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OBRA DE ARTE DA SEMANA | A valsa, de Camille Claudel

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Publicado no site Artrianon

A escultura A Valsa (1892), da artista Camille Claudel, é feita de uma sensibilidade poderosa. Sem sabermos que música embala o casal, vemos duas formas dadas sinuosamente pelas mãos de Claudel, em um movimento que transcende o material e se torna respirante. É uma bela representação de um amor que perdura no eterno dos poucos minutos de uma canção.

Sobre Camille Claudel, sabemos do pouco reconhecimento que obteve em vida. Da relação conturbada com Auguste Rodin, grande artista ao qual Camille Claudel foi constantemente atrelada e deixada à sombra do nome do escultor. Isso influenciou a recepção e a valorização da obra da artista, que felizmente tem sido muito mais estudada nos dias atuais. A História tem uma dívida com o trabalho de Camille Claudel.

A vida sofrida e cheia de abusos permearam os últimos dias de Claudel. No século XIX, as mulheres não podiam frequentar a Escola de Belas Artes: apenas em 1900, de fato, uma turma de mulheres pôde começar em um atelier exclusivo. Foi na Academia Colarossi que Claudel seguiu com seus estudos, sob orientação do Mestre Alfred Boucher.

Camille Claudel foi pioneira por esculpir figuras nuas femininas com um erotismo muito particular sob sua perspectiva. Quando era negada às mulheres o acesso ao modelo vivo, por se tratar de corpos nus, o trabalho de Claudel ganha ainda mais peso. Como ser escultora ou pintora sem poder fazer uso do desenho de observação de modelos vivos? Apenas fazendo uso de cópias nos ateliês de seus professores ou de obras dispostas nos museus.

Uma solução para Claudel foi usar o próprio corpo como modelo. Obviamente, a pressão social foi enorme, suas obras corriam o risco de ser acusadas de obscenidade devido à nudez. Sobre a vida de Claudel, após o rompimento amoroso com Auguste Rodin, a escultora foi internada em um hospital psiquiátrico pela própria família, onde morreu após 30 anos de sua internação, esquecida e sem o direito de criar artisticamente.

Diante disso, a escultura A valsa carrega uma poderosa sensação de melancolia, nostalgia e o abandono gradativo de uma relação amorosa. No casal que desliza com graciosidade, desafiando o peso do cobre que o compõe, a escultura parece ser feita de um amor que está nos últimos instantes de sobrevivência. Da mesma forma que a valsa é a dança dos enamorados e se inicia dando um passo para o lado, a escultura tem essas duas pessoas que deixam um rastro do movimento executado.

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A grande massa aos pés do casal parece ser uma nebulosa levantada do solo quando os dois executaram o movimento. Ora se parece com o vestido feminino de longa cauda, figurino característico da dança. Ora se parece com as vagas do mar. Como se os dois estivessem no limite em que as ondas aportam na praia e morrem.

É esse amor que está, com todo o esforço de seus corpos e emoções, buscando atrasar o fim do relacionamento. Ambos têm consciência do que não é dito e que só reside nos silêncios da música. O rosto da mulher parece se desviar do homem que fala a sua orelha, ao mesmo tempo que tenta se encaixar em seu ombro de forma sinuosa.

Observando bem, não se trata de uma valsa oficial. É o arrastar-se informal dos namorados que apenas dão um passo de um lado ao outro. Mas é nesse deslizar que dura poucos segundos que os dois lutam pra manter esse contato físico.

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Se deixarmos de interpretar a escultura como uma despedida, ela funciona também como o início de um romance, no qual cada movimento dado é carregado de grande significado: a mão que se toca, o repousar da face no rosto do outro, o erotismo sutil nos gestos. Da mesma forma que podemos ver a luta pela permanência do amor, há uma luta para fazer esse romance se realizar, pois cada gesto é coreografado como se fosse uma preparação para um grande embate.

Há um imenso contraste entre o peso do material usado, o bronze, e a leveza da valsa. Claudel consegue o equilíbrio perfeito quando cria as vestes que se assemelham às vagas do mar para criar a incerteza entre a representação de algo físico, como um vestido, o movimento não detectado pelos olhos ao se deslocar numa dança, e ainda a densidade emocional desse deslizar lento do casal. Porém, é preciso dizer que, para evitar um escândalo, Claudel precisou vestir seus personagens.

