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OBRA DE ARTE DA SEMANA: O mosaico A batalha de Isso, de Filôxenos

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Publicado no site Artrianon (em novembro)

Filoxênos, A batalha de Isso, 5,84 x 3,17 m. Conservado no Museu Arqueológico de Nápoles, Itália.

O mosaico da batalha de Isso, de Filôxenos, exposto no Museu Arqueológico de Nápoles, é tema de um dos capítulos do livro Lendo imagens, de Alberto Manguel. O capítulo é iniciado com os versos de W.B.Yeats em A Woman Young and Old:

“Se […] pergunto se tudo está bem,

De espelho a espelho,

Não é por vaidade:

Estou à procura do rosto que tinha

Antes de o mundo ser criado”.

É com estes versos que uma análise do mosaico pode ser encaminhada. Primeiramente, o que Manguel nos concede é uma contextualização da obra. De acordo com o autor, o mosaico representa o instante em que Alexandre, o Grande, investe contra a Pérsia e Dario III. Entre as estratégias do combate, Dario avançou ao encontro de Alexandre, porém, este decidiu que subjugaria os cilícios. Acreditando que o recuo de Alexandre seria de medo, Dario conduziu seus homens pelo monte Amano para a planície estreita de Isso. Assim, a batalha foi instaurada. Mas acovardado e acreditando que suas tropas não eram superiores, Dario foge. Alexandre o procura até o cair da noite, e então regressa com o carro, o manto e as armas de Dario. O mosaico apresenta o embate entre as tropas, numa profusão de corpos que se confundem no mesmo tom ocre, entre poeira e morte.

A obra é conservada desde 1834 no Museu Nacional de Arqueologia de Nápoles. A obra, que mede 5,84 m por 3,17 m, foi considerada destruída pelo terremoto de Pompeia no ano 63 e não estava finalizada quando se registrou a erupção do Vesúvio no ano 69. Quanto à data, os especialistas ainda não chegaram a um acordo, nem sobre a batalha que ela representa. Considera-se, porém, que ela seria o combate de Alexandre contra Dario III, rei da Pérsia, em 331 a.C.

Pensar sobre um mosaico que preserva tempos impossíveis de imaginar é justamente ter, diante de si, um pedaço da história do mundo. Quase como a sentença que inaugura o capítulo de Manguel. Pompeia soa como um mundo fictício e distante. Aqueles soldados parecem apenas humanos de outra era tão longínqua que esquecemos o quanto eles podem ter em comum conosco. Olhar e se dar conta da existência deste mosaico é encontrar o rosto que tínhamos “antes de o mundo ser criado”.

O registro que se tem sobre os fatos desta batalha é datado do século II d.C., pelas palavras do historiador grego Flávio Arriano. Nesta confusão após a fuga de Dario, o pavor instaurado ao fazer parte de uma tropa abandonada levou inúmeros soldados à morte. O massacre no mosaico é esta grande soma de corpos que já estão mortos ou estão prestes a morrer, quase agarrando-se a qualquer corpo e a qualquer esperança de sobrevivência. A atmosfera do mosaico é o desespero pela vida e o manto de única cor da morte, o tom ocre que parece engolfar a todos. Os cavalos se desesperam e as armaduras pesadas puxam os soldados para o abismo. Manguel comenta que homens tentavam sair pelos caminhos estreitos da montanha, mas acabavam pisoteados pela própria tropa ou pelos cavalos. Afirma-se que cem mil membros da infantaria persa e 10 mil membros da cavalaria foram mortos na batalha de Isso. E o que assusta é que se considera, no lado de Alexandre, apenas 504 feridos, 32 soldados mortos e 150 cavaleiros. Nas palavras do biógrafo de Alexandre, Quinto Cúrcio Rufo, “a um custo tão pequeno uma imensa vitória foi alcançada”.

Observando detidamente a cena do mosaico, entre os personagens, temos Alexandre no instante em que tenta perseguir Dario, que está em seu carro de duas rodas. O que mais se destaca são os olhos enormes dos soldados, que se lançam à frente carregando o grande terror. É como se pudéssemos ver o mesmo que eles veem. As lanças criam linhas no céu do embate, tornando toda a cena claustrofóbica, com um céu opressor e impõem a presença dos soldados no chão. Parece, assim, que o olhar do espectador perde a conta diante da quantidade de pessoas na cena, logo desiste de imaginar quantos estão no embate, para dar lugar à constatação terrível de que são muitos. E que não conseguimos visualizar tantos outros soldados que se perdem na multidão.

