Oscar 2015 | Dois dias, uma noite

Direção: Jean-Pierre Dardenne e Luc Dardenne

Com Marion Cotillard, Fabrizio Rongione, Catherine Salée

Indicado a uma categoria do Oscar 2015: Melhor atriz (Marion Cotillard).

poster dois dias uma noiteA solidão do trabalhador no século XXI e a disputa entre seres humanos que preenchem o mundo entre o dilema de uma ação moral e o desafio de resolver os próprios problemas. São esses pontos que o filme francês Dois dias, uma noite explora com excelência. Sandra (Marion Cotillard) corre o risco de ser demitida. O chefe da empresa argumenta que o trabalho de 17 pode ser feito por 16 pessoas. Ele, então, oferece um bônus a cada um e, numa votação aberta, os funcionários dizem optar pelo bônus, mesmo que isso implique demitir Sandra. Com um histórico de depressão, a moça agora recuperada faz de tudo, então, para conversar com cada um dos funcionários antes da segunda votação.

São dois dias e uma noite em uma batalha que envolve pegar o ônibus e descobrir o endereço de cada um deles, na dificuldade de pedir que abram mão de mil euros de bônus para que possa continuar no emprego e conseguir fechar o mês com os gastos familiares. É ela ou o bônus. O filme acompanha, com um realismo e simplicidade surpreendentes, a tentativa de Sandra em pedir ajuda. Mesmo que precise lidar com os conflitos que surgem a partir deste seu pedido e a mera ameaça de se perder os preciosos mil euros, que para alguns salvará o mês, e para outros será apenas mais uma ajuda nos gastos para alguma reforma.

O curioso é constatar o abandono de um trabalhador diante desta situação delicada. O chefe propõe algo que, para ele, é fácil, só quer supostamente cortar gastos para investir em outros. Porém, esquece-se que tanto o emprego quanto o bônus significam colocar comida na mesa, pagar luz e água, manter os estudos dos filhos, a família que agora tem um recém-nascido para cuidar. Todos esses dramas não são explorados com grande destaque em cenas dramáticas ou excessos de diálogos, o que é um mérito dos diretores. Algumas destas dificuldades aparecem na fala e no choro de algum personagem, ou somos postos diante de crianças e conflitos familiares junto com Sandra. E o espectador passa a lidar com o mesmo dilema: será que vale a pena receber um bônus e saber que outro foi demitido? E será que vale também conversar com cada um deles? Quem é o culpado nesta história? Quem pode dar uma terceira opção?

Diante desses questionamentos, o mais doloroso que Sandra parece encontrar é se ela tem realmente algum valor em seu trabalho e se é justo implorar por manter seu espaço no emprego, levando os outros a perder algo importante. De maneira tocante e delicada, o filme vai desvelando esses problemas e mostra como seu roteiro pode ser o roteiro de qualquer vida espalhada pelo mundo. Nós somos Sandra. Em algum momento parece que já recebemos esse baque, de fazer parte de um sistema bem engendrado entre dinheiro e propostas abstratas, que esquecem da humanidade envolvida. E mais, traz à discussão um exercício moral valioso e a consideração da existência do outro.

Nesta batalha que o marido incentiva Sandra a enfrentar, vemos a fragilidade desta que saiu da depressão, que se sente solitária e desprezada no local de trabalho que, em geral, a sociedade nos fez crer que é onde mostramos nosso verdadeiro valor e significado. Em meio aos remédios que toma, Sandra tenta controlar o desespero de se ver implorando pelo impossível e sofrer pelo outro também. O resultado é uma personagem que se torna forte mesmo em seus passos desequilibrados e os ombros curvados, bem construída por Marion Cotillard. A atriz já se mostrou excelente como Piaf e, aqui, ela ganha destaque pela aparência simples de Sandra e a expressão de seus dilemas.

Desta forma, Dois dias, uma noite pode ser muito bem uma espécie de filme de superação. Contudo, em vez de épicas batalhas, ele expõe os esforços diários que se normalmente se ignora. Passamos a torcer que Sandra resolva sua vida, que se mantenha no emprego ou encontre outro. Vemos em Sandra o heroísmo de uma batalha mais cruel do que a que envolve armas ou criaturas estranhas. É uma batalha que envolve o outro semelhante a ela, uma batalha contra o próprio medo e sofrimento de bater na porta deste outro e pedir que abra mão de suas vontades ou necessidades para dar um pequeno espaço a ela. É o pedido pela sobrevivência em comum.

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