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Convalescência

Evaning reading George Pauli 1884

Ouça os sinos que clamam –

Repetem a liberdade em um suspiro

E em breve gesto a dor espantam

Qual recriação do corpo doentio!

Após uma vida em breve fastio

O corpo encontrou o descanso

Com as faces enrubescidas

E o movimento o mais manso.

Aos olhos, agora, o mundo se recupera,

Corpo e mundo em comunhão,

A existência se regenera

No caminho que aguarda a mais bela salvação.

Absorve mais a existência em pranto,

Que nas águas se converte no mais santo

Destino do herói sobrevivente,

Do que nas águas mansas

Longe da febre intermitente

Que toma o corpo para si.

Na febre e na dor vi meu corpo ser carne

E este toma vida em total frenesi

Quando exigida a vida que arde

E que a coloca em mundo para deste usufruir.

Corpo se faz existência e gesto

No mais sobrevivente ato confesso

A resistência de uma vida que procura, em gesto,

Não cair e não ruir.

*** Imagem de capa: Evening reading, George Pauli (1884)

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O chão das dores seculares

Le trajet or dead woman, de Romaine Brooks (1911)

As criaturas que vivem enfiadas nas terras são desconhecidas. Passam despercebidas, nem meras sobreviventes são vistas pelos outros. Respiram por entre a poeira e os restos da existência que parece ter sido mais relevante na superfície da qual vemos apenas o vislumbre. Eu tinha uma grande afeição pelos insetos que ninguém via, pela vida pulsante da terra, porque, desde cedo, eram minha companhia invisível. Eu pedia licença para cair ao lado deles.

-Bang Bang! – ecoava toda manhã na voz dele, que corria atrás de mim com um graveto qualquer que encontrava sempre no caminho para a minha casa – Clara, bang bang! Você tem que cair no chão!

E eu caía toda vez e esperava quietinha, fingindo que havia morrido. Minha mãe reclamava sempre que meu vestidinho vivia cheio de poeira. A correria dele, imitando os filmes de faroeste que via na televisão, era aguardada sempre pela minha casa. Ele passava pelo meu pai, era um menino com um chapéu simpático, pequenino, segurando um graveto e gritando “bang bang”. Não era ameaçador. Os adultos achavam-no adorável. O piso de madeira, a varanda e as janelas abertas, com as cortinas tremeluzindo entre o sol de cada manhã já recebiam o garoto com a mesma expectativa que se tem para o costumeiro café-da-manhã.

A brincadeira persistiu na adolescência e ele caía ao meu lado, afastando a poeira do meu rosto. Certa vez, deixou na minha mão uma pedrinha que encontrara emaranhada nos fios, em mais uma queda, e pousou um beijo nos meus lábios. Eu gostava do instante em que ele me admirava antes de me deixar levantar. As conversas não evoluíam muito, mas as quedas eram os momentos em que eu parecia exercer o poder de segurar sua atenção.

Eu acreditei que as quedas eram um jogo distinto em que ele me cortejava. Acreditei porque começaram os comentários entre a família, os jantares em que as alianças eram feitas e soava promissor aqueles dois de cinco e seis anos de idade, finalmente, constituírem algo além das brincadeiras.

Casei-me com aquele garoto que conheci, ele de negro, eu de branco. O rosto dele exercia um fascínio inegável. Um olhar sedento por correr entre as casas impondo seus desejos. Um olhar que poderia conquistar terras, domar cavalos e controlar a poeira de lugares inóspitos.

Foi o mesmo olhar que passou a dominar os meus gestos. Passei a cair no chão com mais frequência, porém, desta vez, ele não tirava a poeira. Tocava o ferimento, como se o deixasse lá por sua vontade. E eu, se antes segurava o riso diante daquele garoto enquanto fingia que estava morta, agora abafa os soluços de um choro contido por meses.

O som do corpo caindo na madeira é uma batida que ecoa outras quedas. Meu corpo inerte era o corpo de inúmeras representações de corpos tensionados, admirados em sua nudez desesperada e disposta para o espectador ver. Ofélia, Salomé, Alice James, santas como St. Cecilia, St. Elizabeth, St. Catherine de Siena. Esses nomes, antes desconhecidos, me soavam agora como os corpos aos quais eu me colocava ao lado. No chão, eu não estava sozinha. Mulheres invalidadas, mulheres que parecem belas enquanto feridas para o voyeur, quando dão o último suspiro àqueles que as observam. E esta sobrevida não parece evidenciar o horror de seu sofrimento, mas sim, a imagem de sua beleza distorcida. Lançada ao chão e feita para admirar. Mesmo que a carne esteja ferida.

Saint Eulalia, de John William Waterhouse (1885)

Saint Eulalia, de John William Waterhouse (1885)

Passei a notar que o garoto que conheci apreciava essa visão. No quartinho em que ele não me deixava entrar de jeito nenhum, certa vez, encontrei fotos de outras meninas caídas como eu. E quadros e mais quadros de um fetiche que envolvia mulheres dormindo, mulheres nuas mitológicas. As meninas que eu via não sabia ao certo se estavam mortas, se estavam posando para a câmera dele.

