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Sábado do vídeo | Conheça o filme da BBC Van Gogh – Pintando com palavras

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Especial Sábado do Vídeo publicado no site Literatortura

Sempre é tempo de pensar em Vincent Van Gogh. Hoje o artista é venerado pelas formas criadas dentro da tela. Crianças e adultos conseguem visualizar a beleza pulsante e viva nos seus quadros e ele está presente na educação formal das escolas. Mas sabe-se que Van Gogh só vendeu um quadro em vida. Que tinha um relacionamento ao mesmo tempo conturbado e de cumplicidade com seu irmão Théo, a quem dirige diversas cartas que hoje podemos ler em Cartas a Théo. Sabe-se também que cortou a orelha e que viveu uma vida entre surtos de esquizofrenia. Mas ele não reside apenas nesses detalhes curiosos, reproduzidos durante os anos.

Van Gogh virou parte da tradição artística. Definido pelos historiadores da arte como um pós-impressionista, Van Gogh sabia da vida parisiense que se alterava no final do século XIX. Sabia dos impressionistas, assim como admirava as obras de Jean François-Millet (considerado o precursor do realismo), Delacroix, Rembrandt, considerados românticos.

Van Gogh tinha um olhar aberto às mais diversas expressões artísticas, e se formou como pintor partindo dos artistas do passado. Reproduzia quadros de seus artistas favoritos, apoiava-se neles para, então, encontrar a sua própria linguagem. Certamente isso todos faziam. Porém, é um ponto que se costuma esquecer: pintores estudavam a perspectiva e o belo renascentista, Belas Artes tinha grande valor e artistas eram considerados dignos quando seguiam a técnica ou uma temática comum.

O artista holandês não teve uma vida fácil. E para conhecê-la nada como assistir ao filme-documentário feito pela BBC em 2010. Quem dá vida ao pintor é o ator Benedict Cumberbatch, que interpreta Sherlock Holmes na série contemporânea também feita pela BBC, além de Khan em Star Trek, Smaug em O Hobbit. A atuação do britânico soa simples, extremamente poética, de uma beleza teatral. Mas ela ganha vida mesmo por causa do texto, uma adaptação das próprias cartas escritas por Van Gogh ao irmão. E ele fala diretamente ao espectador.

O filme é uma daquelas obras que compensa pegar quase uma hora e meia para assistir e conhecer a vida do pintor. A emoção que brota da vida de Van Gogh e da composição simples do documentário acabam por impulsionar o espectador. Gera uma emoção bem forte, uma certeza de que Van Gogh merece ser admirado. Ele vivia a sua arte e viver pela arte se mostra algo tão doloroso e urgente, mas dá a sensação de que compensa receber pequenos instantes que acabam se tornando infinitos ao ver a obra pronta. Uma obra sem crítica, sem público.

Isso dói, é verdade. Mas era admirável como Van Gogh continuava criando, apesar da solidão cruel, das desventuras, do abandono. Talvez seja por isso que as obras de Van Gogh falam sobre algo a mais. Quase sussurram segredos sobre a natureza e sobre os homens. Mostra as cores que precisamos ver, as mais variadas realidades que o mundo pode ter. Ele nos espanta porque fala sobre o diferente, o incomum à percepção. Van Gogh carrega nas tintas tanto quanto a vida havia cultivado um peso difícil para ele carregar.

Por isso, vale assistir ao filme-documentário. Permita-se viajar pelas nuvens quase dançantes da Noite estrelada ou espantar-se com o amarelo vibrante dos Girassóis. Porém, o mais importante: pegue uma hora e vinte minutos para conhecer a história de um indivíduo respeitável, que via na arte a única forma de sobreviver e deixar uma marca forte em forma de tinta no mundo.

(Acima, o filme completo no youtube. Ative as legendas em português)

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John Keating, um poeta morto

Prosa poética publicada no site Zona Crítica

john keatingA luz do conhecimento se insinua trêmula numa fala que vem dos deuses até os mais frágeis humanos. E cai sobre mim, que escrevo estas palavras do mais fundo buraco em que estou. Ao canto, em silêncio, sussurrando com uma vela acesa na mão. É aqui que eu, personagem, moro. Até que as pessoas me levem para o alto e eu possa viver um pouco dos seus dias.

O meu respirar é brando porque tento economizar um pouco da vida que acabei de ganhar ao voltar para cá. Eu vi a tristeza e a perda de meu criador. Mas eu existo em independência. Esperam muito de mim, já salvei almas de estudantes afoitos ou perdidos numa vida amortecida pelas regras da tradição. Mas de John Keating sei que sou apenas um professor que mora numa história. Talvez isso não seja muito. Ou há dias em que isso é o suficiente para preencher o espaço que existe para mim nessa vida que me comprime.

