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Doctor Who: a realidade e a ilusão no especial de Natal

drwhochristmasResenha publicada no site Zona Crítica

CONTÉM SPOILERS

Todo Natal é o último Natal. Com essa bela premissa, o especial de Natal do Doctor Who, nomeado Last Christmas (O Último Natal) prosseguiu com a atmosfera sombria de toda a 8ª temporada, mas revelou o espírito natalino como bem-vindo até mesmo ao 12th Doctor, que não gosta lá muito de abraços e momentos alegres e sublimes que a época implica.

O especial se inicia com a Clara acordando com o barulho repentino de um objeto colidindo em seu telhado e vozes. O trenó do Papai Noel havia quebrado no telhado de sua casa, e trazia junto seus ajudantes elfos e muitas tangerinas, frutas que o Papai Noel (interpretado por Nick Frost) supostamente gosta. O Doctor surge na cena pedindo que Clara entre na TARDIS. E paira no ar certa rivalidade entre Papai Noel e o Doctor.

Com esse início, o especial caminha a história para a presença de uma equipe de cientistas no Polo Norte na véspera de Natal, em que o desafio deles é passar por uma sala com criaturas aparentemente perigosas sem acordá-las. O grande perigo reside em criaturas chamadas Dream Crabs (Caranguejos dos Sonhos), que se prendem à face daqueles que eles atacam até sugar a sua vida, anestesiando-os, enquanto isso, numa vida de sonhos. É preciso sair deste sonho para voltar à vida.

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Em relação ao elenco, o especial adiciona a presença de Nick Frost, que está excelente como um Papai Noel irônico e capaz de conduzir o enredo a ponto de deixar o próprio Doctor se sentindo perdido, por um instante, em todo o caos entre a tripulação de cientistas. Há quase um duelo entre os dois personagens, já que consideramos Papai Noel irreal e o Doctor a única ajuda que poderíamos ter. O especial brinca muito com o real e a ilusão, nos levando a questionar se devemos acreditar em um deles ou em nenhum.

Jenna Coleman e Peter Capaldi retomam a parceria de seus personagens de uma forma sublime, muito bem conduzida pelo roteiro, e em uma grandeza de atuação ainda não vista na temporada. Fica evidente como a Clara é realmente importante para o Doctor e que as mentiras que um contou ao outro foi a maneira de se sacrificar pelos seus sonhos: Clara permanecer com Danny e o Doctor reencontrar Gallifrey. Neste episódio, que aposta na premissa do Natal como sendo o último, Clara precisa superar a morte de Danny, numa das cenas mais bem trabalhadas com o ator Samuel Anderson. Capaldi também consegue, mais uma vez, expandir as impressões que temos do Doctor, para culminar na cena em que ele conduz o trenó, todo alegre como uma criança na véspera de Natal.

O trabalho de Steven Moffat, showrunner e roteirista, foi um verdadeiro presente em forma de roteiro. Ele conseguiu a proeza de reunir o melhor do sci-fi com os elementos exigidos para um especial de Natal. Ele trata de redenção, morte e passado sem utilizar os sentimentalismos que identificamos em tantos enredos natalinos que buscam arrancar lágrimas como se fosse a grande exigência. Não, Moffat se encontra comedido neste especial sem deixar de explorar a densidade desses temas. Em A Christmas Carol (2010) vemos o clássico enredo da magia no dia do Natal numa Londres industrial e futurista tomando Charles Dickens como inspiração, em que existe um adulto de coração endurecido e uma infância sendo desvelada para a sua redenção, com a doçura de um belo enredo infantil. No caso do especial The Snowmen (2012), Moffat aposta mais na linguagem de um leve thriller, em que bonecos de neve ganham vida para conquistar a Londres vitoriana, onde conhecemos Clara Oswald, uma garçonete e babá que o 11th Doctor convida para ser sua companion. Nele, o Natal tem um toque de melancolia bem trabalhado juntamente ao humor.

Doctor-Who Team

Diante destes dois especiais, Last Christmas é bem distinto. A linguagem que Moffat opta por utilizar na constituição do roteiro é o grande protagonista, pois ele aposta novamente no seu talento – que já conhecemos – de sobrepor diversas camadas temporais, desta vez uma sobreposição de sonhos. Moffat consegue adivinhar o momento em que vamos acreditar que já estamos acordados. Ao encontrar Clara já idosa, depois de 62 anos esperando o Doctor, acreditamos que será o último Natal da companion. A verdade é que as opiniões podem se dividir: ao mesmo tempo em que teria sido doloroso vê-la se despedir naquela cena, teria sido um desfecho mais leve do que os de outras companions na série. Dentro das expectativas criadas a cada cena-sonho, foi inteligente Moffat ter se detido nesta parte da história, nos levando a crer que estávamos acordados e que seria o fim de Clara.

A companion, enfim, permanece para a próxima temporada. E Moffat ainda deixa aberta a possibilidade às crianças de que o Papai Noel existe, ao terminar com a tangerina na janela. No decorrer da história, descobrimos que o Papai Noel só foi uma ilusão que a tripulação trouxe à tona para tentar sobreviver ao ataque dos Caranguejos dos Sonhos, afinal estavam todos sonhando à beira da morte. Em algumas discussões, ficou a dúvida se a tangerina, sendo deste personagem ficcional, o Papai Noel, seria como um totem, o que indicaria que o final do episódio ainda era um sonho. Mas a probabilidade é de que Moffat a deixou no final para tranquilizar as crianças (e seus pais) de que o Papai Noel ainda pode existir.