Eu as mostrei para a minha amiga, Alessandra, em um misto de culpa, raiva e esperança em achar inocência naquelas imagens. Mas ela não as viu desta forma. Pesquisou e pesquisou, acabou por encontrar a coincidência entre aqueles rostos e as faces rosadas e inocentes de meninas que sumiram pela região.

– A única vez em que uma delas foi encontrada, o corpo estava nu e repousando em um mar de flores colhidas com muito cuidado – disse Alê para mim, enquanto eu tentava controlar minhas mãos trêmulas que serviam o café.

Minha mãe e minha avó sussurravam, aflitas, dizendo que se o marido as deixava no chão, era lá o lugar em que ficariam. Havia a minha confusão, de ver ilusões sendo agredidas, para depois eu ter que me levantar e entender em que momento a brincadeira se tornara séria.

Os livros que eu lia como um refúgio à realidade não me davam respostas acolhedoras. Encontrava mulheres adúlteras que possuíam a liberdade que não era minha. Via homens heroicos que recebiam a permissão da História e de toda a humanidade para desbravar os mares, enquanto eu tinha que sangrar em minha própria casa. Eu encontrava apoio nas crianças que conheciam lugares fantásticos, onde a realidade, no mínimo decepcionante, ficavam atrás das terras mágicas, atrás de guarda-roupas que me levavam à neve fresca e ao lampião que brilha com doçura.

Porém, eu tinha que ler escondida, quando ele não estava em casa. Ler seria um desafio. Demonstrar que possuo um pensamento vivo e inacessível a ele. Provavelmente isso fazia parte de suas fantasias, imaginar o que aquele ser aparentemente débil – que ele definia como “mulher” – podia pensar sem ele, nem pensar nele. Seria o mesmo que deixar a liberdade entrar pela porta da frente, desta casa que era a grande posse do provedor.

The Death of Albine, de John Collier (1895)

The Death of Albine, de John Collier (1895)

No fim de um ano de casamento, ele entrou na cozinha e gritou “bang bang”. Eu não virava mais com a breve esperança de vê-lo próximo de mim. Aquela interjeição me alarmou, a mão que cortava os legumes tremeu. Era o fantasma de um garoto que conheci gritando, mas o tom não era convidativo. O grito ressoou mais uma vez e ele me acertou.

O olhar era passivo e ele estava sentado na mesa, com um copo a sua frente. Não era mais graveto, a arma me olhava repousada na mesa, enquanto aquele garoto de antes me olhava triunfante, por ter realizado a sua desprezível fantasia de destruir a sua vítima desde a infância.

O sangue na minha roupa, porém, me avisava que não era assim que deveria terminar.  Perdi a conta das vezes em que caí no chão quando criança. No casamento eu havia contado vinte. Aquela era a vigésima primeira, o número de minha idade. Vinte e uma vezes de uma vida morta no chão.

Os nomes e as imagens das mulheres em mesma situação vinham à mente como se quisessem me fazer respirar. A perspectiva de um corpo inerte, ferido, belo por estar destruído não era o que eu queria dar a ele. Foi esse mesmo corpo, sangrando, que arrastei por aquele chão onde caí vinte e uma vezes, agarrei a camisa dele e me lancei para o seu colo, olhando para aqueles olhos agora serenos por ter me destruído. A minha mão direita balançava enquanto a outra se apoiava pelo cotovelo na perna dele. Ele olhava, apenas assistindo o espetáculo que acreditava ter sido arquitetado apenas por ele. E que essa era só uma última cena adicional, sem sentido em seu roteiro. Que seria logo cortada.

O espetáculo, porém, mudou como uma cena acrescentada aos cortes do diretor. Naquele dia eu o deixei cair no chão uma única vez, com meus próprios cortes domados pela faca. Foi um baque surdo, definitivo. Ele ecoou pela madeira, uma resposta aos outros sons de corpos que caíram, derrotados pelos séculos.

Eu saí pela porta da frente e tomei a estrada rumo à casa de minha amiga. Mas lembro de olhar uma última vez para a cena na cozinha. Por cima do corpo do garoto que conheci, havia um inocente grilo que ergueu as patas por aquela montanha de carne humana. Como se aquela carne fosse um mero obstáculo para o seu caminho invisível traçado no chão. Eu assenti ao grilo, como uma despedida pelos dias neste chão secular.

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O meu conto foi inspirado na música Bang Bang! My baby shot me down, as versões da Nancy Sinatra e da Lady Gaga (aqui e aqui). E no filme Kill Bill, é claro. Vale indicar também um dos contos mais marcantes para o feminismo no século XIX, The Yellow Wallpaper, de Charlotte Perkins Stetson, que tratou da loucura e a vida enclausurada do casamento.

Imagem de capa: Le trajet or Dead woman, de Romaine Brooks (1911)