Posso ser professor, estudante, jovem, ator, e a palavra que falo. Minha vida é para colocar uma palavra ao lado da outra e sobreviver nessa fila que formo com elas. Penso que provavelmente você que está do outro lado faz o mesmo. Ou busca a mesma salvação. Quando eu era um estudante, ouvi uma professora me dizer, olhando diretamente nos meus olhos, decifrando aquilo que eu ainda estava revolvendo da terra, descobrindo sobre o poder doloroso e subversivo que surge após a ponta do lápis encostar no papel. “Escrever é questão de vida ou morte, como foi para Sherazade. Contar as histórias para não ser morta. Você precisa escrever para nunca deixar a página em branco da História. Um povo precisa falar.”

Eu peguei essas palavras e grudei na pele como se não pudesse mais soltá-las. E transmiti para outros jovens como eu fui um dia. As palavras dela me cortam até hoje, servem de consolo e subsistência. Um café para me despertar do estado letárgico em que por vezes me forçam a ficar. Escrevo agora para saudar aos estudantes que passaram pelos meus olhos, pelo estudante que fui, pelos estudantes que virão. O mundo deveria acolher os estudantes. Em contrapartida, o que ocorre é um mundo hostil a eles, duro, exigente para que engulam o mundo que existia antes deles.

Diante do desespero de ser esquecido, escrevo essas palavras. Lá em cima, misturado à luz do mundo, eu começo a ver a silhueta do público me chamando para ser novamente o John Keating que o cinema ama. Eu devo deixar esta vela ao canto. Ao voltar, encontrarei o mesmo silêncio onde moro. O silêncio do qual sou feito: um personagem que mora no imaginário dos homens. Um silêncio preenchido pelas histórias das pessoas lá de cima, das pessoas como você, que encontram em mim uma pequenina chama de sobrevivência. Posso residir no lugar-nenhum onde repousam as ideias e os sonhos, mas quando vejo você, leitor e espectador, eu ganho vida.

Posso ser louco, e sou louco. Mas sou um louco que respira para contribuir à vida com um verso. Sou louco como Whitman, sedento como Whitman pelo rompimento das regras em alcançar o infinito pela palavra. Sou um personagem que ganhou vida por um ator e que agora dorme aqui, à espera dos estudantes e do público. Venha em minha direção, não me esqueça. Tenho nas mãos a luz do conhecimento que me guia pela floresta até encontrar os seus olhos, a sua alma disposta a ouvir. Brado o mais profundo dos gritos para dizer ao mundo que me recebe: sou John Keating, sou um poeta morto, your captain, my captain.

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Robin Williams, um ator de muitas facetas

Matéria publicada no site Literatortura

600full-robin-williamsA terça-feira amanheceu mais triste com a morte de Robin Williams. O ator foi encontrado morto na segunda (11) com suspeita de suicídio. É inegável a participação de Robin na infância de uma geração e na vida de muitos adultos. Ele era um ator ousado em compor personagens que se tornaram facilmente simbólicos no imaginário do cinema. Foi uma babá (quase perfeita!), um robô com emoções humanas em O homem bicentenário, Peter Pan, Popeye, o Gênio da lâmpada em Aladdin, um DJ irreverente que serve ao exército americano em Bom Dia Vietnã, o doce médico do filme Patch Adams que levou a alegria para inúmeros pacientes, um rapaz que se vê como peça de um jogo de tabuleiro em Jumanji.

E sem esquecer das representações memoráveis do ator como professor Sean Maguire em Gênio Indomável e John Keating. Ah, John Keating ainda é o meu ponto fraco. É o professor de A sociedade dos poetas mortos que clama aos seus alunos por Carpe Diem, pela poesia como modo de sobrevivência para uma vida baseada em paixões e palavras que podem mudar o mundo.

A Academia, que premia todo ano os melhores do cinema pelo Oscar, deixou uma singela homenagem ao ator no twitter. Robin interpretou o adorável e único Gênio da lampada, em Aladdin. Por isso, o perfil publicou a foto do personagem abraçando Aladdin com a frase “Genie, you’re free” (Gênio, você está livre). Para um personagem e um ator que cumpriu com os nossos desejos de vê-lo atuando em mais e mais filmes inesquecíveis.

Como Robin Williams se fez como ator? É só voltar e reler o parágrafo inicial. As expressões dos personagens estão frescas na memória. Muitos domingos, sessões da tarde e a tradição de assistir ao filme na tv quando se é criança acabou trazendo Robin para dentro de casa. Ele ocupava as minhas tardes e, principalmente, eu não lembro de assisti-lo sozinha. Eu chorava com Patch Adams junto com meus pais, eu me emocionava ao ver um robô chorando, junto com minha família. O Gênio passava a semana comigo. E aí no final de semana era a vez de sentar no sofá e ver estes filmes mais densos.

