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5 contos para ler no Halloween – parte II

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Publicado no site Notaterapia

Como o Halloween está chegando, a vontade de ler obras temáticas aumenta. O mês ganha ares misteriosos, pelo anseio de ser surpreendido por algumas obras, e o desconhecido do medo que a literatura consegue ceder ao leitor. O mais curioso, porém, é quando alguns autores têm a proeza de causar medo ou chocar neste formato.

O medo fundante por poucas páginas, em breves palavras que já situam o leitor em uma atmosfera, ou criando proximidade com o personagem, acabam por formar um todo interessante na forma do conto. E assim encontramos histórias inesquecíveis.

A lista abaixo traz apenas alguns enredos que podem ser lidos no mês do Halloween, caso queira entrar na atmosfera assustadora. Com certeza há muitos outros contos que poderiam entrar aqui. Mas as histórias abaixo são daquelas que forçam o leitor a se ver checando o seu travesseiro à noite antes de dormir. Ou se assustando com o peculiar interesse de um jovem pelos dentes da prima. Ou ter medo de uma aparente garotinha inocente.

Se quiser ler mais, a parte I da lista se encontra aqui. As listas buscam citar autores de diferentes nacionalidades, para assim conhecermos mais e mais obras. Boa leitura!

  • O modelo de Pickman, de H.P.Lovecraft (1927)

O conto O modelo de Pickman convida o leitor a descer ao porão de um pintor que diz retratar o horror por meio da observação. O narrador é uma das testemunhas que conta a história, após ter aceitado um passeio junto ao artista. São obras indescritíveis, que nunca seria exibidas por encerrarem o próprio horror. O cenário são igrejas, cemitérios, lugares abandonados. E o choque fica por conta da figura de demônios no primeiro plano. Porém, é o modelo do artista, descrito no conto, que choca e parece olhar diretamente ao leitor no final do conto. A narrativa nos faz visualizar as criaturas, que, aos poucos são descritas como criaturas caninas com traços semelhantes aos humanos. É impossível ficar alheio às últimas palavras de Lovecraft.

  • Travesseiro de penas, de Horacio Quiroga (1917)

Alicia e Jordan são recém-casados. Apesar dos ditos “sonhos infantis” e idealizações de Alicia sobre seu marido, os dias de lua-de-mel revelaram um marido frio e recluso. Alicia sentia que ele podia amá-la, mas por vezes duvidava de seus sentimentos. Aos poucos, ela foi assumindo o papel de esposa, aguardando o marido voltar do trabalho. Nesse intervalo, Alicia dormia e vivia o confinamento do lar. Com o tempo, ela adoece, mostrando-se pálida e magra. Jordan tenta de todas as formas ajudar com algum tratamento e fica ao lado da esposa. Mas Alicia definha. Os dias de Alicia e a expectativa do que ocorre que a jovem movem o conto para um clímax o qual Quiroga fecha com as melhores frases finais. Elas ficam na mente do leitor após o final da leitura. Porque a solução encontrada por Quiroga no enredo é fazer o medo e o terror serem exprimidos pela coisa mais trivial do cotidiano, um travesseiro.

  • Berenice, de Edgar Allan Poe (1835)

No início do conto de Edgar Allan Poe, um dos maiores autores do gênero terror, somos apresentados ao personagem Egeu. Ele narra a peculiaridade de sua juventude e o aparecimento de uma espécie de neurose, a monomania. Ele era capaz de passar dias esgotando uma única frase em latim ou observando o tomo de um livro. Logo os dentes e o sorriso da prima Berenice ganham o foco de sua atenção. Ele descreve a beleza e as particularidades dos dentes dessa jovem que era o contrário dele, muito doce, feliz, espalhando alegria pela casa. Quando Berenice adoece, é a fase que Egeu amou a prima. Porém, a amava com o cérebro, analisando cada particularidade, gesto da jovem, como objeto de estudo. É essa loucura e fixação do narrador que faz de Berenice um dos contos mais chocantes da literatura. Com final trágico, Poe consegue criar dúvida na mente do leitor, que se vê encaixando os fatos até o final aterrorizante da obra.

