O encanto da Shakespeare and Company

IMG_1043

Publicado no site Literatortura

Uma livraria que se espreme para concentrar nela as ideias dos livros, em madeira velha, sustentada por vigas desgastadas e estantes carregadas de livros em inglês na cidade parisiense. Placas e frases dão vida às paredes, indicando pensamentos de autores que acabam por tornar a visita à Shakespeare and Company a entrada em uma espécie de livraria subversiva dos anos 20, uma livraria viva e convidativa aos novos tempos.

O americano George Whitman foi quem a fundou em 1951 com o nome Le Mistral, pois no lugar havia funcionado um mosteiro, La Maison du Mustier, no século XVII. Whitman gostava de fingir que seria aquele que acenderia os lampiões do mosteiro, um papel que interpretava consigo mesmo ao criar a livraria. “Eu a criei como um homem poderia escrever um romance, construindo cada quarto como um capítulo, e eu gosto que as pessoas abram a porta da forma com que abrem um livro, um livro que conduz a um mágico mundo em suas imaginações”. Em 1964, o nome foi mudado pela ocasião dos 400 anos de Shakespeare, honrando uma vendedora chamada Sylvia Beach, a qual ele admirava e que havia inaugurado uma livraria chamada Shakespeare and Company em 1919. A livraria dela havia sido espaço cativo de autores como Hemingway, Joyce, Stein, Fitzgerald, Eliot, Pound, assim como autores franceses. Da Shakespeare and Company atual fazem parte da lista de visitantes Allen Ginsberg, William Burroughs, Anaïs Nin, Richard Wright, William Styron, Julio Cortázar, Henry Miller, William Saroyan, Lawrence Durrell, James Jones e James Baldwin.

IMG_0794

IMG_0797

Durante a Grande Depressão, Whitman viajou para o México apenas com 40 dólares no bolso. Nisso, ele ficou doente em Yucatan e foi recebido e curado pela tribo de maias, o que formou o seu lema, colocado na parede do último andar da livraria: “Não seja inospitaleiro aos estranhos para que não sejam anjos disfarçados”. (Be not inhospitable to strangers lest they be angels in disguise).

Seguindo este lema, a livraria recebe pessoas para dormir nos colchões do segundo andar, entre as estantes e um piano. Desde então, cerca de 30.000 jovens escritores e artistas já estiveram na livraria, incluindo Alan Sillitoe, Robert Stone, Kate Grenville, Sebastian Barry, Ethan Hawke, Jeet Thayil, Darren Aronfsky, Stephen Rea , David Rakoff, e Linda Grant. Shakespeare and Company não nega o sonho de Whitman em tornar o lugar “uma utopia socialista mascarada de livraria”.

IMG_0799

IMG_0800

Em 2002, Whitman passou o cargo de acender os lampiões figurativos da livraria à filha Sylvia. “Cada mosteiro tinha um frère lampier cujo dever era acender as lâmpadas ao anoitecer. Eu tenho feito isso há cinquenta anos. Agora é a vez da minha filha”. E foi Sylvia Whitman quem trouxe diversos festivais e mais novos autores para o cenário da livraria. E em 2011, a livraria lançou o Prêmio Literário Paris, para romances do mundo inteiro. E foi neste mesmo ano que Whitman faleceu, no dia 14 de dezembro, dois dias depois de completar 98 anos, e descansou de uma vida árdua acendendo as luzes encantadoras da Shakespeare and Company. E inspirando novas luzes a serem acesas no mundo das ideias.

Com esta bela história, vale dizer que provavelmente você já viu a livraria figurar nos guias turísticos ou no segundo filme da trilogia de Richard Linklater, Antes do por do sol (Before Sunset), e Meia-Noite em Paris, de Woody Allen. No meu caso, a minha idealização quanto a livraria vem desde a adolescência, quando eu juntei aos sonhos de conhecer Paris o fato de conseguir comprar um livro em inglês e ler. Uma livraria só com literatura em inglês no coração de Paris era o sonho completo, para quem detestava o idioma na adolescência porque cresceu sentindo que nunca chegaria ao ponto de se comunicar, ler e compreender o inglês. Bem, e nem precisa dizer que era impossível imaginar que eu poderia estudar inglês e francês assim que entrasse na graduação. Mas agora posso afirmar que foi com orgulho que comprei entre os livros usados da Shakespeare and Company e comecei a ler The Catcher in the Rye (O apanhador no campo de centeio), de J.D.Salinger, e ainda um caderno da livraria para os meus registros. E volto para pegar minha tão sonhada ecobag (e mais livros).

IMG_0801

Entrar nesta livraria é, de fato, folhear um livro. Os capítulos, quer dizer, os espaços pelos temas, são muito particulares. Com a poesia fechada em um lugar com um simpático portão de ferro, o que provavelmente foi posto para conter os perigos que a poesia pode trazer aos corações desarmados. O local com os livros mais vendidos e populares tem, ao chão, uma espécie de poço com a descrição “alimente escritores famintos”. E ao subir as escadas, cada degrau tem uma palavra que, ao fim, forma uma frase que é capaz de emocionar aquele que está subindo para o segundo andar: “Eu queria poder mostrar a você, quando estiver solitário ou na escuridão, a surpreendente luz de sua própria existência”, de Hafiz (I wish I could show you when you are lonely or in darkness the astonishing light of your own being).

IMG_0820

No segundo andar está a literatura infanto juvenil, com paineis onde o público deixa recados e encontra os colchões para dormir na sala com o piano. Mas o melhor desta livraria está na pequena cabine com uma máquina de escrever: lá você está convidado a deixar algo escrito. A maioria abandona nomes de amigos, bilhetes de metrô, ou no máximo frases de outros autores. Porém, confesso que minha expectativa para esta cabine era imensa e, tremendo de nervosismo, improvisei uma frase em inglês e deixei na máquina de escrever: “O silêncio de um escritor quando ela/ele confronta uma velha máquina de escrever é um novo mundo esperando para ser criado. Respeite o momento de silêncio, é quando as palavras estão tentando dançar” (The silence of a writer when she/he faces an old machine is a new world waiting to be created. Respect the moment of silence, it’s when the words are trying to dance).

IMG_0803

Por fim, há uma pequena sala com uma coleção doada apenas para consulta. Há, mais ou menos uma semana, havia um gatinho branco muito sonolento que povoava a livraria. Infelizmente ele faleceu e deixou as estantes e a poltrona onde aguardava pelo carinho do turista, com os olhos fechados e cansados das leituras matinais do exemplar de Shakespeare que fica na mesa, mais vazios.O mascote vai fazer falta demais.

Visto todo esse cenário, é compreensível que o projeto de George Whitman tenha se tornado inspirador e, como um bom livro, páginas, capas, fachada e paredes não têm limites. E assim como um livro, a Shakespeare and Company sempre será hospitaleira para que seus visitantes se revelem anjos ou leitores em disfarce.

IMG_0818

IMG_0806IMG_0808

IMG_0819IMG_0807

IMG_0811

créditos de imagem: Marina Franconeti

Fonte de pesquisa: Shakespeare and Company

Leia aqui os poemas que os visitantes da Shakespeare and Company escreveram em homenagem a Kitty

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s