leitura. E assim ela se esforçava por horas a fio a ler, com a mesma coragem das personagens que gostava. Foi se sentindo sonolenta, e mais sonolenta, em um torpor no qual as palavras se embaralhavam, em que parágrafo estou? Mas eu já não li isso?

O livro estranho que havia encontrado na estante tinha veias roxas por debaixo da capa aveludada, parecia envelhecido, silencioso, mofado e molhado. Estava seco, claro, mas Camila tinha a sensação de que o livro parecia levar a praias cinzentas e mares violentos. Ela abriu o livro e as palavras que se embaralhavam diziam “a biblioteca é um castelo de promessas. Você está em uma das mais raras. Ela guarda em si um poder que ninguém, de rei a presidente, poderia sequer imaginar. Venha, desafie-nos”. Camila leu aquelas frases e…desafiar como? Ela virou a outra página e havia um belo desenho feito em traços negros e tons azuis preenchendo ondas. Camila sentiu a cadeira tremer, as veias da capa se romperem, seus olhos foram tomados pela escuridão.

Ondas abraçavam o seu corpo, uma água gelada sacudia-a bruscamente. Demorou apenas um segundo para ver que estava no desenho das águas. Eram as mesmas cores, só que bem mais reais! E geladas. Livros passeavam pelas ondas, Camila não conseguia pegar nenhum. Uma voz ressoou aos seus ouvidos, preenchendo aquele mar de livros.

-A curiosidade pode levá-la a todo canto, garota.

-Quem está falando?

-Não importa quem. Importa que você não é todo mundo. Não é todo mundo que pega esse livro caindo aos pedaços. Já pensou se ele libertasse uma gripe do século passado, o perigo que seria? E está aqui há muito tempo. Ninguém ousa pegar esse livro. Mas eu me pergunto: por que ele pegou você?

-Como…? Fui eu que peguei o livro da estante, eu lembro disso!

-Ah, é? Bom, parece que ele te pegou de alguma forma – as ondas circundavam o espaço a sua volta, como se falassem e apontassem para si mesmas.

“É, acho que fui alugada mesmo”, pensou a menina.

-Como eu saio daqui? – perguntou tentando controlar o nervosismo.

-Você pode até sair dessas águas, mas nunca mais sua realidade será igual. Vão ter dias em que as cinzas vão preencher as nuvens e a melancolia corroer seus dias num azul igual ao dessas águas. Por isso, que fique claro: quando isso acontecer, nos seus 13 ou nos seus 80 anos, lembre-se dessas águas. Aqui você pode encontrar mais do que você pensa desejar.

-Você diz…só nesse livro?

-Digamos que esse livro aqui é mais literal – risinhos vindos das ondas ecoaram pelo mar. Parece que elas acharam ter feito alguma piada com literatura e literal. Claro.

-Tá, eu entendi. Mas tudo isso pode acontecer de novo?

-Esse livro existe para quem vem a essa biblioteca e está além da própria vida. Você herdou o nome dela por sua vó, que conhecia bem essas páginas. Mas ah, não, você não tem nada a ver com Camille. Seria clichê, não é? Uma menininha de 2014 como reencarnação de uma garota dos anos 20.

Riam novamente. Não importava se fosse clichê, Camila só queria saber quem ela era naquele exato momento, as risadas começavam a se tornar irritantes e obscuras.

-Então, se eu abrir essas páginas mais de uma vez, eu posso estar num lugar novo?

-Aí que está, você pode, sim. Mas um conselho que nunca pode ser esquecido: adolescentes costumam ter a ideia de que nada os atinge – sussurram as ondas – e aqui tudo pode acontecer. Tome cuidado com o que deseja ser nessas páginas.

-E isso só aqui?

-Claro que não, você não pode sair pelo mundo fazendo só o que quer. Mas entendi sua pergunta. Todos os livros do mundo inteiro foram cultivados com a magia dessas páginas. Mas eles fazem algo que pode parecer mais mágico ainda: em vez de te levar literalmente para qualquer cenário, eles os fazem somente brincando com a sua imaginação. Parece inocente, mas não é. No momento seguinte, você nem se dá conta de que está no seu mundo. E eles fazem isso só por palavras. Escritores podem ser persuasivos e traiçoeiros quando querem.

Camila gostava dessa ousadia dos escritores.

-Tudo isso pode acontecer novamente com qualquer livro – murmurou a si mesma – Mas eu já sabia disso. Eu leio bastante, sabe?