E aprendi a ver a poesia com naturalidade por esses primeiros momentos singelos ao entrar em contato com um filme. Robin me ensinou isso. Tanto que é difícil escolher um só filme para rever do ator.

A ironia ao ver a criança de ontem crescer é que hoje ela encontra a sua mais forte expressão no filme A sociedade dos poetas mortos. Jovens inseguros com os caminhos que precisam tomar, a autonomia que vai além dos 18 anos completos. Escrever acabou ganhando o mesmo significado que ressoa na voz de John Keating e se aprendi alguma coisa é que carpe diem precisa estar nas nossas mentes. Que pessoas vão e vem como os quadros dos mortos na parede. E que precisamos conhecê-los porque, um dia, eles se alimentaram da poesia como única forma de sobrevivência. Da mesma forma que, hoje, nós precisamos escrever para sobreviver.

Robin Williams também merece este espaço entre os atores do nosso imaginário. Para reencontrar a expressão mágica e doce de seus personagens poetas. Por isso, não é de se surpreender como o ator esteve presente com vivacidade nos nossos primeiros contatos com o cinema. Um grande mestre, um capitão, my captain.

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Saiu o trailer de Into the Woods, musical da Disney com Meryl Streep

Notícia publicada no site Literatortura

meryl streep into the woodsEm 2013 começou a produção do filme Into the Woods. Quase dois anos de espera para saber o que seria dele. Agora um trailer foi divulgado só para aguçar a curiosidade. Into the Woods é uma adaptação da obra de Stephen Sondheim e do roteiro para a Broadway de James Lapine, vencedor do Tony Awards.

E a imprensa norte-americana já adianta: a Disney não será fiel ao musical. Conhecido por propor uma releitura dos contos de fada com linguagem adulta, o musical da Broadway teve algumas de suas cenas com mortes e sexo implícito cortadas para a versão da Disney.

No musical que estreou nos anos 80, dá-se a entender que a Chapeuzinho Vermelho e o Lobo Mau tiveram um envolvimento e que a Rapunzel morria, mas isso não deverá acontecer no filme da Disney devido ao público-alvo.

Em entrevista ao The New Yorker, o autor do musical disse que “se fosse um executivo da Disney provavelmente faria a mesma coisa”. O que faz sentido, claro, já que não é o propósito dos estúdios de animação direcionado às crianças e adolescentes.

Porém, dá um pouquinho de receio ao pensar que, no fim das contas, o filme pode ser mais uma adaptação de contos de fadas. Nos últimos anos, o cinema foi povoado por eles, de Branca de Neve e o caçador à recente Malévola, da Disney. Ou por Cinderela que deve estrear em março de 2015. Ou a versão francesa de A Bela e a Fera, prevista para setembro de 2014. O gênero chama a atenção e não deixa de ser interessante ver novas propostas para os enredos clássicos.

Vale lembrar que Into the Woods, por conta da demora, acaba por surgir em um cenário que já se estabeleceu bastante entre os espectadores. Talvez até tenha se estabelecido tanto que o formato já se tornou meio óbvio. Ainda mais quando os cinemas os lançam um atrás do outro. Pode arrastar multidões para a sala e ser um grande sucesso, mas também pode deixar de apresentar algo novo ou ainda perder a chance de mostrar o enredo quase desconhecido de Into The Woods, que em si é inovador. E foi inovador nos anos 80 para o teatro.

O que deixa o espectador esperançoso é poder ver um musical voltar às telas e com um elenco respeitável. Dirigido por Rob Marshall, de Chicago, e do produtor de Wicked, o filme traz Meryl Streep, Anna Kendrick, Emily Blunt, Chris Pine, James Corden e…Johnny Depp. Que só mostra a sua mãozinha de lobo no trailer.

E Meryl Streep, vale ressaltar. Que, se quisesse, poderia fazer uma árvore muda durante todo o filme e se sairia bem. Mas está aqui como a bruxa que conduz e procura testar os personagens dos contos de fada. Nos bastidores teve até a brincadeira de que a atriz recebeu umas aulas de rap com o 50 Cent, porque foram vistos assistindo a um jogo de basquete.

Como diz o trailer, cuidado com o que você deseja. Eu, no momento, espero que o filme honre a espera. Pelo menos ele parece ser uma grande promessa. O filme está previso para 25 de dezembro de 2014 e 1º de janeiro de 2015 nos cinemas nacionais.

Veja o trailer AQUI 

Fontes: MSN Cinema  e C7nema