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O pintassilgo, de Donna Tartt

O pintassilgo, de Donna Tartt

Companhia das Letras, 719 páginas

 capa pintassilgo

O pintassilgo, escrito por Donna Tartt, é um livro de fôlego. Vencedor do prêmio Pulitzer em 2014, a obra de Tartt tem ares de épico na proposta de perpassar a infância de Theodore Decker, desde seus 13 anos até a fase adulta em cinco partes. O dia soava como normal, tirando o fato de estar suspenso da escola, e a chuva leva Theo e sua mãe, por acaso, ao museu. O enredo se passa em Nova York e o museu narrado tem a atmosfera do Metropolitan Museum of Art. É diante do quadro O pintassilgo, de Carel Fabritius (1654), que a vida de Theo se altera drasticamente. É com um atentado ao museu e a perda pela morte que sua vida dá a primeira das várias viradas de enredo, e logo Theo se vê com o quadro roubado em suas mãos.

É válido dizer que se deve evitar ler a orelha da edição da Companhia das Letras, pois ela revela os detalhes de cada uma das fases de Theo. E você não irá querer saber, pois o encanto do livro está em viver cada instante com este personagem instável que vai afundando cada vez mais na decadência. Há uma beleza na permissividade livre na sua adolescência compartilhada com o amigo Boris. Este amigo é a figura da marginalidade dos ultrarromânticos e dos punks, dos andarilhos que povoam o mundo sem um lugar fixo: Boris é um viajante desde pequeno, pois se mudou com a família de país em país, e suas falas carregam a experiência de um adolescente envelhecido pela catástrofe da vida, mas com um otimismo mesclado ao decadente que deseja gritar para sobreviver. Boris nunca perde o humor e a piada, enquanto Theo é a parte destrutiva da catástrofe. Theo aceita o que a vida fez de si mesmo. A amizade dos dois é tão épica e substancial quanto a profundidade do que Theo narra nas setecentas páginas da obra.

Pode-se dizer que O pintassilgo bebe na fonte de inúmeros autores grandiosos como Dickens, Dostoiévski. Mas é Proust que ecoa, em certa medida, na maneira com que Tartt assume cada detalhe da vida de Theo, sensações diante dos mais breves objetos e vivências que encaminham justamente para o mais grandioso, o sublime. Theo é este furacão tóxico que contamina o leitor. É possível que se queira sacudir e tentar acordar Theo para que ele siga outro caminho. Mas há algo de muito belo na maneira com que estamos juntos com o garoto. Ele passa pela lama, deixa-se contaminar por ela, e vamos juntos. Caímos com ele nos carpetes e na piscina de Las Vegas, entramos mais ainda em seu vício, na vida inconstante e sem sentido. Mas o pequeno pássaro, o pintassilgo, nos serve como a trêmula luz de vela que não ilumina o quarto por inteiro. Mas que é suficiente para transbordar os olhos de beleza e continuar vivendo.

De início, é possível se questionar qual é o grande valor desta pintura, O pintassilgo, no enredo de Theo. Contudo, a autora conclui a obra expondo a grande verdade sobre ele. E de uma maneira belíssima, que amarra o sentido na vida de Theo, sentido este que só o Theo adulto e maduro poderia, finamente, compreender. Nós, como acompanhantes do Theo adolescente, vimos sua vida pela perspectiva do jovem, para depois nos inserirmos em mais uma de suas versões. A vida do personagem é uma verborragia que, por vezes, pode levar o leitor à melancolia e às sensações de estar afundando junto a ele entre os desertos de Las Vegas. É o quadro que nos ilumina neste desespero, e o grande mérito da autora é transcender este campo da ficção e provocar as sensações de seu narrador entre os leitores.

A escrita de Tartt é envolvente, sofisticada na medida certa, e conta com uma fluidez e realismo certeiros entre os diálogos. Certamente a tradução para o português também é muito sensata ao traduzir as gírias, os palavrões e o coloquialismo, o que faz com que o leitor saiba como admirar, ao mesmo tempo, estas falas tão cotidianas, até os termos mais aprofundados em história da arte. Em nenhum momento a sua escrita se falsifica. Theo, de fato, parece existir: temos um quadro rico da beleza de sua mãe, da presença encantadora de Pippa, o trabalho majestoso de Hobbie em reconstruir mobílias antigas, e a presença forte e hipnotizante do amigo Boris.

