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Doctor Who: Uma viagem pelo espaço e tempo

Matéria publicada no site Zona Crítica

Dois meses viajando pelo tempo e espaço na TARDIS – que é maior por dentro – me levou a este estado em que passei a me reconhecer como uma whovian novata. Eu assisti a série Doctor Who, as temporadas da nova versão iniciada em 2005. Depois da insistência de amigos, eu aceitei viajar com o Doctor e passei dias refletindo sobre o sentido de humanidade. Também já cheguei a pensar que ouvi o som da TARDIS, mas era só a máquina de lavar do vizinho. Achei que a TARDIS havia chegado, mas era só o vento assoviando. Olhei para o corredor pensando que poderia haver um Slitheen na cozinha. Pensei que as quatro batidas que o Mestre escuta pode estar tocando no nosso atual horário político. Enfim, a realidade consegue ter algumas fissuras depois que você assiste Doctor Who.

Se você não sabe muito bem do que se trata a série Doctor Who, o que precisa ter em mente é que o protagonista é o último dos Senhores do Tempo. Doctor – apenas Doctor – vem de Gallifrey e, após a Guerra do Tempo contra os Daleks, seu planeta e povo se extinguiram. A escolha foi viajar pelo tempo e espaço dentro da TARDIS (Time And Relative Dimension In Space), uma cabine policial azul que é maior por dentro, uma máquina do tempo. Contudo, um viajante não precisa viajar sozinho. Neste ponto entram as companions, personagens femininas que possuem um arco de história entre uma a duas temporadas, com quem dividimos a perspectiva e vivência diante das inúmeras viagens.

Acompanhar o Doctor também tem suas consequências. Se conhecemos os Oods escravizados, se ficamos diante da morte iminente de uma população por causa da erupção de um vulcão, se alguém resolve virar em outra direção e isso muda o conceito do universo, ou se vemos a crueldade dos Daleks e a inimizade dos Cybermen, é possível encontrar uma constante nessas camadas subjetivas do tempo: o Doctor buscando salvar a humanidade. Numa linha temporal em que se encontra a luz e a escuridão nas ruas de Londres ou em outro planeta, o Doctor revela a nós que os céus podem ser dos mais variados tipos, mas o ímpeto pelo poder e conquista podem se mostrar em inúmeras faces. O que o Doctor devolve nas suas várias regenerações é, ironicamente, várias faces de um mesmo desejo, mas oposto: o de consertar a humanidade com sua chave sônica.

A série leva o espectador a cantos inimagináveis. Descobre-se como a ficção literária pode alcançar os limites da realidade vivida aqui na Terra. E o conceito de tempo? Bem, ele é subjetivo. Você fica meio perdido no início, achando que precisa registrar tudo num caderninho (como o da River Song!) para não ser perder. Só que o tempo é mesmo diferente na série e o que vale é simplesmente entender que o tempo passa a ser composto por camadas, linhas temporais com pontos fixos que não podem ser modificados, mas com as nuances postas a teste, capazes de alterar o sentido de um planeta inteiro.  Apenas o Senhor do Tempo vai saber se pode alterá-lo ou não. Por isso, esqueça que o tempo é tão linear quanto o do relógio. Em Doctor Who o tempo é, como de fato ele deveria ser, muita, muita coisa acontecendo ao mesmo tempo, como se houvesse um bola cheia de wibbly wobbly timey wimey…é indefinível.

E isso nos leva ao meu ponto favorito na série. Mais do que aventuras com alienígenas, estrelas, planetas, encontros com figuras históricas e uma cabine azul voando, Doctor Who fala da humanidade. Sobre o planeta Terra. Você poderia pensar que alguém que vê e sabe sobre tudo no universo poderia simplesmente estar entediado com a vida na Terra. Bom, quanto às pequenas atividades cotidianas, sim. Mas nunca em relação aos humanos. O Doctor consegue ver como essa raça frágil persiste mesmo com tantas tentativas de se conquistar e destruir a Terra. É uma criação fantástica a raça humana. Quase ingênua ao guardar pequenos cubos que caem do céu porque são diferentes ou utilizar as mais diversas tecnologias como parte do cotidiano a ponto de abrir um espaço para que essa tecnologia quase os destrua. Bem, nós fazemos isso.

