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Olympia e a primeira vez no Museu d’Orsay

22. Olympia - 1863

Já houve momentos em que eu me vi com dificuldade para começar um texto. Normalmente já passei dias achando que não conseguiria colocar uma ideia no papel, até que encará-lo é a única saída para lançar a primeira palavra. E uma boa estratégia também pode ser iniciá-lo de maneira metalinguística, só para que se dê um passo na página branca opressora. Então creio que seja este o tipo de início que você está lendo. Mas isso aconteceu porque a dúvida era como eu expressaria as diferentes emoções, que parecem ter durado horas, diante do quadro que estudo na graduação. E fazer uso da metalinguagem me parece compreensível, já que uma obra de arte nos obriga a tratar dela em seu interior.

No caso, falo de Olympia (1863), de Édouard Manet. Adiei por alguns dias este misto de matéria e crônica porque trato da Olympia em relatórios da iniciação científica há dois anos. Para uma estudante de graduação, dois anos de pesquisa se tornam significativos demais. O início é inseguro e, quando se menos espera, o relatório se torna um espaço agradável onde habitar. Não nego o encanto em falar sempre da Olympia. Contudo, quando se é posto diante da obra – e não das reproduções que você tenta usar, dando o máximo de zoom para observá-la, ou as imagens dos livros – a pergunta é invertida: em vez de se questionar “o que falar dela?”, torna-se “como falar dela?”.

Nas páginas de livros, nas análises críticas, vi Olympia de maneira mais branda do que a obra presente no Musée d’Orsay. E olha que a imagem e o estudo já são extremamente envolventes, e impossível não se encantar pelo mistério que a envolveu no século XIX. Vista no museu, ela é assustadora por ser imponente. Se em 1865, quando exposta no Salão, Olympia provocou mais de 80 críticas raivosas, que as classificavam como “mulher-gorila” devido a sua linha amarronzada – o que já indica as distinções entre classes sociais daquele público que a viu – até “corpo em putrefação”, ao vê-la, de fato, entendi como aquele olhar de Olympia e a sua nudez conseguem ser imponentes.

Na imagem dos livros, seu corpo parece um pouco mais fluido. Na obra, com as tintas de Manet, ela praticamente respira e nos questionamos por que o seu tronco é tão rígido e como se sustenta nos lençóis tão macios. Este questionamento já feito antes, durante a pesquisa, se tornou mais urgente e renovado diante da obra. A pele de Olympia é feita de um branco misturado ao amarelo e marrom, é instigante que tenha sido definido como uma tonalidade de cadáver pelo crítico do Salão, pois o seu corpo parece estar iluminado e, ao mesmo tempo, ocultar pedaços de sua pele em certos cantos de escuridão, o que realmente deve ser o motivo por trás desta crítica tão direta e irônica. A pele de Olympia, quando você sobe a pequena escada no Orsay e vê obras de Alexandre Cabanel, se mostra totalmente diferente da pele alva herdadas de Vênus e do imaginário renascentista, de uma mulher universal. Uma constatação na pesquisa e retomada no Museu.

Enquanto eu via Olympia, havia um grupo como visita guiada e um rapaz perguntou por que seu nome era Olympia. E a resposta que a guia deu foi sobre o fato de “Olympia” ser um nome comum à época. Mas é preciso acrescentar que cortesãs poderiam ter ganhado este nome. Ela é uma cortesã posta em destaque e que olha diretamente ao espectador. E tem mais essa experiência de choque: o olhar de Olympia possui uma força incomum. A parte superior em que seriam os cílios fica bem evidente pela marca do pincel, uma pincelada marrom e branda, em que Manet não oculta a sua técnica. Parece um olhar fictício que, ao mesmo tempo, com o marrom meio acobreado concedido por Manet, torna Olympia uma cortesã que segue o espectador com veemência e curiosidade e, ainda assim, tem um olhar fugidio e um tanto estrábico. Esse recuo do olhar, visto de maneira bem comedida em Madame de Senonnes (1814), do pintor neoclássico Ingres, por exemplo, ganha uma evidência ainda maior em Olympia. Manet, de fato, deseja que haja a ambiguidade perturbadora neste olhar, da mesma forma que a encontramos nos cabelos ocultos e vermelhos de Olympia e na sua nudez de diversos tons.

