Oscar 2015 | Birdman ou (A inesperada virtude da ignorância)

Diretor: Alejandro González Iñárritu

Com Micheal Keaton, Emma Stone, Naomi Watts, Edward Norton, Zach Galifianakis, Andrea Riseborough.

EUA – 2015

Indicado a nove categorias do Oscar 2015: Melhor filme, Melhor diretor, Melhor ator (Michael Keaton), Melhor ator coadjuvante (Edward Norton), Melhor atriz coadjuvante (Emma Stone), Melhor edição de som, Melhor mixagem de som, Melhor fotografia, Melhor roteiro original.

birdman-poster1Birdman ou (A inesperada Virtude da Ignorância) coloca em campo de batalha duas faces de um mesmo personagem de forma metafórica e belamente construída por cenas catárticas. Acompanhamos a história de Riggan Thomson (Michael Keaton), um ator que fez muito sucesso nos anos 90 com o papel de Birdman, o Homem Pássaro. Porém, os anos na sua companhia desgastaram Riggan e agora ele deseja conseguir provar-se como um ator além da fantasia de super-herói, adaptando e atuando em uma peça teatral na Broadway. A questão é que Riggan não interpretava Birdman, ele era a segunda personalidade do ator. Ou pelo menos é com essa premissa que o filme lança as dúvidas sobre a sanidade do protagonista e os limites entre ficção e realidade.

O diretor Alejandro González Iñárritu constrói o seu filme por meio de longos plano-sequências, o que proporciona ao filme o caráter de uma grande peça teatral de bastidores. A trilha sonora composta desde a excelente música Crazy, de Gnarls Barkley, que dá o tom perfeito ao trailer do filme e revela a temática da loucura, até os solos de bateria que acompanham o protagonista apresentam um propósito. A bateria ficava entre os acordes de expectativa a um grande número que está sendo engendrado até o surto numa cena de batalha, que Riggan idealiza. A verdade é que estes solos estão na mente do personagem, como mais uma voz que dá o estímulo aos atos que ele imagina serem grandiosos. Que ele está sendo visto por todos, a cada passo.

O elenco tem um ótimo timing, o que ajuda no filme que segue em plano-sequência, com um trabalho bem fluido, que segue com naturalidade a câmera pelo teatro. Michael Keaton está excelente no papel de Riggan. Se no passado ele também já esteve na fantasia de Batman e ficou marcado pelo personagem, ironicamente Riggan Thomson foi a chance de se apresentar a um grande público. A sua indicação à categoria de Melhor ator é merecida, mas a Academia exagera um pouco ao indicar Edward Norton e Emma Stone nas outras categorias. É claro que suas atuações estão adequadas aos seus papéis e ao filme, mas não é algo que surpreende a ponto de merecer tal espaço. Tanto Emma Stone quanto Norton ganham espaço apenas em alguns momentos, sendo eles insuficientes para se conceder um prêmio. Por exemplo, Emma Stone tem apenas rompantes de raiva no filme, o que não quer dizer que só isso já deva colocá-la entre as indicações.

A sensação de vigília é o grande tema do filme, o desejo por um reconhecimento, as várias formas que a fama se apresenta e onde o homem se posiciona quando deseja criar. O seu ato de criação, de atravessar o limite é o que constitui a arte? Em geral, pode ser uma boa resposta. O problema é que Riggan não se vê com o sonho de criar algo memorável e único. Ele deseja estar no centro e ser este item a ser lembrado. O texto que ele produz para o próprio personagem na peça, os atos que vão se aproximando do extremo caminham à ingenuidade de clamar para ser visto.

Ainda sobre o tema do filme, há um grande diálogo com uma crítica teatral que pode destruir a peça dele. Ou destruir a imagem que Riggan deseja produzir de si mesmo. Aquele trecho do filme revela muito do que há por trás de todos os personagens que ali estão e que falam uma língua muito mais próxima da gente do que imaginamos: é a luta diária por ser notado, por ganhar espaço e não morrer em vão numa sociedade que recebe novas e novas gerações. O que diz que uma história tem valor, então? Riggan deseja ser muito mais do que os outros pensam dele e do que ele mesmo gostaria de ser. A crítica teatral também se põe num patamar elevado, de onde ela é capaz de ditar o que é arte e o que é belo, muitas vezes caindo em termos vazios que só parecem inteligentes. E é nesta cena que Riggan parece entrar em embate até mesmo com o próprio medo de ver que, sim, podemos ser medíocres. Não é preciso ser Birdman a toda hora.

