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Os estúdios de Harry Potter em Londres

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Publicada no site Literatortura

Centenas de cartas timbradas com carimbo vermelho em pergaminho surgem em profusão pela lareira e a janela. O destinatário é um garoto de onze anos que, por meio delas, descobre que é bruxo. Com esta premissa, uma geração cresceu com o sonho de receber a mesma carta e ser parte de Hogwarts, como Harry Potter. Contudo, um fato que é esquecido: a leitura dos livros de J.K.Rowling e a adaptação deste mundo para o cinema já foi o modo com que abrimos essa carta inúmeras vezes para os territórios da Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts.

Foi com praticamente toda uma vida imersa entre os livros e filmes de Harry Potter, dos sete aos 17 anos, que eu realizei o sonho de entrar nos estúdios da Warner Bros, em Londres, onde foram gravados e são conservados todos os itens da saga de Harry Potter para visitação. A emoção é quase inexplicável, até certo ponto. Porque ela se torna compreensível quando se substitui a geração de Harry Potter pelo fascínio por Star Wars, Senhor dos Anéis, História sem fim, Nárnia, musicais, a Era de Ouro hollywoodiana, a nouvelle vague, isto é, qualquer enredo ficcional que faça o público crer em sua realidade e se encantar por uma história contada. O instante em que nos apropriamos, enfim, de personagens e vocabulários existentes apenas pelo registro da escrita ou da imagem. E assim aceitamos um mundo feito de feitiços e nomes de poções.

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Os estúdios de Harry Potter é uma visita obrigatória para um fã da saga em algum momento da vida. Foram anos sonhando com este dia quase inatingível, guardando dinheiro até adentrar no Salão Principal e ver, finalmente, o banquete servido, as roupas das quatro casas, e me emocionar diante do figurino de Dumbledore. Temos por volta de três horas para conhecer os estúdios, com um áudio guia (inclusive em português brasileiro), que conta as curiosidades das gravações.

Aquele pódio de coruja em que Dumbledore se ergue a todo ano para dar as boas-vindas aos novatos e aos veteranos está lá, feito em ouro. Só não tem como existir o céu aberto e estrelado acima de nós, isso sim faz parte da imaginação e da equipe de efeitos especiais. É possível ver, também, o figurino usado pela primeira vez no set por Daniel Radcliffe (Harry Potter), aos onze anos. Tentaram inserir inúmeras velas no teto, mas durante as gravações elas derretiam e caíam nas mesas. Por isso, a solução foi acrescentá-las digitalmente.

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Entramos em um galpão onde realmente você passará horas e se esquecerá da vida. Lá tem a mesa de cristais com líquidos azuis e figurino do baile do Torneio Tribruxo, presentes no quarto filme, O Cálice de Fogo. O vestido da Hermione e da Cho, o terno de gala do Harry e de Viktor Krum e até a roupa de segunda mão do Rony constam lá. Os objetos usados também, como a pedra filosofal e o pomo de ouro e ainda outros que os produtores garimparam em antiquários ou refizeram tomando um objeto como base. É um trabalho artístico muito cuidadoso.

Além disso, o mais encantador de toda a visita é poder visualizar a cabana de Hagrid e sonhar em tomar, com ele, um chá com bolo (mesmo sendo descrito como sola de sapato); passar o dia na casa dos Weasley em que agulhas de tricô funcionam sozinhas; se hospedar no dormitório da Grifinória ou até mesmo se arriscar em uma aula de poções com Snape. E mais ainda, passar horas conversando com o diretor de Hogwarts, Alvo Dumbledore, em sua sala rica em detalhes, com o chapéu seletor, a espada de Gryffindor, a penseira e até mesmo um telescópio que nem vemos nos filmes. Todos estes cenários estão lá para serem vistos, servindo como a realização de estar fisicamente nos mesmos lugares que os personagens.