A maneira com que a artista decide fazer isso é o que faz de A valsa a grande obra que ela é. Pois ainda assim conseguimos observar a grande carga erótica na exibição de parte do corpo do casal, assim como a sua proximidade. Apesar de serem duas formas, cada qual com seu movimento e corpo, parecem pertencer a uma só figura. O pequeno espaço entre os corpos é a grande tensão, e a obra congela os segundos em que a mão está prestes a repousar na outra, e o rosto de encontrar o outro. Ou é tensão feita pelo último segundo em que esses corpos estão juntos antes de se separarem e se tornarem incongruentes entre si.

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Por isso, testemunhamos em A valsa uma recriação do relacionamento amoroso situado na eternidade de uma dança, o entregar-se e o se desvencilhar. Camille Claudel possui o mérito de tornar presente e eterna uma relação que não resiste à vida, mas que tem o seu elemento mais puro do amor congelado em bronze.

Referências bibliográficas:

LEALL, Priscilla Cruz. Mulheres artistas: há desigualdade de gênero no mercado das artes plásticas no século XXI? in ENECULT, 2012, Bahia. Culturas, Gêneros e Sexualidades, 2012.

SIMIONI, Ana Paula Cavalcanti. O corpo inacessível: as mulheres e o ensino artístico nas academias do século XIX. ArtCultura, Uberlândia, v. 9, n. 14, p.83-97, jan.-jun. 2007.

Artsy Podcast, No 63: Camille Claudel, The Sculptor Who Inspired Rodin’s Most Sensual Work

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Crítica | Sem fôlego

Publicado no site A Toupeira

SemFolego_Cartaz_WebA premissa do filme “Sem Fôlego” (Wonderstruck), dada pelo tom do trailer, é de uma busca catártica de duas crianças pela própria identidade, ao som da épica música Space Oddity, de David Bowie. Alguns elementos como a magia do gabinete de curiosidades e da descoberta do mundo por meio da evolução no Museu de História Natural de Nova York fazem do vídeo uma boa promessa.

O enredo conta a história de duas crianças e épocas distintas. Em 1977, habitante de Minnesota, Ben (Oakes Fegley) sofre pela perda da mãe e tem sua vida mudada quando é atingido por um raio ao atender um telefonema. Por sua vez, em 1927 vemos a jornada da garota Rose (Millicent Simonds), que foge de casa para encontrar a consagrada atriz de cinema mudo Lilian Mayhew (Julianne Moore). Dois pontos unem a vida de Ben e Rose: o fato de serem surdos e a presença de um livro antigo sobre um gabinete de curiosidades.

A princípio, a história e os elementos dados na narrativa são promissores. A busca pela própria identidade, a falta de compreensão diante das dificuldades em ser surdo, e o olhar sonhador da criança que consegue identificar o frescor do mundo, pois tudo é visto, neste instante, pela primeira vez. É o grande olhar de um desbravador, como daquele que pesquisa e coleta os objetos mais exóticos do mundo e os reúne em um gabinete de curiosidades.

O problema, porém, é que o filme menciona elementos que, ao fim, são muito mal utilizados para a construção da trama e o desenvolvimento dos personagens. Primeiro, o formato escolhido para contar a história de ambos não permite que conexão alguma se estabeleça entre espectador e personagens. Vamos da jornada de Ben a de Rose como se fosse uma mera linha temporal, em que uma história é contada sem se preocupar com as emoções das pessoas retratadas.

A trama de Rose é toda contada no formato de um filme mudo de 1927, em preto e branco e com a trilha sonora acompanhando-a. Contudo, reunindo a sua parte com a de Ben, o modo de contá-la se torna vazia e até mesmo entediante.

De uma cena a outra, somos levados às resoluções dos personagens, sem surpresa ou encanto algum. O caminho é óbvio, e a trilha sonora também não ajuda, é insistente em tentar recriar um formato de outra época, tornando-a uma imagem superficial e pouco crível. Além disso, as tomadas situadas nos anos de 1970, com Ben, são exaustivas, com uma câmera que não foca nas cenas apresentadas, tornando-se meros borrões que buscam remeter ao universo periférico de Nova York.

Como foi dito, tanto o tema da surdez quanto o olhar fundante da criança podiam compôr uma história singular. A resolução dada ao enredo é rápida demais para criar impacto, não dando tempo para o espectador se envolver e ter a mesma sensação, ao final, de pertencimento a um lugar, junto aos personagens. Nem mesmo a presença do tal livro tem um impacto verdadeiro na trama.

