Oscar 2015 | Caminhos da Floresta

Direção: Rob Mashall

Com Meryl Streep, Emily Blunt, James Corden, Anna Kendrick, Chris Pine, Johnny Depp.

EUA – 2014

Indicado a três categorias do Oscar: Melhor atriz coadjuvante (Meryl Streep), Melhor design de produção, Melhor figurino.

Caminhos da floresta posterCaminhos da floresta segue a premissa de que ao adentrar no mundo obscuro e promissor das árvores, os personagens mundanos serão postos à prova no limiar entre o mundo real da simples vila e a fantasia da realeza. A tradução do título para Into the Woods parece apenas um indicativo de que caminhos irão se cruzar no enredo. Mas o original revela mais, que o grande desafio se encontra a cada passo que se aprofunda neste caminho sem volta.

O filme de Rob Marshall demorou cerca de três anos para estrear nos cinemas. Adaptação do musical dos anos 80 da Broadway, Caminhos da floresta desde o início deixou os fãs com uma expectativa e certo receio diante da apropriação da Disney de um enredo que possui nuances adultas e alternativas aos contos de fadas, que provavelmente seriam cortadas do filme (falo mais sobre a peça aqui). Além disso, após uma grande explosão nos últimos anos de adaptações destes contos ao cinema e televisão, Caminhos da floresta pareceu uma ideia ultrapassada e que poderia cair no erro de ser mais um filme sobre o gênero buscando bilheteria. O que aconteceu, porém, é que, apesar de alguns escorregões, o filme de Marshall apresenta um diferencial que ainda merece ser levado em conta.

Primeiro, é preciso dizer que o elenco é carregado de grandes nomes. Mas são apenas alguns que possuem atuações destacáveis. Sabemos que Meryl Streep é espetacular, já é uma regra universal e sinônimo de máximo talento. Ela se sai muito bem como a Bruxa, gerando a expectativa de ser vista a todo momento no filme. As poucas músicas que poderiam ser destacadas no filme como grandiosas são entoadas pela personagem. Contudo, não era necessário que fosse indicada ao Oscar pelo papel, pois comparado ao trabalho das outras atrizes da categoria – e considerando o limite que o filme concede para explorar a sua participação nele -, foi mais um ímpeto da Academia. Quem merece o elogio também é James Corden, que não é um nome realmente conhecido. Recebeu pequenos papéis em Doctor Who, Mesmo se nada der certo (Begin Again) e, em Caminhos da Floresta, ele interpreta o adorável padeiro. A forma com que conduz a sua atuação é crível e realmente acreditamos que ele é o personagem que mais amadurece entre a floresta.

Emily Blunt (a esposa do padeiro) e Anna Kendrick (Cinderela) cantam afinadamente e apresentam uma atuação apenas satisfatória. As crianças que interpretam a Chapeuzinho vermelho e o João (completando mentalmente”…e o pé de feijão”, sim, esse mesmo) apresentam um ótimo desempenho, e é importante dizer que, se isoladamente os personagens não possuem tanta profundidade, quando postos em cenas específicas interagindo diante de um conflito com o padeiro e sua esposa, a Cinderela e a Bruxa, as atuações se tornam mais vívidas. Por último, porém, temos Johnny Depp. A sua aparição no filme é de três minutos e não faz falta. É uma pena precisar dizer isso sobre o ator, mas o seu Lobo é mais uma caricatura de personagens passados.

Com o desempenho dos atores estabelecido aqui, vale, então, dizer que Caminhos da floresta é um musical imperfeito. Dado o gênero do filme, a falta de criatividade para desenvolver a musicalidade da trilha interfere na qualidade dele. Ela é contínua, não permite que o espectador se acostume com o ritmo e que este cresça com um propósito. Salvo as músicas Agony, Stay with me, Midnight e No one is alone, que apresentam um trabalho musical mais planejado. Este é um problema que interfere no formato do filme. É preciso pensar que, mesmo sendo uma adaptação de uma peça, será trabalhado pela linguagem cinematográfica. As cenas não precisam ser a todo tempo espetáculos, pois assim o filme parece disposto em blocos independentes.

O que acontece com Caminhos da floresta é que o filme tem um ritmo desequilibrado. De início, não é difícil ser visitado pelo tédio ou pelo receio de que seja mais um filme adocicado da Disney reciclando enredos infantis. Entretanto, o filme apresenta algumas reviravoltas que se distinguem da primeira parte do filme e fornecem uma elevação na sua qualidade, que até então, era regular. Se esta primeira parte tivesse dado alguns indícios e fortalecido o vínculo do espectador com os personagens, o conjunto teria sido mais equilibrado.

A segunda parte do filme revela como a temática é distinta das últimas adaptações. Rob Marshall fornece alternativas para estes personagens que, até então, viam a floresta apenas como um meio, e não como um teste decisivo e que suas ações nela não estavam isentas de consequências. O conflito é instaurado e ocorre a subversão do conto de fada e da representação do personagem. A melancolia, o medo e as difíceis escolhas se tornam mais fortes, deixando de lado tramas românticas e números musicais contentes. E a Bruxa parece ter uma sensatez maior sobre o que é a verdade que envolve entre a facilidade de simplesmente dizer “eu desejo”, repetido várias vezes como verso.

Além disso, o filme resgata detalhes obscuros dos contos de fada originais e apresenta o valor de se contar uma história como herança às novas gerações. Se Caminhos da floresta erra em seu percurso inicial, a segunda parte dá um novo fôlego ao enredo e, finalmente, pode conquistar em certa medida o espectador, pela letra das músicas finais e o trabalho desenvolvido dos personagens expostos. Fica assim, posto em evidência, o desafio de ser heróico ao continuar caminhando por entre as saídas tortuosas da floresta.

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