Desta forma, o enredo do especial se constituiu com grande fluidez, em que o espectador se vê surpreso ao começar a duvidar de tudo o que está ocorrendo, depois de ser enganado pelo roteirista. É um especial realmente distinto, pois não usa o artifício do clima natalino a todo tempo. Este surge para coroar a história com muita delicadeza, muitas vezes em cenas que não se precisa de uma frase para enfatizá-lo. Este foi o grande mérito de Moffat: tratar do clima natalino como um período difícil para muitas das famílias que veem a época como a última reunião familiar. A promessa do roteirista, então, é fazer deste dia um momento em que se deslocar da realidade proporciona um encontro com o Doctor e o conforto para a solidão.

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As vésperas de uma ceia

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-Claras em neve, onde vou achar neve agora, mãe? – eu perguntei rindo.

A ceia natalina começava a se esboçar na cozinha. Os ingredientes separados aguardavam a clara chegar ao ponto certo, as raspas de limão reservadas esperando ansiosas para se lançarem à superfície afofada e branca. Leite condensado, leite, ricota, mais ricota, manteiga, leite, gemas dançavam agitadas no liquidificador, sustentando a surpresa do sabor final da massa. Foi despejada, essa massa animada, no pote junto às claras. O líquido amarelado cresceu, suspendeu magicamente as claras e esperou para ser misturado. Na assadeira a torta recebeu as frutinhas e foi para o forno, satisfeita por chegar ao fim.

O segundo a receber atenção foi o lombo, que se alegrou com o tempo em que marinou, se banhou no tempero composto por orégano, pimenta, páprica (que tem um nome engraçado), manjericão, louro. O azeite veio para dar o toque bem vindo e dourado à peça que contava as horas para se revelar bem assado no forno.

Vendo todo esse espetáculo, minha mãe controlando o que precisava dar certo pelas minhas mãos, e o cachorro. Ah, ele se alegra tanto quanto a massa e o lombo, ora com a cabeça erguida olhando para o alto, ora de pé nas patas traseiras, pedindo pela cenoura que está sendo cortada. A batata logo se desintegra no prato, uma maionese em potência, e a cenoura, o ovo, a azeitona, o bacon na panela misturados à farofa que se torna crocante. Mais uma vez, o cachorro rodeando o forno, torcendo para cair um pedacinho ou um restinho da gordura do bacon que fica pulando na panela, contente.

A ceia se esboça nos detalhes, nos segundos, nestes vestígios deixados agora nas palavras, compostas por letras que são ingredientes da grande receita que é a frase. A prosa é o sabor final, a lembrança. A mesa espera a grande cena. La fête va enfin commencer*.

*Clique aqui para ouvir a música Le festin, do filme Ratatouille.

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Sábado do Vídeo | Dê um livro neste Natal

books (1)Matéria publicada no site Literatortura

Um bom velhinho com vestes pesadas vermelhas passa pela casa de todos em seu trenó, distribuindo presentes. Uma criatura verde que detesta o Natal aprende a apreciá-lo na grande ceia de Whoville. O quebra-nozes que ganha características humanas na noite natalina da menina Clara. Como se vê, o período natalino é carregado de inúmeras histórias consideradas clássicas que viraram parte do imaginário coletivo como sinônimo de uma tradição a ser preservada. Essas pequenas narrativas, passadas de geração a geração, oralmente ou por meio de livros, como no caso de Grinch e O Quebra Nozes, mostram que há muito a ser contado daquilo que reside abaixo da árvore de Natal. É só acender a imaginação.

Histórias são mencionadas ocasionalmente, mas pouco pensamos sobre elas. O Natal pode ser o período que traz à tona histórias familiares na ceia, ou constitui mais uma nova lembrança ao ganharmos um presente singular, com a presença de alguém especial. É por isso que o Sábado do vídeo de dezembro, às vésperas do Natal, traz esse vídeo da editora Bloomsbury, com a proposta de presentear os amigos e familiares com livros.

O vídeo Give the gift of a book this Christmas traz várias frases sobre a experiência de ler um livro. Abaixo você pode assisti-lo e conferir a minha tradução das frases citadas. Tem J.K.Rowling, Neil Gaiman, William Shakespeare, Paulo Freire, entre outros. Se no Natal as histórias emergem brilhantes, ter um livro nas mãos é a possibilidade de conhecer novas histórias sempre, com as palavras pulsando como as luzes natalinas. É uma viagem inesperada, com destinos infinitos. E conceder esse passeio a alguém é o mesmo que deixar uma promessa embaixo da árvore de Natal para um ano inesquecível.

“Escrever um livro é uma aventura”, Winston Churchill.

“Eu acredito que algo muito mágico pode acontecer quando você lê um bom livro”, J.K.Rowling.

“Livros são coisas vivas, eles têm colunas e cheiros, uma vida inteira, e como resultado de suas existências, alguns deles têm lágrimas e deformações e algumas feridas”, Niall Williams

“Essa é a verdade sobre os livros: eles permitem que você viaje sem mover seus pés”, Jhumpa Lahiri.

“Ler não é caminhar nas palavras, é segurar a alma delas”, Paulo Freire.

“Ler é voar: é ascender a um ponto de vista o qual concede uma visão sobre enormes terrenos de história”, A.C. Grayling

“O livro cria significado, o significado cria vida”, Roland Barthes

“Acredite nos leitores e eles podem corrigir os pontos”, Esther Freud

“Escrever ficções é o ato de misturar uma série de mentiras para chegar numa grande verdade”, Khaled Hosseini

“Debruçar-se em um livro, para procurar a luz da verdade”, William Shakespeare

“Parte da beleza da ficção é a de que nós vivemos em um corpo que não nos pertence”, Colum McCamn

“Uma palavra depois de uma palavra depois de uma palavra é poder”, Margaret Atwood

“Um livro é um sonho que você segura em suas mãos”, Neil Gaiman.