Assim, Sem fôlego possui nas mãos elementos que poderiam dar certo para uma construção narrativa e perde a oportunidade de criar um grande filme sobre a exploração da beleza do mundo através do heroísmo de duas crianças e a união de duas épocas por meio de um singelo livro.

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Crítica | The Post – A Guerra Secreta

Publicado no site A Toupeira 

Indicado a ao Oscar em duas categorias, Melhor Filme e Melhor Atriz (Meryl Streep).

The-Post-cartaz-criticaA notícia é uma criatura à espreita pedindo para ser revelada. Ela é, porém, mais urgente quando tem guardada em si a verdade sobre um governo que enviou tropas para a guerra do Vietnã sabendo, desde o início, que não haveria vitória. Apenas pelo orgulho patriota americano do governo de Nixon. Na era atual, onde a informação ganha tons efêmeros junto às fake news, o apelo ao entretenimento e aos likes, onde o jornalismo engajado é raro e parte de um romantismo de outra época, “The Post – A Guerra Secreta” (The Post) é um relato entusiasmado acerca da resistência da liberdade de imprensa e um elogio à democracia.

Dirigido por Steven Spielberg, o filme retrata o histórico ano de 1971. A grande crise na qual The Washington Post é situado trata-se dos famosos “Papéis do Pentágono”: 14 mil páginas que consistiam no documento ultrassecreto do Pentágono, roubado por uma fonte e vazado pelo jornal The New York Times. Depois do furo dado por esse último e a ida do The Times a julgamento pela Suprema Corte, o The Post se vê no dilema de divulgar ou não o restante, o que comprovaria a grande revelação de que o governo americano manipulou inúmeros dados para controlar a informação sobre o progresso da Guerra do Vietnã. Reside nas mãos de Katharine Graham (Meryl Streep) e Ben Bradlee (Tom Hanks) a escolha de permanecer com o jornal seguro sem mencionar o caso, permitindo que o The Times, o rival, seja punido, ou cumprir com a função do jornalismo investigativo de conceder a verdade ao povo americano, apoiando a liberdade de imprensa.

A direção de Spielberg é concisa. De início, o filme pode exigir mais atenção do espectador em relação aos nomes e aos rostos dos personagens envolvidos no vazamento do documento. É o trabalho de Spielberg que consegue preservar não apenas o interesse pela história narrada, mas o ritmo bem intrincado. Pois a partir dos nomes conseguimos nos estabelecer em solo mais seguro, no decorrer da trama, para compreender os seus desdobramentos.

Um grande mérito de The Post é criar tensões a partir da articulação dos fatos: somos levados a prender a respiração na espera de um telefonema, de se sentir angustiado com a tensão de deixar as moedas caírem do bolso para pagar uma ligação, aquela que pode decidir o destino da imprensa. Além disso, a escolha pelos tons azulados e cinzas criam elegância para a fotografia e a atmosfera dos anos de 1970, junto ao ideário do jornalismo engajado, criado por entre as mesas de mogno, as máquinas de escrever e as roupas formais, tudo colocado com um romantismo bem comedido.

O roteiro é bem construído e o encanto do longa fica nas mãos do elenco. Meryl Streep interpreta, com o seu já esperado talento impecável, Katharine Graham, a dona do jornal The Washington Post, enquanto Ben Bradlee é encarnado por um excelente Tom Hanks, editor-chefe do jornal que se vê em uma das maiores batalhas pela liberdade de imprensa. O duo formado flui muito bem na tela e há uma construção bem desenvolvida para os dois personagens, um em função do outro.

No caso de Katharine Graham, começamos por ver quatro das situações mais clássicas vivenciadas pela mulher no mundo empresarial: o mansplaining, o gaslighting, manterrupting e o bropriating. Esses são termos para definir algumas situações em reuniões ou encontros acadêmicos, onde os homens creem que precisam explicar à mulher aquilo que ela já havia dito ou já sabe; colocam em dúvida a sanidade da mulher; se sobrepõem às suas vozes interrompendo-as; e repetem as mesmas falas das mulheres apropriando-se de suas ideias já ditas. Todas são expressões de misoginia muito recorrentes e que o filme retrata com realismo, pois nos mostra como cada uma dessas situações afetam a autoestima feminina.

