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Um mundo inteiro em um abraço

Maternal Carres, de Mary CassattAcordei numa sensação de convalescência. Depois de alguns dias de cama (nada sério), pensei que não iria escrever algo sobre minha mãe. De início sempre parece difícil acertar. “Para mim só meia dúzia de palavras está bom”, ela disse. A questão é que nem meia dúzia, nem centenas de palavras acertam em cheio para falar da minha mãe.

Ontem vi um pouco de Tom e Jerry e, quando vejo o desenho na TV, recordo, no mesmo instante, dos dias em que sentávamos à mesa da sala, eu desenhando os personagens do desenho, enquanto minha mãe escrevia a história que eu contava. Ainda em início de alfabetização, eu não sabia escrever. Mas não deixava de registrar a história. No fim, a gente juntava as páginas e fazia uma brochura usando durex colorido (tinha que ser colorido, para apresentar um trabalho estético sério). E aqui surgiam pequenas HQs de uma menina de seis anos e sua mãe sobre gatos e ratos e, creio, o início do meu gosto por contar histórias e escrever.

Sempre acho curioso quando eu e minha mãe lembramos de pequenos instantes em que a surpreendia, junto ao meu pai, quando eu dizia que um prédio estava machucado ao vê-lo em reforma. No hospital, eu dizia para ela que ficaria tudo bem após o exame de sangue, que não iria doer (como contei aqui), usando as mesmas palavras que ela disse para mim. O registro da minha história é feito junto com a minha mãe e, nisso, a companhia vai além do que essa relação pré-estabelecida nomeada família. Já é um vínculo que criamos a cada instante vivido.

Os finais de semana em que eu saía para mostrar imóvel com meus pais se tornavam pequenas aventuras porque, além de fazer parte do trabalho deles, aprendi a gostar de ver prédios vazios, antigos, imaginar quem havia morado naquele apartamento. A cada vez que os acompanhava, minha mãe sempre dava um jeitinho de comprar gibis da turma da Mônica – melhor ainda quando era o Almanacão, com inúmeros desenhos para pintar – e a gente inventava pequenos jogos quando precisava esperar no carro por algum cliente que estava para chegar. Escolhia uma palavra e dava pistas sobre ela. Eram jogos infinitos que, de certa forma, me levaram a gostar das palavras. E o melhor, na ingenuidade do brincar infantil e da descoberta.

No fim das contas, é muito simples lembrar do que vivo com a minha mãe. Porque a memória é tão infinita quanto aqueles jogos de palavras. E essas, que eu escrevo hoje, não só se iniciaram por aquelas páginas desenhadas e registradas pela minha mãe, mas estavam em potência no silêncio vivido e encontrado em seus abraços, nas fotos em que eu sorria com ela quando ainda era pequena. No amor mútuo construído em cada segundo, engrandecido pela memória que destaca o momento em que percebo, mais e mais, o quanto vale um mundo inteiro estar ao seu lado.

***** Imagem de capa: Maternal Carres, de Mary Cassatt (1896)

Leia também: As vésperas de uma ceia 

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A arte de pedir, de Amanda Palmer

Resenha publicada no site Indique um livro

A arte de pedir, editora Intrínseca, 2015, 293 páginas.

amanda palmer the art of askingA dificuldade de pedir é a mesma que bloqueia a conexão humana. A impressão de sempre ter uma patrulha analisando se você é ou não uma farsa e, assim, será logo julgado por pedir ajudar, por pedir uma troca. É sobre isso que se trata a bela autobiografia da cantora e compositora Amanda Palmer. De início, é possível se questionar como este pode ser um tema abrangente, capaz de servir de fio condutor de um livro. Logo a pergunta se dilui e encontramos muitos motivos para ela ser discutida.

Primeiro, é necessário que se saiba que este livro foi fruto de um trabalho de três meses de Amanda após ser convidada a escrevê-lo em razão de sua palestra no TED, que teve milhões de visualizações e leva o mesmo título. Mas por que tratar da arte de pedir? Amanda foi estátua viva por cinco anos, a começar em 1999, incorporando em dois metros sustentados sob sol e chuva em um engradado A Noiva, em sua face e vestidos brancos. O relato deste período preenche o coração do leitor de uma maneira inexplicável. Se a arte de pedir é dar um gesto convidando a proximidade, é aqui que Amanda conquista, logo, o carinho e respeito do leitor. Da mesma forma que cedia o seu corpo para criar aquela personagem e entregava uma singela flor como uma dádiva ao desconhecido passante.

amanda palmer the bride

Este contato com um público diário, com pessoas que ajudavam pagando um café ou dando as flores que sobravam no final do dia já mostrou para Amanda como é preciso pedir. Pois arte é troca. Pedir em todos os âmbitos da vida. Se a família quer ceder ajuda para pagar a faculdade, não aceitar porque haverá os outros que podem pensar o quanto você é fraco em aceitar é o grande ponto que Amanda questiona. Qual é o problema em pedir ajudar? Em deixar-se ajudar? São os outros o problema?