Como curiosidade na concepção destes ambientes, o telescópio de Dumbledore é visto apenas por trás, nos filmes. Mas fotos de bastidores mostram que ele tem uma elegante poltrona circular almofadada para que o diretor se sentasse e visse as estrelas. Nos estúdios, podemos vê-lo posicionado para fora da janela, algo que nunca nos filmes apareceu.

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A sala de poções de Snape tem inscrições nas portas em latim e inglês, com uma infinidade de frascos que contêm até ossos procurados em antiquários, fios de cabelos e líquidos esquisitos. Tudo é tão bem feito que já não dá para dizer o que é real e o que foi produzido. A riqueza deste espaço é ainda mais bela quando vista nos estúdios. Na verdade, nos primeiros filmes, a sala é mais obscura e gravada também em outras locações. Se notarmos, a sala só ganha mais destaque e cores esverdeadas e azuladas quando Slughorn assume a disciplina no sexto filme e protagoniza cenas mais cômicas.

A cabana de Hagrid apresenta inúmeras gaiolas, já que o personagem adora cuidar de criaturas mágicas, e os móveis foram produzidos para que indicassem o quanto Hagrid era maior que as crianças, pela disposição em frente às câmeras. Já a toca dos Weasley surpreende pelas cores laranja e vermelha, pela grande mesa cheia de comidas caseiras, e a sensação de ser a melhor casa onde habitar. Com efeitos especiais, a equipe conseguiu fazer com que objetos se movessem sozinhos, o que dá ao lugar o tom pitoresco exato da narrativa.

É possível conhecer também a bela estrutura do Ministério da Magia, com paredes ladrilhadas de verde esmeralda inspiradas no estilo vitoriano do século XIX, além da escultura que inclui 58 trouxas (não-bruxos) suspendendo o mármore de um ministério que se pretende como um bem maior aos bruxos puros-sangues. Este é um dos grandes destaques que vale a pena observar nos estúdios, uma escultura descrita nos livros e mais um indício dos tempos sombrios e totalitários que surgem a partir do quinto livro da série, a Ordem da Fênix.

Há também a overdose cor-de-rosa da sala da terrível professora Dolores Umbrigde, aquela que estabeleceu decretos em Hogwarts e torturava os alunos que se opunham ao Ministério. O que poderia ser fofinho se torna obscuro ao ver a sala toda revestida de babadinhos e gatos em pratos de porcelana, de uma personagem tão detestável quanto Voldemort.

Bem, há muito para contar dos estúdios. Contudo, é preciso dizer que os três instantes em que o fã tem os melhores momentos de nostalgia serão ao conhecer o expresso de Hogwarts na plataforma 9 ¾, passando pelo corredor apertado diante de cada cabine usada nos filmes. Há também a entrada no Beco Diagonal, onde estão todas as lojinhas que sonhamos visitar: Olivaras, onde a varinha escolhe o bruxo; a livraria Floreios e Borrões; o Empório das Corujas; as Gemialidades Weasley.

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E, por fim, a grande maquete de Hogwarts, usada para as tomadas exteriores. A beleza dos pequenos tijolos e torres, as luzinhas interiores, e pensar que há tanta grandiosidade em pequenas peças é, de fato, o melhor momento da visita. Junto a isso, está a sala em que constam os nomes de todos da equipe em caixinhas de varinhas. O efeito de ver o castelo, produzido com tanto cuidado, e uma sala onde figuram aqueles que voltavam todo dia para casa por mais de dez anos na produção da saga, após criar um castelo ou uma criatura mágica, é o que faz da visita ao estúdio um instante tão forte quanto imaginar uma cena descrita por J.K.Rowling.

Esta é a surpresa de constatar, mais uma vez, que da mente de uma escritora veio um mundo completo recriado na tela que, por sua vez, se torna ainda mais vívido pela imaginação do leitor ou pelos olhos do espectador. Pois Hogwarts já existe além de seus territórios feitos de papel.