Desta forma, minha primeira visita ao Musée d’Orsay foi entrar no saguão, ignorar as demais obras (por enquanto) para procurar Olympia. O encontro com ela foi um rompante de emoção descontrolada – é meio embaraçoso ver que só você está chorando no museu -, além do choque de encontrar mais e mais signos que falam sobre Olympia. Após isso, visitei apenas o andar dos impressionistas e Manet surpreendeu mais uma vez, com a força dos olhos de Berthe Morisot em O balcão e a densidade de Um almoço na relva. Contudo, há muitas obras neste andar que merecem um futuro comentário mais detido – e apaixonado, sobre elas.

16. The Balcony - 1868-69

O Balcão (1868-1869), Manet

Se antes eu me maravilhava com o fato de Manet ter retratado os outros dois personagens, em O balcão, de modo esmaecido a fim de evidenciar os olhos e a percepção de Morisot ao canto, observando a cidade não vista, o quadro assusta por presentificar com força extrema as dúvidas acerca de um olhar de uma personagem e, bem, do nosso próprio olhar. É o que uma obra de arte faz por si mesma, presentificar a sua própria verdade. Mesmo em uma era das imagens que acaba por esvaziar o sentido da obra de arte situada em um museu, em meio aos vícios por fotografar todos os quadros em uma galeria e mostrar aos outros onde se esteve, as obras de arte sempre preservam suas verdades ocultas e acenam para o olhar do espectador, buscando desvelá-las. E a nossa resposta a tal aceno ainda sobrevive. O melhor é ser um turista curioso, que se deixa respirar além das programações de férias, por entre as obras que estão prestes a se apresentar como grandes singularidades.

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Carne em pedra

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Há homens de mármore ocultos no céu.

Eles adotam nosso gesto humano,

Recebem o olhar supremo,

Como de quem manda nas nuvens,

E exerce o seu inteiro respeito.

Tais homens respiram

No alto impossível que entrecorta o celeste.

Não podem marchar pelas ruas,

Mas alcançam contornos profundos

Que sabem guardar a verdade

Da mais promissora chuva.

Suspiram os homens o sopro do tempo.

Nós, deste manto cinza aqui embaixo,

Pouco sabemos da chuva que cai nesta pedra.

Porém, eles abraçam o eterno

Em que mãos humanas aqueciam o mármore.

Formou-se, do gelo, o calor do artifício,

De um toque e gesto reunidos na carne

Para dar à pedra a semelhança

De tal homem de sangue

Que a rocha branca embalava.

Pedra e carne quente,

Homem e divindade,

Respiravam o mesmo tempo,

Em uníssono eram mármore.

Ou eram carne,

Por um instante infinito.

Com o mármore dilacerado,

A pedra cantava ao toque do artista,

Talhando olhos e corpos,

Músculos e poses

Com ensejos de tocar o céu.

Ao olhar a obra antes de dormir,

E cobri-la com o tecido de seda,

O artista proferia a pergunta

Ao atelier escuro:

Serei eu pedra que formula carne,

Ou carne que injeta vida em mármore?

A escuridão não respondia,

Nunca nada era dito.

Apenas o relógio anunciava o fim de uma noite,

E menos um dia de vida

Para o pequeno criador.

Mas a forma debaixo do tecido sentia

O peito subir,

O peito descer,

E fechava os olhos para a escuridão,

Entrando em uma nova que lhe dizia

O segredo guardado nas veias de pedra

Talhadas pelo artista

Que nunca viveria em vão.

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Créditos de imagem: O Arco do Triunfo – Marina Franconeti

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Uma senhora torre

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Publicada no site Literatortura

A multidão anuncia no pisar da calçada a ansiedade em vê-la. Uma das formas mais reproduzidas em bolsas, capas de caderno, no ideário de filmes românticos, em fotos turísticas. Fincada na terra em quatro pernas metalizadas, com marcas entrecruzadas, ela é imponente aos olhos que acumularam tais imagens que, por fim, são insuficientes e se encerram nela. A torre é maior do que qualquer reprodução. Um caminhar que comprova a diferença entre as imagens e a sua forma presente.

Este triângulo acobreado se ergue até o céu que se encontra polvilhado por manchas brancas entre o azul, que se agrupam para olhá-la no verão parisiense. As nuvens convergem para a sua ponta que toca o mais infinito que o olhar humano pode apenas imaginar ser. Entre o céu e a torre existe apenas este apertar da existência até a pontinha, até o encanto de tê-la encontrado, subindo todos os andares, em residir na conclusão de presentificar, finalmente, a torre.

