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Oscar 2016 | O quarto de Jack

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Indicado a quatro categorias: Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor atriz (Brie Larson), Melhor roteiro adaptado (Emma Donoghue)

Ao olhar a claraboia no teto, o mundo exterior parece adormecido e, as imagens dadas pela TV, soam como as verdadeiras imagens do mundo. Pode até ser que tudo o que existe é apenas aquele quarto. Como um mundo particular, é assim também que se funda a relação entre uma mãe e um filho. Os dias repetidos em manhãs de pães e frutas cortadas, café passado e leite com cereal, almoço feito incansavelmente todos os dias, a tarde preguiçosa e a atenção às brincadeiras, para o encanto esmorecer à noite, quando parece que o mundo exterior invade as fissuras da parede e revela as ilusões. A partir do momento em que isso ocorre apenas dentro de um quarto, e uma das partes se encontra em uma situação de abuso, é muito mais complexo.

Esta é a história de O quarto de Jack, dirigido por Lenny Abrahamson. Jack e sua mãe Joy vivem em um quarto feito por uma pia, um guarda-roupa onde o menino dorme, a cama que dividem juntos, uma pequena cozinha e uma televisão. O filme, de início, parece assumir literalmente a metáfora da relação entre mãe e filho: os dias que a mãe passa em casa, neste mundo que funda junto às descobertas do filho, o amor e compaixão em cuidar desta pequena vida e as complexidades do papel que assume socialmente, e os que deixa para trás quando assume esta função. Ou seja, aceitamos este teor fantástico de O quarto de Jack, pois identificamos bem o real sobre o qual ele fala, sabemos que a vida doméstica pode ser um confinamento, mesmo que a mãe ame seu filho. Contudo, logo o filme revela que aquele quarto é uma situação literal de confinamento, que não é apenas a falta de ar que sentimos pelo cotidiano da personagem: Joy foi sequestrada e o seu filho é fruto desta relação abusiva que perdura há anos.

Por entre a delicadeza da história narrada por Jack, esta criança de cinco anos que se encontra descobrindo o pequeno mundo em seu quarto, e as pressões reais em que Joy se encontra, o filme O quarto de Jack se estabelece com perfeição. O trabalho entre a melancolia e o choque de conceber que a fantasia infantil se esvai quando nós, espectadores, nos deparamos com os fatos, mostra que somos Jack por um instante para, depois, assumirmos o lado de Joy. Este novo passo no enredo transforma o que seria um filme doce em um belo retrato sobre toda a complexidade da figura materna.

Enquanto sociedade, exigimos dela todo o comprometimento e responsabilidade com a educação da criança. Mesmo quando existe a figura ausente de um pai abusivo, figura que, no caso, deveria ser a única criticada quando se questiona o futuro de Jack. Não é esta ausência que se mostra mais forte em sua educação, deixando marcas? Pois com todo o esforço heroico materno, Jack é capaz de transferir as correspondências deste pequeno mundo que funda com ela, para a complexidade da esfera pública.

Com a excelente atuação de Brie Larson, como Joy, e o novato Jacob Tremlay, interpretando com maestria Jack, o filme se engrandece por uma troca íntima entre os dois personagens, numa presença e jogo de atuações teatrais, pois o quarto recebe a presença aprofundada destas duas figuras que, rapidamente, se tornam próximos dos espectadores como se estivessem em um palco expondo seu cotidiano. As dores são, assim, compartilhadas, e O quarto de Jack faz pensar e muito acerca de nossa postura como filhos e como pais.

O grande mérito do filme é demonstrar que Jack não é o protagonista. Como toda herança educativa, para que esta criança seja protagonista em um mundo público, ele será protegido, cuidado e educado pela família. Acompanhamos o processo de crescimento do garoto, e principalmente, o de sua mãe. A força que existe em Jack vem da mãe, mas pode-se falar que é mútua. É uma força que nasce entre eles no mesmo quarto, no mesmo instante. No fim das contas, não é Sansão a figura heroica de Jack, nem o cãozinho Lucky que idealiza ter um dia. É a força que vem da mãe que, com sinceridade, não deixa de demonstrar quando vai desabar e precisa dele.