“Oh, eu só quero o que todos nós queremos: um confortável sofá, uma boa bebida, um final de semana sem distrações e um livro que irá parar o tempo e me resgatar da minha existência cotidiana e alterar meu pensamento para sempre”, Elizabeth Gilbert.

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As influências literárias em O Rei de Amarelo e o seu legado

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Matéria publicada no site Literatortura

O Rei de Amarelo, de Robert W. Chambers, teve sua primeira tradução para o português publicada este ano pela editora Intrínseca. Ela surge como uma “nova-velha” obra: foi publicada em 1895, influenciou diversos autores posteriores, como nós veremos a seguir, mas recebeu influência de outras obras e correntes literárias no próprio século XIX em que foi escrito. E está sendo redescoberta agora.

Chambers trouxe à tona nesta coletânea de contos um gênero literário que, posteriormente, passou-se a nomear weird fiction, um terror cósmico. Nos contos interligados do autor encontramos uma mistura de enredo futurista com a atmosfera decadentista do final do século XIX. Os quatro primeiros contos têm em comum, no enredo, uma peça de teatro que enlouquece aqueles que a lêem, e ela se chama também O rei de amarelo.

Ler a obra de Chambers é quase o mesmo trabalho que o de um detetive, mas decifrar o discurso presente no livro dentro da chamada Mitologia amarela é um desafio distante de ser concluído. Por isso, a ideia desta lista ainda não é identificar somente o que seria essa Mitologia Amarela – que, mais tarde, surgiu como o chamado Mito de Hastur, Carcosa ou de Cthulhu, o conjunto de deuses “antigos” e lendas criadas por Lovecraft – mas mostrar quais foram as influências que Chambers pode ter recebido e quais ele originou. Além disso, a ideia é trazer obras que não são muito populares e ir recriando o cenário amarelo.

Durante a leitura da obra, o que ocorre é que podemos entender o conteúdo da peça O Rei de amarelo como transgressora: ela inaugura uma nova realidade na vida do personagem, na qual vemos que a existência humana é mais complexa e frágil do que o cenário social poderia indicar. Nem por isso a peça será uma benfeitora na vida do personagem. Ela transgride suas certezas e noções da vida mundana para mostrar a ele que a vida não é constituída por fases a ser superadas ou meras reputações. Ela pode ser mais turbulenta porque se mistura a inúmeras vidas e passados, são realidades paralelas. Assim, é quase um sonho ininterrupto, com humanos passando por desesperos que são uma constante. Por isso, creio que a própria mente humana pode ser a Carcosa do Rei, constituída por fatos e sonhos. E o terror existe ao se constatar que estariam encarcerados numa vida que já carrega o sonho e a realidade sem divisões.

Assim, foi por meio das indicações das notas de rodapé feitas por Carlos Orsi na tradução para o português que passei a procurar as obras citadas por ele para entender o que seria Carcosa, Hastur, o rei, o verdadeiro terror que encontramos na narrativa. E acabei encontrando contos e livros que revelam quase uma tradição ao mencionar esses nomes. É o que você verá a seguir,  com os comentários da minha leitura das obras.

O conto A Máscara da Morte Vermelha, de Edgar Allan Poe (1842)

Este conto foi publicado em 1842 e, definitivamente, influenciou Chambers na composição da figura do Rei quando ele surge no poema que inaugura a edição, pois no poema o Rei possui um manto em retalhos. Além disso, Chambers usa no primeiro conto o termo “Máscara Pálida” que foi incorporado na Mitologia Amarela, pelos autores que vieram depois, como uma máscara que o rei ou um emissário dele usava. E esta máscara teria semelhanças com o enredo do conto de Poe. Neste, o Príncipe Prospero resolve se fechar em um castelo com alguns dos nobres da corte para evitar ser contaminado por uma espécie de peste que vinha se alastrando, a Morte Vermelha (ou Rúbra). Mas, quando Prospero concede uma festa em que todos devem usar uma máscara, há um ser desconhecido que surge entre os convidados, portando uma máscara da qual escorre sangue e mancha as vestes em retalho. A criatura parece ser o terror e a Morte Rúbra personificados, por isso se parece com a ideia do Rei que espalha a loucura como uma peste.

Para ler o conto clique aqui  

O conto Le Roi au Masque d’Or (The King in the Golden Mask), de Marcel Schwob (1892)

O Rei na Máscara de Ouro é o primeiro conto que dá nome à coletânea de Marcel Schwob e foi publicado em 1892. Ele tem grande semelhança com o conto de Poe e, novamente, a atmosfera sombria da figura que desconhecemos do Rei, na peça que os personagens leem no enredo de Chambers. A história é bem curiosa e mostra um rei que segue uma regra de seus antepassados: ele deve usar sempre uma máscara de ouro e os seus súditos as máscaras com as expressões que lhes convêm. O rei entra em crise, porém, quando um mendigo passa pelo castelo e insinua que o rei era enganado pelo mundo por nunca ter visto o rosto dos outros, e nem conhecer a própria face.

Para ler o conto em francês clique aqui 

O conto The Yellow Wallpaper (O Papel de parede amarelo), de Charlotte Perkins Gilman (1892)

Este conto é um marco na literatura feminista americana e está na lista porque foi publicado três anos antes de O Rei de Amarelo. Nele, a temática se assemelha ao enredo de Chambers e é possível que ele tenha lido ou conhecido a sua polêmica. A cor amarela é predominante pela forma de um papel de parede que Jane, a protagonista que narra a história, passa a notar que muda de aparência. Ela vê sombras, novos rostos e formas ganhando vida. O conto foi criticado na época por um médico dizendo que a sua leitura era perigosa para pessoas com “distúrbios mentais”. A questão é que a autora fez o conto justamente para retratar o terror pelo qual ela passou, como é ser reprimida pelo marido ao apresentar sintomas de depressão após começar a vida de casada e ter um filho.

