Game of Thrones | Os bastidores da épica Batalha dos bastardos

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Publicado no site Notaterapia 

COM SPOILERS (revelações do enredo)

Na noite deste domingo (19), a Batalha dos Bastardos ganhou contornos épicos, de exibição com escala mundial, pelo canal HBO na série Game of Thrones. Poderia ter sido mais uma cena de ação. Contudo, foi, de fato, um marco entre as batalhas já vistas na TV ou mesmo no cinema. Nos moldes de uma batalha medieval, extremamente realista e convincente, Game of Thrones coroou o excelente trabalho desenvolvido nesta 6ª temporada com uma cena tecnicamente impecável.

A Batalha dos Bastardos foi o confronto entre Jon Snow e Ramsay Bolton, na tentativa do primeiro em recuperar as terras da casa Stark, Winterfell, uma reivindicação também de sua irmã Sansa Stark e o objetivo de, ainda, recuperar o irmão Rickon e herdeiro da casa, o qual estava nas mãos de Ramsay. Toda a atmosfera criada no início do episódio conduz à temática da guerra, das alianças e o medo pela morte, três tópicos sempre presentes na série, seja sutilmente ou não. Temos Daenerys buscando proteger Meereen dos ataques dos Filhos da Hárpia. E a grandiosidade da cena perdeu um pouco de sua dimensão diante da Batalha dos Bastardos, porém, tornou-se uma camada sólida para conduzir toda a composição de guerrilha do episódio.

Sobre a batalha, primeiro é válido destacar a escolha acertada pelas tonalidades frias do azul, a neblina e o cinza das armaduras em campo, dando unidade à cena. Em vez de apresentar uma batalha convencional onde veríamos o contraste entre as cores e bandeiras, as casas nortenhas, a presença dos Selvagens, o exército dos Bolton, tudo compôs uma mesma linha no campo enegrecido. A fotografia concedida pela série unificou as cores para não apenas envolver e confundir os olhos, mas para demonstrar que a morte unifica e não escolhe a casa para quem servir: ela é tão fria quanto o corte de uma espada.

O grande mérito foi mostrar que o imaginário de uma batalha nunca é apenas o confronto individual de um protagonista com outro personagem, em uma luta tranquila de espadas. Ela é uma soma de corpos e armas, que se veem no absurdo de um campo silencioso antes do confronto, para depois estar envolto por terra revirada e sangue, subtraído de qualquer individualidade, em uma luta mortal.

A série conseguiu atribuir à imagem da batalha o sentido claustrofóbico dos corpos que se ferem entre a massa, o fogo que se alastra, e os cavalos que caem em desespero entre a morte dos homens. Quando Ramsay engana Jon, usando de seu inabalável senso protetor pelo irmão, fazendo com que Rickon corresse pela sua vida enquanto era alvejado por flechas, o choque de Snow é ver que a sua batalha não era apenas em campo. Ela começava já nas mãos de Ramsay, que “gosta de machucar pessoas”, como Sansa tão sabiamente o alertou.

A batalha serviu para apresentar o último ato de crueldade na composição da identidade de Ramsay, com o qual já convivemos por temporadas entre seus atos bestiais, horrendos. Mas serviu para o renascimento dos Stark. A cena mais simbólica do episódio é ver Jon Snow perdido, quase pisoteado pelos aliados que correm sedentos para lutar pelo Norte. Em poucos segundos, Jon está no chão e, pela segunda vez, no episódio, achamos que ele poderia morrer. Na primeira, após ser usado por Ramsay na tentativa de salvar o irmão, vemos Snow como um ponto frágil diante do exército que avança massivo ao seu encontro. No último instante, os dois lados se encontram e ele, finalmente, adentra na batalha. O espectador se encontra perdido entre os cavalos tanto quanto ele. Mas a cena em que Jon se vê soterrado para, emergir, entre o seu exército acuado, é o grande retorno simbólico do personagem. Mesmo que ele tenha sido ressuscitado por Melisandre, Jon Snow realmente parece emergir com grandiosidade nesta cena, como se decidisse, mais uma vez, não sucumbir.

O início do episódio, com a discussão entre ele e Sansa, revela que havia certa ingenuidade na concepção de Jon acerca da batalha e de quem Ramsay era. O que ele tinha era uma mesa com pedras encenando a batalha, com Sir Davos sugerindo táticas para evitar o movimento de pinça, com o envolvimento duplo em um cerco que, no fim, se realizou. Isso foi uma ênfase inteligente, na abordagem da série, para o fato de que batalhas são muito mais complexas quando encenadas, de fato, no campo. A impotência de Snow é sentida, diante da pressão em falhar, em ter voltado da morte por ordens divinas e a sensatez de Sansa também, ao alertar sobre o inimigo.