Neste jogo acertado das sensações, O quarto de Jack apresenta a beleza do mundo nos detalhes descobertos pelo olhar da criança, a forma com que o crescimento desta se dá em face do mundo. E o quanto o heroísmo materno é uma preciosidade que nasce em circunstâncias impossíveis. Seria de direito de Joy não ter este filho. Mas a partir do momento em que se encontra enclausurada, Jack acaba por ser seu igual, com quem precisa criar um mundo para sobreviver. Neste jogo humano, o filme não exalta a maternidade como necessária e exigida para que uma mulher seja feliz, afinal, ainda assim, Joy teve um histórico de abuso e isso nunca pode ser esquecido.

Desta forma, O quarto de Jack assume admiravelmente, as dificuldades que, por vezes, muitos filmes comerciais optam por ocultar. Fala das diversas faces da depressão, da maternidade, do horror de uma sociedade que culpabiliza a mãe. E o filme trata dessas temáticas com a melancolia exata, a qual consegue não resumir facilmente essas situações em desfechos solares, e nem ignorar a beleza heroica do relacionamento entre Joy e Jack. Portanto, assistir ao filme O quarto de Jack é conseguir chegar até a claraboia, ver os detalhes do mundo, mas compreender ainda mais as fissuras do nosso quarto. O olhar é, assim, aberto para o outro que reside conosco neste quarto, e a ligação misteriosa construída em vida nos inúmeros dias com nossas mães.

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Oscar 2016 | A garota dinamarquesa

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Indicado a quatro categorias: Melhor Ator (Eddie Redmayne), Melhor atriz coadjuvante (Alicia Vikander), Melhor Figurino, Melhor Design de Produção

Foi no corpo do pintor de paisagens Einar Mogens que Lili Elbe nasceu. Mas apenas revelou-se existir desde sempre quando o pintor começa a posar para os quadros da esposa Gerda quando as modelos estavam ausentes. Esta é a história do filme dirigido por Tom Hooper (O Discurso do Rei), adaptação de um romance inspirado na vida das pintoras dinamarquesas Lili Elbe e Gerda Wegener.

O filme apresenta a descoberta da independência de duas mulheres. Gerda deseja ser artista reconhecida e vive a dificuldade de estar à sombra do marido, pintor de paisagens admirado entre os salons. Ela é determinada e busca no universo do ballet e no feminino a inspiração para seus quadros. E é, então, em um destes momentos que Einar se encontra também, ao tocar os tecidos, colocar as meias de seda e o sapato, encantando-se pelo gesto feminino com o qual ele se identificava. Ambos resolvem, então, criar esta personagem chamada Lili apenas como brincadeira. Contudo, Lili sempre existiu e Einar a negava. O que acompanhamos, então, é a tentativa de Einar em assumir-se como Lili e as implicações em seu casamento com Gerda.

O curioso é constatar que o filme não explora exatamente o histórico de Einar. Por vezes, de início, parece simplificar um pouco e se arriscar em reduzir Lili em uma escolha despertada apenas pela sedução de tecidos. Contudo, felizmente, a atuação de Eddie Redmayne aprofunda a personagem. Se o ator surpreendeu pela exatidão de gestos ao interpretar o físico Stephen Hawking em Teoria de Tudo, apesar de estar em um filme que não correspondeu tanto a excelência de sua atuação, em A Garota Dinamarquesa Eddie Redmayne convence quem tinha receio que fosse apenas um nome que Hollywood exaltou na época do Oscar. A impressão inicial, dada pelo trailer, é que não havia muito a que se contar no filme e que o risco era apresentar um filme fraco que se sustentasse apenas na necessidade de ser premiado por contar com um nome de peso e uma cinebiografia que é, naturalmente, admirada pela premiação.

Há também o problema de representatividade da comunidade trans. Sabemos que, infelizmente, não se contrata uma atriz transexual para interpretar o papel e o quanto isso indica a dificuldade de povoar uma indústria que exclui e é heteronormativa e branca. Tanto que o Oscar 2016 já começou com a polêmica de não ter nenhum ator negro indicado.