Para ler o conto em inglês, clique aqui 

O conto Haïta The Shepherd (Haïta O pastor), de Ambrose Bierce (1891)

Neste conto publicado por Bierce em 1891, é inserido pela primeira vez o nome Hastur, que terá inspirado Chambers a usá-lo em sua obra. Em Bierce, Hastur teria sido derivado da província espanhola Asturias e lembra a sonoridade de “pasture”, e justamente o personagem deste conto é um pastor. Chambers usa Hastur como o nome da cidade onde Cassilda e Camilla residem. Elas são personagens que existem apenas na peça O rei de amarelo que os personagens leem, e nós só recebemos as referências sobre elas por meio de alguns versos no início dos contos, que indicam serem os trechos do ato II que provocaria a loucura em quem os lê. E ainda, no conto A Demoiselle d’Y’s, Hastur é o nome de uma moça que parece exercer um controle no protagonista. Ela é mais do que uma forma humana, quase uma viajante do tempo. Da mesma forma a personagem feminina nesse conto de Bierce. Nele, Haïta se depara com uma jovem que depois será nomeada Felicidade, aquela que ele nunca poderá ter ao seu lado como esposa.

Para ler em inglês, clique aqui e também está disponível na antologia Hastur Cycle, para download no 4shared aqui 

O conto An Inhabitant of Carcosa, de Ambrose Bierce (1891)

O conto de Bierce, publicado em 1891, foi a introdução do nome Carcosa, uma cidade que o personagem busca como salvação, mas logo descobre que a morte o levou e que essa não basta para que um homem deixe de existir. Por isso esse habitante perambula pelas terras em busca de Carcosa, o lugar ideal para usufruir da imortalidade. Carcosa derivaria de Carcassonne, cidade que se situa na França, cheia de muralhas, castelos com uma arquitetura medieval. Bierce também usa Hali como o nome de um profeta, que será citado por Chambers. Mas na obra desse, será o nome do lago em que a cidade de Hastur foi construída e onde Cassilda mora, na peça fictícia O rei de amarelo. Além disso, Hali é o nome árabe para a constelação de Touro, na qual existe Híades e Aldebarã, mencionadas no poema e no conto de Chambers como sendo estrelas negras que ficariam acima de Carcosa, onde o Rei habita.

Para ler em inglês cliquei aqui e também está disponível na antologia Hastur Cycle, para download no 4shared aqui 

O poema Carcassonne, de Gustave Nadaud

O poema teria inspirado também Chambers a escrever o seu poema introdutório à coletânea. No poema de Nadaud, o eu lírico espera encontrar Carcosa, esta cidade perdida e existente no imaginário daquele que sonha com quase uma utopia. Carcassonne se apresenta como uma Babilônia, onde se encontra o descanso de uma vida cheia de erros. O eu lírico relata que seus parentes conheceram cidades, mas ele não viu Carcassone, apenas depois da morte. A questão é que ele termina o poema dizendo que “Cada mortal tem sua Carcassonne”, e isso faz pensar se ela existe na própria palavra ou na mente humana como artifício.

Para ler a tradução em inglês e o original em francês, clique aqui 

Rubaiyat, de Omar Khayyam

A versão em inglês da seleção de poemas de Khayyam (1048-1131), originalmente em persa, foi feita por Fitzgerald, em 1859, o que deu a chance ao Ocidente de conhecer a obra do poeta. A palavra rubaiyat, derivado do árabe, significa “quatro”, um poema com uma estrofe de duas linhas, com duas partes cada. Na obra, Khayyam exalta a beleza da vida e a possibilidade do homem em transcendê-la pelo vinho ou até por um livro de poesia, gozar a vida antes de se tornar pó, e acrescenta ter ouvido as razões sobre o universo de um Doutor e de um Santo, para sair da porta tão crente quanto ao entrar. O eu lírico diz ter passado pelos Sete Céus – as sete artes liberais – e não conseguiu resolver os enigmas do universo, nunca conseguiu desatar “o nó do Humano Fado”. Duas estrofes aparecem no início dos contos O paraíso do profeta e O Pátio do Dragão, e introduzem a impossibilidade dos protagonistas de Chambers em entender o significado do tempo e deste mundo alternativo que aparece em sonhos ou em pesadelos coletivos.

Para ler a tradução em português de Alfredo Braga, clique aqui. A edição que consultei é bilíngue, traduzida por Jamil Almansur Haddad.

A peça Salomé, de Oscar Wilde (1891)

A referência à cor amarela no título da obra de Chambers e nas vestes do Rei é por causa do significado dela no século: era o símbolo da loucura, da boemia, do amor misturado à luxúria. Livros proibidos tinham a capa com esse tom. E o frisson causado pela obra de Chambers foi tão grande, no momento de sua publicação e mais ainda entre os autores seguintes, que se passou a atribuir a algumas obras o mesmo teor de loucura que há na peça do enredo – Salomé, de Oscar Wilde, é um exemplo. Nela, Salomé exige ao rei ter a cabeça de São João Baptista na bandeja por um capricho, já que ele havia se recusado a beijá-la. Mas Salomé só consegue que seu desejo seja atendido após executar a Dança dos Sete Véus. A obra de Wilde e o perigo na forma da dança de Salomé teriam inspirado Chambers a inserir uma peça insana e um rei com vestes amarelas na sua obra. E mais ainda, em O Retrato de Dorian Gray, de Wilde, há um livro amarelo que fascinou o personagem, que por sua vez, pode ter sido Às Avessas, de Huysmans. Há toda uma literatura “amarela” no século XIX, apresentando esses livros dentro de narrativas quase como transgressões na vida dos personagens.

