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E ainda é meio-dia

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O sol a pino anunciando a parcela

De dia quase inesgotável

De mais rotina vista da janela,

De doçura inefável.

E, veja só, ainda é meio-dia.

Situado em tal eternidade,

O sol promete inícios longínquos,

O almoço é engolido com ansiedade,

Das expectativas de sóis oblíquos.

Mas já é meio-dia.

Tempo esse que se consome em vão,

Na promessa de instantes vindouros,

De manhã esmorecida em sofreguidão.

O meio-dia é morte e vida em louros,

Marcados a pino com o que ficou,

Que, teimoso, resiste pelo porvir.

Mas, ainda assim, que inferno!

De dourado forte, solar e mortífero eterno

É este meu meio incólume meio gasto meio-dia.

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Doctor Who: Uma viagem pelo tempo e espaço

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Publicado no site Notaterapia

Não importa muito quanto tempo você leva para assistir Doctor Who. Afinal, tempo é relativo. Os dois meses viajando pelo tempo e espaço na TARDIS em 2014, a viagem que me levou a Cardiff, País de Gales, para conhecer o Doctor Who Experience, museu com os objetos da série, e as últimas temporadas que acompanhei, e os hiatos. Tudo isso me levou a este estado em que passei a me reconhecer como uma whovian novata. Novata porque ainda não enveredei pela série clássica que faz de Doctor Who uma série de 53 anos bem vividos, comemorados no dia 23 de novembro. Por enquanto assisti às nove temporadas da versão iniciada, na TV, em 2005.

Depois da insistência de amigos recomendando a série, eu aceitei viajar com o Doctor e passei dias refletindo sobre o sentido de humanidade. Também já cheguei a pensar que ouvi o som da TARDIS, mas era só a máquina de lavar do vizinho. Achei que a TARDIS havia chegado, mas era só o vento assoviando. Olhei para o corredor pensando que poderia haver um Slitheen na cozinha. Pensei que as quatro batidas que o Mestre escuta pode estar tocando no nosso horário político. Enfim, a realidade consegue ter algumas fissuras depois que você assiste Doctor Who.

Se você não sabe muito bem do que se trata a série, o que precisa ter em mente é que o protagonista é o último dos Senhores do Tempo. Doctor – apenas Doctor – vem de Gallifrey e, após a Guerra do Tempo contra os Daleks, seu planeta e povo se extinguiram. A escolha foi viajar pelo tempo e espaço dentro da TARDIS (Time And Relative Dimension In Space), uma cabine policial azul que é maior por dentro, uma máquina do tempo. Contudo, um viajante não precisa viajar sozinho. Neste ponto entram as companions, personagens femininas que possuem um arco de história entre uma a duas temporadas, com quem dividimos a perspectiva e vivência diante das inúmeras viagens.

Acompanhar o Doctor também tem suas consequências. Se conhecemos os Oods escravizados, se ficamos diante da morte iminente de uma população por causa da erupção de um vulcão, se alguém resolve virar em outra direção e isso muda o conceito do universo, ou se vemos a crueldade dos Daleks e a inimizade dos Cybermen, é possível encontrar uma constante nessas camadas subjetivas do tempo: o Doctor buscando salvar a humanidade. Numa linha temporal em que se encontra a luz e a escuridão nas ruas de Londres ou em outro planeta, o Doctor revela a nós que os céus podem ser dos mais variados tipos, mas o ímpeto pelo poder e conquista podem se mostrar em inúmeras faces. O que o Doctor devolve nas suas várias regenerações é, ironicamente, várias faces de um mesmo desejo, mas oposto: o de consertar a humanidade com sua chave sônica.