  • A morta, de Guy de Maupassant (1887)

O conto A morta apresenta o desespero de um protagonista que perdeu a amada. Composto por diversas frases exclamativas, o lamento do personagem vai ganhando corpo até um momento muito estranho que ocorre diante de seus olhos, no cemitério. As últimas frases do conto são as responsáveis pelo destino do personagem e pelo horror com o qual ele se defronta.

  • Miriam, de Truman Capote (1945)

H.T.Miller, Miriam, é uma viúva reclusa a qual tem uma rotina muito simples. Numa noite de inverno, ela resolve ir ao cinema. Já na fila, a senhora conhece uma garotinha de cabelos brancos e sobretudo azul, que também se chama Miriam. Elas entram juntas na sala após Miller pagar os ingressos para a garota. Após se despedirem, tarde da noite, alguém bate na porta. É a garotinha Miriam, muito insistente, que aos poucos começa a se mostrar perturbadora por conta de seu comportamento evasivo. No conto, Capote cria uma atmosfera tensa, numa narrativa bem construída. O final tem algumas interpretações possíveis sobre o paradeiro de Miriam. Além do teor fantástico, o horror também consiste na sensação de impotência diante das investidas das pessoas, a perda de liberdade e a loucura.

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OBRA DE ARTE DA SEMANA | Saturno devorando um filho, de Goya

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GOYA, Francisco de. Saturno devorando um filho, 1819-1823, 1,43 m x 81 cm

Publicado no site Artrianon (especial de Halloween)

Olhar para essa pintura de Goya, chamada Saturno devorando um filho (1819-1823), já provoca choque e asco, o que normalmente afasta o espectador. Contudo, ela tem uma história curiosa e revela muito da singularidade do trabalho de Goya, um pintor que conhecia o Iluminismo, a exaltação da razão como verdade, mas que identificava também os crimes e o horror causados justamente pela desculpa da razão na arquitetura das guerras. E, principalmente, Goya sabia como desconstruir o ideal do eu, expondo a corrupção social.

Com a criação dos Cadernos, Goya constitui um espetáculo do horror, que nada mais é do que um registro dos atos vis do homem. Quando se passa a ver essa grande soma de gravuras feitas pelo pintor, é como se questionar como fica, então, o ideal do eu, o homem como a maior manifestação da racionalidade, diante dos crimes cometidos em guerras, a desigualdade entre os sexos, o estupro, a morte dos filhos pelos próprios pais.

É preciso dizer, primeiro, que Saturno se trata de uma pintura a óleo sobre reboco que fazia parte da decoração dos muros da casa que Francisco de Goya adquiriu em 1819 chamada a Quinta del Sordo. O que hoje está exposto no Museu do Prado é a transposição do reboco para tela, feita em 1873 por Salvador Martínez Cubells, encomendado por Frédéric Émile d’Erlanger. A obra faz parte de uma coleção de 14 cenas chamada Pinturas Negras.

Saturno devorando um filho representa o deus Chronos, ou Saturno segundo a mitologia romana, no ato alegórico em que ele comia os filhos que teve com a esposa Reia, por ter medo de ser destronado por um deles. Por isso, o deus Chronos é aquele que governa o Tempo. Matando seus filhos, era possível manter-se na mesma posição de poder.

Na mitologia, porém, vale remarcar que a origem de Chronos, essa figura criada pela seita órfica, vem do titã Cronos, que comeu os seus filhos para que não se rebelassem contra ele e lhe tomassem o poder da Terra como ele fez com o seu pai, Urano. Isso é narrado na Teogonia, de Hesíodo, em que Cronos teria castrado o pai com um golpe de foice, casou-se com Reia e devorou os filhos para impedir que tirassem seu posto. Restou apenas Zeus, que Reia salvou enrolando uma pedra no cobertor a qual foi engolida por Cronos sem que esse notasse. Assim, Zeus pôde crescer a salvo.