Abaixo dela, a 301 metros de distância, residem os olhares de milhares de turistas que acenam com câmeras, que seguram sorvetes para se refrescar no verão, que abrem sorrisos, que andam com tranquilidade diante da gigante, ou que não se comovem com a sua grandiosidade e acaba por ser apenas mais um ponto visitado, ou descansam no gramado e veem a torre como parte de um cenário perfeito. Mas contemplar a torre é lidar com alguns dilemas.

O limite do olhar humano é o fato de não se chegar ao final. Complementamos a vida com a imaginação, em pensar se a ponta da torre dialoga com o céu. E, mesmo subindo, de fato, na torre, a impressão sobre a cidade e o seu olhar anterior é diferente. Nada acaba por ser fixo neste jogo de percepções. Apenas o encanto diante da torre. E ainda sobra o fato de que diluímos a ilusão que se tinha quando era criança, em achar que a torre serviria como farol. Eu pensava, em meus sete anos de idade, que de todo canto da cidade parisiense, a torre era vista. A esperança de o cidadão perdido nas ruas ou na vida, que veria a torre acenando como companhia. Bem, ela não está sempre no horizonte. Mas sua presença é forte o suficiente para desestabilizar este mesmo cidadão quando surge por entre prédios e árvores.

Ela pode não ser a gigante que a criança imagina: destruidora e impossível de ver o final como a árvore que cresce advinda de feijões mágicos jogados no solo, por entre as nuvens. Mas ela é assustadora por carregar histórias e projeções. Por surgir sem avisar. Por provocar o nervosismo ao descermos na estação de metrô, sabendo que veremos esta dama tão aclamada no mundo. Não é uma torre qualquer e a minúscula é injusta. Contudo, ela só ganha sentido quando carrega o nome significativo, repetido por inúmeras bocas e sustentada por incontáveis mentes, entre a torre e Eiffel.

*créditos de imagem: Marina Franconeti

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Este é o primeiro de uma série de textos nos próximos seis meses da minha experiência como intercambista em Paris e estudante de filosofia na Université Sorbonne. Quase uma correspondente literária internacional! Vou viver, finalmente, o roteiro de Woody Allen em Meia-Noite em Paris. Espero que envolvendo também viagens no tempo.

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Os grandes nomes no café Les deux magots

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O Les deux Magots é um encanto à parte. Visitar um café frequentado por figuras emblemáticas é pensar sobre o tempo de maneira estranha. Entre pratos, expectativas turísticas de abrandar a fome tirânica para o próximo passeio, ou o mero descanso na leitura de um jornal e outro, Les deux Magots tem a sua urgência oculta nos gestos e vontades cotidianas, porque é preciso ver que lá estiveram grandes nomes.

O olhar se demora nas paredes erguidas, nos lustres dourados e na janela que mostra a calçada apinhada de outras pessoas almoçando nas mesas. O seu esforço em pronunciar direito o pedido para o almoço traz às urgências da fome e da programação. Mas logo o perder-se entre as paredes é, finalmente, feito. Fotos de Hemingway, Sartre, Simone de Beauvoir, o sentido do café se intensifica ao imaginar que aquelas mesmas cadeiras foram ocupadas por pessoas que, hoje, são ilustres, mas que antes só queriam um café. E que fosse barato.

O escritor não tinha muitos ganhos, e Paris grita para que se saia dos apartamentos obscuros e da comodidade. Assim, escrever ganhava o repouso do café. Preço justo, horas sentado na mesa, observando a rua. O café é o lugar da pausa, enquanto o escritor se situa e produz nesta pausa. Ele vive a história do outro que passa pela calçada, e a subverte em ficção. E acaba que ser escritor não é apenas profissão, para pagar a conta do café, mas estar sempre em um café figurativo para ver e falar sobre o outro, seu igual.

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A criação já não se torna apenas momento da pausa. Ela existe já na experimentação do escritor, dentro e fora do café. Na maneira com que anda e olha Paris como se fosse a primeira vez. O respeito – sempre bem-vindo e, às vezes, esquecido – pelo estrangeiro que está descobrindo também Paris. O café era, para esses autores, e o que precisa ser para os novos, um estado de recomposição do que viu. O trabalho não pára e existe na cadeira e na mesa, na calçada, no gesto do passante, no metrô, no último sabor amargo do café. A escrita perpassa todos os cantos vividos e concede o descanso e humanidade diante da pressão rotineira e os limites do corpo. E o sentar-se na cadeira força a perceber a existência passante.

