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Ambrosia

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Procurei pelos mercados

Entre plásticos, pessoas e potes

Os vestígios de sabores perdidos

Da boca que prova o passado

E o devora guardando

No mais interior profundo

As memórias digeridas.

Elas aguardam,

Para em choque retornar

Na forma de cereja vermelha

Que minha mãe segura entre as mãos.

Juntas escolhemos,

Em busca infantil,

Em comunhão de mãos que pesquisam

A pequena ambrosia

Em vinho lustrado.

Como dói ver aquelas vermelhas

Quase pretas,

Ostensivas em suco e doçura.

Os dedos cavam entre as manchas

Na busca das mais maduras

Mas o caminho mistura os dedos,

Em carne e vermelho

E eis que se convocam as memórias

De infanta vontade

De provar a pequenina.

A preciosa cereja,

Que antes era breve frutinha,

Mas que agora ganha ares

De grande simbologia,

De uma comunhão guardada pelo tempo

Grandioso e atemporal.

De cereja que veste o Natal

Em vinho resplandecente

Que compõe, ao fim,

O grande pavilhão brilhante

De minhas memórias, vivas, enfim.

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Em valsa eu avanço

la valse camille claudel 1

Meu blog completou 6 anos em novembro e, com toda a correria, eu esqueci. Orgulho deste espacinho que cultivo desde os 16 anos. Então aqui está meu poema Em valsa eu avanço. Escrevi nos dias posteriores ao atentado em Paris e encontrei algum abrigo ao escrevê-lo. Mas ontem, quando o reli, acabou se encaixando perfeitamente com a figura da escultura La valse, de Camille Claudel. Acho que a poesia é esta morada das nossas mais diversas sensações.

Em valsa eu avanço,

Presa em tecidos

Quero voltar,

E me desfazer,

Só para te dizer

Em choros

Que os lenços vêm

Em papel unido

Para em ti,

Sobreviver.

Tocam a face,

Misturam-se à pérola

Aos pós encharcados

De olhos cansados.

Que avançam

E recuam,

Num compasso sem fim.

Em cílios molhados

Para uma dança

Que a vida impede

De parar.

Os passos desferem

Golpes ao chão

Para penetrar

O desespero atroz

Deixado no vão,

De lágrimas

De outrora.

Quando cidadãos

Ao chão se dirigem

Sem mais vida

Que bate em sustenido,

Resta a sobrevivência

Desses passos sombrios

Que valsam

Desequilibrados.

Um espetáculo

Que corre

Nos mais internos rios.

As águas de tenebrosas

Correntes humanas

Inundam o pavimento

E gotas poderosas, essas,

Ah, empurram-me!

Para mais uma dança

Que se segura

Numa existência

Que resiste ao esquecimento.

La_Valse

***Imagens: La valse (A valsa) – Camille Claudel