Para ler o livro Salomé, clique aqui 

Poema Os sete velhos, de Charles Baudelaire (1857)

Não sabemos se Chambers, de fato, leu o poema Os sete velhos, de Baudelaire, em As Flores do Mal, mas a semelhança com a atmosfera dos contos Emblema Amarelo e O Pátio do Dragão é surpreendente. Em ambos os contos encontramos a única forma daquele que pode ser o emissário do Rei ou uma de suas formas, já que a criatura não veste amarelo, mas anda com trapos, parece ter uma pele de cera branca e os persegue, seja tocando órgão numa igreja e nas ruas, seja nos sonhos do protagonista. O poema revela versos que poderiam muito bem estar no enredo de Chambers e, ao final, parece revelar que o eu lírico se encontra em um mundo perturbado, com sua alma dançando “sem mastros, sobre um mar fantástico e sem bordas!” e que este ser que o incomoda vai “não se sabe para que outro mundo”. A razão se perde a partir do encontro na rua enevoada com um velho de trapos que “pareciam reproduzir a cor do tempestuoso céu” e que tem a silhueta “quebrada” e leva um bastão que lhe dá um ar mais nefasto.

Para ler o poema traduzido para o português, cliqueaqui e a versão original em francês aqui. A tradução que consultei foi a da Editora Nova Fronteira, 2006.

H.P. Lovecraft (20/08/1890 – 15/03/1937)

São algumas as referências que Lovecraft teria feito ao universo amarelo de Chambers. Sabe-se que o autor teria lido a obra por volta de 1927, quando seu estilo já estava bem definido e já havia criado Necronomicon, este livro também perigoso como a peça. Na introdução, Carlos Orsi diz que em apenas Um sussurro das Trevas (1931) Lovecraft citou Hastur, mas que a Mitologia de Cthulhu acabou incorporando Chambers por meio de August Derleth, quem os relaciona no conto O retorno de Hastur e passa a instigar o interesse de outros autores (e leitores também) a compor uma Mitologia Amarela próxima a de Lovecraft. Mas nas minhas leituras dá para encontrar certas semelhanças entre os contosDagon, Ar frio e O modelo de Pickman, de Lovecraft, e O Pátio do Dragão, Emblema Amarelo e A Máscara, de Chambers. Há o protagonista que é um pintor desejando encontrar no grotesco a beleza em sua forma pura, mesmo que precise compactuar com os submundos dúbios da ciência como sinônimo de encontro com a imortalidade ou o registro de criaturas estranhas. Além disso, tem a existência de uma atmosfera de terror por conta de um emissário do rei, ou uma criatura de tentáculos, que se faz como uma ameaça permanente.

O conto More Light, de James Blish (1970)

Este conto de James Blish, publicado em 1970, é a tentativa mais fiel de criar a famosa peça O rei de amarelo. Blish foi leitor de Chambers e tentou compor a peça, na qual Hastur é a cidade em outro planeta em que a rainha Cassilda e sua filha Camila residem. No início do conto A máscara, temos um dos únicos trechos que Chambers deixou registrado na sua coletânea como se fosse a tão temida peça:

“Camilla: O senhor deveria tirar sua máscara.
Estranho: É mesmo?
Cassilda: É mesmo, está na hora. Todos tiramos nossos disfarces, menos o senhor.
Estranho: Eu não estou de máscara.
Camila: (Horrorizada, em particular para Cassilda) Não é máscara? Não é máscara!”

H.P.Lovecraft enviou cartas a Blish e o autor William Miller, em que ele diz ser uma tarefa complicada e insuficiente tentar criar um Necronomicon, essa obra que assustaria por revelar as verdades mais sombrias da existência. Mas Blish aceita a tarefa de tentar constituir a peça de Chambers e o resultado é satisfatório para quem tem curiosidade de vivenciar a leitura como se fosse um personagem de Chambers entrando em contato com a tão perigosa peça.

Tanto os contos de Ambrose Bierce quanto o conto More Light, de Blish, estão na coletânea Hastur Cycle, que está disponível para download aqui.

O livro A Maldição do Cigano, de Stephen King (1984)

A obra de Stephen King conta a história de Billy Halleck um advogado que vê sua vida amaldiçoada quando atropela uma velha cigana. O enredo não tem relação direta com Chambers, apenas pelo fato de haver um bar chamado Hastur que é destruído em um incêndio e, em seu lugar, é construída uma loja de produtos alternativos chamada O Rei de Amarelo.

O conto A study in emerald (Um estudo em esmeralda), de Neil Gaiman (2003)

O conto Um estudo em esmeralda coloca o detetive Sherlock Holmes e seu amigo Dr. Watson numa atmosfera inspirada no Mito de Cthullu, de Lovecraft. Gaiman cita Carcosa na passagem em que Watson relata ter assistido uma peça. O conto traz o assassinato do príncipe da Boêmia, Franz Drago, sobrinho dileto da Rainha Vitória, na Londres do século 19, em circunstâncias muito estranhas, indicando a presença de possíveis monstros que existiriam à espreita, atacando desde o princípio dos tempos.Este tipo de terror permanente, de uma criatura desconhecida, existe também no fato de não sabermos a origem de Carcosa e os poderes do rei, que os exerce por uma simples peça teatral. Além disso, Hastur é o nome de um anjo caído no livro Belas maldições, de Gaiman e Terry Pratchett.