Doctor Who acaba por ser um conto de fadas moderno. Nós gostaríamos de encontrar um sentido maior para a nossa vida do que apenas acordar e ir trabalhar. A presença das companions no enredo faz essa sensação se fortificar: o humano sempre deseja ter um pouco do infinito nas mãos, conhecer mais do que ele imagina, ou ver diante dos seus olhos tudo aquilo que sempre idealizou. Por isso eu acho que não estamos tão distantes assim do Doctor. Podemos não ter uma TARDIS, mas todo dia é preciso encontrar um pequeno fato no espaço-tempo para nos motivar. Algo que dê um sentido à realidade crua. Seja uma história, uma amizade, um pequeno acontecimento. O Doctor simboliza isso, o sonho humano de conseguir superar a sua fragilidade e tocar os mistérios do universo. Muito mais do que usar a ciência: podemos fazer isso pela nossa capacidade mais mágica, a de olhar a nossa volta e reconhecer o outro e a vida que há nos detalhes. São eles que formam a totalidade do mundo.

A relação com a companion, seja Rose, Martha, Donna, Amy ou Clara, é a de que um Senhor do Tempo não pode viajar sozinho, não pode ver o universo sem esquecer que há essa existência para ele preservar. Doctor é esperança, no fim das contas. E mesmo nós, humanos, não podemos viajar sozinhos. O significado da história só existe mesmo quando compartilhado com o outro. Um breve olhar para tudo aquilo que já imaginamos sobre o universo, pois criando uma história é que nos tornamos humanos. Por isso cada vida influenciada pelo Doctor – da companion ao espectador – acaba não sendo mais a mesma, porque uma alternativa foi aberta no espaço-tempo.

A série

Como sempre o Doctor precisa explicar para sua nova companion que a TARDIS é maior por dentro e que ele é capaz de viajar no tempo e no espaço, aqui vão as informações básicas para que não se sinta perdido ao entrar nesse universo.

Doctor Who é uma série britânica com quase 51 anos, o que significa que até agora tivemos 11 atores interpretando suas respectivas versões do personagem, pois o Doctor tem a capacidade de regenerar em um novo rosto, um novo comportamento. A nova série iniciada em 2005 conta com o 9th (Christopher Eccleston), 10th (David Tennant), 11th Doctor (Matt Smith) e o atual, 12th, interpretado por Peter Capaldi. Como de costume, a série possui autores convidados, como Neil Gaiman, mas com o enredo principal desenvolvido por um único roteirista. Da 1a a 4a temporada o showrunner foi Russell T.Davies, quem trouxe de volta a popularidade da série na televisão britânica por um roteiro que se tornou clássico entre os enredos de Doctor Who. E, a partir da 5a temporada até o presente, Steven Moffat assumiu o cargo, dando uma concepção mais atual e jovem para a série, o que atraiu um grande público também.

Quais episódios posso assistir para começar?

“Em todo o tempo e espaço, todo lugar e nenhum, toda estrela que já foi…por onde você quer começar?

Bom, se você quiser começar por alguns episódios em específico para sentir se irá acompanhar a série, aqui vai uma pequena lista. Por que escolhi esses episódios? Porque são histórias independentes. O bom mesmo da série, pelo menos como foi para mim, é acompanhar desde a 1a temporada (de 2005) até a atual, assistindo também o especial de natal ao fim de cada temporada. E depois ver a série clássica. Assim você vai notando como o enredo cresce e assume caminhos nunca imaginados. E o melhor da série são os arcos! Pontos mencionados lá no início fazendo todo o sentido numa season finale insana. Mas há episódios que compensa ver antes para ter uma ideia de como a série é diversificada em termos de roteiro.