Vale dizer também que os personagens do filme assumem os clichês clássicos da jovem problemática como Sam (Emma Stone), a filha de Riggan, Lesley (Naomi Watts), a atriz que sonha com o estrelato, Laura (Andrea Riseborough) como a atriz coadjuvante que se envolve com o diretor, Brandon (Zach Galifianakis) assume o papel do agente sensato que traz Riggan à realidade, e Mike Shiner (Edward Norton) o típico grande ator narcisista que deseja quebrar com as regras formais do teatro. Estes clichês não estão dispostos no filme por mera preguiça do diretor em não desenvolvê-los. Eles são apenas os personagens que cercam o protagonista e compõem o cenário deste teatro que exige dos atores grandes atos duvidosos a favor da arte.

Contudo, o destaque encontrado nas figuras de Mike Shiner e Sam é o que ajuda a entender mais do próprio protagonista. Tão problemática quanto o pai, Sam deseja um reconhecimento de seu valor ao mesmo tempo em que tentou se convencer de que, assim como a raça humana situada na história do universo, é insignificante. Que todos somos medíocres. Tanto ela quanto Riggan vivem em meio a esperança de algum consolo e uma verdade dolorosa sobre a condição humana.

Riggan anseia também por ter coragem de ser um ator polêmico e capaz de atingir as suas altas expectativas. A questão é que Riggan aqui se encontra, mais uma vez, no limiar entre  extremos, o medo de falhar e o medo de dar um grande passo. E a versão de Birdman que ecoa em sua mente demonstra que, mesmo Mike Shiner dizendo que é verdadeiro no ficcional do palco e fake na vida real, assumindo rompantes de entusiasmo pela “arte”, ele ainda tem um resto de sensatez que o faz discernir, de vez em quando, a ilusão da realidade. Mike ainda sabe que está no palco. E que pode haver fracasso e péssimas críticas. Riggan já não o consegue. Não sabemos se ele dialoga, de fato, com o irreal – e assim Birdman seria verdadeiro – ou se ele tem a ingenuidade em crer que tem o super poder do herói. Situado nestes dois extremos, entendemos por que o título inclui Birdman e essa inesperada – já que não é algo que se deseja, a princípio – virtude em ter um ato grandioso, chegando aos extremos baseando-se na ingenuidade, ignorância em se sentir um verdadeiro herói em batalha. No centro como o criador do mundo.

É com a exploração deste conflito de Riggan Thomson que o filme se formula por completo. Iñárritu remonta um enredo que leva o espectador a duvidar sobre o que está assistindo ou a crer no impossível. Este exercício, na totalidade do filme, é bem perspicaz e concede uma ótima experiência de estranhamento e devaneio no cinema. Por outro lado, é preciso ressaltar que o diretor poderia ter explorado menos o plano-sequência, como fez apenas nos interiores do teatro, apresentando mais sobre o passado de Riggan. Faltou uma base mais sólida para compreender como a vivência anterior dele poderia resultar na loucura. Ficamos sabendo apenas um pouco de seu passado por algumas falas. Se o diretor expusesse o período da fama de Riggan, a oposição entre ilusão e realidade teria sido mais completa e o espectador chegaria com mais facilidade às suposições sobre o personagem.

Assim, Birdman é um filme que vale a pena ser visto e, fazendo uso da própria ironia com inteligência, pede para ser visto. Se intensifica o zoom no rosto dos personagens, se exagera no plano-sequência, com uma trilha mais caótica e se faz como um drama com um quê de fantástico, é porque o diretor quis explorar o próprio tema do roteiro na composição do filme. E isso não pode ser ignorado ou simplificado numa fala superficial resmungando que o filme é “cult demais” ou em frases mais grosseiras, como se vê em algumas críticas por aí. Birdman é um grande exercício de um diretor que buscou modificar a forma de criar seu próprio filme, de um personagem que se coloca em dúvida por vários momentos. E mais, é um exercício para o espectador pensar sobre a mediocridade e como buscar criar algo importante tentando se equilibrar nas inconstâncias e inúmeras possibilidades de resposta que a vida concede. Birdman é um grande espetáculo que pode ter falhas e pode ter momentos grandiosos, exageros e sutilezas, da mesma forma que Riggan Thomson e o espectador enfrentam a todo instante.

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A partir daqui a resenha termina e faço um pequeno comentário sobre teorias de algumas cenas do filme e a minha interpretação. Então, se você não viu o filme, não leia. Volte depois de assistir e venha comentar quais são suas teorias! E se você já viu o filme, pode vir e comente!

COM SPOILERS (revelação do enredo)

Riggan é Birdman (Homem-Pássaro)? Como é uma ficção, fica em aberto a possibilidade do fantástico. Mas o filme deixa os seus indícios de que se trata de uma segunda personalidade de Riggan. Ele ouve essa voz mentalmente e parece fazer os objetos se moverem. Mas se ele o consegue mover a todo instante, quando quiser, por que na cena em que ele quebra todo o quarto, vemos em plano aberto Riggan jogando os objetos com as mãos e, quando Birdman fala, Riggan aparece movendo-os com a mente? Esta cena já dá uma pequena pista. Depois, a grande cena em que quase somos levados a acreditar que Birdman é real, em que Riggan sobrevoa a cidade. Ela parece perfeita demais para ser verdade e, no fim, vemos um taxista correndo atrás de Riggan, que esqueceu de pagar a corrida ao chegar no teatro, além de cortar a trilha sonora que estava tocando com um estalar de dedos. Ou seja, Birdman não é real.