A série leva o espectador a cantos inimagináveis. Descobre-se como a ficção literária pode alcançar os limites da realidade vivida aqui na Terra. E o conceito de tempo? Bem, ele é subjetivo. Você fica meio perdido no início, achando que precisa registrar tudo num caderninho (como o da River Song!) para não ser perder. Só que o tempo é mesmo diferente na série e o que vale é simplesmente entender que o tempo passa a ser composto por camadas, linhas temporais com pontos fixos que não podem ser modificados, mas com as nuances postas a teste, capazes de alterar o sentido de um planeta inteiro.  Apenas o Senhor do Tempo vai saber se pode alterá-lo ou não. Por isso, esqueça que o tempo é tão linear quanto o do relógio. Em Doctor Who o tempo é, como de fato ele deveria ser, muita, muita coisa acontecendo ao mesmo tempo, como se houvesse um bola cheia de wibbly wobbly timey wimey…é indefinível.

E isso nos leva ao meu ponto favorito na série. Mais do que aventuras com alienígenas, estrelas, planetas, encontros com figuras históricas e uma cabine azul voando, Doctor Who fala da humanidade. Sobre o planeta Terra. Você poderia pensar que alguém que vê e sabe sobre tudo no universo poderia simplesmente estar entediado com a vida na Terra. Bom, quanto às pequenas atividades cotidianas, sim. Mas nunca em relação aos humanos. O Doctor consegue ver como essa raça frágil persiste mesmo com tantas tentativas de se conquistar e destruir a Terra. É uma criação fantástica a raça humana. Quase ingênua ao guardar pequenos cubos que caem do céu porque são diferentes ou utilizar as mais diversas tecnologias como parte do cotidiano a ponto de abrir um espaço para que essa tecnologia quase os destrua. Bem, nós fazemos isso.

Doctor Who acaba por ser um conto de fadas moderno. Nós gostaríamos de encontrar um sentido maior para a nossa vida do que apenas acordar e ir trabalhar. A presença das companions no enredo faz essa sensação se fortificar: o humano sempre deseja ter um pouco do infinito nas mãos, conhecer mais do que ele imagina, ou ver diante dos seus olhos tudo aquilo que sempre idealizou. Por isso eu acho que não estamos tão distantes assim do Doctor. Podemos não ter uma TARDIS, mas todo dia é preciso encontrar um pequeno fato no espaço-tempo para nos motivar. Algo que dê um sentido à realidade crua. Seja uma história, uma amizade, um pequeno acontecimento. O Doctor simboliza isso, o sonho humano de conseguir superar a sua fragilidade e tocar os mistérios do universo. Muito mais do que usar a ciência: podemos fazer isso pela nossa capacidade mais mágica, a de olhar a nossa volta e reconhecer o outro e a vida que há nos detalhes. São eles que formam a totalidade do mundo.

A relação com a companion, seja Rose, Martha, Donna, Amy ou Clara, é a de que um Senhor do Tempo não pode viajar sozinho, não pode ver o universo sem esquecer que há essa existência para ele preservar. Doctor é esperança, no fim das contas. E mesmo nós, humanos, não podemos viajar sozinhos. O significado da história só existe mesmo quando compartilhado com o outro. Um breve olhar para tudo aquilo que já imaginamos sobre o universo, pois criando uma história é que nos tornamos humanos. Por isso cada vida influenciada pelo Doctor – da companion ao espectador – acaba não sendo mais a mesma, porque uma alternativa foi aberta no espaço-tempo.

A série

Como sempre o Doctor precisa explicar para sua nova companion que a TARDIS é maior por dentro e que ele é capaz de viajar no tempo e no espaço, aqui vão as informações básicas para que não se sinta perdido ao entrar nesse universo.

Doctor Who é uma série britânica com 53 anos, o que significa que até agora tivemos 12 atores interpretando suas respectivas versões do personagem, pois o Doctor tem a capacidade de regenerar em um novo rosto, um novo comportamento. A nova série iniciada em 2005 conta com o 9th (Christopher Eccleston), 10th (David Tennant), 11th Doctor (Matt Smith) e o atual, 12th, interpretado por Peter Capaldi. Como de costume, a série possui autores convidados, como Neil Gaiman, mas com o enredo principal desenvolvido por um único roteirista. Da 1a a 4a temporada o showrunner foi Russell T.Davies, quem trouxe de volta a popularidade da série na televisão britânica por um roteiro que se tornou clássico entre os enredos de Doctor Who. E, a partir da 5a temporada até o ano de 2017, Steven Moffat conduz a série, um showrunner que concedeu uma concepção mais atual e jovem para o universo whovian, o que atraiu um grande público também. Em 2017 a série volta em abril com Capaldi como 12th Doctor e uma nova companion, a Bill (Pearl Mackie). E será o ano de despedida de Moffat, que passará o bastão para Chris Chibnall assumir em 2018, roteirista responsável por séries como Broadchurch, alguns episódios de Doctor Who como autor convidado e a spin-off da série Torchwood.

