Você já viu a única entrevista em vídeo de Sir Arthur Conan Doyle, autor de Sherlock Holmes?

Matéria publicada no site Literatortura

conan doyleEste vídeo é uma das melhores surpresas que a internet pode dar. O que você vai ver em seguida, nesse Sábado do Vídeo, é um registro histórico –e único!-  em vídeo de simplesmente o criador do maior detetive da Literatura. Sir Arthur Conan Doyle, numa entrevista gravada em 1927, fala sobre seu personagem Sherlock Holmes, o motivo que o levou a criar esse personagem tão fascinante.

Com um bigode e cabelos brancos, um sotaque arrastado, um ar bonachão e um humor simpático nos olhos pequeninos, Sir Arthur Conan Doyle se apresenta a nós em vídeo numa aparência e postura incrivelmente fortes. É como se realmente estivesse conversando conosco. O autor nunca iria imaginar que sua entrevista chegaria a um enorme público com a facilidade da internet. Parecia ser somente um pequeno vídeo, no auge do mistério que o cinema falado ainda causava na época.

O diálogo que ele propõe, enquanto entra em cena com o cachorrinho aos pés saltitando no que parece ser um chalé retirado onde ele reside, é muito próximo, aconchegante e desmistifica a aura que naturalmente criamos em torno dos escritores. É com simplicidade que Doyle explica que decidiu criar Holmes porque ele não aceitava o fato de que a maioria dos detetives, até então na literatura, deixavam de explicar o caminho que percorreram até a solução do caso. Parecia que o detetive era um sujeito à parte que descobria o segredo com naturalidade e nós só poderíamos ouvi-lo passivamente. Foi por isso que o autor resolveu criar um detetive que nos trouxesse ao enredo. No fim, participamos com Sherlock Holmes da descoberta do crime, caminhando na mesma linha de pensamento dele.

Essa ousadia de Conan Doyle em inserir o leitor na história explica a comoção que o detetive causou em Londres. É com humor que o escritor diz, no vídeo, que recebia cartas e mais cartas de pessoas que acreditavam na existência de Holmes, a ponto de enviar propostas de emprego. Muitas mulheres enviavam pedidos para ser governantas de Sherlock Holmes. Esse boato que atravessou os séculos e que hoje os fãs repetem está lá, registrado na voz de Doyle.

Além disso, o autor ainda expõe no vídeo a crença e a pesquisa que ele desenvolveu – e poucos conhecem – sobre o espiritismo. Nesse mês (18), o Estadão divulgou aqui a notícia de que uma carta exclusiva onde Doyle expõe a crença na religião se encontra hoje para ser consultada na biblioteca nacional do Reino Unido. Nela, Doyle se dirige à mãe, falando sobre a preocupação pelo filho dele ser soldado na Primeira Guerra Mundial. “Não tenho medo de sua morte. Desde que me converti em um espiritualista convencido, a morte se tornou algo desnecessário, porém temo enormemente pela dor e pela mutilação”.

Anúncio da época de uma das palestras do Doyle sobre Espiritualismo

 Após as mortes de sua esposa Louisa, do seu filho Kingsley, do seu irmão Innes, de seus dois cunhados e de seus dois netos logo após a Primeira Guerra Mundial, Conan Doyle mergulhou em profundo estado de depressão. Desafiando os críticos, em 1918 o autor passou a publicar suas primeiras obras sobre espiritismo, como A Nova Revelação, A Chegada das Fadas, História do Espiritismo. Longe de afirmar que o espiritismo seria apenas um conforto para o autor devastado. Foi um estudo muito cuidadoso de Doyle e, principalmente, que precisou sobreviver aos ataques de charlatanismo que a mídia impressa gostava de espalhar na época, como se Doyle fosse capaz de ter contato com os mortos por um misterioso artifício que, no fim, seria uma mentira e uma enganação. Isso gerou até caricaturas, como logo abaixo, de Doyle nas nuvens em sua crença insensata e Holmes ao lado, imponente no seu semblante concentrado, lógico e ao lado da verdade.

Soma-se à fama de Conan Doyle a defesa que ele fez da existência das fadas por meio de uma foto que, décadas depois, foi comprovado que eram simples fadas desenhadas no papel e coladas na grama. Elsie Wright (16 anos) e sua prima Frances Griffiths (10 anos) usaram uma simples câmera, e afirmaram que não possuíam qualquer conhecimento de fotografia ou truques fotográficos. O caso é interessante e até engraçado, pois houve uma comoção entre as pessoas diante da ilusão dessa foto já icônica, incluindo Doyle que não apenas aceitou estas fotos como genuínas, como até escreveu dois panfletos e um livro que atesta a autenticidade destas fotografias, incluindo um apêndice sobre o folclore das fadas. O que não pode acontecer é que o olhar crédulo e até ingênuo de Conan Doyle para as fadas destrua o seu comprometimento e estudo em relação ao espiritismo. Aqui não cabe delegar, com os olhos contemporâneos, que o autor foi tolo e, portanto, não vale ser lido. Cada época tem seus simulacros nos quais as pessoas acreditam. E sim, a leitura d’A Chegada das fadas deve ser, no mínimo, incomum!

Desta forma, o registro em vídeo de 10 minutos traz um Conan Doyle livre para defender a sua crença e contar diretamente ao leitor o processo de criação de Sherlock Holmes. A entrevista encapsula um contraste curioso de um autor que não foi somente criador de um detetive que seguia fervorosamente a lógica. Mas também um sujeito que, em sua vida, ia além das deduções e diagnósticos médicos do seu personagem, que acreditava na vida após a morte, no sobrenatural, incluindo fadas e magia. E isso, de forma alguma, o diminui. Só o engrandece, afinal, ninguém se faz somente por um tipo de ideal, crença ou personalidade.

Sir Arthur Conan Doyle, por vezes, acaba sendo ofuscado pelo personagem que criou. Por isso, assisti-lo nesse vídeo raro é dar uma chance para ver o autor como ele, de fato, era. Ouvir o seu discurso, suas propostas e como se divertia diante dos erros dos fãs com o possível Sherlock Holmes real. E ainda a crença que defendeu durante a sua vida, em um momento no qual o espiritismo não possuía o espaço e o respeito que recebe hoje. Venha conhecer Sir Arthur Conan Doyle, tão fascinante quanto Sherlock Holmes.

Clique AQUI para ver a entrevista!

Veja AQUI como comprar a Revista Literatortura com a minha matéria sobre os 160 anos de Sherlock Holmes e a figura do herói moderno.

Mesmo que hoje a gente afirme que não há fadas, Doyle acreditou na existência delas pela história de duas irmãs que supostamente haviam fotografado as fadas. Leia aqui (em português)

aqui  outra matéria, em inglês, sobre o caso das fadas.

Fonte 

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