Para ler o conto em inglês, clique aqui. E para ler em português, aqui 

A série True Detective (1ª temporada – 2014), de Nic Pizzolatto

O seriado True Detective foi uma das grandes surpresas deste ano, vencedor de quatro Emmys e conquistou muitos fãs para a próxima temporada, com elenco e enredo independentes. A 1ª temporada contou a história de dois detetives, Rust Cohle e Marty Hart, que precisam encontrar um assassino em série em Louisiana. Os oito episódios mostram diversas linhas do tempo, com os 17 anos em que os dois estiveram envolvidos na investigação. O crime parece estar relacionado a uma seita religiosa que promete um encontro com o Yellow King (O Rei de Amarelo), por folhetos distribuídos entre as cidades. Uma das vítimas o tem em um caderno e sua morte apresenta um teor simbolista, quase um sacrifício às entidades. Aqui, o curioso é ver como alguns elementos da obra de Chambers são apropriados de forma inteligente. Encontrar Carcosa é quase o mesmo que olhar para o universo puro. A condição humana é explorada na série nas várias falas céticas de Rust e nos atos dos próprios personagens. Louisiana, tão inóspita quanto o deserto que vemos no conto As Demoiselles d’Ys, é opressora e cheia de camadas como Carcosa.

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Atores veteranos, grandes diretores e as cinebiografias

Com grandes estreias no final do semestre – três biografias, Elsa & Fred com dois grandes veteranos do cinema e a vontade de falar sobre os diretores atuais – o Zona Crítica organizou suas já tradicionais listas. Abaixo você pode conferir as minhas indicações e o link para acessar as listas completas!

Melhores atores veteranos 

Judi Dench: Vencedora do Oscar e de 6 BAFTA, Judi Dench encantou não apenas o cinema, mas o teatro e a televisão. Já interpretou a dona do Folies Bergère no filme não tão bem sucedido Nine (vale pela Judi cantando entre plumas rosas), a fria e rígida Lady Catherine de Bourgh em Orgulho e Preconceito (2005) ou ainda suas participações como a personagem M em James Bond. Os dois últimos grandes sucessos foram O Exótico Hotel Marigold e Philomena – que concorreu ao Oscar 2014, ambos apresentando a terceira idade como uma fase que precisa ser protagonista de filmes que os tomam com humanidade. O trabalho de Judi é de uma beleza que se destaca justamente pela sutileza com que ela trata os sentimentos humanos em seus personagens. Philomena, por exemplo, é frágil e destemível ao mesmo tempo. Vale acrescentar que a atriz está envolvida em vários projetos, incluindo um filme em produção, da BBC, que adapta a obra Richard III, de Shakespeare.

(veja mais no link)

Melhores e piores cinebiografias

Frida (a melhor): Este é um ótimo filme para compreender a profundidade da arte na vida de Frida Kahlo como forma de sobrevivência. O filme expõe a biografia da pintora de modo que possamos entender as camadas de simbolismo na sua própria pintura. Pelo menos foi a maneira que eu passei a me interessar mais pelas obras dela quando era adolescente e descobri uma pintura que explora cores fortes, aparentemente alegres, para situar a mulher de uma maneira heróica, porém, humana, dando espaço para uma mistura entre alegria e melancolia. Vemos as fases de vida de Frida no filme e como elas se refletem na composição dos quadros. Como ela viveu a sua vida, o romance conturbado com o artista Diego Rivera e o desejo de Frida em encontrar a liberdade para criar.

(veja mais no link)

Melhores diretores da atualidade

Wes Anderson: Wes Anderson criou uma estética própria aos seus filmes, uma paleta de cores pastéis, takes que se assemelham à dramaticidade do teatro, uma trilha sonora indie, o gosto pelo curiosamente estranho e os enredos agridoces. Moonrise Kingdom, Os Excêntricos Tenenbaums, A vida marinha de Steven Zissou e O Grande Hotel Budapeste poderiam muito bem ser crônicas de um universo de Anderson. Eles têm em comum uma narrativa que expõe os pequenos casos e as pessoas com comportamentos singulares como verdadeiros protagonistas: é o escoteiro que foge para viver seu primeiro amor, são as histórias do passado de um hotel, ou até mesmo uma raposa que lidera a sua família no stop motion O Fantástico Sr.Raposo. E o melhor nos filmes de Anderson é como o próprio filme sabe que é artifício. Ele sabe que é um filme, que há um espectador e como o humor irá funcionar justamente pelo ator e pelo espectador guardarem o segredo: estamos vendo uma ficção. Os atores formulam personagens com as reações caricatas porque, no fim, um filme é ainda uma história, uma produção humana. E estamos lá para ouvir uma que será singular, e poderá ser contada de várias formas. E a de Anderson é uma grande peça teatral, um conto que explora as maravilhas dos pequenos fatos curiosos.

Michael Haneke: Não é por causa das indicações recentes ao Oscar que Haneke consta nesta lista. O seu trabalho, em filmes como Amor e A fita branca, demonstram como o diretor parece capturar as emoções humanas direto da fonte. Ele não utiliza subterfúgios para que essa emoção seja exaltada, que se destaque aos nossos olhos. Ela é comedida e, por isso mesmo, muito realista. Ver o envelhecimento e a proximidade da morte em Amor, o peso da convivência de décadas e a responsabilidade até mesmo pela saúde do outro soam aqui, com o trabalho de Haneke, tudo aquilo com o qual nos deparamos e preferimos não discutir. Por isso o silêncio fala bastante nos filmes de Haneke. Ou o P&B em A fita branca dá o tom certo para a atmosfera sombria que se constitui no filme, numa narrativa que é sombria justamente pelos pontos principais que Haneke explora: a violência e a vulnerabilidade humana. Somos feitos de inúmeras camadas sociais, culturais, mas principalmente escolhas e atos que constituem a nossa identidade. Ver isso na tela com uma clareza que aparece em cena, muitas vezes sem explorar frases explicativas demais, mas expondo a verdade, é a grande façanha de Michael Haneke.

