Os 85 anos de Audrey Hepburn

Coluna semanal para o Fashionatto

Neste domingo, o dia amanheceu mais doce para quem acessou o Google e viu a homenagem à atriz Audrey Hepburn. Nascida na Bélgica em 4 de maio de 1929, mas radicada na Inglaterra, a atriz completaria 85 anos. Hoje, sem dúvida, Audrey é ícone. Mas há muito mais por trás de um ícone e o significado dado a ele.

A presença de Audrey na minha vida começou lá pelos meus 12 anos de idade, quando eu abri uma revista na qual havia uma resenha do crítico Rubens Ewald Filho sobre a atriz e apresentando os filmes mais importantes da carreira dela que estariam numa mostra do canal de assinatura. Eu nunca vira aqueles olhinhos de gazela, a silhueta esguia e a doçura elegante em nenhuma outra atriz, a não serJulie Andrews da qual eu era e continuo sendo imensamente fã.

Resolvi assistir aos filmes da Audrey e a estética que hoje consideramos clássica ainda estava sendo descortinada diante dos meus olhos, ainda causava estranheza. Cinderela em Paris trouxe Fred Astaire como grande argumento para que eu o assistisse, pois gostava de sua filmografia e ficava encantada com o talento do ator. A questão é que nesse filme, Fred mais atua e canta do que dança. E está muito bem assim, principalmente a cena encantadora em que o ator cantaFunny face à Audrey e justifica não só o título original do filme, mas a aparência curiosa e singular de Audrey Hepburn. Parece ser um rosto engraçadinho que arrebata qualquer espectador que encontre nela aquele romantismo quase infantil e ingênuo que parecia estar diluído na Hollywood que agora assumia o arquétipo da mulher sedutora por meio das – fantásticas, obviamente – Marilyn MonroeRita Hayworth   e Elizabeth Taylor. Audrey está mais no time das atrizes que possuem algum mistério na sua postura plácida, como Ingrid Bergman(Casablanca).

A exaltação da sensualidade vinha claramente dos homens, mas as mulheres passavam a mitificar também a aparência dessas mulheres que, na verdade, tinham suas vidas igualmente complicadas por serem mulheres. Houve dificuldades para qualquer atriz nas primeiras décadas do século XX em encontrar papéis que saíssem do aspecto sedutor ou puramente inocente da mocinha cortejada. Esses estereótipos perseguiam as atrizes que pareciam ter que sustentá-los a cada minuto, como se acordassem sempre adornadas como uma boneca e sensual aos olhos dos homens. Rita Hayworth trazer a sexualidade pelo simples gesto de uma luva deslizando pelo braço em Gilda foi, sim, uma forma de libertação. É para se pensar: na cena ela deseja fazer um strip-tease, mas em seguida leva um tapa na cara por ser julgada como uma mulher posta ao desfrute do homem. Mas a vontade de Gilda é libertadora e a raiva dela ao receber o tapa também.

Uma mulher deveria ser respeitada por interpretar papéis sedutores justamente porque é de seu direito interpretá-las. O problema estava na polarização desses papéis, entre a sedução e a pureza. Uma atriz sabe ir além dessas dualidades. E isso nos leva à Audrey, mais uma vez. Pois ela conseguia equilibrar-se e trazer a ambiguidade desses papéis de maneira muito bem desenvolvida. A sua personagem Sabrina, claro, busca um casamento, mas somente o busca após ter conquistado a sua independência financeira e maturidade também. Se ela está em dúvida entre dois homens é porque claramente, como qualquer mulher no mundo, ela tem direito a essa dúvida.

A personagem Holly Golightly, de Bonequinha de Luxo, proporciona o alcance de Audrey a ícone fashion e cinematográfico. Baseada na obra de Truman Capote, a personagem tem mais nuances do que o filme pode trazer. Exatamente, podetrazer. Audrey Hepburn, à época, assumira papéis de garotas e interpretar Holly poderia manchar sua carreira, de acordo com os críticos. Afinal, Holly é um espírito livre que se envolve com vários homens, fazendo-lhes companhia em jantares, buscando um possível casamento rico que possibilite entrar na Tiffany e comprar as joias com as quais sonha. Contudo, Holly não é somente o que se definiria como uma bonequinha de luxo, essa mulher que ficaria à vitrine exposta por tais homens ricos e importantes que casarem com ela. E felizmente, Audrey consegue apresentá-la com sua complexidade, apesar de haver um público que poderia julgar a sua personagem tendo como base o estereótipo com os quais se acostumaram a ver durante a década e na carreira da atriz.

Nos meus 12 anos, quando vi Bonequinha de Luxo, me pareceu um bom filme, a personagem me soava simpática, mas eu não conseguia compreender as várias faces de Holly Golightly, apenas que ela era adorável e elegante. Com o tempo o filme se mostrou muito mais profundo, as cenas muito mais simbólicas e hoje ele possui um dos textos que mais me comove, com passagens que timidamente revelam muito de seus personagens, como os diálogos entre Holly e Fred e a relação da moça com o gatinho que ela resgatou e se recusa a nomear por medo de se apegar e perdê-lo.

Audrey Hepburn, quando apresenta essas personagens que se vestem com a simplicidade de uma legging, sapatilha, trend coat, um vestido preto apenas adornado pelas pérolas, uma sensualidade que se constrói nas entrelinhas e na simplicidade da elegância das roupas que ela parece ter escolhido por respeitar o próprio corpo, apresentam uma face mais realista da mulher que vai muito além do conceito hollywoodiano. Audrey possuía um corpo que era o oposto das curvas de Marylin Monroe, como sempre se afirma quando se comenta sobre Audrey. Mas há algo ainda mais profundo na aceitabilidade da forma de Audrey no cinema: a mulher não é somente uma forma, mas todas as formas. Aceitar que Audrey é magra e, portanto, ícone fashion, não quer dizer que agora todas as mulheres devam ser magras para se assemelhar a ela. Estaríamos cometendo o mesmo erro dos produtores que recusaram Audrey em alguns papéis por causa de sua silhueta esguia. O que a atriz traz para a discussão é que a moda e o cinema precisam ser abertos às mais diferentes faces e corpos, e não escolher novamente apenas baseado na dualidade.

Audrey foi atriz, modelo, mas embaixadora da Unicef também. Durante a Primeira Guerra Mundial, Audrey passou fome no período em que ficou na Holanda quando criança. Desejava ser bailarina, mas ao voltar à Inglaterra, a sua professora afirmou que Audrey nunca seria primeira bailarina por conta de sua altura. Ao interpretar Gigi, Audrey começou a receber destaque na Broadway e logo em seguida vieram os filmes, como A Princesa e o Plebeu, My Fair Lady, Charada, Quando Paris Alucina, e as indicações ao Oscar.

Audrey Hepburn parece ter seguido o conselho da música Moon River, a qual docemente canta em Bonequinha de luxo. Audrey atravessou o rio como atravessou Hollywood, um fabricador de sonhos, passou com elegância por esse mundo, e há nela uma magia quase indizível, que exala dos seus olhinhos de boneca, da sua elegância e de seu talento. Isso talvez dê conta apenas um pouquinho da explicação do porquê Audrey estar tão viva no nosso imaginário. A homenagem sempre é merecida.

Filmografia de Audrey Hepburn aqui

Se quiser conferir, aqui tem diversos vídeos de Audrey Hepburn no seu trabalho como embaixadora da Unicef.

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