  1. Blink – 3×10: as weeping angels (anjos lamentadores) vão assustar o espectador que não deve piscar em nenhum segundo. O episódio é quase um especial de introdução às personagens mais geniais da série, criada por Steven Moffat. Acompanhamos uma moça que gosta de conhecer casas abandonadas, até que acontecimentos estranhos passam a ocorrer com os amigos mais próximos.
  2. Vincent and the Doctor – 5×10: a beleza desse episódio é difícil de descrever. O 11th Doctor e a companion Amy Pond viajam até o final do século XIX e conhecem simplesmente Vincent Van Gogh, pois precisam ajudá-lo com uma criatura que o tem aterrorizado. A fotografia do episódio recriando os quadros, a emoção ao ver o drama de um dos maiores pintores faz da história inesquecível.
  3. The Empty Child e The Doctor dances – 1×09/10: primeiro enredo escrito por Steven Moffat, o episódio duplo traz uma atmosfera de suspense, com uma criança que persegue uma jovem, usando uma máscara de gás em plena Segunda Guerra Mundial. Um episódio impecável, com uma bela atuação de Christopher Eccleston como 9th Doctor.
  4. The Doctor’s wife 6×04 – um presente de Neil Gaiman à série, o episódio traz a chance de conhecer um pouco mais sobre a relação entre o Doctor e a TARDIS, numa história poética e mágica, nos moldes bem clássicos dos enredos do autor.
  5. Midnight – 4×10: um dos episódios em que o 10th Doctor (David Tennant) é posto à prova numa viagem claustrofóbica e terrível, na qual pessoas são possuídas por uma criatura que existe nas palavras repetidas. O maior medo presente no enredo é ver que, muitas vezes, o ser humano pode ser facilmente manipulado e esquecer o que significa estar na pele do outro.
  6. The Sontaran Stratagem/The Poison Sky – 4×04/5: um episódio em que duas companions, Martha Jones e Donna Noble, ajudam o Doctor a descobrir o que são os dispositivos ATMOS espalhados no mundo e o caos ao qual a Terra está submetida.
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Bienal do Livro | O dia em que eu conheci Pedro Bandeira

Matéria publicada no site Literatortura

pedro bandeira droga da amizadeA Bienal de São Paulo terminou neste domingo (31), mas como em toda a sua edição, o encontro que um fã pode ter com seu escritor favorito deixa lembranças que vão além do evento. Na terça-feira (26) foi o momento aguardado por dez anos: conhecer Pedro Bandeira.

O primeiro livro que li do autor foi Droga da obediência, para um trabalho de escola. Achei curiosa a presença de adolescentes tentando desvendar um mistério, como se fossem detetives tão bons quanto Sherlock Holmes, e logo me vi muito envolvida. O crime ainda ocorria nos colégios de São Paulo e essa atmosfera próxima da minha vivência acabou me conquistando. Eu ficava imaginando como seria legal resolver um mistério na minha própria escola.

Depois desse livro, passei a procurar loucamente pelos outros livros em sebos e livrarias. Veio Droga do Amor, Droga de Americana, Pântano de Sangue, Anjo da Morte.  Os Karas, grupo composto por Magrí, Miguel, Chumbinho, Calu, Crânio já tinha entrado na minha vida para ficar. E se hoje eu não lembro dos enredos com tantos detalhes, alguns flashes do cenário e dos personagens acabaram grudando na minha memória, onde as palavras do autor vivem.

Conhecer Pedro Bandeira, então, foi o momento em que essas pequenas sensações guardadas lá atrás voltaram, da leitora de 11 anos descobrindo ainda o que significava ser leitora. Bandeira é adorável tanto quanto as suas histórias. Uma garotinha chegou a perguntar qual era a inspiração dele e o autor respondeu “é você”. Os personagens que ele criou são do leitor e o leitor ao mesmo tempo, como ele diz. São livres para se tornarem o que o jovem e a criança estão vivendo. Por isso, os Karas somos nós. Ao procurar os outros livros nos meus 11 anos de idade, fazia com que eu me sentisse um pouco como Magrí procurando as pistas para desvendar o mistério. Eu fazia isso buscando histórias.