É possível afirmar, também, que durante a leitura da obra, o poema O pássaro azul, de Charles Bukowski faz sentido para entender o quanto vale o pintassilgo para o garoto. Este é um pássaro pequeno que Theo oculta do mundo, não apenas enquanto obra roubada do museu, mas como parte dele mesmo, este garoto que não segue em frente otimista como as pessoas querem que siga após a sua grande perda. Ele não segue em superações superficiais de enredos hollywoodianos, ele segue à sua maneira. Tal como o pintassilgo preso por uma corrente, Theo resiste, de alguma forma, na destruição. É apenas à noite, escondido de todos, que Theo se deixa ver este pássaro que não pode cantar para que os outros saibam que está lá, um pássaro que ele tenta afundar constantemente entre os vícios.

O pintassilgo é como a figura materna de Theo, a doçura de uma divindade com a qual ele teve a sorte de conviver, que inspira a sobreviver de qualquer forma. Os olhos um tanto selvagens da mãe, como o narrador descreve, têm a delicadeza também por trás deles, de uma existência que envolve o selvagem como a responsável por tranquilizar o inconstante. Tal como o pintassilgo que repousa com dignidade, apesar da corrente que prende seu lado silvestre. Theo é assim também, o seu amor pelo belo que se encontra oculto na vida é o que o faz permanecer forte, mesmo em meio a destruição.

Se no decorrer da leitura pensamos que Theo cada vez mais se assemelha ao pai em suas escolhas erradas, a mãe permanece como a aura do pintassilgo. E, ao mesmo tempo, aceitamos esta complexidade da personalidade de Theo, uma mistura de ambos e ele mesmo. No fim, temos com a obra O pintassilgo todo um caminho tóxico, profundo, mas belo em seu desespero, ao constatar que a arte é a única maneira de resistirmos às catástrofes da vida. Resistir entre a lama amando justamente as imagens e as sensações que se tornam eternas. Ou como o narrador afirma, no fim “é uma glória e um privilégio amar o que a Morte não toca”. Amar a arte e a literatura é salvar tanto a obra quanto os homens da perdição. Assim, a obra de Tartt consegue algo ainda mais admirável: dar novo significado e apresentar O pintassilgo para novos olhares que precisam resistir também às vicissitudes da vida.

O quadro O pintassilgo, de Carel Fabritius (1654) é acervo permanente do museu Mauritshuis, na cidade de Haia (The Hague), na Holanda.

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Cité

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Se pudesse deixar em seu chão

Parte de minha pele, suor,

Sangue e ossos,

Deixaria aqui meu corpo,

Para repousar, enfim,

Toda vez que a rotina mata esperança.

Na lembrança que você arrasta,

Pelas suas cores, formas e gostos,

Assim, fundaria, meu paraíso mental.

Cidade cheia de morte renascida,

Eu deixaria, em cada canto,

Um pedaço de meu olhar fraternal,

Se pudesse dividi-lo entre os famintos do mundo,

Tão desesperados quanto eu.

Pegariam meu olhar deixado por aí.

Como não posso fazer tal coisa,

Eu escrevo, eu fotografo.

Para os sedentos

De amor, poesia e companhia.

Guardo o sal dos olhos nas águas já vistas,

Deixo cair entre as folhas da escada,

A sombra do chão,

Sinal do sol que fecha os olhos em concreto.

O repouso eterno de tais figuras

Que nunca vão morrer

Pela aquela foto-olhar sem fim.

Você é cidade que vive sem mim,

Mas se alimenta por um manto de humanos,

De mãos, olhos e gostos mundanos

Que provam você,

A todo instante dos séculos,

Cité.

 

Si je pouvais laisser au sol

Une partie de ma peau, sueur,

Sang e mes os

Je laisserais là mon corps

Pour me reposer enfin

À chaque fois que l’espoir était morte par la routine.

Le souvenir qui vous emmenez

Par vos coulers, formes et goûs

Ainsi, je construis un paradis mentale.

Cité pleine de mort renée

J’abandonnerais, à chaque coin,

Un peu de mon regard fraternel.

Si je pouvais le partager avec les avides

Si désespérés que moi,

Ils prendraient mon regard qui je les lui laisserais par la cité.

Mais comme cela c’est impossible

J’écris, je photographie.

