O Hotel Biblioteca: ‘por favor, me deixe ler’

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Publicada no site Literatortura 

Livros se proliferam pela casa, surgem entre guarda-roupas, móveis esquecidos, mesas de cabeceira, estantes, e encontram, na casa, uma forma de se enraizar vivamente entre nós. Pensando nestes livros que respiram pela casa, eu me deparei com a curiosa matéria no G1 sobre o Library Hotel (Hotel Biblioteca). Imagine como seria se hospedar em um hotel que possui livros por toda parte. Como um grande achado entre os acervos dos hotéis pelo mundo afora, o Library Hotel (Hotel Biblioteca) possui livros a todo canto, pois são mais de 6 mil exemplares, espalhados nos quartos, no lobby e em outras áreas comuns.

Além disso, o hotel é organizado como uma grande biblioteca, com cada um dos dez andares separados em áreas (arte, filosofia, linguagem, entre outros). Os quartos têm nomes como Quarto das Biografias, Quarto do Design de Moda, Quarto do Amor e Quarto da Astronomia – esse último tinha como hóspede frequente o astronauta Neil Armstrong.

Mais ainda, a título de curiosidade, no hotel, os típicos avisos pedindo para não incomodar ou para limpar o quarto foram renomeados para ‘Por favor, me deixe ler’ e ‘Por favor, tire o pó dos meus livros’.

Algumas hipóteses vieram à tona enquanto eu lia a matéria. E se, de alguma forma, os gêneros dos quartos modificassem o comportamento de cada hóspede? Um leitor de Poe ouviria batidas no assoalho, e insistiria com o concièrge que havia algo de errado com o hóspede do andar inferior.

-Ele deve estar batendo alguma coisa no teto, isso porque nem fico andando pelo quarto, sou tranquilo! Por favor, faça algo a respeito, reclama lá.

O concièrge checaria na lista de hóspedes e veria que o quarto abaixo do rapaz exasperado à sua frente estava vago, e em reforma, destruído por um bêbado aborrecido por uma crise existencial que deixara cacos de vidro por todo o carpete, e pequenas manchas de sangue ao pisar em alguns deles. Realmente difíceis de remover, vale dizer.

A noite viria novamente, e os sobressaltos com o assoalho pulsando em desespero deixariam o rapaz sem dormir, mais uma vez. Até começar a achar suspeito o olhar que o Poe emoldurado dirigia a ele do outro lado do quarto temático. O livro do autor deixado de cortesia pelo hotel, na cabeceira, daria a resposta que o assoalho vinha gritando há três noites. A história do rapaz ficaria lembrada como mais um surto de um hóspede que, no caso, arrancou a unhadas os velhos assoalhos do quarto para descobrir que não havia coração algum por lá. Apenas o seu, descontrolado, ainda no corpo.

Um hotel biblioteca precisaria lidar com esses rompantes de desespero, ira ou euforia dos leitores. Por exemplo, dirigir a crítica ao balcão, de que o livro deixado na cabeceira, do único quarto vago, não havia sido uma leitura prazerosa. O dinheiro seria devolvido? Haveria uma caixinha de sugestões ao canto pedindo que Clarice fosse menos ‘hermética’, seja lá o que a pessoa queira dizer com isso? Ou que Os sofrimentos do jovem Werther, de Goethe, trouxe profunda melancolia e, por isso, o hóspede precisa de atendimento psicológico? Está aqui instaurado o caos. O personagem morreu no enredo, isso quer dizer que o leitor entristecido receberia, pela manhã, bolinhos de chuva para consolá-lo no café-da-manhã?

Talvez até uma nova noção de crítica surgisse neste hotel, e ele acabaria por aliar gosto às exigências dos hóspedes que sempre exigem o entretenimento imediato.

-Olá, cheguei agora de um voo de 12 horas. Que quarto você me recomenda para repousar?

-Bem, sobrou apenas um andar, os dos ultrarromânticos.

-Hã, não é algo muito tranquilo, né? Essa história de ‘ultra’ deve ser exagerado, não gosto. É todo pomposo?

-Não exatamente – diria o concièrge, tentando defender o autor e ao mesmo tempo garantir o seu lado – Bem, as paredes trazem alguns questionamentos muito importantes sobre a efemeridade da vida e…

-Não, não quero saber de efêmero coisa nenhuma, passei 12 horas apertado naquele avião e aquilo não foi nada efêmero. Não tem nada mais tranquilo, alegre?

-Tem a sessão infantil, mas restou apenas o quarto de Alice no País das Maravilhas.

-Não ajuda muito um quarto vibrante demais, já fiquei uma vez nele e me deu muita dor de cabeça aquelas cores todas. Só queria uma luz ambiente mesmo, sem questionamentos daquela lagarta pedante.

O concièrge tentaria respirar fundo para não demonstrar o desgosto de ouvir tais ofensas.

-Lamento, senhor, mas é o que temos.

-Estou farto desses eruditos mesmo, viu? Deixa para lá, vou procurar outros serviços.

No fim das contas, as exigências não seriam tão distintas assim do que se ouve daqueles que pedem toalhas a mais. Seria mais peculiar, talvez pela expectativa bem falsa de que a literatura precisa satisfazer diretamente o leitor. Ser confortável tanto quanto o edredom disposto na cama, ter um final feliz como o serviço de quarto impecável. Ou com personagens adoráveis como aquelas toalhas em forma de cisne posto na cama para dar boas-vindas.

Hóspedes exigentes e críticos de obras que se baseiam em poucas linhas dispostas pelo hotel em sua superficial representação da narrativa podem se irritar facilmente. E até sem ter lido um livro sequer. Poderia haver leitores enfadonhos também, criticando cada parede do quarto, afirmando que o abstrato não cabia no conceito do design escolhido, que era “um disparate! Um ultraje à Academia”. Muitas, muitas possibilidades de incômodo para o dono do hotel.

Enquanto também poderia haver um hóspede curioso, o melhor de todos. Ele descobriria uma obra nunca vista, convidativa na mesa de cabeceira, pedindo pelo olhar daquele viajante que chegava exausto, um tanto receoso pela realidade que encontraria em outro país. E havia lá, em um quarto aconchegante, um livro ainda mais promissor que o deitar na cama e dormir: abrigar-se nas páginas tão novas quanto as ruas ainda não visitadas pelo turista.

Sendo assim, um hotel biblioteca teria toda a sua complexidade digna do universo literário que abarca os mais diferentes tipos de gêneros. Críticas que engrandecem a obra, livros vendidos com a promessa de ser o mais novo best-seller, o autor esquecido por décadas e recuperado pelos acadêmicos. A literatura é aberta aos mais variados gestos artísticos. E o melhor: sendo obra, está em reforma constante. Acrescenta-se aqui uma observação perspicaz sobre o que o autor pretendeu com determinada cena, um leitor novo que ingressa na literatura e descobre que também quer fazer parte dela escrevendo. A literatura passa a ser um hotel com todas as portas dos quartos abertas.

Por isso, este hotel precisaria ser tão espaçoso e inclinar ao novo quanto é uma biblioteca ao autor contemporâneo. Assim como a biblioteca se faz como o lugar intermediário entre leitor e autor, o hotel também está entre a vivência com o mundo público – o local escolhido a ser desbravado – e a promessa de dar espaço a um novo hóspede que deseja se preservar deste mundo novo que se faz diante de seus olhos. Tanto biblioteca quanto hotel são o solo para o avanço em uma nova realidade, o resgate constante para o inesperado do mundo. E sem deixar de incorporar o inesperado, a batida no assoalho, a surpresa de se reconhecer entre hóspedes desconhecidos.

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