Vemos uma personagem inteligente, porém extremamente insegura, a única no meio masculino herdando a história do jornal não apenas das mãos do pai, mas do marido que se suicidou. A responsabilidade dela é maior ainda por ser mulher, sempre colocada duplamente em dúvida. Meryl Streep consegue demonstrar o medo do fracasso, da recusa e do julgamento alheio pelo qual Katharine passa a se ver. Ela cria uma imagem de si mesma a partir das exigências e das dúvidas dos demais.

As agonizantes horas estudando termos de economia e todo o potencial que Graham esconde dos outros são tão bem exprimidos pela interpretação de Meryl que seu crescimento é dado com muita sutileza, na trama. Katharine Graham cresce ao mesmo tempo em que precisa tomar decisões que nenhum dos demais deseja tomar, e encontra em Ben Bradlee o seu equivalente nessa batalha.

O personagem de Tom Hanks, o editor-chefe do The Post, encarna em sua forma toda a sagacidade, impaciência e eficiência do jornalista que deseja fazer de seu jornal um ponto histórico. A ousadia de Bradlee é tão vivaz que acompanhamos no mesmo fôlego que o personagem a perseguição pela fonte e o dilema em publicar. A sua relação com Katharine Graham cresce, também, quando ele passa a ver que se algo ocorrer com o jornal, a mais prejudicada será ela. A amizade entre os dois personagens se intensifica e colabora com a qualidade do filme.

A produção possui vários momentos em que se sente entusiasmo e ansiedade pelo o que virá, na trama. Mas é certo que o poder está não apenas na direção, mas na representação de Graham e Bradlee. Se já sabemos que Meryl Streep e Tom Hanks são atores de talento imenso, neste filme é possível ver, com prazer, toda a escalada deles e as nuances nos olhares, nos gestos. Meryl Streep, de fato, domina a tela criando uma personagem que respira com autonomia naquele universo, e é tão real que consegue falar por mulheres de diversas épocas. E Tom Hanks torna Bradlee uma forma singular que não soa como cópia de uma pessoa real, ele tem sua própria formulação muito bem dosada pelo ator.

Dito isso, este é um filme bem-vindo para relembrar os valores do jornalismo. O último título que trouxe isso à tona foi Spotlight – Segredos Revelados, vencedor do Oscar de Melhor Filme em 2016. Porém, The Post tem uma sofisticação maior em contar a sua história, em fazer de seus personagens parte do enredo e uma direção mais rica. É um ótimo longa para pensar que grandes decisões da história foram tomadas também em salas pequenas, em corredores, em florestas isoladas, no meio à guerra, entre o sim e o não no ato de recuperar documentos que revelariam a verdade sobre uma guerra.

The Post engloba o entusiasmo por este passar a verdade adiante e lembra que a democracia resiste mesmo entre os abusos judiciários e os presidentes não-representativos de uma nação.

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Crítica | Me chame pelo seu nome

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Publicado no site CF Notícias 

Indicado ao Oscar em quatro categorias: Melhor filme, Melhor Ator (Timothée Chalamet), Melhor Roteiro adaptado, Melhor canção original.

O filme Me chame pelo seu nome (Call me by your name) evoca o melhor dos ares festivos e sonhadores das férias de verão. É uma grande exposição delicada sobre o primeiro amor e as dores dos ritos de passagem. Dirigido por Luca Guadagnino, retrata o romance de verão entre Elio e Oliver, e pode ser visto tanto como uma história de amor quanto como uma bela narrativa sobre o tempo.

Indicado a três Globo de Ouro por Melhor Filme Dramático, Melhor Ator em Filme Dramático – com o talentoso Timothée Chalamet – e Melhor Ator Coadjuvante por Armie Hammer (Oliver), o filme tem recebido elogios por parte da imprensa internacional e com razão. Curiosamente, Me chame pelo seu nome tem uma participação intensa brasileira: um dos produtores é Rodrigo Teixeira, e a RT Features é a sua produtora responsável pelo filme italiano cada vez mais próximo do Oscar, o qual ainda não liberou a lista de indicados à edição de 2018.

A história se passa na Itália dos anos de 1980, durante as férias de Elio (Timothée Chalamet). O jovem está prestes a fazer 18 anos, e vive dias de leitura, passeios e transcrições de música. A família dele é composta por pais acadêmicos que recebem, nesse período, alunos de outros países para ficar na casa deles. Por isso, o americano Oliver (Armie Hammer) se hospeda durante o verão para acompanhar os estudos de arqueologia do pai do jovem e acaba por viver um romance efêmero de verão com Elio.