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Como visitar

O Warner Bros Studio tour – The making of Harry Potter fica nos limites de Londres. Para chegar lá, você pode usar o seu oyster ou comprar o ticket com antecedência e hora marcada, ou até mesmo na estação. Vai descer na Victoria line, pegar o metrô underground para Euston. E, então, é só pegar o trem overground para descer na estação Watford Junction, que demora por volta de 35 minutos para chegar.

Na estação terá um ônibus fretado, todo potteriano, que leva direto para os estúdios, custa por volta de 3 libras o bilhete de ônibus de ida e volta. Só fique atento com o horário em que for sair dos estúdios, pois por volta das 20h já está quase vazio e os ônibus demoram 20 min para voltar ou pode nem mais ter ônibus, o que é meio desesperador, você começa a cogitar em dormir em uma das camas do dormitório da Grifinória. Por isso pergunte a algum funcionário dos estúdios, sempre vão querer ajudar. A compra do ticket é antecipada pelo site (aqui) e pode ser retirado no dia. E vá pronto para gastar na lojinha! No site tem os preços para consultá-los.

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O encanto da Shakespeare and Company

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Publicado no site Literatortura

Uma livraria que se espreme para concentrar nela as ideias dos livros, em madeira velha, sustentada por vigas desgastadas e estantes carregadas de livros em inglês na cidade parisiense. Placas e frases dão vida às paredes, indicando pensamentos de autores que acabam por tornar a visita à Shakespeare and Company a entrada em uma espécie de livraria subversiva dos anos 20, uma livraria viva e convidativa aos novos tempos.

O americano George Whitman foi quem a fundou em 1951 com o nome Le Mistral, pois no lugar havia funcionado um mosteiro, La Maison du Mustier, no século XVII. Whitman gostava de fingir que seria aquele que acenderia os lampiões do mosteiro, um papel que interpretava consigo mesmo ao criar a livraria. “Eu a criei como um homem poderia escrever um romance, construindo cada quarto como um capítulo, e eu gosto que as pessoas abram a porta da forma com que abrem um livro, um livro que conduz a um mágico mundo em suas imaginações”. Em 1964, o nome foi mudado pela ocasião dos 400 anos de Shakespeare, honrando uma vendedora chamada Sylvia Beach, a qual ele admirava e que havia inaugurado uma livraria chamada Shakespeare and Company em 1919. A livraria dela havia sido espaço cativo de autores como Hemingway, Joyce, Stein, Fitzgerald, Eliot, Pound, assim como autores franceses. Da Shakespeare and Company atual fazem parte da lista de visitantes Allen Ginsberg, William Burroughs, Anaïs Nin, Richard Wright, William Styron, Julio Cortázar, Henry Miller, William Saroyan, Lawrence Durrell, James Jones e James Baldwin.

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Durante a Grande Depressão, Whitman viajou para o México apenas com 40 dólares no bolso. Nisso, ele ficou doente em Yucatan e foi recebido e curado pela tribo de maias, o que formou o seu lema, colocado na parede do último andar da livraria: “Não seja inospitaleiro aos estranhos para que não sejam anjos disfarçados”. (Be not inhospitable to strangers lest they be angels in disguise).

Seguindo este lema, a livraria recebe pessoas para dormir nos colchões do segundo andar, entre as estantes e um piano. Desde então, cerca de 30.000 jovens escritores e artistas já estiveram na livraria, incluindo Alan Sillitoe, Robert Stone, Kate Grenville, Sebastian Barry, Ethan Hawke, Jeet Thayil, Darren Aronfsky, Stephen Rea , David Rakoff, e Linda Grant. Shakespeare and Company não nega o sonho de Whitman em tornar o lugar “uma utopia socialista mascarada de livraria”.

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Em 2002, Whitman passou o cargo de acender os lampiões figurativos da livraria à filha Sylvia. “Cada mosteiro tinha um frère lampier cujo dever era acender as lâmpadas ao anoitecer. Eu tenho feito isso há cinquenta anos. Agora é a vez da minha filha”. E foi Sylvia Whitman quem trouxe diversos festivais e mais novos autores para o cenário da livraria. E em 2011, a livraria lançou o Prêmio Literário Paris, para romances do mundo inteiro. E foi neste mesmo ano que Whitman faleceu, no dia 14 de dezembro, dois dias depois de completar 98 anos, e descansou de uma vida árdua acendendo as luzes encantadoras da Shakespeare and Company. E inspirando novas luzes a serem acesas no mundo das ideias.

