Paris em seis atos

paris em seis atos

Publicado no Literatortura

Tudo o que eu busco imprimir ao papel não alcança o canto onde a sua camada mais profunda se oculta. Uma cidade que foi a celebração mais pura da criação artística nos meus seis meses de estudante. Em suas ruas, o frescor no pavimento morava, inquieto, um frescor que se recompunha de outros tempos, à beira de um rio que mudava a cor de suas águas. Mesmo quando ganhava ares nublados, de tempestades ainda não anunciadas, era a mais pura promessa. Cidade de histórias, trabalhada no infinito dos séculos, vai ver era isso que o ar carregava todo dia. O tempo pode ter sido, muito bem, seis meses. Mas era impossível lidar com as horas. Por vezes, elas tinham a solidez de um tempo que acabava na hora de dormir, entre as obrigações da cozinha aos estudos. E, em outras, o tempo era como um véu que se lançava fluido, tornando os gestos em acenos tremeluzentes, nos quais meus olhos se demoravam para obter o máximo de sua pintura.

 

No verão, o ar era quente e o sol permanecia até que ele decidisse dormir quase às 22h. O tempo acabou por ser comprimido nesta luz diária que nunca acabava, e não sei bem dizer o que vivi, mas havia sorvete de cenoura, de lavanda, escadas descascadas em Montmartre, um rapaz dizendo que reconhecera meu sotaque paulistano pelo jeito que eu dizia “carote” em francês. Houve também o por-do-sol em um dos primeiros dias, com a trilha mais óbvia de um senhor tocando acordeão, e o rio tremeluzindo com as luzes que a cidade ganhara em poucos instantes. A Notre-Dame já parecia, então, mais do que uma igreja: uma pedra fincada na terra em sua estrutura que ganhava pernas, sempre me parecera uma aranha delicada. À noite, ela era presença eterna que acordava por seu próprio brilho. Durante o dia, era uma presença grandiosa que vigiava seus turistas e franceses por entre suas portas adornadas, a areia em seus arredores, as pessoas que repousam no parque.

A dita flânerie passou a ser mais do que uma palavra francesa bela que eu encontrava nos textos de Benjamin e Baudelaire para ser o ato mais fácil, uma cidade que pedia de seu andarilho a curiosidade por cruzar mais uma rua, tem mais uma, e o que tem atrás daquela igreja? Cinco horas andando, frutas e água, Louvre e d’Orsay vistos, e mais de vinte corvos no gramado aceitando pãezinhos dos humanos, em um cenário estranhamente doce para estas aves hitchcockianas. Lá eu descobri que os corvos eram cômicos, tentavam ser intimidadores, mas no fim corriam desengonçados, gordinhos, alimentados por sementes, nozes e, como são espertos, baguettes e croissants.

Descobri a sonoridade do francês, que era mais do que a fala certinha dos CDs e exercícios de sala. A impressão é que eles falavam pouco, gostavam das reticências, de hesitar, balbuciar, o que dava em muitos “bah…oui”, “mais non!”, que seriam o nosso “mas é claro!”, “não!” em um tom surpreso diante do absurdo, e sempre um “en fait” em início de frases, o que me fazia pensar se sempre queriam criar ressalvas com este “na verdade”, se pareceria com o “indeed” ou “actually” do inglês.

A língua francesa, aos poucos, foi soando mais como um mar tranquilo com breves ondas, em um ritmo quase constante, mas que por vezes surpreendia com a aparente alegria ao se pronunciar os simples e exigidos “bonjour”, “salut” e “bonne journée”. O mais engraçado era constatar alguém falando no que, aos meus ouvidos, parecia bem contente, e constatar que a pessoa só estava usando uma entonação normal para ela, em sua expressão até um tiquinho entediada. Aliás, o ar blasé parisiense, imortalizado na sua própria palavra francesa, existia aqui e ali. Havia a tal polidez admirável, no que eu apelidei livremente de “petites politesses”, pequenas gentilezas que era belo de se ver: ajudam a carregar malas nas intermináveis escadas dos metrôs, a subir com carrinho de bebê, a achar os caminhos, mesmo se seu francês ou se seu inglês forem básicos, em geral garçons educados, ao contrário das críticas nos últimos anos, garçons que queriam falar palavrinhas em português, saber de onde vinha e surpreendiam quando sabiam bastante da língua portuguesa.

