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OBRA DE ARTE DA SEMANA | Amendoeira em Flor, de Vincent Van Gogh

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O quadro Amendoeira em Flor (Almond Blossom) (1890), de Vincent van Gogh, é parte de uma série de pinturas que o artista fez com esta espécie botânica. O fato interessante em torno dessa pintura é que ela foi feita por Van Gogh como uma celebração à vida. Em 31 de janeiro de 1890, Theo, irmão do pintor, escreveu a ele informando que seu filho havia nascido, a quem ele chamara de Vincent Willem, em uma homenagem ao irmão. Com essa notícia, Van Gogh criou a pintura, que consiste nos galhos poderosos da amendoeira florindo em um fundo turquesa simulando o céu. Há dúvidas se o quadro foi posto durante décadas acima da cama do casal ou perto do piano na casa de Theo.

A amendoeira floresce bem cedo em algumas regiões, e é a primeira a anunciar a chegada da Primavera ainda no início de fevereiro. Mas a escolha por essa flor tem grande simbologia. Sabe-se que Van Gogh tentou a carreira de pastor na juventude, tendo uma vida toda em um seio familiar fervorosamente religioso. No texto bíblico, a amendoeira possui algumas menções. No hebraico “shaqad” é velar, e “shaqed” significa amêndoa. Com esta semelhança, no texto bíblico existe a seguinte passagem: “Ainda veio a mim a palavra do SENHOR, dizendo: Que é que vês, Jeremias? E eu disse: Vejo uma vara de amendoeira. E disse-me o SENHOR: Viste bem; Porque eu velo sobre a minha palavra para cumpri-la.” (Jeremias 1:11-12). Isto é, neste contexto, a amendoeira simboliza o ato divino de velar, vigilar e proteger, conhecida também como a “despertadora”, por ser a primeira a anunciar a Primavera.

A pintura possui um frescor de vida nova em cada um dos galhos pintados pelo artista. Esses galhos são feitos em verde, mas com contornos grossos de tinta escura, enquanto os galhos menores que erguem as flores ganham contorno de verde. Quando observado o conjunto, esta composição torna tanto as flores quando os galhos menores mais iluminados e grandiosos, em contraste com os galhos escuros. Para apresentar a rigidez do galho principal, Van Gogh escolheu fazer pequenos círculos que mostram como a madeira é incongruente. Neste galho retorcido e com estes círculos contornando o galho, conseguimos notar o crescimento das flores não de forma chapada, mas tomando certa dimensão dos galhos mais curtos e os mais longos. Van Gogh também adicionou manchas com bastante tinta em verde-água para representar as veias da madeira no galho principal.

As flores, por sua vez, são apresentadas tanto com os botões fechados, quanto pela grandiosidade daquelas que acabaram de anunciar o nascimento. Em branco e amarelo suave, as flores se espalham com extrema delicadeza pelos galhos retorcidos. Algumas delas estão com contornos em vinho, para destacar os botões fechados das flores abertas. Esse destaque em vermelho com o contorno feito por poucos traços mostra que esses botões também são uma espécie de rascunho do que virão a ser, flores completas.

O japonismo em Van Gogh se reflete a partir do fascínio que tomou a segunda metade do século XIX. A procura do pintor por essa abordagem era sobretudo pela serenidade do japonismo. “E não poderíamos estudar arte japonesa, parece-me, sem ficar muito mais feliz e alegre, e isso nos faz retornar à natureza, apesar de nossa educação e nosso trabalho em um mundo de convenções”. O estudo do japonismo era carregado de idealizações sobre o exótico mundo longínquo, pelos olhos do Ocidente. Aliadas às observações que Van Gogh já fazia das flores e da natureza, em geral, o quadro Amendoeira em Flor faz lembrar também as encantadoras cerejeiras, que anunciam a Primavera no Japão.