Pour ceux qui ont soif

D’amour, de poésie et de communion.

Je garde le sel de mes yeux dans les eaux déjà vues.

Je les laisse tomber entre les feuilles d’escalier,

L’ombre au sol,

Signal du soleil qui ferme les yeux dans les rues.

Le repos eternel de ces figures

Pour cette photo-là d’un regard sans fin.

Vous êtes la ville qui existe sans moi,

Mais celle qui absorbe la vie

Par un manteau d’humaines,

Des mains, des yeux et des goûts

Qui vous goûtent

À tout le temps dans les siècles,

Cité.

 

Revisão/révisé par: Débora Becker

créditos de imagem/crédits d’image: Marina Franconeti

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Bebida consagrada

Hoje é o dia internacional da poesia! Deixo, então, aqui um poema que nasceu nos jardins de Renoir, em Montmartre, em um calor que colocava o inferno ao lado da Basílica de Sacré Coeur, mas que foi um dia mundano abençoado pelos sinos da basílica e um suco muito bem-vindo. As imagens são do jardim de Renoir, no Musée Montmartre, e um céu amarelo em pleno inverno.

 

A beleza é o belo no gole

Que se demora

Em um tempo interno,

Tempo que não se consome,

Que suspira, vai embora

E fica em gosto, timbrado de outrora.

Depois do gole, o gosto único

De provar o instante em amarelo,

Com os sinos abençoando

O instante eterno.

Deixe que o copo derrame,

Pouco a pouco,

De suas mãos

O amarelo do suco

Que antes era só suco.

Mas nas suas mãos

Ganha ar de puro ouro

Consagrado pelos céus

Após um calor infernal.

Um amarelo que vem doce, no verão,

Como que capaz de tocar o rosto

Com a crueldade dos anjos.

Ah, vocês verão,

Pintar no céu um dourado resistente

De gosto invernal.

Como que surpresa da vida contínua.

Íntegra doçura que ainda se guarda

Ah, tal bebida ambígua,

Em gesto mundano

O mundo modifica.

Calor na negatividade dos ventos.

Se antes a tarde

Era feita de calor,

Suor e estupor,

Agora em festio virou

A mais célebre canção

Sussurrada nos meus dias

De inverno seco,

Esperança no chão.

E os sinos,

Que só tocam em vida sagrada,

De uma torre regrada,

Abençoam sua vida

De bebida dourada,

Em forma da mais pura poesia

Digna liquidez em ambrosia.

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créditos de imagem: Marina Franconeti

 

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oscar

Na noite de domingo (28), ocorreu mais uma cerimônia do Oscar, desta vez uma das mais aguardadas. Por entre memes e discussões em redes sociais, expectativas que duram anos, o que mais se falava era se Leonardo DiCaprio levaria a mais do que merecida estatueta como Melhor ator, pelo filme O Regresso. Também, após o anúncio dos indicados, constatou-se que a Academia não havia indicado nenhum negro nas categorias pelo segundo ano consecutivo, o que acendeu as discussões acerca do já evidente elitismo da premiação e da indústria cinematográfica.

Não é de hoje que a premiação tem seus favoritos e se repete em suas próprias fórmulas que produzem o que consideram um bom filme, um bom ator, um bom desempenho. Cinebiografias, por exemplo, são admiráveis, mas por vezes a Academia fecha os olhos para atuações de personagens extremamente bem criados porque assegura, ainda, que interpretar alguém que já existiu é a máxima demonstração de competência. O que é irônico, pois muitas das cinebiografias acabam por serem adaptações que deixam de lado fatos realmente relevantes das pessoas que homenageiam.

Também já pudemos ver como a Academia é restrita para mulheres. Foi apenas com Guerra ao Terror que uma diretora ganhou um Oscar na categoria, e até então só houve quatro indicações de mulheres na categoria. Em 2016, somente 22% das indicadas são mulheres. E a este ponto chegamos à ausência de negros este ano, da premiação. Muito foi dito, em comentários pelas redes sociais, de que “se o ator é bom, vai ser premiado por isso e acabou”. O ponto é que não se trata de meritocracia, no Oscar, e sim, nas palavras da Viola Davis, que muitas vezes já representou a causa em seus discursos ao ganhar o Oscar como Melhor atriz ou outras premiações, “é questão de oportunidades”. Quando é que se cria papéis grandiosos para atores negros? Normalmente o espaço é secundário e, mesmo que se alerte sobre a história de escravidão – e é importante que se faça filmes como 12 anos de escravidão, entre outros -, a América ainda premia e dá espaço apenas para filmes do gênero. Não é à toa que um filme grandioso como Selma, no ano passado, teve pouca divulgação e parece ter sido esquecido, apesar de ser um filme fiel à história de Martin Luther King. Talvez, justamente, por apresentar as várias manifestações e violência policial sofrida por negros que representaram os ideais de liberdade junto a Luther King.

