oscar

Na noite de domingo (28), ocorreu mais uma cerimônia do Oscar, desta vez uma das mais aguardadas. Por entre memes e discussões em redes sociais, expectativas que duram anos, o que mais se falava era se Leonardo DiCaprio levaria a mais do que merecida estatueta como Melhor ator, pelo filme O Regresso. Também, após o anúncio dos indicados, constatou-se que a Academia não havia indicado nenhum negro nas categorias pelo segundo ano consecutivo, o que acendeu as discussões acerca do já evidente elitismo da premiação e da indústria cinematográfica.

Não é de hoje que a premiação tem seus favoritos e se repete em suas próprias fórmulas que produzem o que consideram um bom filme, um bom ator, um bom desempenho. Cinebiografias, por exemplo, são admiráveis, mas por vezes a Academia fecha os olhos para atuações de personagens extremamente bem criados porque assegura, ainda, que interpretar alguém que já existiu é a máxima demonstração de competência. O que é irônico, pois muitas das cinebiografias acabam por serem adaptações que deixam de lado fatos realmente relevantes das pessoas que homenageiam.

Também já pudemos ver como a Academia é restrita para mulheres. Foi apenas com Guerra ao Terror que uma diretora ganhou um Oscar na categoria, e até então só houve quatro indicações de mulheres na categoria. Em 2016, somente 22% das indicadas são mulheres. E a este ponto chegamos à ausência de negros este ano, da premiação. Muito foi dito, em comentários pelas redes sociais, de que “se o ator é bom, vai ser premiado por isso e acabou”. O ponto é que não se trata de meritocracia, no Oscar, e sim, nas palavras da Viola Davis, que muitas vezes já representou a causa em seus discursos ao ganhar o Oscar como Melhor atriz ou outras premiações, “é questão de oportunidades”. Quando é que se cria papéis grandiosos para atores negros? Normalmente o espaço é secundário e, mesmo que se alerte sobre a história de escravidão – e é importante que se faça filmes como 12 anos de escravidão, entre outros -, a América ainda premia e dá espaço apenas para filmes do gênero. Não é à toa que um filme grandioso como Selma, no ano passado, teve pouca divulgação e parece ter sido esquecido, apesar de ser um filme fiel à história de Martin Luther King. Talvez, justamente, por apresentar as várias manifestações e violência policial sofrida por negros que representaram os ideais de liberdade junto a Luther King.

Com isso, é possível pensar em como foi encaminhada a apresentação da cerimônia. O ator e comediante Chris Rock começou muito bem apontando, com muita sagacidade, que o que falta são as oportunidades, que um ator como DiCaprio tem ótimos papéis todo ano, mas o mesmo não ocorre com colegas de trabalho negros. Ele afirmou, ainda, que boicotar a premiação não seria suficiente, mais vale estar lá até mesmo para que se possa falar a respeito.

Com humor, ele mostrou até como seria o esforço de encaixar atores negros de maneiras inusitadas em cenas dos filmes indicados, para que, pelo menos, aparecessem de alguma forma. O início de sua apresentação foi muito bem acertada, contudo, houve momentos de deslizes em que o ator não soube ver que, ao mesmo tempo em que clama por direitos de um grupo evidentemente excluído, ironizava tantos outros, como a crítica válida, de muitas atrizes, ao fato de que no tapete vermelho só pedem para saber o que vestem, ou ainda expor crianças em uma piadinha sobre a comunidade oriental. Assim, o tom de humor foi perdendo o rumo e a sensação foi de que a cerimônia optou por esgotar o roteiro de piadas usando o próprio Chris Rock para tornar tudo aquilo em um espetáculo passageiro. De início, o comediante falou muito bem e sua posição foi forte e admirável. Mas, aos poucos, passou a ter o incômodo de notar que a Academia havia se apropriado do discurso do oprimido, esgotando a sua crítica.

Os filmes premiados

Quanto às categorias, a premiação foi, em grande maioria, justa.  Spotlight iniciou a noite ganhando em Melhor roteiro original, o que indica que o forte do filme foi justamente a sua temática. Baseado em toda a investigação feita pela equipe de jornalistas em Boston que chegou, com muito custo, à conclusão de que mais de 80 padres estavam envolvidos em abusos de crianças. Um filme que, sem dúvida, impulsiona o fascínio pelo jornalismo investigativo, trabalho admirável que se perde entre uma grande imprensa que valoriza, cada vez mais, a efemeridade das redes sociais e a notícia como veiculação de entretenimento. A categoria também teve a surpresa de indicar Divertida mente, animação da Pixar, o que mostra que o filme conseguiu ultrapassar a própria categoria.

