O homem despedaçado, de Gustavo Melo Czekster

O homem despedaçado

O homem despedaçado

Resenha publicada no site Indique um livro

Ed. Dublinense, 2011, 157 páginas

O homem despedaçado é uma coletânea de contos de Gustavo Melo Czekster que reúne pequenos mundos possíveis. Encontramos a condição de seres humanos que vivem em verdadeiros abismos, levando outros a um buraco negro, guerras travadas com Deus ou entre os homens, a teoria de um mundo regido por moscas, porcos que começam a explodir misteriosamente, humanos abandonados entre o perigo de cair em um paradoxo.

A premissa comum que permeia estes enredos é o que dá vida ao título, a formulação de um ser humano que vive entre os próprios fragmentos, com o sonho, por vezes tolo, mas compreensível, de encontrar a totalidade que simplifica a existência humana. Não é o que por vezes desejamos?

O homem despedaçado revela, nesta narrativa também fragmentada, que tais pedaços de ficções fazem parte de uma totalidade mais complexa e inconstante do que poderíamos imaginar. Um mundo onde o fantástico dialoga com o estranhamente cômico, trabalhado com excelência por Gustavo Melo Czekster, que conduz o leitor a caminhos realmente inesperados. Não é estranho sentir o ímpeto de continuar a ler, de conto a conto, falando em voz alta, surpreso por constatar que, por instantes, vivemos as mesmas indagações destes personagens. O desenvolvimento da narrativa é feito com simplicidade para que, apesar dos nomes e situações distintas, encontremos humanos fragmentados, como nós, nesta tentativa de simplesmente viver.

Desta forma, se torna comum o leitor se ver pesquisando para só dar uma conferida se não existe mesmo alguma teoria perdida por aí sobre um mundo regido por moscas. Ou se vigiar para não cair em paradoxos, justamente o buraco onde mais caímos na comunicação. O destaque dado ao estranho pelo autor funda um mundo inédito e, ao mesmo tempo, reconhecível aos nossos olhos. O drama humano envolto entre as religiões, as batalhas pela conquista, a destruição do outro estão lá, como estão aqui.

É sutil a construção que o autor propõe, entre contos que são levemente interligados. É trabalho do leitor buscar estas nuances na escrita. Antes da batalha dá início ao livro apontando para o grande criador como uma figura também cruel. Para existir nós, humanos, houve deformações pelo caminho. Este tom de uma suposta perfeição na figura humana logo se torna quebradiça em contos comoBuraco negro, Salamandra, Lição de macho, Uma relação indecorosa. Se neles o homem ganha a face da crueldade, contudo, em outros contos como Pequena parábola para os homens-rio, Resgate, o homem aparece por uma luz mais heroica e poética.

Em Divertissements sobre a dilatação dos porcos e Um mundo de moscas os homens parecem diminuídos diante do grande mistério natural, de como a morte se impõe e a vida se esvai sem explicação. Nestes dois, vale ressaltar que a comicidade torna os contos a perfeição de uma narrativa que quase leva o leitor à loucura das dúvidas. Com um tom mais urgente, Eu, tu, eles, os homens tridimensionais, A gênese dos paradoxos brancos e o conto que dá nome à obra revelam a proximidade à distopia, em um quadro que não soa irreal.

O homem despedaçado é uma obra que consegue a proeza de proporcionar um bom entretenimento e ser desconfortável ao mesmo tempo. Não é à toa que um ou outro tenha comentado, com o autor, que teve sonhos estranhos enquanto lia O homem despedaçado. Sentir-se fragmentado como o clima que faz parte da obra não é impossível, e a grande probabilidade é que O homem despedaçado passe a figurar entre seus livros favoritos. A resposta dada pela obra não é nada reconfortante, de que podemos fazer parte de um grande mundo cheio de estranhas possibilidades, de sentir medo, de encontrar dúvidas, de cair em paradoxos e enfrentar batalhas, descobrindo que é impossível ser um homem em estado pleno ao fim delas.

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