Com isso, é possível pensar em como foi encaminhada a apresentação da cerimônia. O ator e comediante Chris Rock começou muito bem apontando, com muita sagacidade, que o que falta são as oportunidades, que um ator como DiCaprio tem ótimos papéis todo ano, mas o mesmo não ocorre com colegas de trabalho negros. Ele afirmou, ainda, que boicotar a premiação não seria suficiente, mais vale estar lá até mesmo para que se possa falar a respeito.

Com humor, ele mostrou até como seria o esforço de encaixar atores negros de maneiras inusitadas em cenas dos filmes indicados, para que, pelo menos, aparecessem de alguma forma. O início de sua apresentação foi muito bem acertada, contudo, houve momentos de deslizes em que o ator não soube ver que, ao mesmo tempo em que clama por direitos de um grupo evidentemente excluído, ironizava tantos outros, como a crítica válida, de muitas atrizes, ao fato de que no tapete vermelho só pedem para saber o que vestem, ou ainda expor crianças em uma piadinha sobre a comunidade oriental. Assim, o tom de humor foi perdendo o rumo e a sensação foi de que a cerimônia optou por esgotar o roteiro de piadas usando o próprio Chris Rock para tornar tudo aquilo em um espetáculo passageiro. De início, o comediante falou muito bem e sua posição foi forte e admirável. Mas, aos poucos, passou a ter o incômodo de notar que a Academia havia se apropriado do discurso do oprimido, esgotando a sua crítica.

Os filmes premiados

Quanto às categorias, a premiação foi, em grande maioria, justa.  Spotlight iniciou a noite ganhando em Melhor roteiro original, o que indica que o forte do filme foi justamente a sua temática. Baseado em toda a investigação feita pela equipe de jornalistas em Boston que chegou, com muito custo, à conclusão de que mais de 80 padres estavam envolvidos em abusos de crianças. Um filme que, sem dúvida, impulsiona o fascínio pelo jornalismo investigativo, trabalho admirável que se perde entre uma grande imprensa que valoriza, cada vez mais, a efemeridade das redes sociais e a notícia como veiculação de entretenimento. A categoria também teve a surpresa de indicar Divertida mente, animação da Pixar, o que mostra que o filme conseguiu ultrapassar a própria categoria.

Mark Rylance, Brie Larson, Leonardo DiCaprio and Alicia Vikander with their Oscars

Em roteiro adaptado, foi A grande aposta o filme premiado. Trabalho bem feito ao explicar com simplicidade e humor todas as consequências da crise econômica americana de 2008, mostrando que, no fim das contas, estamos mesmo é nas mãos dos bancos, um poder com o qual não conseguimos competir. Numa sociedade consumista que preza pela idealização de figuras públicas e sub-celebridades, a verdade do que ocorre entre as relações de poder ficam por debaixo dos panos. É possível até pensar A grande aposta com o alerta de Spotlight, pois nosso jornalismo, que seria o meio possível para mediar estas relações e apontar a gravidade dos fatos, acaba falhando. Porém, com surpresa, o cinema, com estes dois filmes, conseguiu o mérito de falar sobre o assunto.

Nas categorias de Melhor atriz coadjuvante e Melhor atriz, Alicia Vikander (A garota dinamarquesa) e Brie Lerson (O quarto de Jack), respectivamente, deram frescor às categorias. Duas atrizes que vêm trabalhando muito nos últimos anos e agora, com mérito, obtiveram o reconhecimento por seus papéis excelentes nas telas. Vikander dá frescor, leveza, poder e força para a pintora Gerda. E Lerson cria um dos mais belos retratos da figura feminina ao dar forma à Joy, mãe de Jack.