Contudo, em meio a todo o caos mortífero do embate, há uma pequena figura que chama a atenção na obra e concede a ela a sua grandiosidade. Abaixo de todos os personagens, há um homem caído olhando o seu próprio rosto refletido no escudo. É um soldado persa abaixo da roda de Dario que olha para o seu reflexo para ver-se antes de morrer.

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Manguel cita a crença dos antigos gregos, romanos e tribos germânicas de que “o eu consciente residia no peito, e associavam o pensamento com a respiração: aquele que não mais respirava já não podia mais pensar”. E ainda tinha-se medo da cabeça desencarnada, que saberia mais como se fosse uma espécie de gênio assustador. Além disso, encarar os olhos seria acessar a sua alma. Não é à toa que a arte grega primitiva representa o perfil. Se os olhos encaravam, era com o objetivo de assustar.

No mosaico, o soldado olha-se totalmente diante do escudo como quem busca conhecer a si mesmo antes de morrer. A morte seria, portanto, o único instante em que a sua alma se desvelaria. É nesse momento em que a imagem, considerada criação falsa e inconstante da vida, finalmente coincidiria com a essência do homem.

O comentário de Goethe sobre o mosaico é apropriado. “Nem o presente nem o futuro serão capazes de comentar apropriadamente uma obra de arte tão extraordinária, e seremos eternamente obrigados, depois de todos os nossos estudos e explicações, a contemplá-la com uma pura e simples admiração”. Encontrar o soldado persa em meio à morte é encontrar o mesmo olhar que possuímos, a mesma busca.

Assim, a obra de arte, em geral, é a vivacidade que pulsa em si mesma enquanto criação e se vivifica também pelo nosso olhar. Ela é um escudo que reflete, no fim das contas. Escudo porque ela não é totalmente acessível, porém ao refletir, ela brilha um pouco de sua verdade. O homem participa da obra porque está nela também, ela funda um povo, o que conduz o homem à sua origem como um ser cultural. E a batalha de Isso continua a falar e clamar para ser vista, porque ela traz a morte que acontece em todos os cantos do mundo, em qualquer época, fala de mortes sem glória, da perda de pessoas que nunca conheceremos. Mas há algo de nosso em todas elas. E contemplar estes soldados do mosaico é devolver o olhar, até encontrar aquele rosto criado antes mesmo do início do mundo.

Referências bibliográficas

MANGUEL, Alberto. Lendo imagens. Tradução de Rubens Figueiredo, Rosaura Eichemberg, Cláudia Strauch. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.

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Animais fantásticos é delicado e nostálgico para fãs de Harry Potter

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Publicado no NotaTerapia (eu e a capacidade de esquecer de repostar aqui um texto de novembro de 2016)

Entrar no cinema e ser recebido, na escuridão da sala, por aquele letreiro clássico pelo qual nós adentramos várias vezes é a primeira emoção que Animais fantásticos e onde habitam concede ao espectador. Permeado por sensações de nostalgia, emoção, uma alegria inocente, choque e tensão no desfecho, o filme funciona como uma boa história contada. Em vez do órfão bruxinho Harry Potter, acompanhamos Newt Scamander em 1926 chegando em Nova York com sua mala cheia de criaturas fantásticas e uma cidade em estado de intolerância.

Neste filme, o protagonista é o doce pesquisador Newt Scamander, autor do livro Animais fantásticos e onde habitam, usado pela geração de Harry Potter nas aulas de Hogwarts. Voltamos ao tempo para presenciar o crescimento deste pesquisador e os desafios que ele enfrentou. Em sua maleta existem várias criaturas as quais ele cuida com amor e devoção: os fofinhos e simpáticos Pelúcio e o Tronquilho, o imponente Pássaro-Trovão, o fascinante Occamy, entre outras. Não são criaturas que devem ser domesticadas ou destruídas. E Newt prova isso, ele defende essas criaturas do mundo. Ao mesmo tempo em que se protege deste mundo que julga um pesquisador com ideias diferentes, Newt protege criaturas respeitando e conhecendo as suas particularidades. Desta forma, Animais fantásticos pode ser também uma bela história sobre amor e devoção.