A obra tem o ritmo leve e preguiçoso de férias. A forma com que ela retrata o tempo parece distante da intensidade que vivemos no meio urbano atual. É fácil o espectador se deixar deitar na beira de uma piscina para experimentar a mesma sensação de Elio e Oliver ao aproveitar dias solares. A permissão do tédio, de observar os fatos e viver o dia sem ter como base tarefas a seguir, mas tão somente a presença do sol, é um convite irresistível que Me chame pelo seu nome faz e consegue cumprir, deixando o espectador viver tudo com intensidade pela perspectiva do jovem Elio.

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A paleta de cores e a fotografia são compostas pela delicadeza das cidades do interior da Itália, entre as águas e as pedras que circundam os habitantes, pedras essas que parecem sempre possuir uma história muito antiga para narrar. O figurino também é responsável pela excelente transformação do ambiente na Itália dos anos de 1980, favorecendo a caracterização dos personagens de modo fiel.

Além da adaptação do livro de André Aciman conceder um bom enredo, o elenco é o grande responsável pela qualidade do filme. Armie Hammer consegue transferir o ar misterioso e maduro a Oliver, característica que aos poucos se ameniza diante das emoções que ele se permite mostrar e como se entrega à relação. Por sua vez, o trabalho de Timothée Chalamet faz de Elio um personagem fascinante. Começa o filme com uma postura acanhada, uma personalidade reclusa que duvida de si mesma diante de Oliver, para uma figura que amadurece aos poucos diante dos olhos do espectador. Notamos isso pelo olhar, pela forma de andar, os gestos e as falas insinuantes de Elio, tornando-se um personagem cativante, do qual é impossível tirar os olhos.

O filme poderia ser mais uma história sobre amores de verão, porém a forma com que se escolhe contá-la é o que faz dele uma excelente obra. As referências à arte, à filosofia e à música não são aleatórias. No conjunto, o longa se compõe por cada uma de suas menções. A primeira referência que se pode notar, na trama, é o espaço onde os personagens se concentram. Em alguma cidade da Itália, os personagens criam um vínculo em um lugar onde a história tem camadas intermináveis. O pai de Elio é arqueólogo e a produção trabalha sob a mesma tarefa: explorar e descobrir sentimentos como quem encontra uma estátua esquecida ao fundo do mar. É Vênus, a deusa do amor, por sua mão feita de pedra de outros tempos, que coroa e oferece trégua à relação dos personagens.

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A presença da água também é importante. Primeiro, ela se mostra como parte do imaginário da Roma antiga, dos tempos de banhos públicos entre os homens em águas termais. É confirmado pela História que, entre os gregos, a relação homossexual não era tabu. Pelo contrário, a relação entre homens mais velhos e os mais novos era incentivada por se considerar que havia uma transmissão de valores do mais sábio a nova geração, e que o mais velho aprendia com o mais novo.

Elio e Oliver possuem, de início, esse obstáculo da diferença de idade, que aos poucos é superado. É bem-vindo o fato de a trama conseguir apresentar uma relação igualitária, que não consiste em um homem mais velho explorando um mais jovem, numa relação em que pesaria a experiência e conhecimento do outro enquanto o mais novo se sentiria diminuído ou mesmo privilegiado apenas por ter sua atenção. O filme toma cuidado para apresentar uma relação mútua particular entre duas pessoas de idades diferentes, com uma interação que cresce de forma natural, sensível e realista, sem soar desigual ou abusiva pela idade e experiências distintas.

A abordagem do masculino usando a sensualidade das esculturas gregas de Praxíteles também contribui muito para o longa. Sabemos como é difícil e um tanto raro, no cinema, ver o retrato do corpo e da sexualidade masculinos da mesma forma que se vê o feminino. A verdade é que a nudez feminina é sexualizada com imensa frequência nas artes, enquanto a masculina por vezes é dada como apenas uma exaltação do corpo atlético e honrado por representar a força potencial pertencente ao ideário masculino.