A atmosfera nos ônibus são mais leves e doces do que nos metrôs, e às vezes optava por eles a fim de ter a vista da cidade. Não sei se o fato de os metrôs serem exaustivos em sua quantidade de escadas, e carecer de um pouco (muita) limpeza, com odores peculiares (desagradáveis), muitos daqueles que eu via todo dia no metrô preferiam preservar o ar cabisbaixo, mal humorado, entediado ou enfiado em algum mundo encarando um ponto fixo por um bom tempo. Mesmo quando a Torre Eiffel se enfeita do lado de fora ao som de um bem-vindo acordeão no interior do vagão.

Os nomes das estações de metrô eram cada vez mais reconhecidas, e com orgulho se pronunciava os seus nomes, quase como uma vitória interna por imitar o sotaque da moça ao anunciá-los, todo dia. Era Denfert-Rochereau, que com este nome fazia pensar nos infernos guardados pelas catacumbas, as clássicas Saint-Germain des-Près e Saint-Michel-Notre Dame, a Luxembourg que me deixava na universidade, a elegante estação Musée do Louvre – Rue de Rivoli, os cinemas próximos de casa na Montparnasse-Bienvenue, e tantas outras estações que levavam para museus mais distantes, a Champs-Élysées Clemenceau, a Concorde. O tramway era outra opção de caminho que se tornava agradável: quase um trem à la Jetsons em meio a cidade clássica, levando de uma ponta a outra até a Bibliothèque Nationale de France (BNF) ou pontos periféricos que pouco se conhecia. Cada estação, uma música especial, Porte d’Italie com ares italianos ou o mercado em Porte de Choisy, e a vasta Avenue de France.

E entre a vida parisiense, é preciso adicionar que a burocracia é grotesca. Conseguem deixar que se sinta todo o desconforto em pedir por algo simples pela quinta vez na universidade, no banco, em responderem sempre o “je ne peux faire rien pour vous”, como se dizer “não posso fazer nada por você” três vezes fosse real. Talvez seja uma tentativa de repeti-lo tantas vezes para ver se o torna realidade. O fato é que a burocracia francesa é realmente uma parte desagradável, não apenas em relação a papéis, mas até mesmo em situações de atendimento em hospitais ou retirada obrigatória do titre de séjour para estar legal no país. Agora some a toda esta situação também o desconforto de levar horas nestas situações burocráticas, para ter que ouvir que o endereço é errado, que na verdade você precisa ir pela quinta vez em outro lugar, com mais fila, para conseguir um papel ou um nome.

Quanto à universidade, ela é admirável. Pensar nos corredores que já ganharam tantos e tantos alunos na Université Sorbonne Paris IV, muitos deles famigerados, como Merleau-Ponty ou a presença de Sartre, pode torná-lo pequeno, mas mesmo assim dá encanto a toda a experiência. O respeito pelas bibliotecas é um dos pontos mais belos de Paris, e sentar horas em uma delas para estudar é gratificante. As aulas podem ser fascinantes pela sua temática, como poder estudar a história dos museus franceses, ler o segundo volume inteirinho de Proust, ou poder estudar mais Kant. Mesmo assim, há algo curioso no cenário acadêmico: exige-se, por um programa impossível, a leitura de muitas, muitas obras relevantes que exigem discussões cuidadosas, para apenas dois meses de aula. A ponto de pedirem sete romances em uma disciplina de literatura. Não é possível que todos os alunos já tenham lido aquelas obras, ou que vão conseguir em dois meses. E mesmo que consigam, a experiência, a qualidade da leitura serão a mesma? Talvez não. Você se atropela no tempo e nesta aparente autonomia que se diz que a faculdade francesa concede, não é o melhor para a obra que merece ser discutida em sala com o professor. No fim das contas, o trabalho desenvolvido em sala numa universidade brasileira, muitas vezes tão criticada entre nós, concede muito mais dignidade à obra porque lhe dá tempo para o estudo. Talvez se o tempo fosse maior, e isso mudaria, portanto, a estrutura do próprio curso, na quantidade de horas de aula e um programa mais sensato, o resultado seria melhor.