Quais episódios posso assistir para começar?

“Em todo o tempo e espaço, todo lugar e nenhum, toda estrela que já foi…por onde você quer começar?

Bom, se você quiser começar por alguns episódios em específico para sentir se irá acompanhar a série, aqui vai uma pequena lista. Por que escolhi esses episódios? Porque são histórias independentes. O bom mesmo da série é acompanhar desde a 1a temporada (de 2005) até a atual, assistindo também o especial de natal ao fim de cada temporada. E depois ver a série clássica. Assim você vai notando como o enredo cresce e assume caminhos nunca imaginados. E o melhor da série são os arcos. Pontos mencionados lá no início fazendo todo o sentido numa season finale que os amarra. Mas há episódios que compensa ver antes para ter uma ideia de como a série é diversificada em termos de roteiro.

  1. Blink – 3×10: as weeping angels (anjos lamentadores) vão assustar o espectador que não deve piscar em nenhum segundo. O episódio é quase um especial de introdução às personagens mais geniais da série, criada por Steven Moffat. Acompanhamos uma moça que gosta de conhecer casas abandonadas, até que acontecimentos estranhos passam a ocorrer com os amigos mais próximos.
  2. Vincent and the Doctor – 5×10: a beleza desse episódio é difícil de descrever. O 11th Doctor e a companion Amy Pond viajam até o final do século XIX e conhecem simplesmente Vincent Van Gogh, pois precisam ajudá-lo com uma criatura que o tem aterrorizado. A fotografia do episódio recriando os quadros, a emoção ao ver o drama de um dos maiores pintores faz da história inesquecível.
  3. The Empty Child e The Doctor dances – 1×09/10: primeiro enredo escrito por Steven Moffat, o episódio duplo traz uma atmosfera de suspense, com uma criança que persegue uma jovem, usando uma máscara de gás em plena Segunda Guerra Mundial. Um episódio impecável, com uma bela atuação de Christopher Eccleston como 9th Doctor.
  4. The Doctor’s wife 6×04 – um presente de Neil Gaiman à série, o episódio traz a chance de conhecer um pouco mais sobre a relação entre o Doctor e a TARDIS, numa história poética e mágica, nos moldes bem clássicos dos enredos do autor.
  5. Midnight – 4×10: um dos episódios em que o 10th Doctor (David Tennant) é posto à prova numa viagem claustrofóbica e terrível, na qual pessoas são possuídas por uma criatura que existe nas palavras repetidas. O maior medo presente no enredo é ver que, muitas vezes, o ser humano pode ser facilmente manipulado e esquecer o que significa estar na pele do outro.
  6. The Sontaran Stratagem/The Poison Sky – 4×04/5: um episódio em que duas companions, Martha Jones e Donna Noble, ajudam o Doctor a descobrir o que são os dispositivos ATMOS espalhados no mundo e o caos ao qual a Terra está submetida.
  7. Deep Breath – 8×01: O episódio 1 da 8a temporada é a introdução ao 12th Doctor, e Peter Capaldi é imperdível. A história envolve um dinossauro que engole a TARDIS e o clima vitoriano londrino, mistura inusitada que só Doctor Who consegue fazer. Se quiser mais do Capaldi, o episódio 4 da mesma temporada, Listen, é um dos melhores por trazer uma atmosfera de suspense e o medo por aquilo que mora debaixo da nossa cama.
  8. Os especiais de Natal: alguns deles são interligados e anunciam acontecimentos para a temporada seguinte. Mas A Christmas Carol é uma bela e doce referência a Dickens e The Snowmen é quase um thriller na Londres vitoriana.
  9. O especial de 50 anos da série: apesar de ser um episódio que vale a pena esperar para assistir na ordem, após ter visto as temporadas que o precedem, é bom assinalar aqui a importância de assisti-lo, pois traz o encontro entre o 10th e o 11th Doctor. E foi um evento tão significante que exibiram em diversos países, nos cinemas.
  10. Os spin-offs e filmes: o spin-off mais atual é Class, que tem sido exibido uma vez por semana no mês de novembro de 2016, Confidential (2005), Torchwood (2005) e The Sarah Jane Adventures (2007), é recomendado assisti-los depois das temporadas atuais ou durante as primeiras. E em 2013, Mark Gatiss escreveu o roteiro do filme An Adventure in Space and Time, especialmente para os 50 anos de Doctor Who.
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Lembre-se do 5 de novembro