A narrativa faz dos próprios personagens uma alusão às esculturas gregas e ao passado da Itália, e novamente, a água não é item arbitrário. É possível entender a estrutura do filme se prestarmos atenção às citações de Heidegger e principalmente aos fragmentos de Heráclito. Na trama menciona-se a famosa frase de Heráclito, filósofo de cerca de 500 a.C., “nunca se banha duas vezes no mesmo rio”. O filme, com a sua simplicidade de mostrar um romance efêmero, também dialoga com a ideia filosófica de Heráclito, de que nada é fixo, a única coisa permanente, segundo ele, é justamente a mudança. Grande parte do filme se passa nas águas. A estátua resgatada do mar é a mudança entre Oliver e Elio. As outras cenas em que os dois também se encontram nas águas são simbólicas na relação de ambos como mais uma mudança. Elio e Oliver não são os mesmos cada vez que se banham nas águas, e a relação muda os dois.

O ponto que arremata a inteligência do filme é a presença do fogo. Entre os pré-socráticos, buscou-se responder qual era o elemento essencial que forma o cosmos. Tales, considerado o primeiro filósofo ocidental, afirmou “tudo é água”. No decorrer da produção, vemos as referências ao sêmen e ao alimento suculento (o pêssego) como parte importante da história dos dois, sendo que são elementos mencionados pelo próprio Tales como sinônimos de vida por serem úmidos. Porém, Heráclito via o fogo como o elemento da natureza que definia o cosmos. E por que o fogo? Porque ele é a luta dos contrários, é como existe, de fato, vida: na mudança. O fogo seria, então, a imagem da permanente mudança, da vida que consome a si mesma. No filme, o fogo se apresenta como a mudança que é preciso contemplar por ser inevitável na existência humana.

Dito isso, Me chame pelo seu nome apresenta uma relação com um arco bem planejado na sua proposta, sem necessariamente ter que oferecer reviravoltas e tristezas. O título apresenta o peso da relação desses dois personagens: carregar o nome do outro é assumir a responsabilidade pelo outro. A película, em todo o seu retrato delicado de um verão, apresenta, assim, um ensaio sobre o significado da vida e do tempo. O término deixa notas melancólicas por mais um verão terminado e a sensação de ter presenciado um produto de imensa qualidade.

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Não há amanhã, de Gustavo Melo Czekster

 

Não há amanhã, Gustavo Melo Czekster

Editora Zouk, 2017, 158 pgs.

Há livros que encantam por trazer à tona o fantástico como um corte no tecido cotidiano de modo inesperado. A obra de Gustavo Melo Czekster, Não há amanhã, é um deles, um livro capaz de se propor inteiro como uma voz ativa. Nessa segunda e bem-sucedida coletânea do autor, com 30 contos, encontramos a vida feita por essas inúmeras e infinitas atribuições de sentido que só o ser humano pode lhe conceder, a morte como fim definitivo e a dificuldade para a mente humana de lidar com a sua existência e com o outro.

Para efetuar essa grande apresentação temática, a obra se compõe por um costurar de temas e frases que, no conjunto, parecem falar por meio do silêncio. O primeiro conto soa como um abrir de cortinas, onde a voz do autor enquanto personagem, anuncia que virão histórias sonhadas pela frente. É válido dizer que, como leitora já assídua das obras do Gustavo, ironicamente já tive sonhos esquisitos enquanto lia seus livros: sensação de me desintegrar, a impressão de ver os contos transformados em imagens de um enredo scifi e mais mutação. É curioso porque sua primeira obra, O homem despedaçado, anuncia também esses temas que serão postos de forma distinta em Não há amanhã, e com o qual também tive sonhos esquisitos de mesmo teor (e não sou a única, pelo que soube).

A coletânea é um grande convite ao leitor em se tornar personagem com ar de investigador. O conto Efemeridade, por exemplo, consta quatro vezes na obra. Contudo, apesar da semelhança, são escritos sob perspectivas distintas. Enquanto no primeiro conto o narrador é aquele que comete o crime e iguala as crianças às borboletas no campo, no segundo conto parece ser a borboleta que é o centro do enredo e se vê irmã das crianças por um breve instante. No terceiro, temos uma alteração na forma com que os fatos sobre Paulo são contados, nos quais ele parece interceder e querer libertar as borboletas do tormento que é ser belas por tão pouco tempo, igualando-se a elas em sua efemeridade, indicando que ele, Paulo, tem apenas 24 horas de vida. E no último conto, temos a narrativa finalmente igualando borboleta e humano em uma só vida, ou seja, a vida humana teria em sua potência essa mesma efemeridade das borboletas, e no ato destruidor desse homem efêmero, destruir outras vidas também efêmeras.