Mais dois exemplos entre as pinturas de Van Gogh com estas flores são Ramo de amendoeira em um copo Ramo de amendoeira em um copo com um livro, ambas de 1888, onde percebemos a potência da composição que viria mais tarde com a obra dedicada ao sobrinho.

Há também o quadro Flowering Plum Orchard (after Hiroshige) (1853-1890), pintura em que notamos o claro exercício de Van Gogh em recriar o japonismo baseando-se na obra de Utagawa Hiroshige, Plum Garden in Kameido. Na sua versão, Van Gogh intensificou o vermelho e azul do original.

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Diante dessas obras, notamos que a proximidade de Van Gogh ao japonismo tinha também uma perspectiva muito pessoal de se encontrar em paz entre a natureza. Pensando em sua obra como um conjunto, Van Gogh conseguia ver os fenômenos da natureza como se levantasse o véu que havia diante deles, expondo um vislumbre da verdade por entre essa magia em habitar o mundo. E foi com esse olhar que Van Gogh tornou a Amendoeira em Flor uma consagração ao sobrinho de não apenas a serenidade que ele tanto buscava, mas uma celebração da vida que retorna a cada fim de inverno.

Como curiosidade, neste vídeo vemos o neto de Vincent Willem, o sobrinho homenageado com a pintura por Van Gogh, visitando a obra no museu

Referências bibliográficas

Van Gogh Museum 

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Crítica | Uma dobra no tempo

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Publicado no site CF Noticias

Uma dobra no tempo propõe uma jornada pelos olhos de uma heroína juvenil. Com o pai sumido, a garota Meg recebe o chamado do pai, por meio de três excêntricas mulheres, para percorrer o universo e descobrir onde ele está. Assim, os irmãos Meg (Storm Reid) e Charles Wallace (Deric McCabe), com o colega Calvin (Levi Miller), enfrentam as etapas de desafio para chegar na fonte de energia maligna do universo.

Dirigido por Ava DuVernay, este é um filme de gênero distinto da cinebiografia Selma, indicado ao Oscar 2015, com a direção de DuVernay. A proposta é dar visibilidade à protagonista juvenil negra ao mesmo tempo em que é dirigido por uma mulher e adaptado da obra homônima de Madeleine L’Engle. Este é um ponto positivo, mas que acaba sendo enfraquecido pela qualidade razoável do filme e por tudo o que ele ainda podia oferecer.

O grande problema de Uma dobra no tempo é que ele não se esforça, de nenhuma forma, em apresentar informações válidas sobre o universo que propõe. Sendo ele uma trama de ficção científica, o filme não concede nada sobre Física. No livro adaptado, há algumas leves explicações sobre o título, sobre como as personagens viajam. O filme, porém, parece crer que qualquer explicação possa ser maçante ou prejudicar a trama e não a entrega ao espectador.

Alguém poderia alegar que, já que o filme é voltado a crianças de 10 a 13 anos, não é necessário dar respostas ou não explicar. Só é preciso aceitar que o fantástico está lá. Contudo, fazer um enredo de ficção científica bem coerente e com uma ótima estrutura é possível. Podemos ir da mais recente trama de Stranger Things ao clássico Doctor Who, que se sustenta falando de pontos complexos de Física para diversas gerações em mais de 50 anos na TV e ainda com baixo orçamento, sendo a prioridade do seriado britânico o público infantil. Ou seja, é possível abarcar diferentes gerações sem deixar de entreter com temáticas complexas.

Uma dobra no tempo pega emprestado os fatos do livro, insistindo demais em frases já muito utilizadas no gênero, como “o amor é a frequência” ou que o amor é um elemento universal, misterioso e capaz de salvar o outro. O que o filme não faz, porém, é demonstrar como isso ocorre na proposta daquele roteiro, em particular. O teor fantástico da trama não possui coerência nenhuma, pois o filme inteiro passa a impressão de que serve dizer que qualquer coisa que ocorrer é fantástico e, por não existir, não precisa de uma explicação sequer.