A questão se aprofunda no decorrer da autobiografia da cantora. Com a banda chamada The Dresden Dolls, ela se apresentou inúmeras vezes por tantas cidades que surpreende como alguém tenha quase conhecido todo o mundo, pela estrada. E foi nela que Amanda e sua banda precisaram contar com esta arte de pedir. Um público foi se formando no boca a boca, um presenteava o outro com um CD, Amanda os confeccionava na cozinha da casa de algum adorável desconhecido que cedeu o sofá ou o quarto para a banda passar a noite. O final de cada show era um acontecimento, quando autografava todos e ouvia as histórias dos fãs. Foi nesta ajuda misteriosa, vinda de estranhos que só queriam fazer parte do processo criativo de Amanda e ajudar por ajudar, é que a arte de pedir foi sendo constatada.

Amanda Palmer foi uma das primeiras que fez da Internet uma aliada para a sua arte. Como precursora do uso do site Kickstarter, ela teve a brilhante ideia de pedir doação aos fãs para fazer o seu CD, depois de uma disputa estressante com a gravadora que não repassava praticamente nenhum valor das vendas. Muitos críticos, logo, diminuíram o seu ato para um “mero mendigar”, “que a verdadeira arte não se faz assim, mendigando dinheiro para os outros”, e outras falas absurdas.

A cantora, então, alcançou um milhão de dólares em poucos dias pelo Kickstarter. Produziu seu álbum, pagou toda a banda na tour que organizou. O fã podia escolher o valor que pagaria, se iria querer pagar mais para receber brindes – que aliás, deram um trabalho imenso para Amanda encomendar – e até pocket shows pelo mundo inteiro. Aqui ficou comprovado como Amanda Palmer tinha um contato que muitos cantores precisam aprender a cultivar. E, olha só, hoje, nós podemos criar projetos literários, CDs, o que for, pelo site brasileiro Catarse.

Só para se ter uma ideia da vantagem de Amanda permanecer conectada às pessoas pelas redes sociais, eu acompanhei o processo de escrita e revisão dela no facebook, as épicas 72 horas em que ela, a agente literária e Neil Gaiman (sim, ela é esposa de Neil Gaiman!) revisaram as mais de 300 páginas de uma só vez, confinados em um quarto de hotel. O resultado não poderia ter sido melhor. Amanda migra das gírias às frases que se tornam facilmente inesquecíveis sobre o seu trabalho.

Desta forma, a leitura da autobiografia de Amanda Palmer surpreende da melhor maneira possível. Você ingressa neste mundo cultivado na vida da cantora, nas suas inseguranças muito semelhantes às nossas, encontra um apoio em quem também vive a arte como constante dádiva.

E vale dizer que ter visto uma estátua viva nas ruas me fez sentir uma emoção renovada, após a leitura de seu livro. É como se Amanda abrisse outras perspectivas sobre a vida que não irá abandonar o leitor. Serão dias compartilhados com a autora e, mais uma vez, ela criará vínculos com pessoas ao redor do mundo. A arte de pedir é um excelente convite. Pegue a flor e agradeça.

Há muito para se conhecer de Amanda Palmer. Acompanhe sua página no facebook e o perfil no Twitter, procure seu posicionamento feminista também em posts e matérias. Assista sua palestra no TED, The art of asking, legendada. Escute seu album The Dresden Dolls (é fantástico, tem um quê de cabaret circense), Theatre is Evil e Who Killed Amanda Palmer. E a música e o clipe de The Bed Song é uma das mais poéticas.

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[Inédito] Van Gogh e Paul Gauguin reunidos em foto rara

Publicado no site Literatortura 

Este é um documento excepcional que acaba de ser exumado e o qual o site L’Express revela a sua existência: Vincent Van Gogh e Paul Gauguin posam em uma mesma fotografia. Esta é a primeira vez que esses dois artistas considerados geniais na história da arte figuram em um mesmo clique.

Tal descoberta extraordinária foi possível pelo célebre marchand de fotografias, Serge Plantureux. Apenas algumas raras fotografias de Van Gogh, quando criança, haviam sido apresentadas até hoje. Contudo, nós podemos ver aqui, pela primeira vez, talvez, o grande pintor holandês na idade adulta (outros retratos circulam, mas os quais têm sua autenticidade discutida). Ele é o terceiro contando da esquerda, com um cachimbo nas mãos.

