Obra de arte da semana: A Grande Odalisca, de Ingres

Ingres, Jean-Auguste Dominique. A Grande Odalisca, óleo sobre tela, 91x 162cm, 1814. Conservada no Museu do Louvre, em Paris, França.

Publicado no site Artrianon 

A Grande Odalisca (1814), de Jean-Auguste Dominique Ingres, é o vínculo do artista e do século XIX ao orientalismo, e toda a aura erótica criada em torno da figura da odalisca que habita os haréns pulsa no quadro de Ingres. Entre os poucos elementos dispostos no cenário, todos convergem para a figura da odalisca e a composição de seu corpo. Ela é esta imagem forte que ocupa o quadro por completo, e busca sair dele pela sua dimensão proposta ao seduzir pela forma.

Em o Corpo da Liberdade, Jorge Coli afirma que A grande Odalisca seria, “do ponto de vista das proporções do corpo humano, sem dúvida um monstro. De uma beleza suprema, no entanto: as linhas serpenteiam, inefavelmente; as matérias possuem texturas preciosas e sedutoras”. E, de fato, este é um efeito provocado em face da obra mencionada.

Antes de ver o porquê, vale chamar atenção também para a afirmação de Walter Friedlander sobre Ingres. Para o autor, o artista possui “grande sensibilidade para as nuanças mais sutis de movimento, para as variações mais delicadas e naturais das silhuetas, uma sensibilidade que ultrapassa todo o arcaísmo para produzir uma forma cheia de vida”.

Com essas duas falas, a primeira observação que se deve ser feita antes de pensar na obra é a definição de Ingres como neoclassicista. O pintor expunha, em certa medida, influências do neoclassicismo de Jacques-Louis David – não apenas por ter sido um de seus discípulos, mas quanto ao “realismo” que toma para si. Este realismo permite ao pintor que a observação do mundo seja aperfeiçoada de tal modo que o artista possa “depurar, clarificar” quase como um estudo empírico os detalhes que irão compor a reorganização na imagem. Seria, então, uma apropriação de objetos da vida ordinária que indicam o período contemporâneo em que se situa, o que deixa de lado a propensão às referências dispostas sobre a Antiguidade.

Assim, podemos ver que a Odalisca carrega consigo os objetos de seu cenário, o leque sinuoso de pena de pavão, o incensário, o turbante, a cortina que a desvela. Todos eles, esses poucos objetos, colocam a sua definição na obra, da mesma forma que a carta, a faca e a pena em A Morte de Marat, de David. Estão aqui, então, as evidências desse neoclassicismo.

Diante disso, porém, Ingres tinha uma influência a mais. Havia em suas obras uma tendência ao “primitivismo e ao arcaísmo”. Ou seja, isso permitia trazer à obra temas da Antiguidade clássica, sem esquecer-se, porém, da abstração da linha. É aqui, neste jogo de opostos – primitivismo, com sua temática arcaica, e o neoclassicismo, que se apoia na abstração da linha, mas sem referências ao mundo clássico – em que Ingres funda a composição de suas obras.

O que seria, então, esta abstração da linha? Ingres dizia aos seus alunos o quanto o desenho deveria, sempre, estar submetido à perfeição da linha. Era ela que deveria reger o desenho, e não a cor. Por isso ele sempre buscava se opor ao colorismo de Delacroix. Se observarmos a Odalisca, a linha determina os limites da forma: é ela a protagonista. Isso não quer dizer que a linha seja incapaz de conceder movimento à figura. Ingres reúne essa perfeição, na sua perspectiva, de uma linha que recorta a odalisca do restante, ao perfil dessa figura com um quê de arcaísmo, de um perfil que parece mais a impressão de um rosto em uma moeda. Do primitivismo e do arcaísmo Ingres traz também o movimento alongado dos braços e o rosto oval.

O mais curioso é que o arcaísmo tem figuras com posturas um tanto rígidas. E a Odalisca é, pelo contrário, essa massa que serpenteia o quadro. É sinuosa como o ideário criado pelo europeu da odalisca e do Oriente. Ao mesmo tempo em que a personagem de Ingres possui essa sinuosidade, o aspecto dado às pernas e às costas é denso. A Odalisca é leve em seu conceito e densa na composição. Ingres obteve a reunião dessas duas características que poderiam ser totalmente opostas.

A Grande Odalisca, é também, irreal. A sua pele não possui imperfeições. Brinca-se que a personagem nem costelas têm, dada a curvatura absurda com a qual ela se volta ao espectador. A Odalisca é uma mulher imaginada por Ingres, tão distante da realidade que quase denuncia o absurdo de suas formas. Não há mulheres iguais à Odalisca justamente porque mulheres possuem peles de cores distintas, costelas que são obstáculos para o corpo não se dobrar como massa de modelar.

Talvez isso diga muito sobre a obsessão de Ingres em passar décadas trabalhando em suas personagens femininas, o vício em criar a perfeição a ponto de, por vezes, criar figuras impossíveis e assustadoras por serem impossíveis. E isso não impede de se obter espanto e fascínio pela forma que Ingres compôs. A figura da Odalisca transborda do quadro. O olhar do espectador não consegue recompor a origem de sua perna esquerda, ela parece surgir do fundo negro. O seu gesto não corresponde ao gesto harmônico de David: Ingres compõe uma odalisca que, ao se virar para olhar de forma oblíqua ao espectador, carrega toda a linha e a forma de seu corpo para a cena. O erotismo, aqui, reside neste espaço quase indetectável em que a Odalisca sai das trevas do quarto e olha para o espectador. O turbante com gravuras orientais, o leque feito de penas de pavão e o incensário constituem uma influência do orientalismo e alimentam a definição da personagem a partir do ideário europeu.

Com efeito, o fundo feito desta atmosfera fugidia dá destaque à figura feminina como se o erotismo fosse tácito, pairando no ar levemente. O cenário misterioso toca metade da face da odalisca e, é apenas por um olhar que não se fixa inteiramente no espectador, que ela seduz levemente. É com esse erotismo tácito que Ingres tenta equilibrar a grandeza da Odalisca, a qual se impõe na cena.

Em suma, enquanto artista, Ingres é esse centro de contradições, o qual ansiava pela perfeição da linha, exaltava o neoclassicismo, via-se às voltas do primitivismo e arcaísmo, ao mesmo tempo em que criava figuras as quais espantavam o público pela sua irrealidade. Mas a singularidade da odalisca se impõe ao carregar em cada pedaço de pele todo o ideário que o pintor declamava e seguia. A Grande Odalisca é, por fim, este choque e espanto do impossível que a arte pode criar.

Referências

CALASSO, Roberto. A Folie Baudelaire. Tradução de Joana Angélica d’Avila Melo. São Paulo, Companhia das Letras, 2012

COLI, Jorge. O Corpo da liberdade: reflexões sobre a pintura do século XIX. São Paulo: Cosac Naify, 2010.

FRIEDLAENDER, Walter. De David a Delacroix. Trad. Luciano Vieira Machado. São Paulo: Cosac Naify, 2001

INGRES, Jean Auguste Dominique. Escritos sobre arte in A pintura vol 9. O desenho e a cor. São Paulo: Editora 34

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