O gênero fantástico, para se sustentar, precisa oferecer não apenas uma estrutura que fundamente a existência daquelas três excêntricas mulheres, mas também enfatizar a missão do herói ou da heroína, para que o espectador possa entender e se envolver com os seus dilemas. No filme, o bullying ou a dificuldade que se tem na adolescência com a autoestima são mencionados, sem que se apresente, em cenas mais simbólicas, o peso daquele drama para o seu personagem. Quando essas cenas ocorrem, parecem apenas escolhidas como clichês, e não pelo sentimento lá proposto. Acabamos aceitando os sofrimentos da pequena Meg mais pela boa atuação que a atriz oferece do que pelo texto.

A direção também possui cortes abruptos. Esses cortes acabam sendo prejudiciais para a constituição desse mundo fantástico: não se cria tensão alguma quando a primeira das três mulheres aparece na casa de Meg, indo de uma personagem a outra com um corte que dá uma sensação muito forte de ausência de nexo na transição. Isso dificulta demais compreender como pode ser fascinante, para aquelas crianças, se deparar com essas mulheres e o que elas significam para o universo.

O ritmo do filme também acaba sendo incongruente. Pouco é dado ao espectador para entender o porquê daquelas etapas de desafio, para a protagonista, e visualizar um sentido nesse mundo fantástico. Em geral, parece que foram utilizados elementos comuns ao gênero fantástico sem tentar conceder algo original à estrutura clássica. Pouco a pouco somos levados ao fim, que é anticlimático. A qualidade do filme reside mais nos efeitos especiais bem executados e no elenco de crianças, que tem seu encanto e talento.

Sendo assim, fica a dúvida se as crianças irão se encantar com os personagens e seguir, com eles, nessa jornada, pois o filme não consegue ter forças para fascinar o público adulto. Por isso, Uma dobra no tempo possuía o potencial de ser uma ótima trama scifi para o público em geral, mas que ao fim se torna uma aventura morna e inconsistente sobre o universo.

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Crítica | A Odisseia

Publicado no site A Toupeira

Por séculos, o homem povoa o mundo como explorador. Romanceou-se o ato de desbravar terras desconhecidas, de retratar aquilo que foi visto por meio de diários de bordo, aquarelas, documentários, com a urgência de entender a existência humana concomitante à natureza. Se a questão constante é como lidamos com a nossa pequenez diante da vastidão do oceano e do universo das estrelas, sabemos que movidos por isso, a relação com a vida natural já foi do encantamento à exploração e destruição do ecossistema.

É com essa premissa que, aos poucos, o filme A Odisseia (L’Odyssée), de Jérôme Salle, se estabelece como um indicativo da necessidade de se falar em ecologia. A cinebiografia nos apresenta partes importantes da vida do documentarista e oceanógrafo Jacques-Yves Cousteau à bordo do famoso Calypso pelos mares. Também inventor do aqualung, equipamento que substitui o pesado escafandro, Cousteau levou o mar infinito para os olhos humanos, por meio de uma série de 12 filmes, mais o consagrado O Mundo Silencioso, vencedor da Palma de Ouro em 1956, rodado no Mar do Mediterrâneo e Vermelho.

Cousteau registrou tubarões, leões-marinhos, peixes, grutas nunca vistas, e a emoção dos humanos que formavam a sua tripulação diante das descobertas. O filme apresenta os primeiros instantes em que Cousteau, com a ajuda da esposa, dos filhos pequenos, mergulhadores e parentes ajudam a dar vida ao Calypso, até a fama, os conflitos familiares e a velhice.