Esta beleza se encontra também na temática, na maneira com que ela é conduzida por personagens interessantes e por excelentes atores. Temos um poderoso grupo formado entre o pesquisador Newt Scamander (Eddie Redmayne), a ex-aurora Tina Goldstein (Katherine Waterston), a bruxa com habilidades de legilimência e irmã de Tina Queenie Goldstein (Alison Sudol) e o não-mágico (trouxa) que sonha em abrir uma padaria Jacob Kowalski (Dan Fogler). O que há em comum entre os quatro personagens é que, sutilmente, percebemos que passaram por situações em que seus sonhos ou seus dons foram renegados, ou que foram julgados por quem eles eram, tanto quanto as criaturas que Newt protege. Por isso, a amizade deles se torna forte, um elo que o filme não precisa ficar reafirmando. É um elo que está ali e se mostra suficiente para conduzir a trama.

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O poder do roteiro de J.K.Rowling é que ela cria atmosfera e personagem como ninguém. A trama de Animais fantásticos pode parecer simples em um primeiro momento. Mas é com sutileza que a autora deste universo cria algo independente de Harry Potter. Ela dialoga com estereótipos e certos clichês do cinema, mas dá algo mais aprofundado e verdadeiro a eles quando subverte detalhes. Animais fantásticos parece se equilibrar neste risco de tornar Jacob apenas um alívio cômico, de Newt ser apenas a figura do nerd, de Tina ser a intelectual reservada e Queenie a figura feminina para embelezar a cena. Contudo, eles vão revelando mais camadas do que isso, e de forma sutil. Mais camadas do que muitos filmes blockbusters apresentam de seus personagens.

Junto a isso, um ponto que precisa ser elogiado é a ambientação do filme. Como roteirista, J.K.Rowling soube criar uma Nova York bruxa em meio aos problemas dos não-mágicos (ou trouxas) que conhecemos muito bem, como o clima pós Primeira Guerra Mundial, a lei seca e a aura dos anos 20. Misturado à decadência de prédios em tom ocre, de multidões vestindo preto e longos sobretudos, de ruas povoadas, prédios de mármore e becos cheios de música, a Nova York que se desvela na tela é bela e fascinante. E J.K. não deixa de expor o clima de tensão na sociedade criada por ela, onde ser bruxo era condenável e urgente se esconder pela própria segurança, onde leis pareciam segregar mais do que proteger.

Ainda em relação à Nova York, é possível argumentar que a cidade poderia ter mais brilho e uma paleta com tons mais abertos nesses ambientes, para que dialogassem com o brilho próprio do universo mágico que vem da maleta de Scamander, pois em alguns instantes a paleta tende a cores mais sóbrias. Nota-se, assim, como a direção de David Yates opõe mais os universos do que os agrupa. O mundo da maleta de Scamander e o dos bruxos é diferente daquela Nova York não-mágica.

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Em relação aos filmes anteriores de Harry Potter, a direção de David Yates em Animais fantásticos está mais madura e um pouco mais autoral. Mesmo assim, falta ao diretor criar um olhar mais particular para expor a história, que fosse além das tomadas de cena mais comuns. Ele ganha mais força quando compõe cenas de ação grandiosas, quando dá dignidade às criaturas mágicas ou quando coloca o personagem ao canto, expondo uma linguagem e uma sensação do personagem com aquele take. E isso Animais fantásticos poderia ter exposto mais. Ou seja, a direção de Yates é bela quando abre o mundo das criaturas fantásticas ou quando apresenta a ameaça do filme, preenchendo a tela com tensão e choque.

O clímax do filme é anunciado com poucos sinais durante a trama. Ele funciona enquanto situação de choque. Há instantes, no filme, em que sentimos o quão Animais fantásticos é adulto ao falar de pena de morte, ao expor a violência, o drama de personagens renegados socialmente, e ao dar um corpo denso ao horror que se instala na cidade. É uma tensão na qual o espectador, de fato, mergulha. E o filme acaba por misturar e explorar diversas sensações no decorrer da trama, sem soar confuso. Porém, é preciso dizer que Animais fantásticos foca mais nas relações humanas e em apresentar as criaturas, do que anunciar uma trama de tensão e mistério composta com clareza desde o início. Isso pode agradar ou desagradar alguns espectadores, pois o enredo pode ser mais atmosférico do que uma história marcada por fatos.