-Ah, querida, não é isso. Aos 13 anos você está começando. Nosso recado é para que você não se esqueça das páginas que encontrou quando pequena ou das páginas que ainda pode encontrar. Talvez você só possa sobreviver no seu mundo se apoiando nesse aqui feito de papel. A imaginação pode salvar seus olhos com a lucidez necessária para entender o que, de fato, você vê quase na ponta do seu nariz, todo dia.

As vozes das ondas foram diminuindo o seu volume e seu entusiasmo. Camila parecia se distanciar delas, mas as últimas frases continuavam como um feixe de luz guiando-a. Aos poucos essa luz foi se tornando mais tímida e a menina notou que elas vinham das palavras à sua frente no livro de capa com veias roxas. A garota acordou na biblioteca. O livro disposto à sua frente parecia comunicar silenciosamente que ela, Camila, era agora mais uma entre os outros seres chamados leitores no castelo de promessas, em que livros de mundos infinitos dormiam aguardando pelos seus olhos ávidos e a curiosidade que a guiaria pelas páginas feitas de ondas azuladas.

Escrevi esse conto enquanto ouvia a soundtrack de Harry Potter e a Pedra Filosofal, vem experimentar também aqui. E as tirinhas são de Macanudo, de Liniers.

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Os 85 anos de Audrey Hepburn

Coluna semanal para o Fashionatto

Neste domingo, o dia amanheceu mais doce para quem acessou o Google e viu a homenagem à atriz Audrey Hepburn. Nascida na Bélgica em 4 de maio de 1929, mas radicada na Inglaterra, a atriz completaria 85 anos. Hoje, sem dúvida, Audrey é ícone. Mas há muito mais por trás de um ícone e o significado dado a ele.

A presença de Audrey na minha vida começou lá pelos meus 12 anos de idade, quando eu abri uma revista na qual havia uma resenha do crítico Rubens Ewald Filho sobre a atriz e apresentando os filmes mais importantes da carreira dela que estariam numa mostra do canal de assinatura. Eu nunca vira aqueles olhinhos de gazela, a silhueta esguia e a doçura elegante em nenhuma outra atriz, a não serJulie Andrews da qual eu era e continuo sendo imensamente fã.

Resolvi assistir aos filmes da Audrey e a estética que hoje consideramos clássica ainda estava sendo descortinada diante dos meus olhos, ainda causava estranheza. Cinderela em Paris trouxe Fred Astaire como grande argumento para que eu o assistisse, pois gostava de sua filmografia e ficava encantada com o talento do ator. A questão é que nesse filme, Fred mais atua e canta do que dança. E está muito bem assim, principalmente a cena encantadora em que o ator cantaFunny face à Audrey e justifica não só o título original do filme, mas a aparência curiosa e singular de Audrey Hepburn. Parece ser um rosto engraçadinho que arrebata qualquer espectador que encontre nela aquele romantismo quase infantil e ingênuo que parecia estar diluído na Hollywood que agora assumia o arquétipo da mulher sedutora por meio das – fantásticas, obviamente – Marilyn MonroeRita Hayworth   e Elizabeth Taylor. Audrey está mais no time das atrizes que possuem algum mistério na sua postura plácida, como Ingrid Bergman(Casablanca).

A exaltação da sensualidade vinha claramente dos homens, mas as mulheres passavam a mitificar também a aparência dessas mulheres que, na verdade, tinham suas vidas igualmente complicadas por serem mulheres. Houve dificuldades para qualquer atriz nas primeiras décadas do século XX em encontrar papéis que saíssem do aspecto sedutor ou puramente inocente da mocinha cortejada. Esses estereótipos perseguiam as atrizes que pareciam ter que sustentá-los a cada minuto, como se acordassem sempre adornadas como uma boneca e sensual aos olhos dos homens. Rita Hayworth trazer a sexualidade pelo simples gesto de uma luva deslizando pelo braço em Gilda foi, sim, uma forma de libertação. É para se pensar: na cena ela deseja fazer um strip-tease, mas em seguida leva um tapa na cara por ser julgada como uma mulher posta ao desfrute do homem. Mas a vontade de Gilda é libertadora e a raiva dela ao receber o tapa também.