É muito fácil se deixar envolver pelos personagens, a ponto de se achar diante do real Cousteau e sua família. Lambert Wilson entrega um Cousteau radiante, vivo em seu sonho, e também humano, falho, com uma atuação brilhante. Audrey Tautou também tem participação destacável como a intensa esposa de Cousteau, Simone Melchior Cousteau, que vai da poderosa sonhadora que apoia a causa do Calypso à melancólica figura que se vê à sombra do marido. Vemos ambos envelhecendo em ótima caracterização. Para os personagens, há uma inversão: em vez de desejarem habitar a terra, eles encontram no oceano o significado de lar. E, como as águas, essa família passa por tempestades, sobrevivem juntos, veem mundos que outros não viram.

Certamente Cousteau foi uma figura ainda mais complexa do que aquela retratada no filme. Porém, a cinebiografia consegue demarcar satisfatoriamente as complexidades e os defeitos de Cousteau, sem deixar de apontar as suas conquistas relevantes para a ecologia e o cinema. É interessante constatar como a relação com o filho é o enfoque do filme e como o restante consegue despontar em torno desse drama comum.

Além disso, a fotografia é tão grandiosa quanto a proposta de Cousteau. A cinebiografia é metalinguística: fascina ver a construção dos filmes de Cousteau pela própria criação do filme A Odisseia. Aquela baleia que aparece para nós, espectadores atuais, também se mostrou, em sua espécie, há décadas para Phillippe Cousteau, filho do diretor e cineasta também, personagem que recebe destaque válido na história. Somos levados, assim, à Antártida, ao degelo e à destruição das espécies.

Aliada à fotografia, a trilha sonora delicada de Alexandre Desplat dá um tom perfeito ao filme. A tensão, a melancolia, a vivacidade da descoberta, tudo se percebe pela trilha sonora do vencedor do Oscar 2018 pela trilha de A forma da água.

O mar pode ser grandioso, tão imenso que não deveria ser possível deixar marcas nele. O que acontece, porém, e que A Odisseia nos lembra é que o homem, em coletivo, deixa seus rastros pelo petróleo e pelo lixo nos oceanos e praias, e seu ato é tão destrutivo que consegue destituir o poder da natureza de se reconstruir e evoluir. Por isso, A Odisseia é uma ótima história. É um lembrete sobre uma parte importante da história do cinema e reforça a necessidade em se falar sobre as medidas práticas para preservação do meio que habitamos, numa era em que presidentes ignoram o aquecimento global.

 

 

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Crítica | Por trás dos seus olhos

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Publicado no site CF Notícias

Por trás dos seus olhos (All I see is you) é um filme sinestésico, de diversas camadas que se enlaçam de forma intrigante. Dirigido por Marc Forster, a história apresenta a vida de Gina (Blake Lively), que perdeu a visão na infância após um acidente de carro. Casada com James (Jason Clarke) e vivendo na Tailândia, a relação é de dependência do marido. Até que ela testa uma nova cirurgia e resgata a visão de um dos olhos. Essa nova vida, aos poucos, abala as estruturas de seu casamento.

O desempenho de Blake Lively, no filme, é ótimo. Toda a transformação da personagem é composta por alterações nos gestos e, principalmente, no olhar. Ela consegue dar vivacidade e realismo à Gina, assim como Jason Clarke está muito bem no papel do típico marido de classe média, um tanto conservador e aparentemente perfeito.

O grande triunfo do filme é na boa configuração entre a direção de Marc Forster e o roteiro de Sean Conway. Para nos apresentar o mundo de Gina, o filme utiliza diversos recursos de imagem, som e distorção das formas a fim de nos situar entre as sensações de uma deficiente visual. O modo com que o filme todo se formula por essas imagens o faz ter sua singularidade. São diversas as vezes que sentimos o incômodo das buzinas dos carros, a intensidade do movimento de pessoas numa multidão, a liberdade da dança e a claustrofobia por estar entre estranhos. As sensações também permeiam a relação do casal principal, quando nos é apresentada a maneira com que Gina sente os estímulos numa relação sexual e como ela percebe seu corpo.

