As palavras mandam lutar neste semestre

imagem de capa lannister

Coluna semanal para o Fashionatto

Uma dor nas têmporas voltava a acometer aquele jovem de armadura. A dor voltara para visitá-lo, como se o simples bater da porta, o toque repentino nas têmporas, já denunciasse que a última tarefa de cada fim de semestre finalmente chegara. Eram seis meses no escuro, sem ter ideia do que poderia acontecer ao seu corpo e a sua alma, até que a proposta vinha – esperada, mas capaz de fazer o corpo tremer: havia o trabalho decisivo de fim de semestre.

Ele, como os demais jovens de sua idade, juntavam na pequena bolsa o pouco que lhe pertencia. A cada movimento em que ajustava a fivela das alças, o mesmo tremor passava pelas mãos feridas nas batalhas anteriores, a tendinite voltava a mostrar que apenas aguardava o momento certo para agir. Ele suspirava, o mesmo suspiro de resignação. Gostava da pequena ansiedade, gostava de ter escolhido aquele caminho. As tarefas moviam seu semestre. Mas não poderia deixar de afirmar que temia um pouco, a cada seis meses, para ver o que conquistara nos meses que se entrelaçavam um a um até o último nó.

A floresta de conhecimentos o aguardava ressonando. O jovem sempre preservava na memória o instante em que as árvores suspiravam em uníssono, tranquilas. Essas árvores viviam de promessas feitas por jovens estudantes. Aos poucos ela ganharia a vida que a fazia ser famigerada entre os reinos. Poderia assombrar seus alunos a cada fim de semestre com suas folhas riscadas de frases inesperadas capazes de conduzi-los à glória ou ao desfecho melancólico de um sucesso próximo a ser obtido escapando de suas mãos.

Com o esmagar do galho a sua frente pelo pé hesitante, era assim que cada jovem poderia despertar a floresta. Quase um olá tímido, que queria ser bem-vindo, mas que sabia o perigo de adentrar pelo labirinto de troncos. O tempo sugava o ar e sem neblina, sem vida ficava a floresta. Isso durava o segundo mais longo. A ação seguinte era a surpresa que a floresta de conhecimentos poderia causar no jovem. Ela já fizera chover a morte diante dos olhos inexperientes desses garotos e garotas que se preparavam para lutar apenas com uma espada. A morte vinha em forma de questões sussurradas que os humanos buscam esconder nos seus dias comuns. “Quem você espera ser?”, “Você salvaria o seu amigo se ele estivesse diante da glória que seria sua?”, “Vejo que você treme com a espada da mesma forma que treme com as palavras”, poderia sussurrar a árvore mais próxima. A morte não era literal. Porém, ela se fazia presente pela forma da dúvida, um alimento que provocava e estranhamente deixava com fome a alma desses estudantes.

A prova desse semestre seria algo ainda mais desafiador. Correndo, os jovens precisavam se desvencilhar das folhas escritas que caiam das árvores. Nelas, as frases que encapsulavam as grandes dúvidas, os grandes medos dos literatos cortavam quem encarava aquele trabalho somente como uma atividade passageira, que só deveriam sobreviver a ela. A floresta queria uma alma envolvida, que planejava e sentia cada trecho daquela prova. Ela desejava o acúmulo de experiências.

Ao segurar a espada com as duas mãos, o jovem mais destemido afastava as folhas. Dava uma espiada nas frases que continham. Engolia o choro, o medo. Diferente de alguns de seus colegas, ele sentia que precisava ver aquelas frases. Assim, ele as repetia dia após dia durante o semestre, até a próxima batalha. Ele era jovem, ainda estava aprendendo. A batalha era o único momento em que ele sentia estar no mundo exterior, era a sua única lembrança em vida. Ao ler aquelas frases, ele sentia que, apesar de produzir pequenos cortes em si mesmo a cada momento em que repetia uma frase, a palavra o recompensava. Por ela, o jovem alcançava a eternidade da floresta que ele, mesmo vivendo décadas, nunca teria.

Em um golpe final, escorrendo sangue e tinta negra da espada, ele feria as palavras que o feriam. Ele murmurava baixinho as respostas para aquelas perguntas, sabendo que nunca obteria a verdade. Ele passara pela prova daquele semestre. Enfrentar as folhas e golpeá-las não era o teste proposto pela floresta para que aqueles jovens destruíssem o conhecimento que os atingia. Era um confronto com a palavra e o discurso. Necessário a todo instante. Cansados, manchados de tinta, os estudantes descansavam na grama, encostavam-se nos troncos também cansados. A literatura havia acontecido. No alvorecer que espalhava o sol pelo labirinto de raízes e troncos, as folhas de perguntas davam trégua ao jovem. A batalha poderia recomeçar no despertar de uma próxima estação.

O conto é inspirado em Game of Thrones, mas uma forma de tornar épico os trabalhos de fim de semestre que devemos entregar na graduação. Não perdemos, literalmente, a cabeça com eles. Mesmo assim, às vezes chega a ser doloroso lidar com a soma de textos, as dúvidas e os prazos.

As imagens são do projeto Beautiful Death, trabalho excelente de ilustração do artista Robert M. Ball, com passagens de As Crônicas de Gelo e Fogo, de George R.R.Martin, adaptadas para a série Game of Thrones.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s