Mad Max foi, também, um efeito de euforia na cerimônia. O filme de George Miller saiu com seis estatuetas no bolso, what a lovely day, como diria um dos personagens do filme. Que dia adorável para ver a grande produção ser reconhecida pelo talento técnico de criar este deserto impossível, quente, doloroso e enlouquecedor. E ainda teve a figurinista Jenny Beaven subindo ao palco para receber seu prêmio, com uma jaqueta de couro semelhante às que criou para o filme, com uma caveira às costas, totalmente confortável com sua roupa, enquanto muitos foram vistos sem aplaudi-la. Ademais, a trilha sonora de Mad Max era forte o suficiente e não foi indicada à categoria, tampouco o talento de Charlize Teron como Furiosa.

mad max

Já o filme O Regresso levou para casa a estatueta de Melhor fotografia, o que foi justo por todo o trabalho de direção em buscar o extremo da beleza natural engolfada pela neve, responsável por conceder força e transcendência ao filme de Iñárritu, premiado também como Melhor Diretor. E teve a cereja do bolo, com Leonardo DiCaprio saindo vencedor da noite em Melhor Ator.

Em Melhor ator coadjuvante, muitos torciam por Sylvester Stallone, indicado ao prêmio mais pelo conjunto da obra, afinal, ele volta como o lendário Rocky Balboa em Creed. Ou na competência já demonstrada em diversos filmes por Tom Hardy, em Mad Max. Na categoria tinha Mark Ruffalo também, indicado por Spotlight, mas o filme não lhe deu a chance de apresentar uma atuação notável. E o ótimo Christian Bale, que apresenta uma acertada esquisitice com seu personagem em A grande aposta. Mas foi, então, Mark Rylance, por Ponte dos espiões, quem surpreendeu e ganhou o prêmio, mesmo com uma aparição breve no filme.

A categoria de Efeitos visuais acabou por consagrar um filme um tanto esquecido entre a lista, Ex Machina, de gênero sci fi que subverte as expectativas que se tinha em relação à premissa do filme, “uma máquina pode convencer um humano de que ela é capaz de ter sentimentos?”, baseado no estudo de Turing. Esta discussão sobre os limites da existência humana, apesar das fortes distinções entre os gêneros, foi sutilmente observada logo na edição inicial da cerimônia, entre O Regresso e Ex Machina. Em ambos os filmes, os personagens se encontram em limites do que se espera para eles, um é humano feito de carne e demonstra ser quase divino por tudo o que consegue fazer para sobreviver, alcançando o ponto de não temer mais a morte; e a personagem que é máquina, que tem todo o conhecimento humano nas mãos, mas deseja obter o estado de ser entre outros humanos, e sua transcendência significa justamente integrar esta vida frágil e bela de comunhão entre uma sociedade. Pode ser que na categoria,Mad Max ou Star Wars merecessem mais a estatueta, porém Ex Machina merece ser visto.

Houve também discurso da diretora de A girl in the river, documentário em curta que conseguiu o mérito de modificar uma lei no Paquistão, o que comprova que cinema pode ser engajamento; a primeira estatueta para o Chile em curta de animação, por Bear Story, e a emoção de ver nossos colegas de continente diante da conquista; mais uma vitória de Iñárritu, mexicano, em uma América que ainda segrega pelo preconceito contra os latinos; e o Brasil, belamente representado na categoria de Melhor animação com o delicado O Menino e o mundo. O filme trata de capitalismo, consumo, engajamento social, trabalho exaustivo das fábricas, e a simplicidade da comunidade que povoa as favelas, tudo visto pelo olhar deste menino que sobrevive. Foi Divertida mente que levou a estatueta para casa, mas fica o orgulho de ver um projeto brasileiro tão bonito ganhar espaço.

Em Melhor filme estrangeiro foi O filho de Saul o premiado, o qual mostra de maneira intensa o período do Holocausto. Na categoria havia ainda o elogiado Cinco graças (Mustang), filme francês que trata da cultura turca; O abraço da serpente, trabalho admirável de fotografia em plena floresta Amazônica; o filme dinamarquês A War, e O lobo do deserto, da Jordânia, concorriam também.