A referência principal do filme é o olho como signo do poder. Ao mesmo tempo em que essa personagem é privada desse sentido, a obra demonstra que ela não deixa de se situar no mundo e destaca a beleza tanto dessa sua reformulação da realidade quanto as decepções e o encanto ao vê-la pelos olhos. Gina encontra uma versão particular do mundo por meio de suas sensações, que muitas vezes são mais profundas e belas do que as impressões que ela presencia ao voltar a enxergar, pois perceber o mundo é ter também um olhar subjetivo.

É possível se emocionar, também, em diversos momentos do filme quando somos postos na mesma posição de presenciar a novidade do mundo. As cores das flores, a textura do tecido do sofá, o olhar profundo de um peixe, a expressão de um cachorro. O filme apresenta as camadas complexas da percepção, em que se tem um olhar particular da vivência no mundo enquanto deficiente, em contraste com o isolamento em uma cultura. Gina se vê diante do desafio de aprender uma nova língua, de encontrar divergências culturais na Tailândia, enquanto também se conecta às pessoas.

Esse aspecto, de ter um mundo particular, se reflete também em uma questão essencial no filme: como somos vistos e o quanto conhecemos uma pessoa. Não é possível afirmar que sabemos tudo sobre alguém. Sempre haverá algo oculto por trás dos olhos. No título brasileiro, “Por trás dos seus olhos” e “Tudo o que eu vejo é você” se complementam, pois por toda a vida Gina só teve a percepção do marido sobre ela, e nunca pôde de fato tentar compreender o que havia por trás das intenções dele, o que talvez faria do título original uma escolha mais adequada. Quando passa a ver os outros, Gina tem impressões com as quais comparar o que vê nos olhos do marido. E essa comparação é o que cria uma fissura na relação deles.

Notamos, aos poucos, que o modo com que Gina se vestia era a partir do olhar do marido, que buscava privar os outros da beleza de sua esposa. Colocando-a em vestes longas, casacos, ele ocultava Gina e também se estabelecia em posição de poder, sendo o único que permitia o que os outros podiam ver de Gina e o que ele queria ver nela. Apesar de cuidar e atender às necessidades de sua esposa, ele se situa na relação como quem sente o privilégio em ser indispensável. Colocando-se desta forma, ele passa a ser especial e um marido exemplar por se dispor a tanto, como se ensaiasse aos olhos dos outros o papel do marido que se sacrifica pelo bem-estar da esposa.

Voltar a enxergar, para Gina, é notar a sua personalidade também pelos olhos dos outros. Ela passa a ver o próprio corpo, a projetar-se pelo olhar do outro: a cicatriz a incomoda, as roupas não condizem com o que ela gosta, com o que ela acha bonito em outras mulheres. Gina passa, então, por um belo processo de redescoberta e retomada de seus desejos e aspirações.

Como casal, ambos lidam com estas mudanças de forma distinta. Não é justo manter uma parceira, aquém do olhar do outro, protegida em uma redoma e colocar-se como o único olhar permitido para aquela pessoa. Quando James se sente impotente, isso respinga nas suas inseguranças masculinas, nas projeções criadas socialmente de que o homem precisa manter o controle da casa e da esposa. Em vez de compreender a dificuldade de se enxergar, adulta, pela primeira vez em um espelho, James se prende tão somente à imagem que ele quis criar de Gina.

Com isso, o filme mostra com muita seriedade e um bom desenvolvimento de roteiro como um casamento não pode anular a singularidade de duas pessoas. Aos poucos o enredo vai ganhando o tom de thriller, com o suspense e a tensão por entre as relações. Presenciamos os pequenos atos cotidianos como se fossem pedrinhas jogadas em um rio, deixando reverberações na superfície. Ao fim, Por trás dos seus olhos é um filme que entrega um roteiro desenvolvido sem a necessidade de explicar as coisas de forma excessiva, com camadas psicanalíticas que merecem reflexões, contando uma história verossímil.