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Doctor Who: antes do especial de Natal, vamos falar da season finale

Matéria publicada no site Zona Crítica

COM SPOILERS

No tempo humano posso até estar com um atraso de um mês, mas quando se trata de tempo e Doctor Who, posso dizer que estou relativamente atrasada para escrever essa resenha sobre o final da 8ª temporada. Então ela finalmente chegou. Se o 12th Doctor demorou duas semanas para trazer um café para a Clara, a resenha tem lá um atraso aceitável.

No dia 8 de novembro pudemos conferir a season finale da série britânica da BBC Doctor Who. Com uma temporada de 12 episódios, foi possível constatar, então, o arco proposto por Moffat lá em Deep Breath sendo, agora, concluído. Enquanto o Natal não chega com o especial da série, é válido fazer algumas considerações do que ocorreu até então e as expectativas deixadas para a próxima temporada. Para você não se sentir perdido nesta linha temporal, eu fiz uma matéria sobre a primeira metade da temporada, do episódio Deep Breath até o Kill the moon (aqui).

Se houve uma queda de qualidade em relação ao roteiro nos episódios The Caretaker e uma dúvida quanto à composição da Clara enquanto personagem em Kill the moon, em Mummy on the Orient Express, o oitavo episódio, pudemos conferir uma recuperação na amizade entre o Doctor e a Clara. Este seria o último destino para a companion que havia pedido para deixar de viajar com o Doctor. Além da ótima surpresa de ver Foxes cantando uma versão de Don’t stop me now, do Queen, com todo o charme do jazz (aqui), o episódio apresentou a perspicácia do Doctor em descobrir a origem da misteriosa múmia que perambulava pelo Expresso do Oriente sem ser visto pelos tripulantes. Uma múmia que, se vista por alguém, declarava que a pessoa estaria morta nos próximos segundos. Aqui o roteiro foi bem planejado, com algumas surpresas no enredo , fotografia e figurino bem equilibrados.

Mummy on the Orient Express foi seguido pelo excelente Flatline. Após as incongruências que me incomodaram quanto às alterações bruscas de roteiro no comportamento da Clara,em Flatline é possível vê-la em sua melhor forma (em Listen e Deep Breath ela está ótima também). No episódio, a TARDIS encolhe, e além de vermos uma versão adorável, como se fosse aquele toy que você comprou em um site gringo porque não resiste à cabine azul de polícia, temos o Doctor dentro da TARDIS encolhida. Como ele não consegue sair, precisa contar com a ajuda da Clara que, assim, assume o papel de Doctor para resolver essa falha e descobrir o que está ocorrendo em Bristol. Pessoas estão sumindo e, para homenageá-las, uma equipe de grafiteiros cria um memorial em que há as silhuetas daqueles que sumiram. Clara então, descobre, que aquele não é um memorial qualquer e que pode levá-los à recuperação daqueles que sumiram.

Flatline foi uma espécie de teste para ver se funcionaria ter uma versão feminina do Doctor. O episódio, escrito por Jamie Mathieson, traz um frescor à temporada por inserir elementos clássicos do enredo sci-fi, além das referências fantásticas ao mundo pop como A Família Addams. O episódio não perde o ritmo e nem o humor em nenhum momento e termina de modo misterioso, deixando uma abertura para o trabalho de Moffat na season finale.

O Doctor saindo da TARDIS encolhida é o mesmo que tentar sair do ônibus todo dia.

In the Forest of the Night foi o décimo episódio e trouxe algumas semelhanças com contos de fadas clássicos e uma atmosfera semelhante às Crônicas de Nárnia. O episódio não colabora para o enredo geral da temporada, mas ele aparece como uma pausa aceitável antes de entrar nos dois episódios que constituem a season finale. Maebh bate na porta da TARDIS pedindo ajuda ao Doctor ao mesmo tempo em que Londres perde sua aparência cinzenta e é coberta por árvores. Em seguida descobrimos que o mundo inteiro está entre folhas. É função do Doctor, então, compreender qual é a ligação que há entre esse fenômeno e as vozes que a menina Maebh escuta. A relação entre a Clara e Danny Pink, o professor de matemática com quem ela trabalha, se estreita aqui, finalmente se mostrando mais realista e profunda. E não a comédia romântica esquisita do episódio The Caretaker.

In the Forest of the Night também dá espaço a um bom elenco de crianças que proporcionam ao episódio a delicadeza de um filme infantil. É verdade que o que foi qualidade do episódio inteiro acabou gerando um final bizarro, em que a menina Annabell, que estava sumida, surge dramaticamente de uma moita, em um final que gerou memes pela internet e o inevitável riso diante da cena mal feita. Também vale ressaltar que, com esse episódio, veio novamente a observação de que falta, na 8ª temporada, mostrar a grandiosidade do caos no planeta Terra que já é conhecida na série. No caso dos episódios Kill the Moon, In the Forest of the Night houve a chance de proporcionar essa experiência e isso não ocorreu.

Não é necessário transformar todo episódio no fim do mundo, como víamos na era do Russell T. Davies. De fato, funcionava em vários episódios e a verdade é que, às vezes, temos a nostalgia dos tempos do 10th. Mas Steven Moffat tem uma proposta diferente e igualmente válida à série no trabalho das temporadas anteriores, com uma linha temporal intrincada que amplia as chances de ver o fantástico de maneira nova e singular. O que aconteceu na 8ª temporada, porém, foi que os momentos em que era possível amplificar a dimensão desse caos na Terra, vimos o planeta esvaziado. O caos não foi representado. Nós o vemos apenas da lua, distante, as pessoas que votaram pela destruição da criatura que surgiu da lua pareciam abstratas e seus votos nem foram considerados, vale lembrar. In the Forest of the night, vemos apenas a cidade se recuperando. Mas é uma cidade vazia. Faltou, portanto, expor as pessoas que pertencem a esse planeta de modo que prossiga com o grande acerto da série, que é o contato humano e a admiração profunda que o Doctor sempre teve em relação ao planeta Terra.