Esses nomes tão enaltecidos hoje não sabiam que naquele mesmo café, décadas depois, alguns sentariam com a esperança de comer no mesmo lugar em que vinham com seus cadernos rabiscados, largando as moedas para pagar essa ambrosia do escritor. A foto na parede mostra o encontro dos tempos. Sentar-se ao lado de Simone de Beauvoir, em tempos distintos. Mas estar lá, imaginar que poderia ser uma sexta-feira para ela, que saíra do metrô e também olhou para a Igreja de Saint-Germain, que a fome se espalhava entre o pensamento. Com o café, vinha uma fome pela escrita. Simone de Beauvoir ontem, e eu hoje sentada ao seu lado. Com esta sensação, o nó na garganta divide um espaço apertado com a comida que passa e a emoção é contida ao imaginar a autora ao lado.

No fim das contas, estar em um lugar marcado pelo passado dilui as questões pequenas do cotidiano e reúne o tempo em mesma linha temporal. Escritores do passado que escreviam pelo ato de escrever – e não pelo suposto sucesso após a morte – e novos escritores que estão começando a experimentar a escrita como a novidade de sentar-se em um café e tomar para si aqueles do passado. Uma comunhão, pela cafeína e o caderno, que esquece as distinções das décadas.

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Turma da Mônica: O Pequeno Príncipe

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Publicado no site Indique um livro 

“Por favor…desenhe para mim um carneiro!”, disse o principezinho de cabelos dourados em meio a um deserto ao incrédulo aviador, narrador e voz do autor Antoine de Saint-Exupéry. Foi com essa singela pergunta e diversas outras frases memoráveis que o menino se tornou um marco na literatura mundial.

Por sua vez, com uma menina de vestido vermelho segurando um coelho azul, um garoto que troca o R pelo L e o criador desses e de outros personagens, surgiu no imaginário brasileiro a Turma da Mônica. Agora, juntando personagens tão fortes para inúmeras gerações de leitores o resultado é a nova tradução de O Pequeno Príncipe ilustrada pelos personagens de a Turma da Mônica, pela editora Girassol.

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O peso da adaptação é enorme. Agrupar esses dois mundos soa natural e a rosa vira Mônica, o principezinho é o Cebolinha e Maurício de Sousa representa Saint-Exupéry como o aviador. A tradução é de Leila Villas, a edição prateada em capa acolchoada e o título em vermelho dão imponência e força ao volume. O abrir das páginas é o que garante o encanto imediato. O trabalho do ilustrador José Márcio Nicolosi é o responsável por elevar a adaptação a algo singular. As cores fortes e limpas dão poeticidade às formas dos personagens. O contorno mantém as características de Cebolinha e Mônica aliados à vestimenta imortalizada pelo traço conhecido e simples de Saint-Exupéry. O elefante dentro da jiboia é Jotalhão, Cebolinha tem agora seus poucos fios de cabelo em cor de trigo, Maurício é Exupéry que tenta desenhar um carneiro, e os tão temidos baobás se tornam ainda mais assustadores e gigantes pela adaptação.

Não é difícil se emocionar com as ilustrações de José Márcio Nicolosi. O grande diálogo entre o principezinho e a raposa é o grande destaque, a qual diz que o menino deve primeiro cativar e deixar-se cativar para, assim, ter de fato uma amizade e tornar uma pessoa única entre tantas rosas. A raposa de Nicolosi tem uma presença forte e a delicadeza no tocar das mãos do principezinho e a pata transformam a releitura da obra. O Pequeno príncipe se torna doce e poética como tantas outras novas adaptações que a Turma da Mônica tem criado.

O Pequeno Príncipe pelo olhar de Maurício de Sousa é revisitado com maestria. Os novos traços se somam às imagens criadas por Saint-Exupéry em texto e papel. E, assim, a leitura é duplamente emocionante, pois retrata duas histórias que mudaram vidas. Personagens que levaram crianças ao mundo da leitura, e adultos a reviverem sempre a infância nunca perdida. Pois é bem melhor seguir o conselho do próprio principezinho e não ser como os adultos que se preocupam apenas com números. Lembrar que só se vê bem com o coração, o essencial é invisível aos olhos. E que, no fim, quem seguir este conselho terá a infância sempre como estrelas que riem no céu.

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