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Crítica | Projeto Flórida

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Publicado no site CF Notícias

No costume da vida brasileira, quando se completa quinze anos, muitas famílias da classe média ou classe média alta dão de presente aos seus filhos uma viagem para a Disney. Quando já não viajaram várias vezes para o parque em outra ocasião. Entre os americanos, a Disney é ainda mais próxima e ainda mais cotidiana. Sinônimo de lazer e praticamente o quintal onde as crianças mais abonadas brincam, a Disney encena o ideário americano com o discurso de que todos os sonhos se realizam. É só desejar bem forte.

É válido afirmar, logo de início, que esse filme recebeu apenas uma indicação ao Oscar, pela performance do ator coadjuvante Willem Dafoe como Bobby, quando na verdade merecia constar também nas categorias de Melhor Filme, Melhor Direção, Melhor atriz para a pequena Brooklynn Prince, Melhor roteiro original e Melhor Fotografia. Isso faz pensar como Hollywood ainda precisa abrir os olhos para histórias que contam sobre uma pobreza que pouco se fala por não ser uma versão tão bela dos Estados Unidos.

Diante dessa realidade, em vez de Projeto Flórida nos colocar tendo um vislumbre da Disney, nós vivenciamos a infância cheia de brincadeiras simples de Moonee (Brooklynn Prince), uma garotinha que vive com a sua mãe em um hotel bem barato à beira de estrada na Flórida, às portas dos parques da Disney. O filme mostra uma vida raramente apresentada como protagonista: uma infância pobre em uma cidade toda adornada para o entretenimento do turista, onde a pobreza não é nada atraente para aqueles que estão de passagem nas férias de verão desejando o escapismo infantil da Disney.

O primeiro ponto que precisa ser dito é que Moonee é uma figura encantadora. Uma criança que lidera as outras, aprontando pelas redondezas do hotel, desbravando um universo próprio. Ela assusta pela atitude duplicada de sua mãe, provocadora e raivosa, cômica e doce. A sua mãe, Halley, é mais uma criança: extremamente jovem, mãe de uma filha pequena, sem dinheiro e sem preocupação com o dia de amanhã. Cada instante ela estende adiando as responsabilidades.

Alguns conflitos ocorrem com o gerente do hotel, o carismático Bobby (Willem Dafoe), o qual dá vida a esse hotel-castelo mágico consertando aqui e ali, mas humanizando esse hotel ao enxergar os dramas dos próprios habitantes. Bobby é quase uma figura divina que circula, que protege e que empurra seus moradores a verem um pouco da verdade que se recusam a aceitar. Ao mesmo tempo em que ele gerencia um hotel em forma do sonhado castelo de princesas, ele precisa mostrar aos moradores que aquele castelo é falso e, que sonhar com uma vida luxuosa, não pertence ao subúrbio de Orlando.

Dirigido por Sean Baker, o filme é uma obra memorável. Daquelas que merecia muito mais destaque entre o público, pois fala conosco de modo sincero. Muitas pessoas irão se identificar com detalhes da vida humilde de Moonee, como lavar o cabelo das barbies no banho, dividir sorvetes com os amigos, brincar até se sujar, repetir palavrões que os adultos falam, criar laços profundos com outras crianças e, principalmente, não ter dinheiro para comprar um brinquedo baratinho e muito menos uma refeição completa.

No filme, a pequena atriz Brooklynn Price se equipara às grandes atrizes adultas. O espectador pode observar claramente que ela compõe toda a personalidade de Moonee de forma particular, surpreendente para uma criança. A sua performance se soma à extrema qualidade do filme e é muito fácil, durante aquelas horas, dizer que fomos Moonee e que vivemos com ela aquela mesma infância.