O tema de uma vida breve é o que dá o tom dos demais contos, mas, principalmente, a sensação de vivermos vidas iguais. O sentido anuncia a existência de se viver o mesmo dia de espera, e enfatiza a presença do banco na capa do livro, a espera por um amanhã. A partir desse conto é possível pegar o primeiro fio para enrolar com os outros: O sentido se entrelaça com Os problemas de ser Claudia, A discursividade dos parques e Problemas de comunicação, pois esses colocam os personagens na seguinte dúvida: e se estamos todos vivendo a vida de outros, vivendo sonhos atrás de sonhos, como se fosse um tecido sem a matéria do futuro, como um looping temporal? O fato é que ninguém é inteiramente único, somos e temos muito do Outro, do passado e do presente do Outro. Sendo o futuro algo criado culturalmente como algo descolado e pertencente às utopias, nada dele estaria alcançável às nossas mãos. Portanto, falar em amanhã trata-se sobretudo de uma ficção.

Entre a coletânea há contos que fazem referência também ao processo de criação artístico, seja ele o sublime, no limite entre o belo e o grotesco, seja a inauguração de um universo ou mesmo da criação de um duplo. Gustavo faz isso de forma metalinguística, por exemplo, em A passionalidade dos crimes, onde o narrador escreve uma carta direcionada ao professor que deseja condenar e ao leitor, afirmando que aquele texto era o início de sua morte: ao lê-lo, já se está automaticamente em processo de morte. O antídoto, porém, está em alguma das diversas palavras espalhadas no conto. É um texto que ironiza esse desejo do escritor em encontrar a palavra definitiva ou a verdade, já que escrever é mais processo do que se deparar com o fim de um caminho dotado de revelações determinantes.

Com efeito, há o belo conto Neve em Votkinsk, o qual recompõe a obra concerto 1 para piano, de Tchaikosvky, conto narrado pelo compositor, apresentando as inseguranças e a solidão enquanto criador que está diante de uma obra singular, distinta de qualquer outra já feita. Aqui, compreende-se que o modo de um sujeito se mostrar singular é pela criação, um trabalho que envolve sempre a morte de alguma parte de si mesmo, e ainda assim, é uma morte que envolve trazer à tona outras partes que vão além da comum existência. Há algo de divino nesse ato.

Os grandes destaques do livro ficam também para os contos A revolução como problema matemáticoOs que se arremessam e Mercúcio deve morrer. Este último, porém, é de longe o melhor da coletânea, dada as várias camadas ficcionais que o envolve. Gustavo levou quase 3 anos e meio para compô-lo. A premissa é a existência de um teatro que, ao se alcançar a vigésima apresentação de Mercúcio deve morrer, o ator ou atriz deve desfalecer no palco de forma épica. Nessa catártica execução, com ares de normalidade, multidões se juntam para ver a morte real desse ator, que interpreta o papel de si mesmo, desafiando o significado do simbólico. Afinal, a morte está de fato ocorrendo no palco. Tal como um sacrifício, do ator em seu auge, para ser lembrado. O ponto é que essa morte vista pelo público torna mórbido o prazer pela execução e pelo sangue. Com ares de artigo acadêmico, o conto tem notas de rodapé que contextualizam todo o universo da obra e dão veracidade à proposta, o que assusta muito.

Assim, Não há amanhã coloca em diversas camadas a discussão da mortalidade terrena e da imortalidade pela arte. Se Tchaikovksy o consegue matando uma parte sua, de forma simbólica, para criar, Mercúcio deve morrer é o ápice do absurdo em que o gesto literal da morte seria em si já suficiente para conceder a imortalidade. Ou a proposta enlouquecida de Os que se arremessam, em jogar-se em abismos ou contra carros para experimentar o breve instante onde a verdade se revela na morte.

Por isso, a coletânea de Gustavo Melo Czekster é apaixonante. Toca em temas universais de forma fresca, remonta a autores como Jorge Luis Borges, Dante Alighieri, William Shakespeare, que também se puseram em face à imortalidade e ao poder da ficção, com a atualidade exata de quem conta uma história de todos os humanos que temem o mesmo: a morte e a possibilidade de não haver o amanhã para resolver as grandes pendências que empurramos por toda a vida.

Leia mais do autor no blog O homem despedaçado