Foi com essa expectativa que assisti aos dois episódios da season finale, Dark Water e Death in Heaven. O primeiro se inicia de modo surpreendente e desesperador, um grande acerto que conduz o enredo do episódio. Nele, finalmente vemos a relação da Clara e Danny ascender a um patamar significativo, e as pistas deixadas em episódios anteriores ganham forma. A tão esperada aparição da personagem Missy é o que agrada o espectador na finale. A crueldade com que ela mata, a sua identidade revelada no final do episódio, a versão que ela assume como uma Mary Poppins evil, tudo funciona em Missy. Moffat constituiu uma vilã cativante, tão perspicaz quanto o Doctor, irônica e com um humor afiado, que esperamos ver em futuros episódios.

Dark Water permite pensar sobre a vida após a morte de maneira criativa, envolvendo uma dimensão temporal, em que existe uma cidade para os mortos. E são esses mortos, adormecidos, que Missy pretende trazer novamente à vida. Da terra eles surgirão como Cybermen. Sim, eles estão de volta, como o exército de Missy. E é com essa premissa que seguimos para o último episódio, Death in Heaven. Novamente, a grandiosidade que se esperava ao presenciar a possibilidade de Missy conseguir um planeta povoado por Cybermen, de mortos voltarem agora na forma metálica de um ciborgue, se perde, em um roteiro que não parece com uma finale. A série teve acertos impecáveis em alguns episódios da temporada. A surpresa que temos ao saber que a Missy é uma regeneração do Master, Time Lord com quem o Doctor viveu em Gallifrey e inimigo recorrente na série clássica e que apareceu na 4ª temporada da nova série, se torna a promessa de uma grande história. Contudo, ela não é trabalhada de modo que a finale intensifique a rivalidade entre o Master e o Doctor e a urgência de salvar a Terra desta ameaça. Novamente, o planeta parece esvaziado e um arco que poderia ter rendido um grande enredo final perde sua dimensão diante de tantas histórias independentes nos episódios anteriores. O que poderia ser excelente soa apenas como bom e apropriado, sem um clímax na finale.

Isso não quer dizer, porém, que a série tenha sua qualidade ameaçada. Fica evidente que o Moffat está iniciando seu trabalho na composição do Doctor agora com Peter Capaldi, que tem um enorme potencial de tornar o 12th em uma versão muito profunda desse Time Lord que já viu o início e o fim dos tempos. O peso deste personagem é bem delineado em Listen, principalmente, e a 8ª temporada deixa no ar a expectativa de se ver muito mais do 12th como esse homem feito por um passado infinito e cheio de nuances.

Clara Oswald, a companion

Vale abrir um espaço aqui para falar um pouco sobre a composição da Clara como companion do Doctor. A liderança dela fica bem demarcada em Flatline e é conduzida com maestria pelo roteirista, e aqui novamente se insiste na comparação entre ela e o Doctor, que o Moffat, enquanto showrunner e roteirista da série, propõe em seus episódios.

O que ocorre é que o showrunner optou por construir essa comparação entre a companion e o Time Lord de modo que considerássemos que houve uma mudança no comportamento de Clara quando ela conheceu a nova faceta do Doctor. Se na era do 11th, com Matt Smith, Clara tinha ainda a doçura e a leveza que constituía a atmosfera deixada por Amy e Rory, da 5ª a 7ª temporada, na 8ª a impossible girl que a Clara foi dá lugar a uma personagem mais forte e mais convicta de sua importância.

Essa sua faceta surge, talvez, até mesmo como uma defesa diante do novo comportamento do Doctor, um sujeito já demarcado pelas guerras e mais sombrio e esquivo. É aceitável esse novo caminho que ela assume, uma mulher que ganha mais espaço no enredo, mais do que a Amy teve enquanto personagem que participa ativamente das cenas, na fase anterior. Mas há um problema que permeia a 8ª temporada: enquanto a Amy Pond – uma personagem que podia ter sido melhor trabalhada enquanto companion, mas que funciona porque é bem interpretada pela Karen Gillan – teve um enredo profundo e com arcos propostos em torno de sua vida e a de Rory, a história da Clara Oswald se mostrou bagunçada e confusa. Ela é a impossible girl e muito mais, uma mistura que poderia render um arco excelente, com uma complexidade bem amarrada.

Sabíamos que, ao adentrar na 8ª temporada, o enredo da Impossible girl como aquela que esteve em toda a linha temporal do Doctor havia ficado para trás. A questão é que esse fato – que deveria ganhar um destaque maior no enredo para aprofundar o psicológico da personagem – fica abandonado, esquecido. A Clara, em cada episódio, vinha com uma formulação distinta. E isso confunde, dificulta a identificação do espectador com ela. Há acertos na tentativa de torná-la mais ativa e importante, já que é preferível ver uma companion que nos represente enquanto personagem que pode viajar com o Doctor, e principalmente, que seja relevante na própria vida dele, que tenha seus próprios dilemas postos em contraste com a história incomensurável do universo.

Agora, para o especial de Natal, veremos Doctor e Clara conhecendo o Papai Noel, personagem que até, então, eu imaginava ser fictício entre os humanos da série. Parece que ele é tão invisível quanto o Doctor em suas ações anuais para trazer o Natal – ou salvar a Terra – conforme a Terra requisita. E, por enquanto, Moffat confirmou que Peter Capaldi permanece na 9ª temporada, mas ainda não sabemos se Jenna Coleman, a Clara Oswald, sai agora no especial de Natal ou se permanece pelo menos até metade da próxima temporada. Espero que ela fique e seu enredo seja amarrado de forma inteligente, para encerrar bem o sue longo ciclo. O que sabemos é que o ano de 2015 guarda infinitas viagens com o Doctor no interior da TARDIS.

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