Uma mulher deveria ser respeitada por interpretar papéis sedutores justamente porque é de seu direito interpretá-las. O problema estava na polarização desses papéis, entre a sedução e a pureza. Uma atriz sabe ir além dessas dualidades. E isso nos leva à Audrey, mais uma vez. Pois ela conseguia equilibrar-se e trazer a ambiguidade desses papéis de maneira muito bem desenvolvida. A sua personagem Sabrina, claro, busca um casamento, mas somente o busca após ter conquistado a sua independência financeira e maturidade também. Se ela está em dúvida entre dois homens é porque claramente, como qualquer mulher no mundo, ela tem direito a essa dúvida.

A personagem Holly Golightly, de Bonequinha de Luxo, proporciona o alcance de Audrey a ícone fashion e cinematográfico. Baseada na obra de Truman Capote, a personagem tem mais nuances do que o filme pode trazer. Exatamente, podetrazer. Audrey Hepburn, à época, assumira papéis de garotas e interpretar Holly poderia manchar sua carreira, de acordo com os críticos. Afinal, Holly é um espírito livre que se envolve com vários homens, fazendo-lhes companhia em jantares, buscando um possível casamento rico que possibilite entrar na Tiffany e comprar as joias com as quais sonha. Contudo, Holly não é somente o que se definiria como uma bonequinha de luxo, essa mulher que ficaria à vitrine exposta por tais homens ricos e importantes que casarem com ela. E felizmente, Audrey consegue apresentá-la com sua complexidade, apesar de haver um público que poderia julgar a sua personagem tendo como base o estereótipo com os quais se acostumaram a ver durante a década e na carreira da atriz.

Nos meus 12 anos, quando vi Bonequinha de Luxo, me pareceu um bom filme, a personagem me soava simpática, mas eu não conseguia compreender as várias faces de Holly Golightly, apenas que ela era adorável e elegante. Com o tempo o filme se mostrou muito mais profundo, as cenas muito mais simbólicas e hoje ele possui um dos textos que mais me comove, com passagens que timidamente revelam muito de seus personagens, como os diálogos entre Holly e Fred e a relação da moça com o gatinho que ela resgatou e se recusa a nomear por medo de se apegar e perdê-lo.

Audrey Hepburn, quando apresenta essas personagens que se vestem com a simplicidade de uma legging, sapatilha, trend coat, um vestido preto apenas adornado pelas pérolas, uma sensualidade que se constrói nas entrelinhas e na simplicidade da elegância das roupas que ela parece ter escolhido por respeitar o próprio corpo, apresentam uma face mais realista da mulher que vai muito além do conceito hollywoodiano. Audrey possuía um corpo que era o oposto das curvas de Marylin Monroe, como sempre se afirma quando se comenta sobre Audrey. Mas há algo ainda mais profundo na aceitabilidade da forma de Audrey no cinema: a mulher não é somente uma forma, mas todas as formas. Aceitar que Audrey é magra e, portanto, ícone fashion, não quer dizer que agora todas as mulheres devam ser magras para se assemelhar a ela. Estaríamos cometendo o mesmo erro dos produtores que recusaram Audrey em alguns papéis por causa de sua silhueta esguia. O que a atriz traz para a discussão é que a moda e o cinema precisam ser abertos às mais diferentes faces e corpos, e não escolher novamente apenas baseado na dualidade.

Audrey foi atriz, modelo, mas embaixadora da Unicef também. Durante a Primeira Guerra Mundial, Audrey passou fome no período em que ficou na Holanda quando criança. Desejava ser bailarina, mas ao voltar à Inglaterra, a sua professora afirmou que Audrey nunca seria primeira bailarina por conta de sua altura. Ao interpretar Gigi, Audrey começou a receber destaque na Broadway e logo em seguida vieram os filmes, como A Princesa e o Plebeu, My Fair Lady, Charada, Quando Paris Alucina, e as indicações ao Oscar.

Audrey Hepburn parece ter seguido o conselho da música Moon River, a qual docemente canta em Bonequinha de luxo. Audrey atravessou o rio como atravessou Hollywood, um fabricador de sonhos, passou com elegância por esse mundo, e há nela uma magia quase indizível, que exala dos seus olhinhos de boneca, da sua elegância e de seu talento. Isso talvez dê conta apenas um pouquinho da explicação do porquê Audrey estar tão viva no nosso imaginário. A homenagem sempre é merecida.

Filmografia de Audrey Hepburn aqui

Se quiser conferir, aqui tem diversos vídeos de Audrey Hepburn no seu trabalho como embaixadora da Unicef.