Ela faz um excelente trabalho junto aos outros atores mirins. E Bria Vinaite, que interpreta a mãe Halley, é uma presença igualmente poderosa. Ela encarna toda a rebeldia sem causa alguma de uma jovem que não teve oportunidade na vida e que também lava as mãos da responsabilidades que precisa ter, agora, como mãe. A atriz consegue dar camadas muito sutis a sua personagem, de modo que entendemos a sua situação, identificamos o carinho enorme que tem pela filha, sem deixar de ver suas falhas. No fim, mãe e filha são crianças desamparadas. O filme vai acompanhando as explosões que começam de forma cômica para se tornarem cada vez mais sérias. Isso dá um tom perfeito de comédia dramática a Projeto Flórida.

A vantagem da obra é que o roteiro faz bem em não se tornar uma obra moralizante. Pelo contrário, é dando alguns exemplos de vivências que ele nos incita questionamentos. Esse abandono não apenas de crianças, mas de famílias inteiras, tem responsabilidade também do capitalismo que alimenta essa cidade do entretenimento. O que fazer quando a vida não fornece nenhuma oportunidade e a situação já foge do controle de ter apenas “vontade própria” para se obter um trabalho?

Projeto Flórida é despido de cartilhas e mostra como é a situação, na prática, apresentando o poético dessa vivência sem deixar de evidenciar a brutalidade dessa vida. O irônico é que o hotel em que essas várias crianças e suas famílias se hospedam, sem perspectiva de morar em outro lugar, é a forma de um castelo mágico: com um excessivo tom rosado e colunas simulando fortalezas, essas crianças não possuem nenhuma amarra. Essa fortaleza é frágil, pois pessoas mal intencionadas, o crime, o abandono também existem entre esses muros.

Essa infância sem barreiras, em contato direto com o mundo, tem como imenso contraste os muros da Disney. Esses protegem a ponto de formar um outro universo onde não se vê que há outras crianças do outro lado com tão pouco para viver. Mas os muros do Magic Castle de Moonee tampouco é o ideal: a total liberdade de brincar, sem possuir uma formação e uma proteção vinda da família, a deixa à mercê desse mundo que não se importa com ela.

É muito sutil e verdadeiro o tratamento dado, pelo filme, sobre a infância. Projeto Flórida expõe ao mesmo tempo o problema de tornar a criança um mini adulto, abandonando-a à própria sorte, mas também esse culto da infância em forma de parques infantis que isolam a criança da simplicidade das brincadeiras. O trabalho de Sean Baker demonstra que, mesmo nessa vida complexa de Moonee, há muito espaço para uma infância bonita. Porque é uma infância inventiva. Quando a garota cruza ruas e se senta com a amiga para ver um arco-íris ou uma árvore, ela está enxergando o mundo como o grande espetáculo a sua frente. E ele não é artificial, pertencente a um parque. O mundo está lá para ser tateado e visto. Por isso Moonee diz que gosta muito daquela árvore tombada. É uma árvore única, e não as árvores artificiais duplicadas dos parques. Ela gosta porque mesmo tombada, a árvore continuou a crescer e a se expandir. Não ocorre o mesmo com as tantas crianças invisíveis pelo mundo?

O que uma criança mais precisa, no final das contas, é de proteção e de uma família que veja que ela também pode ter medo de olhar o mundo do lado de fora da fortaleza. Porque, de fato, o mundo não é feito apenas de árvores delicadas ou parques festivos. É um mundo do qual a criança precisa ser protegida, de adultos que usam armas para invadir escolas, de garotas que se prostituem por não ter perspectiva alguma, de crianças que estudam em escolas públicas sem estrutura em casa ou sem uma merenda decente para se sustentar diariamente.

Assim, Projeto Flórida é uma obra que vai além e se aloja com força na vida do espectador. Ocupa um dia inteiro de reflexões sobre a sua doçura e a sua coragem em apontar uma vida tão real sem deixar o poético de lado. Por isso, assistir Projeto Flórida é um grande ato de retornar a infância e ver a pluralidade de infâncias que estão crescendo e se expandindo como troncos persistentes mundo afora, e as quais precisamos entender se estão crescendo de forma saudável ou não.