Doctor Who: a realidade e a ilusão no especial de Natal

drwhochristmasResenha publicada no site Zona Crítica

CONTÉM SPOILERS

Todo Natal é o último Natal. Com essa bela premissa, o especial de Natal do Doctor Who, nomeado Last Christmas (O Último Natal) prosseguiu com a atmosfera sombria de toda a 8ª temporada, mas revelou o espírito natalino como bem-vindo até mesmo ao 12th Doctor, que não gosta lá muito de abraços e momentos alegres e sublimes que a época implica.

O especial se inicia com a Clara acordando com o barulho repentino de um objeto colidindo em seu telhado e vozes. O trenó do Papai Noel havia quebrado no telhado de sua casa, e trazia junto seus ajudantes elfos e muitas tangerinas, frutas que o Papai Noel (interpretado por Nick Frost) supostamente gosta. O Doctor surge na cena pedindo que Clara entre na TARDIS. E paira no ar certa rivalidade entre Papai Noel e o Doctor.

Com esse início, o especial caminha a história para a presença de uma equipe de cientistas no Polo Norte na véspera de Natal, em que o desafio deles é passar por uma sala com criaturas aparentemente perigosas sem acordá-las. O grande perigo reside em criaturas chamadas Dream Crabs (Caranguejos dos Sonhos), que se prendem à face daqueles que eles atacam até sugar a sua vida, anestesiando-os, enquanto isso, numa vida de sonhos. É preciso sair deste sonho para voltar à vida.

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Em relação ao elenco, o especial adiciona a presença de Nick Frost, que está excelente como um Papai Noel irônico e capaz de conduzir o enredo a ponto de deixar o próprio Doctor se sentindo perdido, por um instante, em todo o caos entre a tripulação de cientistas. Há quase um duelo entre os dois personagens, já que consideramos Papai Noel irreal e o Doctor a única ajuda que poderíamos ter. O especial brinca muito com o real e a ilusão, nos levando a questionar se devemos acreditar em um deles ou em nenhum.

Jenna Coleman e Peter Capaldi retomam a parceria de seus personagens de uma forma sublime, muito bem conduzida pelo roteiro, e em uma grandeza de atuação ainda não vista na temporada. Fica evidente como a Clara é realmente importante para o Doctor e que as mentiras que um contou ao outro foi a maneira de se sacrificar pelos seus sonhos: Clara permanecer com Danny e o Doctor reencontrar Gallifrey. Neste episódio, que aposta na premissa do Natal como sendo o último, Clara precisa superar a morte de Danny, numa das cenas mais bem trabalhadas com o ator Samuel Anderson. Capaldi também consegue, mais uma vez, expandir as impressões que temos do Doctor, para culminar na cena em que ele conduz o trenó, todo alegre como uma criança na véspera de Natal.

O trabalho de Steven Moffat, showrunner e roteirista, foi um verdadeiro presente em forma de roteiro. Ele conseguiu a proeza de reunir o melhor do sci-fi com os elementos exigidos para um especial de Natal. Ele trata de redenção, morte e passado sem utilizar os sentimentalismos que identificamos em tantos enredos natalinos que buscam arrancar lágrimas como se fosse a grande exigência. Não, Moffat se encontra comedido neste especial sem deixar de explorar a densidade desses temas. Em A Christmas Carol (2010) vemos o clássico enredo da magia no dia do Natal numa Londres industrial e futurista tomando Charles Dickens como inspiração, em que existe um adulto de coração endurecido e uma infância sendo desvelada para a sua redenção, com a doçura de um belo enredo infantil. No caso do especial The Snowmen (2012), Moffat aposta mais na linguagem de um leve thriller, em que bonecos de neve ganham vida para conquistar a Londres vitoriana, onde conhecemos Clara Oswald, uma garçonete e babá que o 11th Doctor convida para ser sua companion. Nele, o Natal tem um toque de melancolia bem trabalhado juntamente ao humor.

Doctor-Who Team

Diante destes dois especiais, Last Christmas é bem distinto. A linguagem que Moffat opta por utilizar na constituição do roteiro é o grande protagonista, pois ele aposta novamente no seu talento – que já conhecemos – de sobrepor diversas camadas temporais, desta vez uma sobreposição de sonhos. Moffat consegue adivinhar o momento em que vamos acreditar que já estamos acordados. Ao encontrar Clara já idosa, depois de 62 anos esperando o Doctor, acreditamos que será o último Natal da companion. A verdade é que as opiniões podem se dividir: ao mesmo tempo em que teria sido doloroso vê-la se despedir naquela cena, teria sido um desfecho mais leve do que os de outras companions na série. Dentro das expectativas criadas a cada cena-sonho, foi inteligente Moffat ter se detido nesta parte da história, nos levando a crer que estávamos acordados e que seria o fim de Clara.

A companion, enfim, permanece para a próxima temporada. E Moffat ainda deixa aberta a possibilidade às crianças de que o Papai Noel existe, ao terminar com a tangerina na janela. No decorrer da história, descobrimos que o Papai Noel só foi uma ilusão que a tripulação trouxe à tona para tentar sobreviver ao ataque dos Caranguejos dos Sonhos, afinal estavam todos sonhando à beira da morte. Em algumas discussões, ficou a dúvida se a tangerina, sendo deste personagem ficcional, o Papai Noel, seria como um totem, o que indicaria que o final do episódio ainda era um sonho. Mas a probabilidade é de que Moffat a deixou no final para tranquilizar as crianças (e seus pais) de que o Papai Noel ainda pode existir.

Desta forma, o enredo do especial se constituiu com grande fluidez, em que o espectador se vê surpreso ao começar a duvidar de tudo o que está ocorrendo, depois de ser enganado pelo roteirista. É um especial realmente distinto, pois não usa o artifício do clima natalino a todo tempo. Este surge para coroar a história com muita delicadeza, muitas vezes em cenas que não se precisa de uma frase para enfatizá-lo. Este foi o grande mérito de Moffat: tratar do clima natalino como um período difícil para muitas das famílias que veem a época como a última reunião familiar. A promessa do roteirista, então, é fazer deste dia um momento em que se deslocar da realidade proporciona um encontro com o Doctor e o conforto para a solidão.

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