Crítica | Mudbound – Lágrimas sobre o Mississippi

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Publicado no site CF Notícias

Indicado a quatro categorias do Oscar 2018: Melhor atriz coadjuvante, Melhor roteiro adaptado, Melhor direção de fotografia, Melhor canção original

Explicar a trama de Mudbound é uma difícil tarefa. O filme perpassa temas pesados que à primeira vista, quando se sabe sobre a trama, não é possível imaginar que estão presentes. Há uma surpresa no tom de Mudbound, que compensa não saber de antemão, e possui coragem ao aumentar gradativamente a intensidade desses temas expostos, sendo ao fim um filme necessário.

Em Mudbound, acompanhamos de início a relação de Laura (Carey Mulligan) e Henry McAllan (Jason Clarke). O casamento dos dois se faz por ser o melhor que ambos podem conseguir no momento. Há instantes felizes, até que Henry, sem consultar a esposa, resolve que eles e as filhas precisam se mudar para uma fazenda. Vemos, assim, a dificuldade de Laura em sua adaptação à vida rural.

A película não romantiza o bucólico. Pelo contrário: existe um realismo cru em Mudbound que mostra como a perspectiva de seus personagens é modificada pelo meio. Os sonhos viram amarronzados com a visão da lama todo dia, os sapatos atolam sempre nela, e o corpo nunca está livre da sujeira e do pó. A morte também permeia essa lama e, sobretudo, o que sustenta esse contexto todo é a escravidão.

O filme acerta em mostrar as diferentes situações de submissão de uma pessoa a outra. O seu foco é a escravidão negra, com a adorável família dos Jackson e as situações abusivas pelas quais eles passam. Somos apresentados à rotina deles, da saudade que sentem do filho mais velho que está na guerra, e os muros construídos pelo racismo advindo de Henry e de seu pai.

Ao mesmo tempo em que vemos o racismo como tema principal, percebemos a condição feminina também como uma submissão terrível, para Laura. Se na relação dos Jackson a mãe e esposa tem igual espaço de fala, na relação de Laura e Henry ela não possui poder de reclamar, muito menos de interferir nas decisões do marido.

Além desses personagens, encontramos muito bem abordadas as implicações dos traumas do pós-guerra. Voltar para um meio no qual se é desprezado, quando anteriormente outras nações o recebiam com respeito como herói, é a grande dificuldade de Ronsell Jackson (Jason Mitchell). Por sua vez, Jamie McAllan, irmão de Henry, bebe para esquecer quantas mortes ele carrega nas costas enquanto piloto e responsável por bombardeios. Juntos, a amizade entre um negro e um branco, naquele contexto, tem impacto explosivo.

Há um lirismo em Mudbound, apesar da densidade de seus temas. Ele está na ajuda que Florence Jackson dá às filhas de Laura. No cuidado que Jamie tem em construir um espaço para Laura ter sua privacidade ao tomar banho. Na tentativa de se ajudar outras mulheres. Na amizade incomum para aquele contexto entre Jamie e Ronsell. Na permissão de mostrar que homens sofrem e amam, que a guerra não é só feita de força, mas de fragilidade.

Esse conjunto de personagens é a grande beleza de Mudbound. Pois cada um deles tem seus dramas bem desenvolvidos. No decorrer do filme, o espectador se vê envolvido com esse contexto e deseja proteger os Jackson, Jamie e Laura. O enredo concede sensibilidade a temas dolorosos. Ao fim, o contraste entre a sociedade americana e a pobreza do campo, o racismo, a condição feminina, a violência e a submissão, todos se reúnem como um complexo quadro de uma época, de Mississippi e dessas terras cheias de morte e de heroísmo escondido em sua lama.

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