Mark Rylance, Brie Larson, Leonardo DiCaprio and Alicia Vikander with their Oscars

Em roteiro adaptado, foi A grande aposta o filme premiado. Trabalho bem feito ao explicar com simplicidade e humor todas as consequências da crise econômica americana de 2008, mostrando que, no fim das contas, estamos mesmo é nas mãos dos bancos, um poder com o qual não conseguimos competir. Numa sociedade consumista que preza pela idealização de figuras públicas e sub-celebridades, a verdade do que ocorre entre as relações de poder ficam por debaixo dos panos. É possível até pensar A grande aposta com o alerta de Spotlight, pois nosso jornalismo, que seria o meio possível para mediar estas relações e apontar a gravidade dos fatos, acaba falhando. Porém, com surpresa, o cinema, com estes dois filmes, conseguiu o mérito de falar sobre o assunto.

Nas categorias de Melhor atriz coadjuvante e Melhor atriz, Alicia Vikander (A garota dinamarquesa) e Brie Lerson (O quarto de Jack), respectivamente, deram frescor às categorias. Duas atrizes que vêm trabalhando muito nos últimos anos e agora, com mérito, obtiveram o reconhecimento por seus papéis excelentes nas telas. Vikander dá frescor, leveza, poder e força para a pintora Gerda. E Lerson cria um dos mais belos retratos da figura feminina ao dar forma à Joy, mãe de Jack.

Mad Max foi, também, um efeito de euforia na cerimônia. O filme de George Miller saiu com seis estatuetas no bolso, what a lovely day, como diria um dos personagens do filme. Que dia adorável para ver a grande produção ser reconhecida pelo talento técnico de criar este deserto impossível, quente, doloroso e enlouquecedor. E ainda teve a figurinista Jenny Beaven subindo ao palco para receber seu prêmio, com uma jaqueta de couro semelhante às que criou para o filme, com uma caveira às costas, totalmente confortável com sua roupa, enquanto muitos foram vistos sem aplaudi-la. Ademais, a trilha sonora de Mad Max era forte o suficiente e não foi indicada à categoria, tampouco o talento de Charlize Teron como Furiosa.

mad max

Já o filme O Regresso levou para casa a estatueta de Melhor fotografia, o que foi justo por todo o trabalho de direção em buscar o extremo da beleza natural engolfada pela neve, responsável por conceder força e transcendência ao filme de Iñárritu, premiado também como Melhor Diretor. E teve a cereja do bolo, com Leonardo DiCaprio saindo vencedor da noite em Melhor Ator.

Em Melhor ator coadjuvante, muitos torciam por Sylvester Stallone, indicado ao prêmio mais pelo conjunto da obra, afinal, ele volta como o lendário Rocky Balboa em Creed. Ou na competência já demonstrada em diversos filmes por Tom Hardy, em Mad Max. Na categoria tinha Mark Ruffalo também, indicado por Spotlight, mas o filme não lhe deu a chance de apresentar uma atuação notável. E o ótimo Christian Bale, que apresenta uma acertada esquisitice com seu personagem em A grande aposta. Mas foi, então, Mark Rylance, por Ponte dos espiões, quem surpreendeu e ganhou o prêmio, mesmo com uma aparição breve no filme.

A categoria de Efeitos visuais acabou por consagrar um filme um tanto esquecido entre a lista, Ex Machina, de gênero sci fi que subverte as expectativas que se tinha em relação à premissa do filme, “uma máquina pode convencer um humano de que ela é capaz de ter sentimentos?”, baseado no estudo de Turing. Esta discussão sobre os limites da existência humana, apesar das fortes distinções entre os gêneros, foi sutilmente observada logo na edição inicial da cerimônia, entre O Regresso e Ex Machina. Em ambos os filmes, os personagens se encontram em limites do que se espera para eles, um é humano feito de carne e demonstra ser quase divino por tudo o que consegue fazer para sobreviver, alcançando o ponto de não temer mais a morte; e a personagem que é máquina, que tem todo o conhecimento humano nas mãos, mas deseja obter o estado de ser entre outros humanos, e sua transcendência significa justamente integrar esta vida frágil e bela de comunhão entre uma sociedade. Pode ser que na categoria,Mad Max ou Star Wars merecessem mais a estatueta, porém Ex Machina merece ser visto.

Houve também discurso da diretora de A girl in the river, documentário em curta que conseguiu o mérito de modificar uma lei no Paquistão, o que comprova que cinema pode ser engajamento; a primeira estatueta para o Chile em curta de animação, por Bear Story, e a emoção de ver nossos colegas de continente diante da conquista; mais uma vitória de Iñárritu, mexicano, em uma América que ainda segrega pelo preconceito contra os latinos; e o Brasil, belamente representado na categoria de Melhor animação com o delicado O Menino e o mundo. O filme trata de capitalismo, consumo, engajamento social, trabalho exaustivo das fábricas, e a simplicidade da comunidade que povoa as favelas, tudo visto pelo olhar deste menino que sobrevive. Foi Divertida mente que levou a estatueta para casa, mas fica o orgulho de ver um projeto brasileiro tão bonito ganhar espaço.