Com esta bela história, vale dizer que provavelmente você já viu a livraria figurar nos guias turísticos ou no segundo filme da trilogia de Richard Linklater, Antes do por do sol (Before Sunset), e Meia-Noite em Paris, de Woody Allen. No meu caso, a minha idealização quanto a livraria vem desde a adolescência, quando eu juntei aos sonhos de conhecer Paris o fato de conseguir comprar um livro em inglês e ler. Uma livraria só com literatura em inglês no coração de Paris era o sonho completo, para quem detestava o idioma na adolescência porque cresceu sentindo que nunca chegaria ao ponto de se comunicar, ler e compreender o inglês. Bem, e nem precisa dizer que era impossível imaginar que eu poderia estudar inglês e francês assim que entrasse na graduação. Mas agora posso afirmar que foi com orgulho que comprei entre os livros usados da Shakespeare and Company e comecei a ler The Catcher in the Rye (O apanhador no campo de centeio), de J.D.Salinger, e ainda um caderno da livraria para os meus registros. E volto para pegar minha tão sonhada ecobag (e mais livros).

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Entrar nesta livraria é, de fato, folhear um livro. Os capítulos, quer dizer, os espaços pelos temas, são muito particulares. Com a poesia fechada em um lugar com um simpático portão de ferro, o que provavelmente foi posto para conter os perigos que a poesia pode trazer aos corações desarmados. O local com os livros mais vendidos e populares tem, ao chão, uma espécie de poço com a descrição “alimente escritores famintos”. E ao subir as escadas, cada degrau tem uma palavra que, ao fim, forma uma frase que é capaz de emocionar aquele que está subindo para o segundo andar: “Eu queria poder mostrar a você, quando estiver solitário ou na escuridão, a surpreendente luz de sua própria existência”, de Hafiz (I wish I could show you when you are lonely or in darkness the astonishing light of your own being).

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No segundo andar está a literatura infanto juvenil, com paineis onde o público deixa recados e encontra os colchões para dormir na sala com o piano. Mas o melhor desta livraria está na pequena cabine com uma máquina de escrever: lá você está convidado a deixar algo escrito. A maioria abandona nomes de amigos, bilhetes de metrô, ou no máximo frases de outros autores. Porém, confesso que minha expectativa para esta cabine era imensa e, tremendo de nervosismo, improvisei uma frase em inglês e deixei na máquina de escrever: “O silêncio de um escritor quando ela/ele confronta uma velha máquina de escrever é um novo mundo esperando para ser criado. Respeite o momento de silêncio, é quando as palavras estão tentando dançar” (The silence of a writer when she/he faces an old machine is a new world waiting to be created. Respect the moment of silence, it’s when the words are trying to dance).

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Por fim, há uma pequena sala com uma coleção doada apenas para consulta. Há, mais ou menos uma semana, havia um gatinho branco muito sonolento que povoava a livraria. Infelizmente ele faleceu e deixou as estantes e a poltrona onde aguardava pelo carinho do turista, com os olhos fechados e cansados das leituras matinais do exemplar de Shakespeare que fica na mesa, mais vazios.O mascote vai fazer falta demais.

Visto todo esse cenário, é compreensível que o projeto de George Whitman tenha se tornado inspirador e, como um bom livro, páginas, capas, fachada e paredes não têm limites. E assim como um livro, a Shakespeare and Company sempre será hospitaleira para que seus visitantes se revelem anjos ou leitores em disfarce.

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créditos de imagem: Marina Franconeti

Fonte de pesquisa: Shakespeare and Company

Leia aqui os poemas que os visitantes da Shakespeare and Company escreveram em homenagem a Kitty