Com efeito, o modo com que Cronos derrotou Urano é importante para entender parte da representação de Saturno na pintura de Goya. Nela, o personagem assume uma forma distorcida, de braços e pernas magros como as de um idoso. São seus olhos e a voracidade com que engole o filho que dão a ele a força e a ameaça do tempo devorador. É possível notar também que, ao redor da virilha, Goya faz uso de sombras que colocam em dúvida se ele foi castrado ou não. O pintor compõe a luz por um amarelo ocre que se mistura ao marrom e ao preto, sendo o vermelho opaco que escorre pelo corpo a cor mais forte.

De modo geral, essa figura é quase inumana. Goya a constitui de forma a soar distante do aspecto humano. Entretanto, é seu rosto, a marca máxima da loucura, que ganha traços mais definidos e remete à humanidade. Além disso, é preciso pensar sobre a forma do corpo que ele devora. Como observa Tzevtan Todorov em Goya à sombras da luzes, pode ser visto como um corpo feminino pela curva da cintura. Diz Todorov que na antiga fotografia desse painel pintado por Goya, “o personagem estava com o sexo em ereção”, detalhe perdido ou dissimulado no momento em que ela foi transferida para a tela (TODOROV, 2014, p.207). É curioso esse tipo de observação pois se esquece que os filhos de Saturno teriam sido tanto homens quanto mulheres, mas comumente se representa o titã comendo bebês ou rapazes jovens.

Tanto o corte do pênis promovido por Cronos em relação ao pai Urano, quanto o seu destino repetido pelas mãos de Zeus, faz lembrar também que na mitologia Vênus nasce da mistura de esperma e sangue derramados de Urano, castrado por seu filho Cronos na disputa de poder. Se considerarmos a forma do corpo em Saturno como feminina, essa desigualdade entre os sexos é tema recorrente das obras de Goya. Todorov aponta para esse retrato do casamento como espaço também de violência, em que tanto o homem quanto a mulher matam e abusam, e sendo o divórcio impossível na Espanha daquele contexto, a legenda que Goya insere na obra Capricho 75 é muito relevante: o casal aparece como presos um ao outro, capturados pelas garras de uma ave noturna, com a legenda “não há ninguém que nos desate?”.

Apesar de Goya demonstrar que a brutalidade masculina contra a mulher seja mais forte, por meio de várias gravuras de estupro e guerras, ele apresenta também o canibalismo de Saturno pela forma de uma bruxa mascarada de caveira que come criancinhas, em Mulher má (álbum D GW 1379). É possível que Goya tenha visto o quadro Saturno, de Rubens (1636), em que a forma devorada é um bebê ainda não desmembrado.

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Seja um personagem mitológico que devora os filhos, seja uma bruxa que come criancinhas, com essas narrativas Goya revela o horror do ato humano. Ele faz lembrar que o homem não é feito tão somente de racionalidade e controlado por regras na dita civilização. Ele faz escolhas e possui “impulsos” os quais podem ganhar a forma destrutiva e doentia do canibalismo, da agressão, do estupro. A guerra nada mais é do que a morte e a violência tornadas um ato normalizado.

Desta forma, Saturno devorando seu filho não é apenas sobre uma referência mitológica. Ela expõe a guerra dos sexos e traz à tona o desvario nesta outra narrativa sobre o mundo, muitas vezes tornada um espetáculo esvaziado na mídia atual ou uma história a ser escondida por ser vil. Goya vive “à sombra das luzes”, termo esse escolhido por Todorov no título de sua obra. Apesar de viver por entre os ideais do Iluminismo, Goya soube manter a lucidez quanto à complexidade contraditória do mesmo homem que pode criar pela razão ou destruir em nome dela.

A obra de Goya é, portanto, uma cirurgia sem anestesia. O espetáculo da violência ganha o filtro artístico de sua pintura pois desvela o horror ignorado. Por toda parte do mundo, em qualquer momento da história, esses atos se repetem à sua maneira. Saturno carrega nas mãos que devora o filho a lembrança de que, não importa o século ou de qual narrativa fazemos parte, todos somos filhos do tempo e ele nos devora vorazmente para manter seu poderio.

Referências bibliográficas

TODOROV, Tzvetan. Goya – à sombra das luzes. Tradução Joana Angélica d’Avila Melo – 1a ed. – São Paulo: Companhia das Letras, 2014

Teogonia, de Hesíodo (domínio público)

Museu do Prado