Em Melhor filme estrangeiro foi O filho de Saul o premiado, o qual mostra de maneira intensa o período do Holocausto. Na categoria havia ainda o elogiado Cinco graças (Mustang), filme francês que trata da cultura turca; O abraço da serpente, trabalho admirável de fotografia em plena floresta Amazônica; o filme dinamarquês A War, e O lobo do deserto, da Jordânia, concorriam também.

Vale ressaltar que a grande injustiça desta edição do Oscar foi não ter premiado a cantora Lady Gaga e a composição de ‘Till it happens to you, canção para o documentário The Hunting Ground, o qual dá voz às vítimas que sofreram estupro nas universidades americanas. Com uma apresentação simples e poderosa, Lady Gaga conseguiu demonstrar a dor das vítimas, que se encontravam no palco, e ainda a sua, pois a cantora foi abusada aos 19 anos, assim como a compositora. A Academia, porém, acabou por conceder o prêmio à Sam Smith, pela música de 007, e ainda após uma péssima apresentação do cantor, o que deixou bem evidente quem de fato merecia o prêmio.

A música cantada por Lady Gaga também acaba por emendar com a premiação do documentário Amy, sobre a vida e trabalho de Amy Winehouse. O documentário apresenta o quanto a cantora esteve submetida à uma relação complexa e abusiva com o pai e o namorado, os quais acabavam por estimular seus vícios e encontrar na cantora apenas uma fonte de renda promissora.

Melhor filme

A principal categoria da noite ainda rende muita discussão. Pelo menos cinco filmes tinham grande qualidade para levar a estatueta,Spotlight, Mad Max, O Regresso, A grande aposta e O quarto de Jack. O filme premiado foi Spotlight. Em termos estéticos, os dois filmes que mereciam a estatueta eram Mad Max, essa máquina intensa que foi o filme, conquistando público e crítica, e o poder intenso da direção de Iñárritu em O Regresso, filme que deu um trabalho incomensurável ao procurar locações inóspitas, e expor o elenco a uma longa preparação, lidando com temperaturas baixíssimas e com a intensidade da natureza. Estes são dois filmes que ficam após a premiação, dois grandes exercícios cinematográficos, singulares. Mas é Mad Max que alcançou o feito de elevar os efeitos especiais, a trilha, o enredo, o poder do elenco a um patamar memorável.

Spotlight, por sua vez, foi um filme bem executado enquanto adaptação de um roteiro. Precisaram lidar com um tema espinhoso e o fizeram muito bem, ganhando fôlego ao mostrar que há algo de heróico no jornalismo, e ainda fizeram uma história ser bem contada, e impossível de esquecê-la. Contudo, enquanto produção cinematográfica, ele é muito convencional, sentimos falta de uma singularidade da direção, de uma fotografia bem cuidada e profundidade dos personagens.

A grande aposta tem uma excelente execução, também, em relação ao roteiro. A edição é o grande mérito do filme, que consegue transformar um tema urgente e difícil em algo compreensível. Mas por vezes o que dificulta o resultado de A grande aposta é ainda o seu ritmo, por vezes arrastado. Por fim, O quarto de Jack tem um roteiro forte, com um elenco perfeito, e acabou sendo meu favorito por se tratar de um filme com sensibilidade única em seu retrato da relação entre mãe e filho, é mais um filme inesquecível nesta lista.

Leonardo DiCaprio

leo oscar

Esta imagem não é meramente ilustrativa. Já foram cinco indicações ao Oscar e 25 anos de carreira. No ano passado, tudo indicava que DiCaprio finalmente ganharia por sua atuação em O Lobo de Wall Street. Mas precisou de mais um ano para que a Academia premiasse o ator por seu personagem Glass em O Regresso. Leo é um dos atores mais populares, isso fica evidente com a massiva campanha feita para torcer pelo ator. A maioria conheceu seu trabalho em Titanic e acabou por acompanhar o seu comprometimento cada vez mais forte com o cinema. Chegou um momento em que não havia mais DiCaprio, ele havia transcendido o seu nome e o que existia era um personagem fundado, com gestos e voz própria.

Em O Regresso, ele concede uma força que dificilmente se vê em um ser humano, ao lutar e sobreviver arduamente após um ataque de urso. Para isso, o ator imergiu no universo deste personagem que é um pai o qual perdeu tudo, e só tem esperança a partir desta mesma floresta que é capaz de matar por ser simplesmente a mais grandiosa força.

A popularidade do ator, a imensa comoção para que ganhasse o prêmio, é bem justificada. Parece ser algo maior do que mais um fenômeno de memes da internet. Leonardo DiCaprio mostra, de fato, seriedade nas suas escolhas por grandes personagens, e comprometimento com o cinema.

E, por favor, alguém faça uma grande compilação dos memes e tweets, deixe na mesa do Leo para ele ler no café da manhã com o Oscar ao lado, para ele saber que tudo isso foi um fato histórico na internet. Uma nova era de memes começou. Ou esperamos que nada disso tenha sido mais um sonho, como em A Origem.

 

Anúncios

Um comentário sobre “

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s