E, bem, ler Proust foi um caso particular. Sabemos que a relação pessoal com uma obra se ganha, por vezes, quase em rasgos internos de esforço e comprometimento. De certa forma foi assim com Proust. Não é exatamente impossível a sua leitura em francês. Mas era o primeiro livro longo que eu estava lendo no idioma – e, devo dizer, a edição com suas letrinhas pequenas foi uma das dificuldades também. Contudo, foram as palavras proustianas que deram densidade à experiência, o que é irônico e bem-vindo, já que seu próprio narrador se aprofunda nas mais diversas sensações que seu cotidiano, entre Paris e Balbec, em gostos da infância rememorada, podem dar. Com o personagem vi a sua cidade ecoar naquela que eu tomava como minha, em um tempo que se intercalava pelas memórias de leitora e as memórias de um personagem com o qual eu me unia cada vez mais em seu fascínio pelos detalhes. Foram minhas as conversas com Bergotte e o pintor com ares de impressionista Elstir, fui descobrindo com o narrador as faces de Albertine, o frescor desta juventude e transgressão na presença das jovens raparigas em flor, os diversos mundos contidos nas inúmeras palavras que ele encontrava para descrever as cidades despertadas onde morava, o encanto pelo apartamento e o mundo de Madame Swann. No fim das contas, não difere muito o fato de estar ou não dentro das páginas de um livro para as mesmas cenas serem vivenciadas. Proust sussurrava a cada canto nos seis meses em Paris. E pode sussurrar em qualquer cidade do mundo.

Aos poucos, o espetáculo da vida parisiense ia se mostrando um suspense sem fim diante do tão temido inverno. Houve o outono, que foi o mesmo que brindar a morte em forma laranja de cada árvore que deixava de ser cheia e destilava suas folhas ao chão, criando um mar absurdo de tonalidades nunca vistas. O outono foi a época mais eterna destes seis meses, a mais memorável e a mais curta.

Porém, em novembro, dentro da normalidade cotidiana, houve o atentado em Paris. Uma sexta-feira na qual eu saía de uma visita ao Louvre, um dia em que especialmente a atmosfera do museu era de grande comoção se você observasse os diversos grupos espalhados pelo museu encantados com as obras. Parecia uma grande bolha ativa, de pessoas conversando, crianças desenhando. Uma ironia tudo isso: enquanto observar aquelas pessoas povoando um lugar que traz a criação de diversos artistas na humanidade, eu era descolada da realidade quando estava lá, por entre os tons terrosos de Rembrandt. Para depois ter mais um descolamento ao saber do atentado chegando em casa, desta vez muito mais pungente e grave, que parece ter relativizado o primeiro que tive no museu. Eu pensava por dias como estavam as famílias que perderam alguém naquele dia. E pensava também se as pessoas que eu vi, naquele dia no museu, estavam bem, como estavam encarando aquela semana de choque. No fim, parece que aquela visita ao museu conseguiu se eternizar com duas camadas que se misturavam tanto ao sublime quanto ao horror da perda. Tudo isso deu a dimensão do quanto instantes tão breves são perdidos injustamente em um tempo e ação que não controlamos. E alguns ficam, à sua própria maneira, bons ou ruins. A experiência acabou por fortalecer os vínculos com as artes, que, por mais estranho que possa parecer, foram a companhia mais importante naquela semana pós-atentado, com muito medo de sair nas ruas e pegar o transporte, de ter esta rachadura sempre injusta na vivência, quando a violência se impõe.

