A arte de pedir, de Amanda Palmer

Resenha publicada no site Indique um livro

A arte de pedir, editora Intrínseca, 2015, 293 páginas.

amanda palmer the art of askingA dificuldade de pedir é a mesma que bloqueia a conexão humana. A impressão de sempre ter uma patrulha analisando se você é ou não uma farsa e, assim, será logo julgado por pedir ajudar, por pedir uma troca. É sobre isso que se trata a bela autobiografia da cantora e compositora Amanda Palmer. De início, é possível se questionar como este pode ser um tema abrangente, capaz de servir de fio condutor de um livro. Logo a pergunta se dilui e encontramos muitos motivos para ela ser discutida.

Primeiro, é necessário que se saiba que este livro foi fruto de um trabalho de três meses de Amanda após ser convidada a escrevê-lo em razão de sua palestra no TED, que teve milhões de visualizações e leva o mesmo título. Mas por que tratar da arte de pedir? Amanda foi estátua viva por cinco anos, a começar em 1999, incorporando em dois metros sustentados sob sol e chuva em um engradado A Noiva, em sua face e vestidos brancos. O relato deste período preenche o coração do leitor de uma maneira inexplicável. Se a arte de pedir é dar um gesto convidando a proximidade, é aqui que Amanda conquista, logo, o carinho e respeito do leitor. Da mesma forma que cedia o seu corpo para criar aquela personagem e entregava uma singela flor como uma dádiva ao desconhecido passante.

amanda palmer the bride

Este contato com um público diário, com pessoas que ajudavam pagando um café ou dando as flores que sobravam no final do dia já mostrou para Amanda como é preciso pedir. Pois arte é troca. Pedir em todos os âmbitos da vida. Se a família quer ceder ajuda para pagar a faculdade, não aceitar porque haverá os outros que podem pensar o quanto você é fraco em aceitar é o grande ponto que Amanda questiona. Qual é o problema em pedir ajudar? Em deixar-se ajudar? São os outros o problema?

A questão se aprofunda no decorrer da autobiografia da cantora. Com a banda chamada The Dresden Dolls, ela se apresentou inúmeras vezes por tantas cidades que surpreende como alguém tenha quase conhecido todo o mundo, pela estrada. E foi nela que Amanda e sua banda precisaram contar com esta arte de pedir. Um público foi se formando no boca a boca, um presenteava o outro com um CD, Amanda os confeccionava na cozinha da casa de algum adorável desconhecido que cedeu o sofá ou o quarto para a banda passar a noite. O final de cada show era um acontecimento, quando autografava todos e ouvia as histórias dos fãs. Foi nesta ajuda misteriosa, vinda de estranhos que só queriam fazer parte do processo criativo de Amanda e ajudar por ajudar, é que a arte de pedir foi sendo constatada.

Amanda Palmer foi uma das primeiras que fez da Internet uma aliada para a sua arte. Como precursora do uso do site Kickstarter, ela teve a brilhante ideia de pedir doação aos fãs para fazer o seu CD, depois de uma disputa estressante com a gravadora que não repassava praticamente nenhum valor das vendas. Muitos críticos, logo, diminuíram o seu ato para um “mero mendigar”, “que a verdadeira arte não se faz assim, mendigando dinheiro para os outros”, e outras falas absurdas.

A cantora, então, alcançou um milhão de dólares em poucos dias pelo Kickstarter. Produziu seu álbum, pagou toda a banda na tour que organizou. O fã podia escolher o valor que pagaria, se iria querer pagar mais para receber brindes – que aliás, deram um trabalho imenso para Amanda encomendar – e até pocket shows pelo mundo inteiro. Aqui ficou comprovado como Amanda Palmer tinha um contato que muitos cantores precisam aprender a cultivar. E, olha só, hoje, nós podemos criar projetos literários, CDs, o que for, pelo site brasileiro Catarse.

Só para se ter uma ideia da vantagem de Amanda permanecer conectada às pessoas pelas redes sociais, eu acompanhei o processo de escrita e revisão dela no facebook, as épicas 72 horas em que ela, a agente literária e Neil Gaiman (sim, ela é esposa de Neil Gaiman!) revisaram as mais de 300 páginas de uma só vez, confinados em um quarto de hotel. O resultado não poderia ter sido melhor. Amanda migra das gírias às frases que se tornam facilmente inesquecíveis sobre o seu trabalho.

Desta forma, a leitura da autobiografia de Amanda Palmer surpreende da melhor maneira possível. Você ingressa neste mundo cultivado na vida da cantora, nas suas inseguranças muito semelhantes às nossas, encontra um apoio em quem também vive a arte como constante dádiva.

E vale dizer que ter visto uma estátua viva nas ruas me fez sentir uma emoção renovada, após a leitura de seu livro. É como se Amanda abrisse outras perspectivas sobre a vida que não irá abandonar o leitor. Serão dias compartilhados com a autora e, mais uma vez, ela criará vínculos com pessoas ao redor do mundo. A arte de pedir é um excelente convite. Pegue a flor e agradeça.

Há muito para se conhecer de Amanda Palmer. Acompanhe sua página no facebook e o perfil no Twitter, procure seu posicionamento feminista também em posts e matérias. Assista sua palestra no TED, The art of asking, legendada. Escute seu album The Dresden Dolls (é fantástico, tem um quê de cabaret circense), Theatre is Evil e Who Killed Amanda Palmer. E a música e o clipe de The Bed Song é uma das mais poéticas.

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