Vale ressaltar que a grande injustiça desta edição do Oscar foi não ter premiado a cantora Lady Gaga e a composição de ‘Till it happens to you, canção para o documentário The Hunting Ground, o qual dá voz às vítimas que sofreram estupro nas universidades americanas. Com uma apresentação simples e poderosa, Lady Gaga conseguiu demonstrar a dor das vítimas, que se encontravam no palco, e ainda a sua, pois a cantora foi abusada aos 19 anos, assim como a compositora. A Academia, porém, acabou por conceder o prêmio à Sam Smith, pela música de 007, e ainda após uma péssima apresentação do cantor, o que deixou bem evidente quem de fato merecia o prêmio.

A música cantada por Lady Gaga também acaba por emendar com a premiação do documentário Amy, sobre a vida e trabalho de Amy Winehouse. O documentário apresenta o quanto a cantora esteve submetida à uma relação complexa e abusiva com o pai e o namorado, os quais acabavam por estimular seus vícios e encontrar na cantora apenas uma fonte de renda promissora.

Melhor filme

A principal categoria da noite ainda rende muita discussão. Pelo menos cinco filmes tinham grande qualidade para levar a estatueta,Spotlight, Mad Max, O Regresso, A grande aposta e O quarto de Jack. O filme premiado foi Spotlight. Em termos estéticos, os dois filmes que mereciam a estatueta eram Mad Max, essa máquina intensa que foi o filme, conquistando público e crítica, e o poder intenso da direção de Iñárritu em O Regresso, filme que deu um trabalho incomensurável ao procurar locações inóspitas, e expor o elenco a uma longa preparação, lidando com temperaturas baixíssimas e com a intensidade da natureza. Estes são dois filmes que ficam após a premiação, dois grandes exercícios cinematográficos, singulares. Mas é Mad Max que alcançou o feito de elevar os efeitos especiais, a trilha, o enredo, o poder do elenco a um patamar memorável.

Spotlight, por sua vez, foi um filme bem executado enquanto adaptação de um roteiro. Precisaram lidar com um tema espinhoso e o fizeram muito bem, ganhando fôlego ao mostrar que há algo de heróico no jornalismo, e ainda fizeram uma história ser bem contada, e impossível de esquecê-la. Contudo, enquanto produção cinematográfica, ele é muito convencional, sentimos falta de uma singularidade da direção, de uma fotografia bem cuidada e profundidade dos personagens.

A grande aposta tem uma excelente execução, também, em relação ao roteiro. A edição é o grande mérito do filme, que consegue transformar um tema urgente e difícil em algo compreensível. Mas por vezes o que dificulta o resultado de A grande aposta é ainda o seu ritmo, por vezes arrastado. Por fim, O quarto de Jack tem um roteiro forte, com um elenco perfeito, e acabou sendo meu favorito por se tratar de um filme com sensibilidade única em seu retrato da relação entre mãe e filho, é mais um filme inesquecível nesta lista.

Leonardo DiCaprio

leo oscar

Esta imagem não é meramente ilustrativa. Já foram cinco indicações ao Oscar e 25 anos de carreira. No ano passado, tudo indicava que DiCaprio finalmente ganharia por sua atuação em O Lobo de Wall Street. Mas precisou de mais um ano para que a Academia premiasse o ator por seu personagem Glass em O Regresso. Leo é um dos atores mais populares, isso fica evidente com a massiva campanha feita para torcer pelo ator. A maioria conheceu seu trabalho em Titanic e acabou por acompanhar o seu comprometimento cada vez mais forte com o cinema. Chegou um momento em que não havia mais DiCaprio, ele havia transcendido o seu nome e o que existia era um personagem fundado, com gestos e voz própria.

Em O Regresso, ele concede uma força que dificilmente se vê em um ser humano, ao lutar e sobreviver arduamente após um ataque de urso. Para isso, o ator imergiu no universo deste personagem que é um pai o qual perdeu tudo, e só tem esperança a partir desta mesma floresta que é capaz de matar por ser simplesmente a mais grandiosa força.

A popularidade do ator, a imensa comoção para que ganhasse o prêmio, é bem justificada. Parece ser algo maior do que mais um fenômeno de memes da internet. Leonardo DiCaprio mostra, de fato, seriedade nas suas escolhas por grandes personagens, e comprometimento com o cinema.

E, por favor, alguém faça uma grande compilação dos memes e tweets, deixe na mesa do Leo para ele ler no café da manhã com o Oscar ao lado, para ele saber que tudo isso foi um fato histórico na internet. Uma nova era de memes começou. Ou esperamos que nada disso tenha sido mais um sonho, como em A Origem.