Na medida do possível, a cidade continuou com seu movimento. Depois o que se seguiu, no fim, foi um inverno mais ameno como o de costume. Alguns dias com o termômetro próximo de zero graus, dias de vento e garoas que geravam um frio inexplicável. Paris é insana em suas mudanças de temperatura, quando agregadas ao vento. A garoa molha o cachecol e você se vê em análises febris de quais camadas exatas de roupa deve usar para não passar frio. Depois que as encontra, vesti-las é quase o mesmo gesto de um explorador que sairá de casa rumo a alguma escalada. O casaco grosso, a segunda pele, e o cachecol (e descobrir que o lugar onde você tem mais frio é a bochecha e a orelha). O único dia de neve foi em meados de janeiro, um dia que a cité universitaire amanheceu branca, enquanto o restante da cidade estava aparentemente normal, com os poucos indícios de floquinhos de neve já derretendo no sol. Havia um pouco aqui e ali próximo da Torre Eiffel, e mais nada. Porém, a atmosfera da novidade daquele dia transformou o frio numa das mais agradáveis sensações. Pelo menos naquele dia.

E, sendo Paris uma cidade abertamente artística, os museus foram a melhor experiência obtida. Havia todo o processo de pesquisar os horários dos museus, até, no fim, sabê-los de cor; pegar a carteirinha de estudante, o mapa do museu (se era o do Louvre, já estava orgulhosamente amassado), o caderno para anotar títulos dos quadros, e imergir nas paredes de um lugar novo, composto pela graciosidade do passado encaixado nas telas, e o presente fugaz de espectador que passeia pelo museu vencendo a fome e o cansaço, quando ambos chegam. É curioso ver esta relação se compor, pois mesmo que o corpo grite, ele consegue abrandar a respiração e os olhos se preparam para serem receptivos ao que um quadro se propõe. Desta forma, muitos quadros foram se tornando íntimos, próximos, mais profundos do que as reproduções que eu conhecia. Era muito fácil se emocionar entre eles, e muito difícil querer deixar as paredes do museu, pois era o mesmo que ingressar em outras épocas, tocar os vestígios de outros olhares humanos.

O último mês em Paris se compôs pelo desespero em ver tudo o que ainda restava, e a frustração de não ver alguns outros cantos, mas também o de aceitar que eu teria uma cidade novamente infinita, ao voltar, um dia. As visitas aos museus e monumentos resistiram e deram frescor ao estresse burocrático, e os dias pediam para ser mais longos, mas corriam sem que eu pudesse controlar.

No último dia, a cidade reservara um instante de mais uma novidade. Ela deixou realmente o orvalho ser notado entre as folhas de uma árvore nua. Havia uma chuva ameaçadora produzindo ventos que faziam panfletos ricochetearem pelo Quartier latin. O toldo daboulangerie escorria a água da calha quase jogando-se entre o café. Uma última amiga vista em um café, com guarda-chuva cor-de-rosa, e uma última foto. O ônibus parara em um ponto distante sem qualquer motivo, o trânsito parecia mais vivo e turbulento. E, então, a Notre Dame e o Sena apareceram em um tom acobreado, quase melancólico e profético, como se anunciassem uma despedida em forma de chuva. Era uma face do rio e da catedral que eu ainda não havia visto nestes seis atos de intercâmbio, que na verdade, foram seis atos fluidos, sem interrupção, pois continuam aqui. A cor da catedral e do rio era distinta do pastel costumeiro e do esmeralda água abaixo. A cidade parecia ter cantos mais amplos, como se fosse capaz de se esticar e abraçar em meio a possível tempestade. O último pedaço visto de Paris foi o céu cobre se desfazendo nas cortinas das escadas do metrô.

créditos de imagem: Marina Franconeti

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