Detalhe (um tanto difícil de ser visualizado): sobre a mesa está repousando – no primeiro plano, diante da garrafa – o famoso chapéu em pele de coelho de Van Gogh, com o qual ele se representa em seu célebre autorretrato com a orelha cortada, em janeiro de 1888.

Rue Blanche, em Paris

Paul Gauguin está na extrema direita. Ele veste um “bragou berr”, calça bufante tradicional da região de Pont-Aven, onde ele se instalou em 1886. Na data em que este registro foi feito – imagem em cartão, de 9 centímetros por 11 -, ele acaba de retornar de uma viagem ao Panamá.

Este clique histórico é datado do fim de 1887, sem dúvida do mês de dezembro. Ele foi tirado no pátio da Rue Blanche, 96, em Paris, onde André Antoine havia convidado jovens artistas à expor no Théâtre-Libre. Van Gogh apresenta, também, um quadro neste anexo, Le jardin avec amoureux. Estão igualmente presentes na fotografia Emile Barnard (o segundo a partir da esquerda, com uma barbicha), pintor que havia reencontrado Paul Gauguin em Pont-Aven no ano anterior; Félix Armand Jobbé-Duval (o segundo contando da direita), artista bretão próximo de Gauguin; André Antoine, no centro; e Arnold Koning, um amigo dos irmãos Van Gogh (na extrema esquerda, com a boina).

O quadro exposto por Van Gogh, em 1887, Le jardin avec amoureux

Entre 120 mil e 150 mil euros

A pesquisa de Serge Plantureux, que já havia revelado uma foto inédita do escritor e poeta Charles Baudelaire (aqui), em 2013, pôde comprovar que todos esses artistas, quase personagens para a posteridade, estavam em Paris no mês de dezembro de 1887. Van Gogh somente partirá em fevereiro de 1888 para Arles, com as trágicas consequências que conhecemos: a violenta disputa com Gauguin, ameaçado com uma navalha, antes de o pintor holandês cortar a orelha. Esta cena terrível irá ocorrer em dezembro de 1888, exatamente um ano após a foto tirada na rue Blanche.

Por fim, este precioso clique for recuperado por Serge Plantureux do acervo do editor e bibliotecário Ronald Davis, fornecedor oficial da família Rothschild. Será oferecido em leilão no dia 19 de junho, em Bruxelas, em uma venda de fotografias antigas. Está estimado entre 120 mil e 150 mil euros.

Fonte: L’Express

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Reinvenção do abandonado

caneta kerbyrosanes sketchy stories

Uma peça se sobrepõe à outra e compõe um engenhoso sistema que indivíduos por aí levam nos bolsos. Uma máquina que, nas mãos humanas, traz à tona as mais insanas ideias que, postas no papel, se concretizam como um grande mundo fundado. Um mundo que se reinstala no mundo onde este pequeno dispositivo está apenas guardado nos bolsos e estojos de alunos.

A verdade é que, se elas somem por entre o cotidiano, são porque precisaram de restauro. Uma nova peça interna para esta grande e massiva nave que, vista por fora, é apenas um objeto diário. É preciso, primeiro, abri-la para recolocar a peça. Homenzinhos passam um ao outro a peça, isolam a área com cones, tais como parados numa estrada. Perambulam pelos corredores desta potencial nave para chegar, enfim, ao grande ponto: os canos levam a uma ponta externa. A tinta é reposta e aguarda ser usada e ser libertada.

Elas não são vistas propriamente como instrumentos de criação. São mais vistas como objetos necessários nos momentos em que se precisa anotar alguma coisa. É sempre em vista de algo que se torna importante do nada. Logo é esquecida no fundo da bolsa. Se ela mancha o papel, irrita. Mas não é bem sua culpa. Às vezes vaza tinta pelo pedido de escrever mais.

Desenhistas fazem delas o essencial. E escritores também. Como uma boa amiga à disposição destes mesmos instantes efêmeros. O que eles fazem é recolocar este objeto em sua devida importância. Veio uma ideia? Ela é quem socorre.

É por isso que os pequenos instantes guardam novos mundos. E a escrita é o eterno reconstruir. E tudo pode começar por esta pequena forma comprida e com tampa. Ela se ergue imponente no papel e encara a ponta como se esperasse o que pode sair. Mas a mão que a incorpora é o grande segredo. O gesto no papel é inaugurador e projeta, incessante, a tinta. A caneta guia-se pelo artista, a escrita nasce e está no ínterim do processo também, na hesitação, no colocar a caneta sobre o papel. Na ideia, no desenvolvimento, na recriação, na releitura, na ponderação. Um grande empreendimento sobrevivente é a escrita.

****A imagem de capa é da página no facebook Sketchy Stories, de Kerby Rosanes (veja seus trabalhos aqui)