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“Remember, remember, the fifth of November”, o verso anda pela rua com o estalido da rima, a bota encontra a pedra, a rua está deserta. No ar, sente-se a fumaça de pólvora queimada e morte consumida. Tudo parece convergir para aquela única figura na rua, que vê e sabe de tudo, tem até mesmo vislumbre do que seria e não foi. A voz que profere o verso vem da podridão de um tempo tão antigo que já fala pouco. E se instaura, pela fala e hálito envelhecido, o instante de outro mundo. A História caminha como quem está despreocupada com o que vai despertar em seguida. Ela volta em determinadas datas. Mas ela sabe que segura, naquele estalido da rua, o caminhar arrastado de outros homens. E seu hálito anuncia morte em vida, anuncia o peso de lembrar-se.

A História pode ver a cena imaginada. O fogo consome a pedra da rua, não mais fogo que se choca entre elas para, assim, nascer a faísca e a fogueira. É fogo que surge por debaixo delas, guardado em trinta e seis barris de pólvora, em sua potência, o caos e a morte da realeza. São barris silenciosos, que sussurram o perigo na poeira, guardados pela madeira dos barris que se encolhem nos corpos enfileirados abaixo da cidade. Permanecem em silêncio, esperando. Mas é possível ouvi-los. O explodir dentro de sua poeira fala, como promessa. O fogo é a palavra engolida por aqueles barris.

Lembre-se do dia 5 de novembro, sonho histórico do fogo falando entre pedras, de homens decidindo que sua palavra de ordem seria queimar, e nomeados heroicos pelas suas mortes, consumidos em papel histórico. Homem que ganhou máscara para a posteridade, ícone de subversão, personagem dúbio de um mundo contemporâneo, de homem católico para homem de combate no totalitarismo. O quase explodir dos barris fez nascer mito.

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A Noite das Fogueiras está aí, formando-se no chão. A primeira tora acesa reabre o estranho da ficção no mundo. A cortina se interpõe na rua, reveste e dilui o moderno urbano, faz bonecos povoarem as ruas para serem despedaçados e queimados como Fawkes, de máscara contemporânea, rosto que não viu aquele rosto. Só a História viu. Ela, com sua vestimenta complexa de mitos reavivados, é posta como fogo que queima novamente, restabelece aquela noite de 5 de novembro, e ela sussurra a língua do passado, esbarra no céu da boca e repousa nos lábios. Remember.

A rua antes marrom é tingida de laranja, ao fundo o vermelho é fumaça engolfando as silhuetas de humanos com tochas na mão. Já não se sabe mais se é agora, se é 1605, que tempo é este que passa pelas ruas? São as tochas de um fogo passado reanimando a data como história de conspiração pela pólvora, uma pólvora que teria queimado entre as paredes do Parlamento inglês. E como o lembrar-se é um despertar do mundo, a pólvora queima pela mão da História, a faísca é lançada, os barris se encolhem e se expandem abaixo da cidade, e o fogo explode, como dragão libertado dos contos proferidos pela língua dos homens.

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Imagens: celebração da Noite das Fogueiras em Lewes, Inglaterra, 2014