Visto isso, porém, a atuação de Eddie Redmayne é delicada em sua proposta e é claro o respeito pela sua caracterização. Lili encontra apoio nos objetos que circundam o universo dito feminino porque, no fim das contas, ela não se sente uma personagem como Lili. Os objetos acabam por permitir que se sinta livre, como Lili. O personagem, na verdade, o qual ela precisa sempre interpretar aos outros, é Einar. O terno já não é mais confortável em seu corpo. E muito menos o seu corpo. O incômodo em existir de tal forma, sem corresponder aos seus desejos e à identidade de seu próprio corpo, é um ponto extremamente bem desenvolvido na trama.

O filme erra de alguma forma quando busca simplificar as duas personagens como se fossem opostas, Lili em sua identidade como se fosse o puro feminino – a imagem da mulher que se veste com todos os adornos ditos femininos -, enquanto Gerda tem gestos abertos, mais duros e ousados, que seriam vistos à época como masculinizados. O que faz do filme A garota dinamarquesa, porém, é a atuação de Eddie Redmayne e Alicia Vikander. É o comprometimento de ambos na criação destas duas personagens que transforma o filme em um belo e emocionante espetáculo sobre a força de duas mulheres.

Durante o filme, é possível imergir no universo dessas duas personagens e compreender a dificuldade de Gerda em lidar com as mudanças do marido e o amor que dedica a Lili. No fim das contas, o filme reforça também a amizade entre mulheres, uma sororidade que funciona como a força que Lili precisa para ser a primeira transexual a tentar a cirurgia de mudança de sexo.

Ademais, a fotografia e figurino são de beleza extrema. Vemos a Copenhagen feita por canais e reflexos d’água encantadores – e não é à toa que fascinou o olhar de Einar como pintor -, e o universo feminino dos anos 20 construído em torno das duas personagens por meio de objetos, roupas, luvas, pele e tecidos que, somados, exercem a força de reconstruir uma época perdida.

Contudo, a direção de Tom Hooper é um caso à parte. O diretor, já interessado em dirigir filmes de época, peca em Os Miseráveis pela excessiva preocupação em dar conta de todas as músicas, criando um espetáculo visando apenas o diferente (como exigir que os atores cantassem em cena), deixando de lado a grandiosidade do próprio livro clássico e se esquece de situá-lo dignamente no século XIX. E em O Discurso do Rei sua direção é um tanto repetitiva e não se abre às possibilidades de grande desenvolvimento na história de seus personagens, optando em abordá-lo apenas por um viés cômico.

Embora Hooper tenha este histórico, A Garota Dinamarquesa é mais bem-sucedido. O diretor se preocupa em dar vida à cidade que é cenário importante, por meio da excelente fotografia, e situa bem os anos 20 pela estética da época. Mesmo assim, pode ser considerado mais um filme biográfico que adapta livremente a história de duas pessoas. Sem dúvida o filme só se amplia graças às atuações de Eddie Redmayne e Alicia Vikander. As cenas de nudez são belamente construídas, e há certa coragem na maneira com que o filme é conduzido neste ponto. Porém, ainda não é o suficiente. O roteiro deixa de trazer mais ao filme a complexidade que era a cirurgia de mudança de sexo, de expor mais situações às quais estas personagens se encontravam, de fato. Por conta desta necessidade de simplificar Gerda e Lili, deixam de mencionar o erotismo corajoso das obras da pintora Gerda Wegener e o fato de que Lili passou por cinco cirurgias numa tentativa de também construir o aparelho reprodutor feminino. Assim, o filme perde a chance de falar mais pela comunidade trans e toda a marginalidade social ainda enfrentada, além de apresentar mais sobre a vida das duas.

No fim, o que dá dignidade ao filme A Garota Dinamarquesa é ainda a beleza estética de sua produção e a riqueza na atuação de Eddie Redmayne e Alicia Vikander, que humanizam suas personagens e é o responsável por emocionar diante do filme. Tal trabalho torna o filme em um grande drama que, pelo menos, introduz o interesse por duas figuras históricas que merecem ser reconhecidas pelo grande público, Lili Elbe e Gerda Wegener.

Se quiser conhecer o trabalho da pintora Gerda Wegener, o site Nota Terapia fez um ótimo post a respeito, aqui.

Há também o depoimento concedido pela cartunista Laerte ao site UOL, aqui

E o romance que originou o filme foi escrito por David Ebershoff, editora Fábrica 231.