Mas e a cena final? Não prova que ele sabe voar e que é Birdman? Não. A cena final é o que mais nos deixa em dúvida. Primeiro, eu acredito que Riggan se matou no hospital ao se jogar da janela. Ele dá indícios durante o filme que a morte está mais perto dele do que pensamos: Riggan comenta com a ex-esposa que já tentou se matar ao se jogar no mar; Mike sugere que Riggan use uma arma de verdade para ser real no palco; o texto que Riggan fala na sua cena final da peça é o discurso que o próprio Riggan diria de si mesmo, sobre o abandono e o desejo que realmente o vejam. Quando achamos que Riggan morreu, depois de supor no filme que este seria o seu desfecho, descobrimos que ele acertou o próprio nariz. Mas isso não seria parte da imaginação dele? Poderia ser. Mas o agente de Riggan entra na cena e lê a crítica recebida da peça, ele, o único personagem sensato na história. A crítica não fala em morte, mas sim Riggan ter alcançado a arte pelo sangue. Ainda tem a fala da ex-esposa de Riggan, dizendo que ele realmente quis se matar no palco. Ou seja, esse desejo de não existir mais ainda persiste. Então Riggan segue para o banheiro e vê Birdman pelo espelho. Só Riggan vê Birdman e normalmente só conversa com ele quando está sozinho diante do espelho. Mas como o nariz dele pode estar sem nenhuma sequela? É impossível, porque vemos o nariz de Riggan pela visão dele, assim como vemos Birdman. Riggan não consegue sentir o cheiro das flores que a filha trouxe e houve um tratamento médico. Ou seja, Riggan acha que está tudo certo com seu nariz.

Depois de ver Birdman é que Riggan sai pela janela. Agora, a dúvida que fica é: Riggan, ao ver Birdman, pode ter acreditado que ficou louco já que não o via, mas sim ouvia (na cena em que Riggan voa, Birdman só sussurra pelas suas costas, Riggan não o vê). Ou Riggan vê Birdman e crê que os dois são a mesma pessoa e, assim, é capaz de voar. Eu fico com a primeira, pelo indício do voo na outra cena e as tentativas fracassados de Riggan em se suicidar.

E os últimos flashes, como as águas-vivas na praia e os heróis? E Sam, filha de Riggan? O que ela vê?

O primeiro flash que temos ao iniciar o filme, logo nos créditos, é uma praia cheia de águas-vivas mortas. Mais tarde Riggan diz ter sobrevivido aos seus ataques. Elas aparecem no final porque cada tentativa de Riggan em se matar foi mais uma vitória dele. Foi mais uma batalha vencida. O embate com as figuras vestidas de heróis demonstra, mais uma vez, o conflito entre Riggan e Birdman, na sua tentativa de vencer e massacrar essa parte que continua atormentando-o. E, aparentemente, Riggan vive mais uma vez. A vitória aqui é ambígua e difícil de comentar, pois o sentido desta vitória é bem dolorosa: Riggan só a consegue com o próprio sacrifício, se jogando da janela. Em algumas teorias espalhadas pela internet, como esta aqui , diz que a cor azul tem uma influência no filme, uma cor que indica que a cena é um sonho, além da própria vestimenta de Birdman. A cena final, com Sam, conduz a essa conclusão. Ela vê o pai estirado na calçada, e por sabermos das últimas experiências de sua vida, a semelhança com o pai e este último trauma, Sam tem um momento de loucura. A cena se tinge de azul e ela olha admirada para o céu. Ela pensa que vê (e vemos com ela) Riggan voando como Birdman.

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4 comentários sobre “Oscar 2015 | Birdman ou (A inesperada virtude da ignorância)

  1. Vim ler mais pelas teorias sobre o final do filme, hahaha. Estava tudo indo bem até a última cena, que embolou minha cabeça. Saí da sala do cinema acreditando que a Sam estava delirando da mesma forma que o pai. Não tinha reparado nesse tom azul nas cenas, mas quando eu rever o filme daqui a alguna meses vou poder analisá-lo melhor.

    Excelente resenha. Sempre consigo notar mais claramente os conteúdos do filme quando leio seus textos. xD O próximo que irei ver é o Jogo da Imitação.

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  2. A impressão é que ele tentou sair, desesperadamente,da sombra do Birdman, mas é uma coisa que está enraizado demais nele, parecendo que o filme queria dizer toda hora que ele é Birdman, por mais que ele tentasse fugir… E o filme é de uma inquietação que chegar a dar um nó… É insano e eu adorei sua resenha!!! Muito boa!!!

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