A parceria entre Sansa e Jon, por fim, foi bem trabalhada nos últimos episódios, entre os conflitos da guerra que se mostrava no horizonte, e a solução que ela encontrou ao pedir o apoio de Mindinho e a casa Arryn, com o exército que aparece para libertar os outros do cerco dos Bolton. E, assim, a recuperação por Winterfell, a vingança de Sansa Stark a todas as crueldades das seis temporadas e a tomada por Jon Snow não precisou de exaltações. Foi com um belo silêncio, quase como um raro suspiro de alívio, na série, que a bandeira dos Stark voltou a adornar os muros de Winterfell.

  

Os bastidores

O trabalho de direção foi de Miguel Sapochnik, responsável também pelo próximo episódio da série, o último da temporada. No vídeo abaixo, é feita uma anatomia dos bastidores desta sequência. Nele, D.B.Weiss e David Benioff, produtores-executivos e roteiristas, comentam as decisões, e os atores envolvidos também. Kit Harington (Jon Snow) afirma que não poderia ser apenas uma batalha, era preciso seguir alguém dentro dela, no caso, é o seu personagem. E a melhor parte é que é real, são 40 cavalos correndo, de fato, na direção de Kit Harington (Jon Snow). “Até o último instante, eu estive diante deste ataque da cavalaria, é realmente assustador, o que incomoda um pouco, porque todo mundo vai pensar que era CGI, mas não foi”, diz o ator. Além disso, na cena em que ele está entre os cavalos, já na batalha, eles são reais também, passando pelo ator.

Rowley Irlam, coordenador de dublês, afirma “nós quisemos que parecesse uma colisão entre os cavalos, mas sem que houvesse uma de verdade”. Câmeras tomam a cena do alto, para dar agilidade às corridas dos cavalos e aos ataques, e o desafio é grande, o de compor as cenas entre gigantes e a batalha. Deborah Riley, designer de produção, comenta sobre uma parte específica da sequência, quando os exércitos se reúnem no pequeno cerco. Há um amontoado de corpos, bonecos os quais precisaram, cada um, ter seus figurinos e posições acertadas, além de bonecos de cavalos mortos. O cenário inteiro é de desolação, mesmo que seja um artifício. E, particularmente, este trecho demonstra o entrave cruel das batalhas, quando corpos se tornam obstáculos.

Por fim, a equipe usou dez horas para gravar a cena do confronto de Jon e Ramsay já em Winterfell. Vários ângulos foram gravados pelo diretor para retratá-la. Harington diz que esta cena parece trazer à tona uma monstruosidade em Snow, e Sophie Turner acrescenta que ele entende o que a irmã enfrentou, e concluímos que aquela batalha final seria dela. A cena de seu sorriso triunfante foi gravada por doze ou treze vezes durante a madrugada, o que reforça as curiosidades de toda a composição desta cena, dos detalhes ao belo resultado.

(ative as legendas em inglês, no vídeo)

Para a Entertainment Weekly, a equipe cedeu, com exclusividade, os detalhes dos bastidores em números, traduzida abaixo.

600 membros na equipe

Equipe pode incluir tudo, desde cameramen até substitutos no departamento de figurino.

500 figurantes

Os figurantes formaram a maior parte dos exércitos de Snow e Bolton, interpretando selvagens, arqueiros, cavaleiros, etc. Os exércitos foram treinados separadamente para criar uma rivalidade competitiva fora da tela que poderia, em seguida, tornar-se evidente na tela durante as cenas de luta. Os efeitos visuais foram, então, usados para expandir os exércitos em milhares.

160 toneladas de cascalho

A chuva pesada que caiu no campo do set, na Irlanda do Norte, produziu um solo extremamente barrento. Cavalos não gostam de lama. Então, cascalho teve que ser trazido para dar os cavalos alguma tração. O que nos leva a …

80 cavalos

Um dos aspectos mais difíceis de compor a batalha. Você normalmente só ver os cavalos em uma sequência de guerra, atualmente, em um longa-metragem de grande orçamento em Hollywood, já que os animais são notoriamente difíceis de coordenar – e bastante caros. Adicionando cavalos faz com que leve o dobro do tempo para filmar a cena.

25 dublês

Alguém tem que cair daqueles cavalos.

25 dias de filmagem

Para se ter uma ideia de quanto tempo isto significa, a maioria dos dramas de TV são filmados entre sete a dez dias. E essa é a duração da filmagem de um episódio completo, enquanto Game of Thrones passou 25 dias apenas nesta sequência de batalha (a sequência não é toda a luta – há um enredo lateral também).

4 equipes de filmagem

Este é bastante auto-explicativo.

$$$ dólares

Enquanto eles não divulgam o número exato, é possível ter uma ideia do quanto. A 6ª temporada de Game Of Thrones custou cerca de 10 milhões de dólares por episódio, o que é considerado uma média – o preço por hora varia e “A Batalha dos Bastardos” é provavelmente o episódio mais caro da temporada.

Revisão de tradução: Amanda Leonardi

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