Portanto, em meio a todo o universo deste novo filme, é Newt quem conduz a redescoberta desta magia que tanto cinema quanto literatura conseguem despertar. O amor com que ele vê as criaturas, e a relação de seus amigos com elas, são os nossos olhos para o universo potteriano. Newt convida, com a atuação certeira de Eddie Redmayne neste papel, a relembrar uma sensação adormecida, contudo, sem deixar de ganhar uma vestimenta nova. Animais fantásticos consegue ser um filme eficiente ao contar uma história bem amarrada. O que pode decepcionar um pouco é que o filme não deixa claro quais pontas irá retomar nos próximos filmes da saga. Ele deixa no ar essa sensação de risco, pois estamos diante de uma história desconhecida, com receio de que cinco filmes desgastem o enredo ou que não se repita a sensação deste primeiro filme. Mas parece que o universo de J.K.Rowling vale para que enfrentemos essa dúvida. Pois, ao adentrar na maleta de Newt Scamander, a sensação é de gratidão por ter povoado o universo da autora desde os oito anos de idade. E ver que, no adulto Newt Scamander, ainda ressoa aquela emoção de quem entra em Hogwarts pela primeira vez.

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O que é ser artista nos discursos de Meryl Streep e Viola Davis no Globo de Ouro

Publicado no site Artrianon

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A segunda-feira amanhece com um frescor peculiar, após o discurso da atriz Meryl Streep no Globo de Ouro, na noite do dia 8 de janeiro. Com a voz comprometida pela rouquidão e muito emocionada, a atriz conseguiu fazer de um mero discurso de premiação um breve manifesto sincero sobre a situação política americana e, principalmente, sobre o poder da arte. Para entregar o prêmio a Meryl Streep, Viola Davis a antecedeu, falando sobre a atriz. E o discurso de ambas acabou por criar uma bela harmonia que expressa muito sobre o papel da arte.

Premiações, por vezes, são exaustivas. O que as tornam singulares e humanas são as vozes dos atores os quais expõem a relevância e a emoção em ver os seus trabalhos sendo reconhecidos. Porque se esquece de que um filme ou um seriado é criado por meses no mistério de um set de filmagem, e que um ator envolvido no projeto compõe um processo para dar vida a um personagem. Tais vidas não são cristalizadas na pureza de um ser criado pela aleatoriedade. Um personagem ganha a perspectiva, o gesto e a voz concedidas pelo ator, mas justamente aquelas que tal personagem precisa ter. O personagem, assim, se compõe por trabalho do ator, diretor, roteirista, e o olhar do espectador, que o renova.

Como Viola Davis afirma em relação à Meryl Streep, a atriz homenageada observa, rouba o que observa, para trabalhar com tudo o que vê na composição de seus personagens humanos, para torná-los vulneráveis. Isto é, Meryl atua como “uma máquina de alta potência” e “revela o que roubou naquele lugar sagrado que é a tela”. Viola acrescenta que vê Meryl, pois essa foi a inspiração enquanto artista, para que continuasse trabalhando. Ver significa reconhecer-se no outro. Assim, uma artista ajudou a desvelar a outra.

Além disso, Davis afirma um ponto que precisa ser levantado quando se cria uma obra, um personagem. “Eu imagino que você está dentro deles, esperando pacientemente, usando-se como um canal, incentivando-os, para persuadi-los a liberar toda a sua confusão, para confessar, expor, viver”. A emoção do discurso de Viola Davis sobre Meryl Streep é de cunho universal, pois mesmo tratando-se de uma atriz em particular, ela fala sobre esse aspecto de uma criação artística. O pintor contempla, à espreita, a tela em branco onde irá desenvolver uma obra a qual terá a sua coerência pensada pelo artista. Contudo, é impossível para este pintor prever cada gesto que precisa oferecer, para pintar. A mão toma a forma de sua criação e de sua necessidade, e o gesto passa a pertencer à espontaneidade desse artista que se cria por meio de sua própria criação.

O escritor opera assim, também, pois revisa, critica, escreve intensamente a sua trama, que se descortina aos poucos, com o tempo da própria narrativa: é a história que pede, ao escritor, por mais paciência, que seja mais ardiloso na sua investigação. Ou seja, criar, muitas vezes, está nesse universo particular, quarto um tanto sombrio e silencioso que, aos poucos, ilumina-se e é preenchido por sussurros a cada passo do criador em seu interior. Meryl Streep, a atriz, se locomove no universo de seu personagem, testando-o. Mas neste processo, a criação se contamina pela humanidade do artista, pois é justamente deste gesto que ele precisa para ser uma vida singular criada pela perspectiva do ator.