Bandeira comentou diversos pontos interessantes sobre sua carreira. Começou a escrever romances com quarenta anos, antes disso trabalhava como jornalista. Quando criou O mistério de feiurinha, onde recria os contos de fadas, pensou por buscar a psicologia da infância neles. Ele explica que se chapeuzinho vermelho utiliza uma capa vermelha e foge do lobo mau, é um indicativo da sua passagem à adolescência e a descoberta de que nem todos que a procuram no bosque podem ser bem-intencionados. Se a madrasta da Branca de Neve deseja matar a mocinha é porque ela tenta a todo custo matar o próprio conceito de beleza que a aterroriza quando se olha no espelho esperando a beleza eterna, o ato é uma amostra da inveja e do desejo irrefreável pela juventude.

Esses enredos são universais pois preservam uma herança cultural em forma de alegoria para os primeiros conhecimentos da criança sobre o mundo. A criança se vê literalmente no personagem da história, é assim que se encaixa e se descobre no mundo. E o mais curioso é que ao notar que Pedro fala com propriedade sobre os contos de fadas, ele também encontrou esse ponto universal na adolescência. “Os meus Karas são como os Três Mosqueteiros”. Por isso seus personagens são tão palpáveis. Tanto que o autor disse cuidar mais do personagem, para que a gente se encontre nele, do que no cenário. Pois o que fica é a experiência pelos olhos dele.

O autor também comentou que trouxe os Karas de volta no livro A Droga da amizade, lançado nesta edição da Bienal. A dificuldade foi lidar com o fato de que seus personagens cresceram muito e hoje os tempos são outros. Para desvendar um mistério, a internet acabaria por cortar muitos dos passos que antes envolviam o processo de achar as pistas para o grupo. Bandeira tentou fazer A Droga Virtual, mas a cada instante vinha um novo software e o enredo parecia atrasado. Assim, A Droga Virtual foi enxugado e se tornou Droga de Americana.

Com essa dificuldade, Pedro achou que não voltaria aos Karas. Mas então veio a ideia de apresentar as origens do grupo e como estão atualmente. Por isso, Bandeira trabalhou em A Droga da amizade aos poucos por 14 anos e o tornou um livro de nostalgia, trazendo os personagens para os dias atuais e mostrando o que aconteceu com aqueles jovens curiosos, hoje adultos, casados, com uma carreira consolidada.

Este presente aos fãs que cresceram revela muito da relação de Pedro Bandeira com seus leitores. Quando questionado se haveria uma dica, uma fórmula para quem deseja escrever para o público infanto-juvenil, Bandeira se mostra simples, dizendo que precisa saber ouvir o leitor jovem, escrever e se colocar como ele no enredo. E deixá-lo livre para recriar o personagem de acordo com sua própria experiência.

Foi bem rapidinho que eu consegui um autógrafo do Pedro, havia muitas crianças em volta dele e pouco tempo, já que haveria apenas a palestra. Mas ele fazia aquilo com tanto gosto e carinho, olhava para as crianças como se realmente as conhecesse. Bom, ele as conhece. Eu quase caí, quase saí correndo pela Bienal gritando com o livro autografado na mão. Já foi difícil voltar a respirar.

Estar na pequena plateia sentada no chão assistindo o Pedro falar nessa conversa na terça-feira, com crianças ansiosas por conhecê-lo e adultos ansiosos por conhecer a mente que os despertou ao mundo dos livros, foi o mesmo que conhecer o grande contador de histórias que mora na nossa imaginação. Pedro já se tornou um amigo de longa data. Vê-lo tão pertinho foi o mesmo que dar vida a esses anos cultivando o amor pelos livros. Várias gerações se encontrando para ouvir um escritor jovial e doce, que conhece como ninguém o desafio que é ser criança e adolescente.

autografo pedro bandeira