O tempo em Proust e De volta para o futuro

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Publicado no site Literatortura

O tempo transcorre entre a vivência e o relógio. E quando um filme, como De volta para o futuro, é celebrado por finalmente chegarmos ao tempo explorado pelo filme, a sua relativização soa mais próxima. No dia 21 de outubro de 2015, Marty McFly (Michel J.Fox) chega neste que era um futuro muito distante, idealizado entre os avanços tecnológicos como TVs planas, holograma, tênis que amarra sozinho,roupas metalizadas, e o hoverboard, um skate voador. Hoje já é dia 22 e o futuro de Marty McFly acaba de virar passado para aqueles que o vivenciam, de fato. Mas será que realmente é passado?

A nossa relação com o tempo é alimentada mais pelas vivências do que pelo mero passo do relógio. A própria narrativa do filme De volta para o futuro nos apresenta isso. Hill Valley se situa nos anos 50, em 2015 e no Velho Oeste. Nessas versões da cidade, o que muda é a atmosfera e o dilema do tempo é revisitado. Marty possui a responsabilidade de reconstruir o contato entre o pai e a mãe, salvar os próprios filhos de uma ação sua que teve consequências no futuro, e salvar Doc Brown, esta figura que o inicia às linhas temporais. Doc serve como contato de Marty às dúvidas sobre o tempo e, mais ainda, o direciona às questões mais profundas sobre a existência humana. E a ousadia de pensar a nossa relação com o tempo além da rotina que se repete sem qualquer apropriação dela.

O que é curioso na construção do filme é notar que, apesar da constante entre personagens e situações similares, a linha temporal é outra. Mesmo se Marty busca, como nós, superar a própria existência física – seja superando a vida adolescente, seja compreendendo o que causou a sua desgraça no futuro tentando modificá-lo -, ele o faz entre elementos que retomam os outros. E o tempo é assim, com um ineditismo relativo, pois a nossa vivência carrega-se por um manto de lembranças que se misturam ao passado e, quando retomado pela memória, vira um presente que se fortifica pela epifania deste passado que se revela sob outro viés. E, mesmo assim, a sensação com aquele instante nunca será vivido da mesma forma, mais uma vez. Ao contrário da ficção científica, o modo com que reescrevemos o passado não consiste em literalmente retomá-lo. É exigido um gesto mais poético e gesto este de sobrevivente: viver o tempo com um olhar aberto às complexidades que o envolve.

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Embora o tempo reserve um segredo, há algo de verdade na vivência retomada. Para pensar sobre este ponto, é possível pegar emprestada uma passagem de À sombra das raparigas em flor, de Marcel Proust (À l’ombre des jeunes filles em fleurs, Folio Classique, p.196-197). O narrador aborda a relação com a figura que idealizamos das pessoas que amamos. Nossa ideia sobre ela é otimista, mas não de suas lembranças particulares. Diante disso, porém, essa ideia reside em tais fragmentos, portando uma pulsante formulação que se contrasta, de certa forma, com aquela visão habitual da pessoa. Isto é, a sua imagem se compõe de maneira complexa por meio das várias perspectivas com que nos apropriamos dela. E é o tempo que possibilita fazê-lo.

Segundo o narrador de À sombra das raparigas em flor, “a imagem de nossa amiga que nós acreditamos antiga, autêntica, foi na realidade refeita por nós muitas vezes. A lembrança crua, ela, não é contemporânea desta imagem restaurada, ela é de outra idade, é um dos raros testemunhos de um monstruoso passado. Mas como este passado continua a existir, exceto o fato de que nós tendemos a substituí-lo como uma maravilhosa era de ouro, um paraíso onde todo o mundo será reconciliado, essas lembranças, essas cartas são um apelo à realidade e deveriam nos fazer sentir pelo terrível mal que eles nos fazem, quanto nós somos iludidos por ela nessas loucas esperanças de nossa expectativa cotidiana”.

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Em O Fabuloso destino de Amélie Poulain, o souvenir é a caixa que retoma a infância

Diante disso, exigimos do tempo passado uma imagem incompatível. E o mesmo sobre o futuro, pois logo ele é dissecado como ilusão e se torna mais uma era de ouro, porém, distante. A lembrança, o souvenir, é inacessível como essência, pois ele sempre soa como um sonho distante. O que ocorre é que ele seria monstruoso sem o mundano e essa nossa apropriação do fato. Por isso, o souvenir tem lá a sua essência, não é obtida, porém, integralmente, mas não deixa de possuí-la pelo fato de que é um souvenir que exige a nossa participação.

Portanto, Marty McFly encontra nos anos 50 problemas semelhantes aos que terá no futuro. Pois nenhuma dessas eras é a mais justa perfeição do instante. Quando McFly crê que retornou para 26 de outubro de 1985 e descobre que não é, de fato, o seu presente, mas sim uma versão alternativa, encontra a cidade de Hill Valley prestes a desaparecer do mapa, imperfeita, caótica e corrompida. A relação do personagem com a cidade permeia o desejo de, por fim, voltar ao presente e não mais restituir as linhas temporais. E sem deixar de lado a curiosidade de encontrar a essência de um tempo perfeito. Os objetos que indicam o posicionamento no tempo, ao longo da narrativa, se tornam totens esvaziados, o que é irônico, pois em vez de recuperarem o passado, eles existem como indicativo de uma era perdida para aquele que viaja a bordo do DeLorean e são apenas sinais dos tempos. Deixam de possuir o valor de objeto existente em sua época ou que fala dela. O almanaque 1950-2000 está no antiquário de 2015, o skate é logo substituído pelo hoverboard, e a cidade ganha novas possibilidades, como uma ficção.

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Assim, o mundo que compõe De volta para o futuro fala muito mais sobre o caos hipotético na ânsia por mudar o passado e, ao mesmo tempo, idealizá-lo como perfeito em seu presente, ou sonhar com um futuro que, quando alcançado, é tão caótico quanto antes. O que o altera é a participação do sujeito, e isso o conselho de Doc fecha bem toda a história e a iniciação à vida adulta de Marty McFly, “Seu futuro é o que você quiser dele, então faça com que ele seja ótimo”. A torre do relógio em Hill Valley pode até ser uma constante em nossa vida. Mas o passado não pode ser reescrito por completo, e só passa a ser pulsante, vívido, mediante a ação humana, a construção do futuro pelo rememorar. Assim, é impossível esquecermos que há um DeLorean atrás de um outdoor, pronto para uma viagem. Haverá sempre mais uma ficção a se agrupar às nossas recriações. E, ao contê-las nas mãos, guardamos uma breve parcela do segredo deste tempo, o qual acaba por nos levar, sempre, de volta a um passado futuro.

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