“Você faz com que eu me sinta orgulhosa em ser uma artista. Você me faz sentir que o que eu tenho em mim – meu corpo, meu rosto, minha idade – é suficiente”. Esta suficiência da qual Viola fala é o ponto-chave. Ser artista é muito mais do que o resultado oferecido em obra, ou muito mais do que a imagem veiculada ao ator. É muito mais, e ao mesmo tempo, algo ainda mais simples: a singularidade dessa existência corporal. Um corpo que o ator precisa aprender a ouvir e a reconhecer, pois nas imperfeições desta massa é que residem o gesto que inaugura o seu personagem, é nele que se encontra a humanidade, nas rugas, na idade, na pele. E é desta particularidade do ator que se abre um sentido novo, uma voz distinta. “Você encapsula aquela grande citação de Émile Zola, que se você me perguntar como artista o que eu vim fazer neste mundo, eu como um artista diria: eu vim viver em voz alta”.

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A resposta de Meryl Streep ao discurso de Viola Davis foi um passo a mais nesta exposição sobre o que é ser artista. A atriz começou por apresentar a nacionalidade de seus colegas atores. “O que é Hollywood senão um grupo de gente de todas as partes?”. Ruth Negga, protagonista de Loving, é de origem irlandesa e etíope. Natalie Portman é de Jerusalém. Dev Patel é britânico, nascido no Quênia e criado em Londres, filho de imigrantes indianos. Ryan Gosling, estrela de La La Land, o filme que foi o grande vencedor da noite, é canadense. Essa pluralidade é uma pequena prova de que a campanha anti-imigração de Donald Trump, o presidente eleito nos EUA, é incoerente e desumana. Apenas por alusões, sem citar o presidente, Meryl Streep conseguiu apresentar o medo diante do futuro, o quão assustador é ver uma figura pública incitar a violência e o desrespeito, os quais só obtêm um ódio coletivo.

Portanto, qual seria o espaço do artista neste cenário? Há uma frase que se encaixa com perfeição nestas palavras, de Toni Morrison, com a qual eu me deparei assim que Trump foi eleito, e que serviu de alento: “é precisamente neste instante quando artistas vão ao trabalho. Não há tempo para o desespero, não há lugar para a comiseração. Não há necessidade de silêncio, não há espaço para o medo. Nós falamos, nós escrevemos, nós criamos linguagem. É assim que a civilização se cicatriza”. Esta frase densa ressoa no discurso de Meryl Streep, pois passamos por um ano em que a sensação de medo era generalizada. Discursos de intolerância vindos de figuras públicas, e em forma de bombas destruindo cidades, calando povos em partes esquecidas do globo, escolhidas para não serem vistas. Além de um medo por uma violência incessante nas ruas, calando estrangeiros, mulheres, e a comunidade LGBT. Parece história dolorosamente repetida.

Diante disso, é fácil distinguir e dispor a imagem do outro como mais do que estrangeiro: é fácil fazer do outro algo indesejável, incomum, e tirar dele toda a sua humanidade, compondo discursos em que uma pessoa se diz a favor de uma bondade no mundo, mas se contradiz inteiramente quando repete palavras de ódio e preconceito. É pertencer cada vez mais às distopias literárias, as quais apresentam mundos onde o discurso se permite a cair em contradições que nunca são inofensivas.

E em meio a essa complexidade que é carregar o peso do mundo, o artista parece ter um trabalho insuficiente. Até mesmo privilegiado e incólume. Meryl chama a atenção a este ponto, atores estão em situação privilegiada, mas isso não diminui a responsabilidade em apoiar, “daqui por diante, a imprensa, no seu trabalho de proteger a verdade”.

A arte se alimenta pela complexidade das perspectivas humanas. O contato com outras culturas, línguas e pessoas, a peculiaridade da linguagem e como nos constituímos culturalmente por meio dela. Para falar, supomos que há outro. Precisamos do outro. A arte, portanto, acena e conecta os homens. Adaptando as palavras de Meryl Streep, o simples trabalho do ator será possibilitar que sejamos e sentimos aquilo que é ser o outro. E, aparentemente, sentir como o outro é, em tese, simples, mas raro numa multidão de vozes intolerantes.

Por fim, uma noite que demonstra a urgência de recordar a empatia, de Viola afirmando o quão forte foi a inspiração de Meryl para que se tornasse artista, de o fato do trabalho de um artista se comunicar com o outro, fica o legado de Carrie Fisher citada por Meryl Streep, “pegue o seu coração partido e o transforme em arte”. Continue a criar, mesmo, e talvez mais ainda, em tempos sombrios.

Leia o discurso de Meryl Streep na íntegra aqui 

Discurso de Viola Davis aqui